Notas iniciais
Adivinha quem voltou?

Uma parte de Jordan definitivamente tinha ficado presa nos olhos castanhos claríssimos de Kira.

Nos quatro anos que se seguiram desde que tinham sido formalmente apresentados, Jordan só pode realmente apreciar os olhos da sacerdotisa umas poucas vezes.

Era bem raro vê-la, ainda mais com humor razoável, mas ali estava ele, desarmado observando a sacerdotisa escrever enquanto debatia com o policial.

— Como isso vai nos ajudar? — o policial questionou mais uma vez. — Júpiter não deu por falta de nada.

— Isso porque ele não sabe da existência do diadema. — Kiera respondeu. — Foi um presente secreto. Juno é a deusa do casamento, mas Amélie não era exatamente fã de monogamia.

Ronan fez um som engraçado de surpresa. Os tabloide sempre estiveram certos, desde os anos 60. A expressão de choque do policial era bonitinha de ver, os olhos castanhos arregalados, sobrancelhas pretas levantadas e os lábios cheinhos ligeiramente abertos.

— Surpreso que nessa encarnação Juno é do tipo tiro trocado não dói? — debochou.

— Surpreso por isso não ter caído na mídia. — Ronan respondeu de pronto.

— Mas caiu, no final dos anos 90 houve o boato de que Amélie tinha engravidado. — Kiera acrescentou. — Se fosse verdade, o filho dela ia ter o que, uns vinte e um, vinte e dois anos? Não seria mais velho que eu.

— Mais um millennial pra conta, que incrível…!

— Você só reclama deles por causa do coque samurai. — Kiera comentou com um sorrisinho

Jordan teve que fazer uma careta antes de mandar um olhar cruel para Kiera.

Você tinha prometido!

— Você é muito rancoroso, nem falei das adagas que precisamos roubar.

Por um segundo Jordan apenas encarou Kiera, pasmo demais pela sacerdotisa o estar lembrando do passado.

— Se eu sou rancoroso, o que você é quando tá com uma pistola na mão?

Ah nossa, você é um saco, eu só atirei na sua direção uma vez! — reclamou

— Você descarregou duas pistolas em mim! — retrucou indignado. — Foi muita sorte aquelas balas serem de festim!

— Você quase me fez sangrar até a morte naquele treinamento, nunca mais chego perto de você com uma katana.

— Pelos deuses vocês contam dessas tentativas de assassinato como se fossem brincadeiras! — Ronan interrompeu horrorizado. — O que aconteceu na infância de vocês pra achar isso normal?

Jordan ponderou por um segundo, lembrando da infância completamente feliz e saudável ao lado da prima. Kim tinha imaginação e ele gostava de desenhar, poderiam ter lançado livros se criassem uma parceria.

— Olha, minha infância foi bem normal, desenhos animados e desenhos de giz de cera na parede do quarto e todas as coisas de criança. Minha prima pode, inclusive, contar as histórias vergonhosas dessa época, a maioria tem algo que só eu conseguia ver.

— A minha também foi bem tranquila, Carter me levava na escola e no museu, me incentivava a soltar meu lado artístico. Comecei a desenhar o que via e me mandaram pro psicólogo. — Kiera deu de ombros. — Pelo menos fiz terapia, descobri que não sou louca e não consigo prender mais meu lado artístico.

— Então como chegaram nisso de pistolas e katanas?

Jordan jogou a cabeça pra trás, deixando que o corpo acompanhasse o movimento e se acomodasse no sofá e então deu de ombros, pois realmente não sabia quando sua vida tinha virado atirar em monstros fantasiados de humanos e tentar minimizar os danos em sua vida pessoal — aquela que não tinha mais desde Amateratsu.

— Meu irmão era quase um groupie, ele tinha amigos ruins, que o levaram para lugares ruins. Eu segui ele na última vez que saiu com esses amigos, e eles meio que tentaram matar meu irmão. Não conseguiram matar ele realmente, mas foi o suficiente para que a divindade despertasse. Depois de se recuperar ele assumiu seu lugar no Panteão e eu não o vejo a menos que esteja literalmente pra morrer. É esse o resumo de como entrei nessa história.

Se antes Ronan estava horrorizado, naquele momento ele estava a própria representação da descrença. Jordan trocou de sofá, apenas para poder apertar-lhe os ombros e sussurrar que não precisava assimilar tudo de uma vez.

— Contigo também foi assim? — o policial perguntou lenta e

— Quando você não estiver pra entrar em pane eu te conto. E te pago um jantar se quiser.

Ronan assentiu ainda meio atordoado. Kiera também mudou de sofá e sentou-se de frente para o policial, murmurando que talvez fosse melhor que ele descansasse um pouco.

— Posso chamar um táxi para você. — Kiera sugeriu.

Depois de alguns segundos o policial assentiu, e quase como mágica ela estava com o celular na mão, pedindo um táxi por aplicativo.

Ronan desabou num sono estranho pouco minutos depois, enquanto esperava o táxi. Kiera acabou por empoleirar-se no topo do sofá como um gato, observando o policial movendo os lábios sem emitir som.

— Você não precisava realmente ter falado daquele jeito. — repreendeu.

Kiera ergueu as sobrancelhas, o olhando desinteressada.

— Precisava.

— Mesmo? Você quase derreteu o cérebro dele.

— Qual é, se fosse outro seria ainda pior.

Outro, Kiera, outro. Você não era assim.

Kiera suspirou de cabeça baixa. Jordan quis abraçá-la mais pela nostalgia do que para consolá-la, mas sabia que o gesto não seria aceito.

— Chase tentou… — ela começou a falar baixo, quase sussurrando. Ela não precisava terminar a frase, deuses e mortais conheciam a fama de Chase, Júpiter não gostava de ter seus desejos negados. — ele tentou... Amélie viu e me culpou por algum tempo. Isso aconteceu exatas trinta horas antes de rasgar seu rosto e colocarem uma bala de .40 em seu estômago e a deixarem pra sangrar até a morte.

O sangue de Jordan ferveu, não era o primeiro relato que ouvia sobre Chase assediar sacerdotisas, mas saber que Kiera tinha sido uma das vítimas dava um novo contorno ao asco que tinha do homem.

— Quando a notícia do assassinato chegou no Panteão, ele me acusou.

— Por isso começou a chorar quando mencionou ele. — Ronan pontuou. — Deveria ter me contado.

Kiera suspirou mais uma vez e ergueu o rosto.

A expressão em seu rosto era puro cansaço e pesar, os olhos estavam tão tristes que Jordan sentiu-se mal por não estar perto para socar Chase e protegê-la. Sabia que sua expressão provavelmente era raiva pura e sabia que Kiera podia ver isso claramente, mas não conseguia ligar para nada além do fato de que queria Moriarty carregada em suas mãos.

— Não. — Kiera falou, pediu, puxando-o para perto. — Não começa. Jordie, não começa. Essa vingança é minha.

Jordan fechou os olhos, inspirando profundamente o cheiro do loft. Quando abriu os olhos, viu o policial observando-o atentamente.

— Ronan, já chegou a fase dos depoimentos?

— Ainda não. — respondeu. — Até Kiera contar, acho que ainda estávamos na fase do 'como essa porra aconteceu?'.

— Pois a fase de depoimentos começou agora. Kie tem algumas coisas pra contar e eu também.

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Os três passaram a madrugada na delegacia.

Foi meio surpreendente para Jordan poder andar por ali sem que ninguém tentasse lhe enfiar em uma das celas.

Ou talvez fosse só a sensação estranha de ter uma foto enorme de um homem extremamente corrupto num lugar de destaque como se ele não tivesse desviado dinheiro, adulterado provas, prendido pessoas inocentes e arruinado as vidas da família de quem descobria isso e o confrontava.

— Você o conheceu? — Ronan perguntou.

Jordan ponderou falar a verdade, que tinha posto uma bala na cabeça do cara por toda corrupção e vidas que tinha arruinado.

— Acho que fomos apresentados. — murmurou.

Ronan fez um som de concordância e Jordan esperava que aquilo fosse tudo, mas a presença de Ronan irradiava agitação e Jordan simplesmente não conseguia ignorar.

— O que mais aconteceu pra você ficar desse jeito policial de estimação?

— Era você. — o policial afirmou. — Mais cedo, na lanchonete, quando Kiera estava tentando não chorar.

— Tem certeza que era eu? — perguntou sarcástico.

— Não me tira pra idiota Jordan.

— É difícil quando sua expressão de choque é tão mais agradável e engraçada que sua cara séria.

A expressão de Ronan nublou e Jordan teve vontade de sorrir.

— O que eu acharia se colocasse seu nome no banco de dados? — Ronan perguntou ameaçador.

Jordan ergueu as sobrancelhas com um sorriso divertido nos lábios.

— Cinco autuações por porte de arma. Duas prisões pelo mesmo motivo. Desde os meus dezesseis anos. — enumerou com ironia. — Fica marcado quando te chamam para prestar depoimento também?

A expressão do policial tornou-se confusa por um segundo antes dele entender que Jordan não se sentia ameaçado com aquele tipo figuras de autoridade.

Jordan não evitou mostrar um sorriso satisfeito com isso.

— Quando se trabalha com o que eu trabalho, delegacias e seus procedimentos ficam comuns depois de um tempo.

— Você é um marginal. — Ronan declarou.

Não. — ele respondeu com hostilidade. — Sou um atirador de elite que trabalha pra quem paga mais, e quem paga melhor que deuses, não é?

Ronan inspirou profundamente encarando Jordan. Podia ver raiva brilhando nos olhos dele.

— Se não fosse pela Kiera, juro que já tinha metido um soco na sua boca.

—Assim que a Kier sair da sala de depoimentos eu vou levá-la para um lugar seguro. — avisou. — A partir daí, faça seu trabalho direito pra não acabar com uma bala saindo da testa como o velhote no quadro, ok?

A expressão de Ronan tornou-se uma confusão de raiva, indignação e algo mais que Jordan não fez questão de saber, afastando-se do policial à passos largos, frustrado e irritado. Quase de pronto ele ouviu passos pesados atrás de si, mas não gostou nem um pouco quando Ronan o virou de frente para si e o jogou de costas contra a parede mais próxima e pressionou o antebraço contra sua traquéia.

Você tá me ameaçando? — o policial rosnou.

Jordan sabia que tinha força suficiente para se livrar do outro. Mas tinha prometido a Kiera que não ia criar confusão na delegacia. Rolou os olhos.

— Eu fiz um comentário. — falou lentamente. O tom provocador surgindo por suas palavras como a luz do sol por entre os dedos. — Se você se sentiu ameaçado, o que eu posso fazer além de tentar me manter longe e torcer para que você não vire mais um corrupto que alguém vai querer apagar e me pagar muito pra fazer o serviço? Nada.

Ronan pressionou ainda mais sua traquéia, e se continuasse daquela maneira Jordan provavelmente teria que agredí-lo para soltar-se dele. A ideia parecia cada vez mais tentadora.

— Kiera vai ficar sob proteção da polícia. — Ronan avisou. — Você vai ficar longe dela.

— Já avisou pra ela? — debochou. — Garoto, só faz seu trabalho. Vai caçar o assassino e deixa minha amiga longe dos paparazzis. Agora, me solta se não quiser ter o braço deslocado.

Ronan afastou-se hesitante, como se pudesse mudar de ideia e lhe acertar um soco. Sinceramente, depois de passar a madrugada toda revirando o que a sacerdotisa tinha contado sobre Chase Duran, entraria numa briga com o policial com tranquilidade.

— E eu achando que vocês estavam pelo menos se suportando… — Kiera falou, parada diante deles com o olhar de um carrasco. — Se vierem atrás de mim vou chamar a polícia e acreditem, sou bem convincente.

O segundo que Jordan perdeu para assimilar o que Kiera estava dizendo foi o suficiente para que a sacerdotisa escapasse pelas portas da delegacia.

— Vou embora também, — murmurou com um pequeno sorriso no rosto. — Eu adoraria socar você, então não me provoque. Ou me provoque, vou gostar de colocar uma bala nessa sua bela cabeça.

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Jordan teve que fechar os olhos por alguns segundos quando entrou no cassino. Haviam poças de luz graças aos lustres que não espalhavam a luz além das mesas.

A recepcionista inclinada no balcão lhe sorriu lasciva, pedindo para que ele se aproximasse, chamando-o com o dedo.

— Isso é uma arma no seu bolso ou você só está feliz em m ver? — a moça perguntou quase ronronando.

Jordan sorriu, e tirou o par de pistolas da cintura, pondo-as no balcão. Depois tirou três canivetes dos bolsos.

Nunca perde a graça.

— É um canivete, Farah. — respondeu mostrando o objeto. — Eles estão aí?

A recepcionista soltou um 'sem graça' enquanto guardava as armas dele numa cestinha de plástico etiquetada com seu nome.

— É, os dois estão na mesa de sempre, jogando como sempre. Low chegou tem uns quarenta minutos.

Jordan agradeceu num murmúrio e caminhou até o fundo do salão. Lá haviam mesas afastadas e uma em específico estava alguns centímetros acima do chão.

Exibidos.

Quando Jordan aproximou-se da mesa, notou que as cartas também flutuavam, na verdade estavam se embaralhando sozinhas. Dois rapazes esperavam as cartas terminarem de se embaralhar para começarem a jogar.

— Irlandês, você perdeu a aposta.

— Não perdi. Ele ainda tá com uma faca.

— Canivete. — pontuou.

— Viu, eu não perdi. Veio saber da garota como de costume?

— Quero saber quem pode me contar dos últimos dias de Amélie e Chase Duran. Em detalhes.

A mesa chegou ao chão com um estrondo.

Jordan tinha conseguido a atenção de dois Avatares de uma vez.

Notas finais
comentários serão sempre apreciados feliz ano novo galera