Immortal Star - Segunda Saga
11 Planejamento
Notas iniciais
Situações ruins eram coisas do dia-a-dia naquela época. A maior parte das vezes, esse tipo de situação tinha a ver com os monstros selvagens e sanguinolentos, que apareciam principalmente em fazendas e destruíam praticamente tudo. Ainda naquela época, haviam mais soldados sendo destacados para cuidar dos campos do que proteger as muralhas das cidades.
Mas “guerra” era uma fantasia para muitos. A paz entre os reinos era sólida, e a vivência era fácil. Tirando alguns poucos reinos onde batalhas por territórios ainda aconteciam, o resto do mundo conseguia viver em harmonia com outras etnias e até mesmo outras raças.
Quando Riven começou a ser atacada, a maioria do seu povo se encontrou em uma situação completamente perdida. Mesmo que eles conseguissem sair do meio das chamas ou dos ataques dos monstros que vinham de todos os lados, o que elas poderiam fazer? Não estavam preparadas para lutar contra aquilo. Até mesmo alguns nobres se sentiram impotentes, já que seu dinheiro não podia lhe comprar uma casa com proteção a tudo.
Os soldados de Riven eram bravos. Os que não estavam na frente de combate continuam ali ajudando o seu povo, às vezes os liderando para um lugar mais seguro, ou as vezes ajudando pessoas que foram pegas durante os combates, ou que ficaram soterradas nas destruições que o fogo causou. Mas eles eram finitos. A diferença de número entre soldados e civis era grande, e só aumentou quando os soldados começaram a perecer contra a vasta quantidade de “perigo eminente” que enfrentavam.
Agora pense você na situação. O que faria se tivesse que deixar tudo para trás, todo seu esforço, suas recompensas e até mesmo sua família para procurar algum lugar seguro para poder sobreviver? Adicione o fato de que você não sabe para onde correr, pois de um lado você encontra um incêndio, do outro encontra monstros com bocas pinçando sangue fresco. E quando tenta dar a volta, é pego por soldados estranhos, de outros reinos. O que faria?
Foi essa pergunta que um certo membro da Immortal Star se fez quando conseguiu parar e analisar a situação.
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A gritaria dentro da Guilda estava quase incontrolável. Havia muitas pessoas sendo tratadas no saguão de entrada, com coxões espalhados um ao lado do outro, todos ocupados. Havia uma enfermaria na Guilda, claro. Mas não teria como abrigar a todos. O problema era que as pessoas tratadas ali eram civis, todas que vieram pedir abrigo na Guilda. Mesmo em uma hora tão desesperadora, a Guilda não iria virar as costas para as pessoas necessitadas. Principalmente se você adicionar o fato de que era Mulkior que estava no controle de tudo.
O mago de ferro estava sem sua armadura agora. Estava enfaixado nos dois braços e na testa, mas não parecia tão ferido assim. Ele se sentia muito cansado, mas isso era devido ao estresse que lhe pesava a consciência desde que ele tinha voltado para Riven. Preocupação com a Guilda. Preocupação com o Reino. Preocupação com sua família. E as notícias ruins não paravam de aparecer.
Vamos por parte. Depois que Any saiu da frente da Guilda, decidida a destruir as catapultas, as três tropas do exército de Riven, com ordens específicas de trazer os membros principais da Immortal Star para prendê-los sob acusações graves de traição e tentativa de assassinato, atacaram os três membros restantes que protegiam a entrada da Base. Aqui, temos uma linha de pensamento controversa. Quem atacou quem estava errado. Foram os três membros que acabaram pulando nas tropas, um de cada lado.
Eles se dividiram e pularam cada um em um esquadrão diferente, com punhos cerrados e energias liberadas. Mulkior ainda gritou para os dois companheiros, algo como “Não matem eles! São soldados leais que só estão fazendo seu trabalho!”. As respostas foram essas:
— Pode deixar! — respondeu Kula, antes de criar duas paredes de fogo a sua frente, separando as tropas e as deixando com uma formação errada.
— Vou fazer o possível. — respondeu San, antes de jogar um soldado em cima da própria tropa, depois de aplicar um certeiro chute voador no pobre coitado que estava mais à frente.
Por mais que tivessem muita gente lutando em uma pequena área, e ainda pelo fato de ser uma luta de três contra quase cem, essa batalha não foi longa. Mulkior permaneceu transformando as armas e armaduras dos soldados em esferas e os deixando indefesos, Kula continuou incendiando tudo, não deixando os soldados partirem para um ataque certo e San continuou administrando perfeitamente sua energia mágica para usar sua magia de aumento de velocidade, se esquivando e atacando vários oponentes ao mesmo tempo.
Os soldados começaram a bater em retirada logo quando seus outros dois Capitães foram derrotados. Muitos tiveram que levar um amigo caído, e por isso o número de soldados combatentes caiu muito depressa. Mulkior e os outros dois não perseguiram nenhum deles, o que fez o pensamento daqueles soldados ficar um tanto confusos. Se eles eram inimigos que tentaram matar nosso Rei, por que eles não estavam nos matando?
Os três membros fundadores da Immortal Star saíram da batalha com poucos machucados, mas muito cansados. Mal tinha se passado um minuto e Lila, Aristarkh e Jarhan trazendo Egan desmaiado, apareceram. Eles viram as tropas ao longe e se desculparam por não terem chegado a tempo para ajudar.
Imediatamente depois, foi falado a Tabatha para desfazer a proteção e dar um descanso a ela. Os membros cansados entraram na Base e logo foram tratados com primeiros socorros. Mulkior pediu a outros dois membros que fossem buscar a Doutora Ana e sua filha Nathalia, pois além delas estarem mais seguras na Base do que no seu consultório particular, elas precisariam cuidar dos membros feridos, pois mais lutas certamente aconteceriam. Lila, mesmo cansada, disse que ela mesma as traria com segurança, e partiu seguido dos dois outros membros.
E então veio a explosão gigantesca ao norte da Base. Era impossível ignorar aquele barulho todo e a potência era grande demais para ter sido feita por meros soldados em guerra. San foi o que concluiu mais rápido que aquilo era coisa de Any, que provavelmente tinha se encontrado com algum oponente poderoso e que talvez ela precisasse de ajuda. Aristarkh e Tabatha falaram que iriam ao seu auxílio imediatamente, e assim partiram.
Foi um susto ver Any tão ferida quando ela chegou nas costas do Mago Vermelho. Ela foi rodeada pelos membros que não cessaram perguntas, mesmo ela estando completamente apagada. Mulkior pediu por espaço e ajudou a levá-la para a enfermaria. Ela foi medicada o melhor que possível, antes que a Doutora aparecesse e tomasse controle da situação. Por sorte, o consultório de Ana não era muito longe e ela logo chegou com sua filha para cuidar de todos os feridos. Claro que a Líder da Guilda foi prioridade.
Sem a Líder, Mulkior era quem deveria dar as ordens e cuidar de todo o pessoal. Isso não o abalou nem um pouco. Ele tinha um senso de liderança instintivo e não cometia erros de julgamento quando alocava seu pessoal. Ele forçou San ficar por ali e dar dicas estratégicas para ele, pois se não fosse isso, o assassino lutador teria saído à procura de um certo alguém.
Alguns minutos depois, Lelouch, Geovanna e Reita chegaram e foram imediatamente transferidos para a enfermaria. O atirador de elite não ficou lá por muito tempo, pois era o que menos tinha se ferido. Ele também queria saber o que estava acontecendo com essa loucura toda de Guerra, mas seus companheiros pareciam tão perdidos quanto ele. A única coisa que todos concordavam era que esse ataque estava sendo coordenado por muitos reinos e que haviam Guildas poderosas os ajudando.
Mana foi a última a chegar antes de uma reunião estratégica ser realizada. Nesse ponto, as batalhas pareciam ter se afastado do centro da cidade e o incêndio estava quase completamente controlado. A Base permanecia barulhenta e lotada, mas também estava sob controle. Era nesse ponto onde nossos principais membros da Immortal Star se encontravam, dentro da sala de reuniões do segundo andar.
— E então eu deixei Victoria na sua própria casa junto com a mãe. Parece que eles têm um esconderijo secreto e ficarão seguras até tudo se acalmar. — respondeu Mana, parecendo terminar de explicar pelo que tinha passado. Ela estava mais bem enfaixada agora, pois também passou pela análise da Doutora Ana. Ela nem parecia ter passado por uma batalha, pois não demonstrava nenhum sinal de cansaço.
—Agora que temos todas as informações de vocês, precisamos analisar todo o cenário e tentar entender o que está acontecendo. — falou Mulkior, que estava na ponta da mesa, lugar que geralmente ficava com Any. Ele olhou para todos os membros ao redor, todos com expressões pensativas, e terminou olhando para San, que estava bem ao seu lado esquerdo. —O que você acha disso tudo, San? Como Estrategista, quero saber como você organizaria toda essa algazarra pelo qual estamos passando.
— Acho tudo isso muito engraçado.
É claro que San daria uma resposta besta daquelas. Ele tinha nível elevado nessa perícia. Mana foi a primeira a dar um tapa na própria cara, coisa que faria na cara do colega, se estivesse mais próxima. Lelouch se jogou na cadeira e levantou a cabeça, tentando não rir. Kula deu um beliscão no braço de San, olhando com cara feia. O resto teve uma reação muito parecida com a de Mana.
— San, isso é sério! — disse o Vice Líder, tentando o máximo se controlar e quase não conseguindo, já que sua voz saiu mais alta que o normal.
— Eu não estou brincando. — começou San, depois de esfregar levemente o local do beliscão. — Assassinos profissionais contratados especificamente para “nos” matar, Guildas do Submundo ajudando reinos grandes sem escrúpulo, soldados lutando lado a lado com monstros que deveriam ser incontroláveis. Essa situação é irreal demais para não me fazer rir. — mesmo com aquelas palavras, San não estava sorrindo e a força na voz fez todos prestarem atenção no que o colega falava. —Sem contar com a tentativa de incêndio de toda a Capital, que eu acredito que seja uma das coisas mais misteriosas de toda essa situação. Principalmente por essa não ter sido a primeira vez que tentaram isso. Você deve saber do que estou falando. — disse, e olhou para Mulkior.
— Verdade! — falou em alto tom Aristarkh. — Eu já li sobre isso. Na última grande guerra que Riven travou, muitos soldados inimigos se infiltraram na capital e colocaram fogo em muitas construções, querendo que o fogo se espalhasse por toda a cidade.
— Sim, mas foi uma falha completa. — continuou Mulkior. — Os soldados incendiários foram presos antes que um incêndio de grande escala se espalhasse e isso fez com que o plano dos inimigos falhasse completamente. Mas o que isso tem a ver com nossa atual situação?
— É aí que está o mistério. — falou San, apontando para o grande mapa da Capital que estava estendida na grande mesa no centro da sala. — O fogo dessa vez se espalhou muito mais rápido do que na primeira tentativa, não só porque hoje estamos muito mais avançados magicamente falando, mas também porque foram escolhidos pontos estratégicos muito melhores. Além disso, Mana viu uma grande tropa do Exército de Riven marchando para o oeste, o que me faz acreditar que a Capital está sendo atacada em três frontes, exatamente do mesmo jeito que fizeram na última guerra.
— Mas por que alguém tentaria fazer a mesma estratégia que já se mostrou falha? — perguntou Reita, sentado mais ao fundo. A Doutora tinha brigado com ele, pois era para ele estar em repouso total, mas ele se recusava a ficar parado com essas batalhas todas acontecendo.
— Exatamente meu ponto. — falou San, cruzando os braços. — Eu diria que essa estratégia serve como algum tipo de chamariz, ou uma armadilha de planejamento contra Riven. Ao realizar os mesmos movimentos de antes, talvez Riven vá tentar se defender da mesma maneira, e é aí que o Reino irá ruir, pois é exatamente isso que nossos inimigos querem que aconteça. — as palavras atingiram todos com severidade, mas o mais afetado foi claramente Mulkior. —Além disso, é praticamente impossível os Generais e estrategistas do Exército de Riven preverem o que as Guildas contratadas farão, ou como os monstros soltos irão se comportar. Piora tudo quando adicionamos o fato de que esses mesmos monstros podem ser controlados de alguma forma.
A explicação de San encheu a consciência dos membros da Immortal Star assim como uma grande refeição encheria seus estômagos. Alguns que estavam em pé se sentaram e ficaram olhando para o mapa, com pensamentos perdidos e confusos. Parecia até uma maldição do destino. Poucos meses depois deles finalmente se firmarem na Capital, algo dessa altura acaba acontecendo. E isso não era o pior.
— Acho que o ponto mais bizarro nessa situação toda é essa tal “aliança”. — disse Lelouch, se espreguiçando para frente. — Pelo que vocês falaram, ela envolve não só os reinos do sul, mas os do leste e até mesmo os do norte também. E pelo que eu vi, até o Império Haoriano pode estar marchando para cá nesse mesmo instante. Que tipo de aliança é essa que consegue envolver quase meio mundo de reinos?
— E alguns desses reinos eram aliados de longa data de Riven! Eu também quero saber como essa aliança aconteceu. — falou Aristarkh, com uma certa aspereza na voz.
— Infelizmente, essa é a pauta que nem eu consigo esclarecer. — falou San, coçando as sobrancelhas. — Nenhuma aliança dessas é feita com um só pedido, uma só proposta ou até mesmo uma só intimidação. Para um plano desses estar em movimento, essa aliança deve ter sido criada há anos, e em um segredo mais absoluto do ponto onde nem o Rei fala para sua própria Rainha. — San tomou um gole de agua novamente. Ele parecia mais tenso do que o normal, mas pouca gente conseguia prever a mudança de humor daquela pessoa. — Agora tem duas coisas que eu posso afirmar com clara certeza: seja lá quem criou essa aliança, prometeu prêmios enormes para cada aliado; e que essa aliança tem um aliado com extrema importância e força política dentro de Riven.
— Você quer dizer que tem um traidor operando ao lado do Rei ou dos Nobres das Famílias Reais? — perguntou Mulkior, com fulgor. Ele tinha uma tendência em ficar nervoso quando o assunto era seu reino.
— Isso responderia muitas perguntas. — a resposta de San não melhorou o humor de Mulkior, que apertou as duas mãos com firmeza e baixou a cabeça pensativo. Ele estava irritado com a informação, mas não poderia descontar em ninguém dali. — Claro, isso é uma suposição minha. Você não precisa levar a sério.
— Você é nosso Estrategista e o principal conselheiro da Guilda. Se não levarmos seus avisos a sério, podemos acabar em um poço ainda mais fundo e escuro do que esse que já nos encontramos. — disse Kula, que estava quieta até então.
As palavras da Maga não chegaram a acalmar todo o pessoal, mas os fez lembrar de que como Guilda, eles iriam permanecer unidos até o fim. Isso significa levar os cargos ao extremo. Por mais que alguns não gostavam de que San fosse o Estrategista — leia “Mana” —, o rapaz não tinha feito nenhum erro em cálculos, dicas ou avisos até então. Claro, tinham se passado apenas oito meses, mas alguns conseguiam entender perfeitamente as ações que San ditava e se assustavam quando ele previa algum acontecimento com tanta certeza.
— E sobre nossa Guilda ser atacada pelo próprio exército de Riven? — perguntou Mana, os lembrando daquele assunto delicado. — Pelo que vocês me contaram, eles estavam bem sérios sobre prender todos nós. Não acredito que eles tenham feito isso por puro capricho, principalmente no meio de uma guerra dessa escala.
—Não gosto de pensar que algum dos nossos membros possa ter atacado algum soldado de Riven e tê-los feito nossos inimigos. — disse o Vice-Líder, com convicção.
— Isso não faria grande parte do exército marchar até aqui. — respondeu San, que continuou logo em seguida. — Isso foi feito ou por alguém com grande poder administrativo daqui de dentro do Reino, ou por um plano perfeito de uma das Guildas inimigas do reino. Ou pior ainda: uma combinação desses dois fatos, o que é mais plausível. Se isso for o certo, o “Grande Planejador” dessa confusão toda sabia que as Guildas daqui de dentro de Riven se mexeriam para proteger seus lares e que seriam os inimigos mais complicados de serem enfrentados. Eu não tenho certeza, mas provavelmente algo desse tipo foi feito nas outras Guildas daqui também, principalmente contra a Monster Hunter, já que parece que há algum tipo de desavença e traição vinda de dentro da Guilda.
— E não esqueçam das Guildas do Submundo! — disse Reita, entrando pela porta que estava entreaberta. Todos se viraram em sua direção e viram o caçador bem enfaixado e com alguns hematomas, mas ele andava normalmente e tinha um certo fogo no olhar. Mulkior e Kula perguntaram ao mesmo tempo se ele estava bem, e ele respondeu com um aceno de cabeça. — Reinos contratarem Guildas oficiais para ajudá-los em batalhas é algo normal, mas quase nenhum usa as Guildas Negras.
— Se as teorias de San estiverem corretas e que existe mesmo um traidor aqui em Riven, é possível que ele tenha conseguido alocar pessoas por dentro do castelo e se misturado entre os Esquadrões do exército. — disse Lelouch, batendo com o dedo impacientemente na mesa. — Isso tudo só deixa essa situação cada vez mais impossível!
Mais uma vez, o silêncio acertou aquela sala com intensidade. Algumas pessoas estavam bem quietas ali e não tinham se pronunciado ainda, como Tabatha. Ela não era especialista em guerra, então sabia que era melhor se manter calada e prestar atenção em todos os detalhes. A carta que recebeu de sua família ainda lhe atingia a mente, mas ela estava tentando se manter controlada sobre isso. Lila era uma mulher mais da ação do que planejamento, então ela só estava ali esperando a hora certa para agir. E por fim, Jarhan também se mantinha em silêncio, pois ele conhecia muito pouco do mundo a fora para dar opiniões.
— Não vejo alguns de nossos principais membros aqui. — disse Mulkior, cortando o silêncio momentaneamente. Ele ainda estava em pé, apoiado na mesa com os dois braços e com um rosto abatido. — Onde estão Jimmy e Shiro?
— Eu vi Jimmy indo para o leste em meio aquele incêndio todo. — respondeu Aristarkh. — Não consegui chama-lo pois imaginei que já tinha recebido ordens para ajudar as pessoas.
— E Shiro... — falou Reita, e parou. Ele arregalou os olhos ao se lembrar de algo realmente importante. E perigoso. — Não! Agora eu me lembrei! — todos se viraram para o Caçador enfaixado. — Shiro recebeu uma ordem de Any para ir até o Castelo e servir como porta voz da Guilda durante esse ataque!
— Ele foi para o Castelo? — perguntou Mulkior. — Isso faz quanto tempo?
— Mais ou menos uma hora. Talvez mais.
— Isso é realmente ruim. — falou San, cruzando os braços novamente. — Ele foi diretamente para uma banheira de espinhos. Se o exército real já estava atrás de nós, ele vai ser recebido como inimigo. O fato dele não ter voltado ainda só piora tudo.
— Não podemos deixá-lo! Precisamos ir salvá-lo! — disse Kula, adquirindo sua habitual expressão preocupada.
— Sim, claro! — falou Mulkior, agora com um objetivo mais sólido em mente. — Vamos nos organizar e nos equipar para...
— Mumu, espere. — falou Mana, o cortando. — Não podemos ir assim sem nenhum plano. Principalmente agora, que somos suspeitos de algo que não sabemos. — ela olhou para San, com uma intensidade no olhar que só conseguia algumas poucas vezes. — O que podemos fazer quanto a tudo isso?
Nada foi respondido imediatamente. Sem precisar olhar, San sabia que toda a atenção tinha se voltado para ele, mas agora parecia que os olhares pesavam. San sentia que agora não era hora de dar respostas por meio de brincadeiras, pois todas aquelas vidas ali estariam em suas mãos. Era um dos motivos de ter reclamado ao ser escolhido como Estrategista. Mas ele não tinha tempo para lembrar do que já passou. Olhou para o mapa em cima na mesa e fez alguns cálculos que pareceram simples. Depois olhou de volta para todos e falou:
— Eu tenho um plano. — disse por fim, com um ar deprimido. — Mas não gosto dele.
— Ah San, daí você nos quebra! — falou Lelouch, batendo a cabeça na mesa.
— É quase isso. — continuou o assassino lutador. — Eu tenho um plano funcional, que pode nos livrar de muitas suspeitas e até nos dar crédito no final. O problema é que ele é perigoso para todos nós. E como Estrategista, não posso simplesmente manda-los para a morte, entendem? Por isso não estou gostando do plano.
— Todos nós entramos na Guilda sabendo que haveriam riscos. — disse Mulkior, imponente. Logo em seguida, continuou. — Todas as Guildas tem. Mesmo os desbravadores encontram perigos em suas buscas. Além disso, não é como se nós aqui não estivéssemos desacostumados ao perigo. Alguns de nós especificamente VIVEM no perigo. Ou correm perigo toda vez que lutam. — ele olhou para San e sorriu. — Eu sou o Vice-Líder da Immortal Star. Na ausência de nossa Líder, eu que tomo as decisões como corretas ou erradas. Então Estrategista, diga-nos como é seu plano e eu o avaliarei como plausível ou não.
San literalmente deu de ombros e soltou um “Ah” de desistência. Ele já estava acostumado com a imponência de Mulkior de sempre estar à frente de todos e fazer grandes decisões pela Guilda. Mesmo que ele fosse o “vice”, o mago de ferro ainda era o Criador. Sem contar que Mulkior era provavelmente o único membro da Guilda que todos os outros conseguiam confiar quase cegamente. A decisão nos olhos dos demais membros que ali estavam fez San limpar a garganta e preparar para dar novas instruções.
— O plano é basicamente simples. — começou ele, estendendo as mãos na mesa e começando a apontar para o mapa. — Riven está em clara desvantagem inicial por causa da quantidade de inimigos diferentes, então o que ela mais precisa é de suporte como poderio militar. O que vamos fazer é pular no meio às tropas de Riven e atacar seus inimigos sem piedade. Mesmo que a informação de que nós sejamos “suspeitos a serem inimigos” já tenha chego aos esquadrões no campo de batalha, ao ver que nós estamos lutando contra o exército inimigo, os soldados de Riven não irão nos atacar. Pelo menos não os que tem bom senso.
— Mesmo assim, podemos ser barrados imediatamente antes mesmo de chegarmos ao campo de batalha. — disse Lelouch, olhando para onde San apontava. — As tropas estacionarias podem querer nos atacar assim que nos aproximarmos dos postos avançados.
— Exatamente por isso que não iremos atacar com todas as unidades ao mesmo tempo. — falou San, afirmando a suposição do colega. — Vou separar os esquadrões em pequenas unidades comandadas pelos que estão aqui nessa sala. Cada unidade vai para um posto diferente, assim cobrimos todas as entradas da Capital, ou pelo menos as mais importantes.
— Você vai nos separar em times então. — começou Kula. — Isso pode levar algum tempo para você calcular quais pessoas se encaixam com quem, para melhores resultados.
— Já calculei isso. — respondeu o assassino com sua certeza absoluta de sempre. Os novos olhares que ele tomou eram de surpresa e dúvida. — Por que você acha que eu disse que não estava gostando muito da ideia? Já tenho ela toda pronta na cabeça, inclusive sobre a situação de Shiro.
— Eu vou tentar não me sentir surpreendido. — falou Mulkior, sorrindo. A velocidade de análise de San chegava a ser divina algumas vezes. — Não temos tanto tempo sobrando e temos um companheiro de Guilda que pode estar correndo perigo. Todos aqui, prestem toda a atenção nos comandos e fiquem preparados para partirem assim que eu der a liberação!
Todos estavam a postos. A adrenalina pareceu os acordar de um longo sono. Era o clamor da batalha. O preparo mental que aqueles guerreiros precisavam para ir para um lugar onde poderia ser seu último era enorme. Mas não era possível calcular quantas vezes eles já tiveram que passar por aquele peso. Talvez fosse por isso que assim que seu Vice-Líder terminou de falar, todos se aproximaram da mesa e depositaram cada resquício de atenção as próximas palavras do Estrategista.
— Primeiro de tudo, preciso que algumas pessoas recolham as bandeiras e uniformes que ficaram jogados aqui na frente da Base durante o combate. Não deixem nenhum sobrando. Tabatha, pode pedir ajuda do pessoal lá embaixo e fazer isso agora, por favor? — a mulher respondeu um curto “sim” e saiu em disparada pela porta. — Agora... Kula e Mana. — as duas mulheres o olharam, quietas. — Vocês vão escolher os membros que vocês acham melhor do Primeiro Esquadrão e os levarão para o Portão Sul, onde a batalha é provavelmente mais intensa. Escolham de quinze a vinte membros e andem em duas filas rápidas. Não parem para dar explicações a ninguém e deixem dois membros à frente segurando as bandeiras de Riven. Façam avanços contra os inimigos no sentido de surpresa, para que eles fiquem desorganizados por algum tempo. — as duas mulheres olharam para Mulkior, que parecia analisar o comando, e logo depois balançou a cabeça afirmativamente para elas, as fazendo sair da sala e se prepararem.
— San, por favor! — disse Aristarkh. — Deixe-me ir para o Portão Norte! Eu preciso saber mesmo se meu antigo reino está enviando suas tropas contra Riven!
— Eu já tinha planejado até mesmo isso. — respondeu ele, para alívio imediato do mago vermelho. — Você e Lila irão pegar sete ou oito membros das tropas do Primeiro e Segundo esquadrões, vão fazer o mesmo que disse para Mana e Kula sobre as bandeiras, e vão vestir os uniformes militares do Exército de Riven para serem frontes de combate. Mas não avancem muito. O cenário ao norte é mais montanhoso e as tropas inimigas terão vantagens demais.
Do mesmo jeito que as duas garotas, eles tiveram a confirmação de Mulkior e já saíram da sala em direção ao andar térreo, para preparar as devidas tropas. Já dava para ouvir Kula dando ordens para organizar a primeira leva de soldados. Não tinha sobrado muitas pessoas na sala, mas assim que San iria continuar a falar, a porta abriu com um solavanco forte, assustando os demais. Machucada, enfaixada e provavelmente muito cansada, Geovanna estava de pé, se apoiando na parede da porta. Ela andou até a mesa e falou apressadamente.
— San, e eu? — perguntou ela, arfando rapidamente e olhando intensamente o motivo dela ter entrado na Guilda. — Eu ouvi que você está enviando nossos membros para pontos específicos. Eu também quero ajudar!
— Você saiu de uma batalha complicada, o Lelouch me contou. — falou Mulkior. — Duvido que a Doutora Ana tenha lhe dado permissão para se levantar.
— Eu estou bem! Juro! — ela olhou novamente para San, que mantinha os braços cruzados e a cabeça um pouco baixa, parecendo perdido em novos pensamentos. — Por favor, me deixe participar dos seus planos!
— Eu acredito que Mulkior tenha razão, mas não estamos com tempo para nos preocuparmos em deixar de fora uma aliada confiável quando ela mesma diz que está bem. — San olhou para Mulkior e depois para a maga, que sorriu de maneira boba e envergonhada. Se a situação não fosse tão extrema, ela poderia ter se declarado ali mesmo, de tão tensa que estava. — Vejam bem. O oeste é o ponto mais complicado de se defender, principalmente porque a batalha por lá vai começar agora, ou acabou de começar. Além disso, lá tem a maior probabilidade de eles já estarem com ordens de nos parar, então precisamos fazer uma intervenção rápida. Jarhan e Geovanna, quero que vocês organizem um grupo pequeno de membros, talvez mais seis pessoas para irem com vocês para lá. Mas vocês não devem assumir a frente de combate e não devem aparecer pela estrada principal. Vocês precisam encontrar um caminho pelos muros ou uma outra saída mais próxima e atacar pelo flanco seja lá quem Riven estiver enfrentando. Existe a possibilidade de ser o Império Haoriano, o que vai fazer uma grande diferença de força. Nesse caso, vocês devem se manter na defensiva e recuar caso necessário. Não joguem suas vidas ou as dos nossos companheiros fora por nada, entenderam?
— Sim! — gritaram Jarhan e Geovanna, ao mesmo tempo. Eles quase não esperaram Mulkior dar sua confirmação para saírem, e já sumiram pela porta.
— Então sobraram eu, Lelouch e Reita. — disse Mulkior, um tanto desanimado. Ele imaginava que um grande plano de San o faria ir junto com sua amada, o que não aconteceu. — Você vai nos mandar para o Leste, que foi o que sobrou.
— Negativo. — respondeu o Estrategista, tirando uma nova careta de desentendido do Vice-Líder. — O Leste está sendo protegido pelo Esquadrão de Raziel, e eu não preciso lhe explicar o quão poderoso ele é. — Mulkior engoliu seco. Realmente não precisava. A fama de Raziel alcançava cada canto do mundo e seu esquadrão dentro do exército real de Riven era o mais poderoso em batalha. — Você em específico tem outra função tão importante quanto ir ao campo de batalha. Eu preciso que você vá para sua casa.
— San, já era para você ter parado com essas brincadeiras sem graça! — respondeu o mago, se enfurecendo.
— Calma, deixe-me explicar. Você lembra que eu disse sobre um possível traidor dentro do Reino e que teria um grande poder político? E não estou insinuando que seja seu pai, antes que você me tarje como alvo a perder a cabeça. — San olhou com uma expressão séria para Mulkior, que tentava manter a mente calma e prestava atenção em cada nova palavra. — Conversei com seu pai poucas vezes, mas foi o suficiente para saber o quão devoto ele é às tradições da família e à sua própria honra. Ele é patriota demais para sequer pensar em trair seu Reino. E é por isso que precisamos da confiança dele em nós.
— Ou seja, vamos usá-lo como escudo contra as acusações falsas sobre nossa Guilda. — disse Reita, encostado na parede ao lado da porta.
— Exatamente. — continuou San, ainda olhando para o Vice-Líder. — Sei que seu pai deposita muita confiança em você Mulkior, e ele é um dos principais nobres ligados a Família Real de Riven. Então ele tem o poder para ficar a nosso favor e nos ajudarmos a limpar nosso nome. Além disso, é menos possível que o Exército Real vá querer fazer algo contra o filho legítimo de alguém da Família Real, então você tem mais segurança para andar pela cidade do que nós.
— Entendi, San. Você tem razão. — respondeu o mago de ferro, sentindo uma injeção de obrigatoriedade percorrendo seu subconsciente. — Não temos que lutar apenas nos campos de batalha. Nossa situação é mais complicada do que simplesmente ser vistos como inimigos. Eu preciso... Não. Eu VOU esclarecer tudo para meu pai e tentar encontrar o próprio Rei para nossa Guilda ter uma chance de se explicar!
— É uma boa ideia também. — afirmou San, deixando um sorriso escapar. Era mais por alívio do que por diversão. Mulkior poderia ser cabeça dura quando o assunto era honra e família. — Ah claro, eu tenho mais dois comandos para você. — Mulkior permaneceu fixo, e só balançou a cabeça afirmativamente, esperando as ordens. — Primeiro, no caminho para sua casa, passe na loja da Regi. Ela estava em horário de serviço no momento do ataque, então imagino que você vá querer saber se ela ainda está lá. — Mulkior quase mudou de cor quando ouviu isso. Ele não tinha se lembrado desse fato e agora um tanto de preocupação lhe consumiu a mente. — Mas sendo esperta como ela é, eu imagino que ela tenha corrido para sua casa ou até mesmo para o Castelo assim que tudo começou. Mas ainda quero que você passe lá. E segundo... — ele pegou seu copo e tomou todo o resto de água que ali tinha. Mesmo naquela situação, Lelouch e Reita não sabiam dizer se ele estava nervoso ou preocupado. — Quando você terminar de conversar com seu pai, corra para o sul. Use uma carruagem de sua casa, se possível. Quando você chegar lá, troque de lugar com Mana e, se ela estiver bem, mande ela fazer uma investigação da situação no Leste. Diga para que ela não ataque ninguém, só vá para fazer uma análise.
— Claro, farei isso. — o mago de ferro parecia mais animado agora, talvez por saber que as ordens eram para que ele fosse se encontrar e lutar junto com sua amada. — Mas por que o Leste? Você mesmo disse que estaria seguro.
— Não vou cometer erros de cálculos. — respondeu San, prontamente. — Assim como nós sabemos que Raziel está lá, nossos inimigos também saberão. E com toda certeza, eles têm uma estratégia para detê-lo, o que pode ser ainda mais assustadora do que incendiar Riven. Quero saber o que é, e ninguém melhor para obter informações do que Mana.
Nada mais foi dito por parte do Vice-Líder. Ele mesmo se deu a confirmação para sair, então se virou e partiu pela porta, dando um tapa de leve no ombro de Reita. Quando tinha um objetivo nobre por qual lutar, Mulkior poderia ser imparável. Por isso San deixou a parte mais delicada de seu plano nas mãos dele. Ele não iria mentir para Mulkior, mas se ele perguntasse, San diria que a situação da Guilda ainda pode piorar, e tudo por culpa dele mesmo. Matar uma Capitã em frente ao seu esquadrão não era considerado um ato amigável.
— E a gente, San? — perguntou Lelouch, finalmente se levantando da cadeira.
— Vocês vêm comigo. Vão me ajudar a invadir o Castelo Real.
— Puta merda, San! — gritou Reita, incorporando o espírito boca suja de Shiro. — Você enlouqueceu? Tudo bem que temos que fazer algo sobre Shiro e... — Reita teve uma trava mental. Alguma coisa acabou de se encaixar. Alguma coisa estava começando a fazer muito sentido agora. — Espere. Você fez isso de propósito!
— Ahahah! Foi o único que percebeu. — riu San, se espreguiçando e fazendo um tipo de abdominal, como se estivesse se preparando para uma maratona.
— O que porras vocês estão falando? — perguntou Lelouch, claramente perdido. — O que está acontecendo aqui que eu não estou entendendo?
— San fez a gente se concentrar em um perigo maior, sobre uma luta nos frontes de batalha e nos perigos que teríamos que passar para ludibriar o exército de Riven. Tudo isso para que a gente “esquecesse” de um dos pontos mais importantes da nossa situação, que é salvar o nosso ninja falastrão! — explicou o Caçador, fazendo Lelouch olhar para San com cara de bobo.
— Entrar no Castelo de Riven é algo que ninguém deveria fazer nesse tempo de guerra, e todos os que estavam aqui seriam contra minha decisão de ir sozinho. — falou San, andando até o outro lado da mesa e indo em direção a porta. — Mulkior e Kula me proibiriam sem nem pedir explicações, Mana falaria para deixar com ela e Geovanna insistiria em ir comigo. Até mesmo eu acho que a ideia não é brilhante. Mas de todos aqui, eu sou o que tem mais chances de se esgueirar pelo castelo e salvar Shiro, se é que ele esteja precisando de ajuda.
— E por que a gente? — perguntou Lelouch, também indo em direção a porta. — Eu não sou bom em invadir locais pelas sombras.
— Vocês não vão entrar comigo. Vão me dar cobertura de longe. — começou a explicar San. — Eu preciso que vocês atraiam a atenção de dois lados do Castelo, sem ter o perigo de nenhum soldado ser morto. E eu só posso confiar na mira de vocês dois. Venham, eu explico mais no caminho.
Os dois assim fizeram. Receber um elogio sobre suas miras era sempre gratificante para atiradores e arqueiros, então parecia que San tinha jogado a carta perfeita para fazê-los cooperar sem fazer nenhuma objeção.
Claro que isso não era inteiramente verdade. Os dois rapazes sabiam do risco imenso que o colega iria ter que enfrentar se quisesse entrar no Castelo, e nenhum dos dois apoiava inteiramente essa estratégia. Mas San era esperto demais. Ele sabia que se ele não tirasse todos da sala antes de falar sobre a invasão, alguém iria impedi-lo. Ele também sabia que Reita e Lelouch aceitariam a situação como “única restante” e não clamariam contra. A habilidade de manipular mentes e situações daquele homem era de outro mundo.
Antes de saírem da Base, San conversou mais uma vez com Tabatha. Disse para ela permanecer ali usando suas magias de defesa se necessário, mesmo San achando que nenhum novo ataque não viria naquele dia. Ela também disse que todos os membros que voltasse para a Base deveriam permanecer ali, sem exceção. E por fim, falou que se Egan acordasse e quisesse muito ajudar, que deveria ir para o Oeste se juntar ao time de Jarhan e Geovanna. Na verdade, San já estava prevendo que isso aconteceria.
Ele se equipou com uma pequena mochila, ajeitou sua roupa e revistou todo seu equipamento. Reita e Lelouch fizeram o mesmo, recarregando suas armas e se preparando para irem ao campo de batalha completamente equipados. Com suas auras já intensificadas pela tensão, os três saíram da Base em direção ao lugar mais bem protegido do mundo naquele momento.
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