Immune
3 Douglas
Notas iniciais
Não era novidade para Douglas piadas envolvendo o seu gancho na mão esquerda. Os amigos, tripulantes, donos de bar e até donzelas da noite implicavam com sua garra.
O que ele achava das brincadeiras? Nada. Não se importava. Não o tirava do sério, não o incomodava. Então, para que brigar? Sabe que eles só estão brincando.
Seus cabelos medianos dourados estavam já com seus dias contados. Havia parado no Brasil com sua tripulação. Douglas não era um pirata qualquer. Não queria o dinheiro, muito menos a riqueza. Queria o desconhecido. Apenas leva o nome de pirata por saquear alguns navios para pegar alimentos e, claro, rum.
Andava para lá e para cá apenas vestido de preto. Para ser mais detalhado, uma camiseta social com a gola arrebentada e aberta até o peitoral. Por cima da mesma, um casaco de couro grande, sendo um número maior que o seu. A calça era social assim como o sapato. As vezes trocava a cor da camiseta para vinho, apenas por charme. No seu pescoço havia uma chave, que ele nunca tirava de lá. Era como um amuleto, não vivia sem ele.
Estava em uma barbearia conhecida. Geralmente visitava o país para usufruir de suas belas damas, passar uns dias e descansar. Como vinha de Portugal, sabia muito bem a linguagem deles, e conhecia muitas pessoas de lá. Pessoas boas, pessoas companheiras. Arranjava boa parte da tripulação por lá, o que era uma boa vantagem.
Sentou-se na cadeira de couro depois de tirar seu casaco e entregá-lo para o seu Imediato, que o acompanhava para planejar as novas viagens enquanto os outros se divertiam pela cidade litorânea.
Pediu para que Pedro — dono do estabelecimento — Retirasse apenas a medida e mantivesse o corte enquanto conversava com Rodrigo, o Imediato.
– Vamos tentar o Sul. Ou o pacífico — o capitão falou, sentindo uma leveza em sua cabeça — Ou talvez tentamos novamente o Triângulo das Bermudas.
– Novamente? Já vistes que não deu muito certo da última vez. Talvez o sul fosse uma ótima oportunidade.
– Estamos no inverno do hemisfério sul, meu caro — suspirou, passando as mãos na barba que estava por fazer — Enfrentaremos frentes frias e bastante temporais...
– É, capitão, eu não tive aula de geografia quando era menor — riu, bebendo o rum que se encontrava na garrafa que estava em suas mãos — O senhor entende muito mais do que eu
– Deixes de frescuras, caro amigo. Sabes que pode me chamar de "tu" ou "você" — deu um tapinha na mão do outro, ficando parado para o terceiro acabar de cortar suas madeixas.
Saiu da barbearia com os cabelos curtos, dando mais destaque para seus olhos castanhos. Decidiu levar Rodrigo para um cabaré, onde deixariam seus problemas um pouco de lado para se divertirem. Era o segundo dia deles na cidade, deveriam aproveitar, pois viajariam daqui a 72 horas certeiras.
Aparentava ser um depósito, com paredes de tijolos e duas portas com uma espécie de portinhola lisa na altura dos olhos. Bateu três vezes, observando a portinhola se abrir e um segurança fitar o rapaz, que olhou para os dois lados antes de dizer que a passagem estava livre. Cumprimentou o porteiro e subiu as escadas com Rodrigo.
Foram até o último andar, onde se encontraram em um espaço totalmente grande. O chão era de carpete preto, com alguns desenhos em cinza de flores. As paredes tinham um tom de cinza-escuro e cortinas da cor vinho espalhavam-se no lugar. O centro era um vazio completo e, aos arredores haviam mesas quadradas e sofás em C ao redor. Paredes dividiam as mesas, assim como cortinas também estavam presentes. Havia uma porta branca que dava para um quarto onde havia apenas uma cadeira, e as paredes pintadas em branco. Em um dos cantos do cabaré havia um bar, onde ficava um homem parecido com Douglas disponibilizando bebidas.
Sorriu ao ver o lugar lotado de belas damas semi-nuas. Sentou-se em uma das mesas com Rodrigo e esperou que fossem atendidos.
Não demorou muito para cada um ter duas damas disponíveis, além de rum. Ficaram por ali, aproveitando os prazeres da vida até dar exatamente cinco horas da manhã.
O que ficaram fazendo? Bem... Se separaram, primeiramente. Douglas se encontrou com uma bela dama e acabou indo para o quarto privado com ela. Tinha longos cabelos ruivos, os olhos tão verdes quanto sua roupa. Aliás, que roupa era aquela? Estava muito vestida para um cabaré, com um vestido longo de mangas.
Estava indo tudo bem. Ele estava sentado na cadeira vermelha, ela dançava em seu colo. Começou a sussurrar algumas palavras em seu ouvido, notando que o rapaz gostava. Passava as mãos nas coxas dela, sendo repreendido com um canto suave e doce.
O canto que ele conhecia muito bem.
Jogou a garota com brutalidade no chão, segurando a cadeira e apontando para ela.
– Não se aproxime, monstro. Sabes que seu canto não me afeta — sua voz saia como um rosnado. Manteve a posição, observando-a ficar de pé.
– Ah, Douglas querido — começou a falar, desfazendo seu disfarce num estalar de dedos, ficando com um vestido curto azul-escuro. As pernas dela estavam meio esverdeadas pela cor de sua calda — Não jogue belas damas para longe. Elas podem querer te comer vivo depois
Ele sorriu para ela, jogando a cadeira na mesma, que apenas jogou-a para o lado com uma mão, fazendo-a quebrar por inteira. Encarou o rapaz com um olhar sério, aproximando-se lentamente.
– Espero que tu tenhas aprendido a correr, mon chérie — zombou, abrindo a porta e saindo correndo pelo cabaré.
Pensou em procurar Rodrigo, mas sabia que se estivesse com ele, a sereia o faria sofrer. Decidiu correr para fora do cabaré, descendo as escadas quase rolando.
Ao sentir o ar fresco da manhã, Foi para um sentido qualquer. Precisava despistá-la, reunir seus homens e cair fora o mais rápido possível.
Sentia o aroma do mar de longe. Não ousaria olhar para trás, não agora. Ela provavelmente estava com suas presas à mostra, tentando fazer de tudo para se aproximar do pirata.
Começou a ir em direção a pousada onde estavam hospedados e, pouco tempo depois já não sentia o mesmo cheiro de antes. Virou-se, percebendo que ela realmente não estava mais em seu pé. As pernas não eram boas para ela. Nunca havia se dado bem com elas, e ninguém melhor que ele para saber isso.
O bom do bairro onde ficavam era que tudo era perto demais. A pousada ficava a 4 ou 5 quadras do cabaré, que se localizada a dois quarteirões da barbearia. Lembrando que o estabelecimento da hospedagem tinha as portas viradas para o mar. Com eles era tudo assim: Navegações de dias, caminhadas de minutos.
Ao chegar na pousada com seus tripulantes, notou que todos — em exceção Rodrigo — estavam dormindo. Arrancou-lhes da cama, puxando lençóis, sentando-se em uma cadeira de madeira velha, apoiando os cotovelos nos joelhos, esperando que eles fizessem uma roda para ouvir o que tinha que falar. Anunciou o ocorrido e liberou os piratas para arrumarem suas coisas.
Rodrigo entrou no quarto poucos minutos depois do aviso. Douglas o abraçou assim que o viu. Pensou que Irlanda havia ido atrás dele e, sinceramente, não seria muito bom para o loiro ver seu braço direito em carne viva e a sua pior inimiga devorando-o.
– Ótimo estar vivo. A do mar está por aqui, devemos partir.
Após arrumarem suas coisas, cada um pegou seus pertences. Douglas aproveitou para encher sua mala de alimentos com o que a pousada disponibilizava.Foram para o navio assim que o capitão pagou a conta.
Ao ver o meio de transporte, suspiraram todos aliviados. Estava impecável, sem nenhum arranhão. Sinal de que ela não havia ido para lá.
Quando todos estavam a bordo, Douglas tomou conta do leme e, já prontos, partiu com sua tripulação.
– Capitão — perguntou o Imediato, fazendo um ato de condolência — Para onde vamos?
– Imediato — respondeu, sem olhar para ele. Fitava o horizonte com um sorriso de alívio no rosto — Vamos para o Triângulo das Bermudas.
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