Imortais

1 Capítulo 1


Nunca me imaginei passando por esse corredor, e essa já é a segunda vez em apenas um dia, e acredito que essa imagem se repetirá por muitos anos.

2 meses atrás

Passar pelo corredor do colégio me dava medo, ser um dos melhores alunos do Colégio Federal da Bahia tinha suas desvantagens, se é que vocês me entendem. Do outro lado do corredor estava vindo a pessoa que mais me desagradava ver, Daniel. Líder do time de futebol de campo, alto com músculos definidos, cabelos lisos, louro cinza, e olhos verdes claro. Era filho único de um dos vereadores da cidade de Salvador, nunca entendi o porquê de ele estar estudando em uma escola pública, mas voltando ao que interessa, nós éramos da mesma turma do colégio, e ele sempre me forçava a fazer seus trabalhos escolares, e para minha infelicidade eu deveria estar com uma redação argumentativa sobre o desmatamento descontrolado da Mata Atlântica para lhe entregar, mas eu não estava.

_Ei José! – gritou ele do outro lado do corredor, fingi não ouvi-lo e dei meia volta – João seu pateta! – quando ele errou meu nome pela segunda vez, não aguentei e voltei para encara-lo.

_É Josué, patet... – não terminei a frase ao perceber que eu estava falando com o garoto que me batia por qualquer motivo. Fiz uma longa pausa e continuei – Então, diga!

Ele me encarou com uma cara feia por alguns segundos, mas logo mudou para um sorriso sarcástico. – Você sabe muito bem o que eu quero! Pateta. – ele repetiu dando ênfase a palavra.

_Ah claro, como eu poderia ter esquecido? Está aqui na mochila. – Menti – Mas tem um problema... A tinta da minha impressora acabou bem na hora em que eu ia imprimir seu trabalho, mas trouxe no pendrive – disse remexendo minha mochila atrás do meu pendrive sem arquivos algum – Aqui, achei! Agora é só você ir à biblioteca no intervalo e imprimir. Já que a aula de Biologia é só no último horário.

Ele pareceu não gostar da proposta, mas depois de me encarar por um bom tempo, tomou o pendrive de minha mão e continuou seu caminho para o final do corredor.

_Valeu... pateta! – disse ele de costas, e mesmo assim dava para perceber que estava rindo.

Revidei sorrindo tentando imaginar a cena de quando ele descobrir que não tem nada no pendrive e não iria receber a nota. Mas meu sorriso logo desapareceu ao lembrar de que isso só duraria até o último horário. Pensava em uma nova desculpa enquanto entrava na aula de Matemática.

Depois de passados longos cinquenta minutos de aula sobre trigonometria, finalmente o sinal tocou, era hora do intervalo. Sai da sala esperando não ver o Daniel no corredor para que eu pudesse me esconder no auditório e vê-lo apenas na aula de Biologia. Mas o destino parecia estar brincando comigo. Lá estava ele, com os braços cruzados e o ombro direito encostado em meu armário, olhando para mim. O jeito que ele me olhava me fez lembrar um artigo de jornal que eu havia lido ontem pela manhã, onde uma mulher disse que foi assaltada por um cara que tinha olhos assustadores, no qual a fez lembrar todos os momentos ruins que ela passou na vida, a polícia alegou que ele provavelmente poderia ser um mutante. Desde a década passada, quando foi descoberta a primeira mutação em um humano nunca havia tido um caso onde um mutante usou seus poderes para roubar ou torturar alguém, até mesmo porque todos os que o governo conseguia descobrir eram levados para o CAM, centro para acompanhamento mutante. Já havia visto um, ele morava no meu bairro, não parecia mostrar se quer alguma alteração física, mas alguns vizinhos afirmaram que o ouvia gritar a noite, além de barulhos ensurdecedores. Mas eu não podia afirmar nada sobre Daniel, eu o conheço há três anos, ele aparentava ser normal.

O descruzar de seus braços me fez lembrar que eu precisava correr, e foi o que fiz. Mesmo sem olhar para trás dava pra perceber que ele estava me seguindo pelas reclamações e gemidos dos alunos que estavam atrás de mim, provavelmente porque Daniel estava empurrando todos eles. Acelerei o passo, passei pela porta de que levava ao pátio do colégio onde havia um campo coberto para futsal, basquete e handebol, e outro com grama para futebol de campo. Lembrei que havia um beco a esquerda do pátio que levava a praia, essa era minha única saída para a situação. Continuei a correr e não me arriscava a olhar para trás. Passei pelo fundo do campo coberto, cheguei ao beco, mas parei ao perceber que haviam bloqueado, provavelmente por pedido da diretora. Olhei para trás e vi o que não queria, Daniel andava calmamente em minha direção.

_Achou que podia me enganar até a última aula né pateta? – dava para perceber que ele estava tão ofegante quanto eu – Mas para sua infelicidade, eu faltei à primeira aula para ter certeza de que você havia posto a redação nessa porcaria – disse ele mostrando o pendrive, e espedaçando-o logo em seguida. – Mas então, você prefere me entregar a sua redação ou sentir a força de meu punho? – ele estralou os dedos após jogar o farelo do meu pendrive no chão.

_Infelizmente não vai dar para lhe entregar uma redação que vale setenta por cento da nota do primeiro trimestre. – tentei parecer seguro.

Ele riu alto.

_E você achava que vai conseguir escapar dessa? Olha sua situação pateta, você está em um beco sem saída. Você só tem uma alternativa, me entregue à merda da redação e serei misericordioso com essa sua cara de panaca.

Ele estava certo, eu não tinha alternativa, a não ser, parecer seguro de mim mesmo, mostrar para ele que estava disposto a enfrenta-lo e esperar que ele demostrasse um pouco de medo. Mas acho que isso seria impossível para alguém como Daniel, com seus um metro e noventa de altura, ter medo de um garoto magro, com um metro e setenta e cinco de altura, cabelos desgrenhados e que tem sardas. Ainda mais com a raiva que ele aparenta estar, acho que só um urso iria espanta-lo. Voltei a olhar para Daniel, percebi que algo havia mudado em seus olhos, ele aparentava estar, assustado. Mas ele não olhava para mim. Segui seu olhar, até virar meu rosto e me deparar com uma enorme bola de cor marrom esparramado no chão.

_Um urso? – eu disse espantado enquanto a bola de pelos tomava a forma do urso, como se estivesse acordando de um longo sono.