Immortal Star - Segunda Saga
16 Os Vencedores e os Derrotados - Parte 1
Notas iniciais
Ninguém espera ser barrado por uma das maiores forças do mundo enquanto você tenta salvar um grande grupo de pessoas inocentes. No fundo, San e Shiro sabiam que nada seria fácil. Eles tinham adentrado o Castelo Real de Riven, em um laboratório secreto feito para os testes mais hediondos que se podiam imaginar. Isso geralmente é guardado por uma também grande quantidade de soldados... Ou alguém com poder incomparável.
Não dava para saber só olhando para o rosto de San, mas ele tinha um pouco de sentimento que aquele encontro com Bart era algo predestinado. Ou, pelo menos, sorte. Parecia que o garoto vinha minando algum tipo de rancor para com o Soldado da Planetarium. Ele sabia das tentativas de investida dele em Mana, e principalmente, sabia como a companheira ficava incomodada com as coisas que ele enviava ou que tentava fazer. Então ele queria ter umas “palavrinhas” com o dito cujo diretamente. Mas claro que isso iria acontecer da pior forma.
Enquanto isso, deu para perceber que nenhum lugar da Capital estava exatamente “segura”. Talvez nem mesmo dentro do próprio Castelo fosse seguro ficar, ao contrário do que muitos nobres achavam antes de correrem para lá e pedir proteção. Mas nenhuma Base de nenhuma das grandes Guildas estava segura. Acredite, todas as três outras Guildas foram atacadas, de maneiras e pessoas diferentes. Mas vou me focar só em lhe contar o que aconteceu na Immortal Star.
Alguém com toda certeza estava vigiando a Base constantemente, sabendo exatamente quem entrava e quem saia. Provavelmente a ideia inicial era queimá-la com os químicos de seu aliado agora derrotado. Mas já que isso não era mais possível, então sobrava o velho ataque surpresa, eliminando de vez qualquer força dentro da Base e toma-la para seus aliados. Infelizmente para a Millenium Hunter, isso também não estava sendo fácil de conseguir. Eles não esperavam ter que enfrentar um aliado tão recente de Riven e com um poder tão único.
Agora vamos se focar em terminar o que já começamos. Você precisa saber de resultados e não de mais dúvidas. Precisa de respostas. De fins. Então vamos a elas. E vamos começar pelo Norte.
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Nenhuma batalha valendo a vida de alguém era bonita de se ver. Por mais que ela seja cheia de técnicas perfeitas, belas magias e movimentos históricos, uma vida sempre acaba se extinguindo. Uma morte sempre deixa qualquer situação com um ar negro, ruim. Loucos eram aqueles que se deliciavam ao vislumbrar uma cena dessas. Mas nada, repito, NADA pode ser pior do que ter que apostar sua vida contra alguém que você já considerou um “amigo”, ou até mais que isso.
O rosto de Aristarkh estava cheio de desprazer quando ele defendeu mais duas estocadas rápidas de sua antiga amiga, Kely. Ele se afastou, tentando ganhar espaço para utilizar magias. Mas Kely era do tipo grudenta. Onde ele ia, ela seguia atrás, bem ao seu encalço. Pareciam namorados que brigaram e um tentava ganhar a atenção do outro. Só adicione pontas finas e cortantes e um pouco de magia explosiva e você tem um típico caso de família nesse mundo caótico.
Os dois estavam com alguns ferimentos ao redor do corpo, mas nenhum deles tinha algum machucado realmente sério. Eles tinham trocado vários golpes com suas armas e tentado conservar o máximo de energia mágica possível, principalmente Kely. Isso era devido ao fato de que suas tropas já estavam em processo de retirada. Os novos aliados de Riven estavam massacrando seus soldados, utilizando magias de área e investidas praticamente suicidas. Kely sabia que precisaria lutar ainda mais para salvar seus companheiros, então não poderia se dar ao luxo de perder tempo com um antigo amigo.
— POÇO DO DESESPERO!
A mulher girou sua lança dupla três vezes acima da cabeça enquanto concentrava energia mágica. Depois bateu com uma das pontas no chão a sua frente, mandando aquela mesma energia em linha circular. Aristarkh sabia que aquilo era uma magia de campo, mas tudo ocorreu rápido demais para ele agir adequadamente. Não que essa magia em si fosse feri-lo.
Foi marcado um círculo que envolvia os dois combatentes, e assim que ele se fechou, uma grossa camada de terra fria e pura cresceu e os trancou. De fora, parecia que um poço de água tinha saído do chão. Ele era alto, provavelmente chegava a dez metros. Mas não era completamente fechado. Em vários lugares aleatórios haviam buracos pequenos, como se fossem mini janelas. Isso fazia com que a luz entrasse mais facilmente, para que dentro, não ficasse completamente na penumbra.
— Agora você não tem mais para onde fugir, Ari. — falou ela, um tanto ofegante. Utilizar magias de campo sem ter descrito símbolos ou áreas exigia mais energia e disposição. — Vamos terminar com esse duelo de uma vez por todas, sim?
— Por favor, Kely, reconsidere! — clamou o mago vermelho, ainda tremendo com sua espada em mãos. — Vamos tentar fazer com que nosso reino e Riven façam as pazes de alguma maneira! Podemos salvar nosso povo e---
— CHEGA DE CONVERSA FIADA! — gritou a mulher, cortando a fala do antigo colega e partindo para cima com ferocidade.
Kely aplicou uma variada sequência de golpes em várias direções e alturas. Normalmente, Aristarkh conseguiria lidar com isso, pois já estava se acostumando com a velocidade e técnica da oponente. Mas aqui, ele não esperava ter que lutar com um novo problema: a escuridão. Por mais que houvesse luz dentro do poço, isso era um recurso extremamente limitado. Os dois estavam lutando quase em total escuridão... O que não parecia fazer muita diferença para Kely. Claro, ela já tinha treinado especificamente para isso.
Aristarkh foi ferido mais vezes agora, pois não conseguia medir bem sua distância e sua percepção não conseguia prever os golpes mais rápidos. Ele recebeu três cortes no tórax, uma estocada dolorida na perna esquerda e um corte não muito profundo na testa, mas que o atrapalhou bastante por causa do sangue que caiu nos olhos. Talvez por causa disso, ele foi empurrado e bateu com as costas na parede de terra, o deixando encurralado.
— PERFURAÇÃO DO TROVÃO!
— PILAR TERRESTRE!
Kely queria terminar com tudo aquilo já. Puxou sua lança para trás e a energizou, fazendo liberar fagulhas elétricas antes de fazer um ataque de ponta poderoso e rápido, na direção do meio do peito de seu amigo de infância. A amizade era uma coisa linda, não concorda?
Mas Aristarkh não estava tão sem saída quanto sua oponente imaginava. Ele mandou energia mágica não para as mãos, mas para o pé direito, fazendo toda sua perna formigar. Ele não precisou mirar muito, só fazer a magia acontecer bem à sua frente. Por isso foi tão efetivo. Bem na frente de seu pé, a terra se remexeu e imediatamente fez surgir um pilar pontiagudo feito completamente de terra dura. A magia não só afastou a investida relâmpago de Kely, como a atingiu no braço direito, retirando uma lasca sangrenta de carne.
Mas ela parecia mais dura que a própria terra. Não gritou e não chorou. Cambaleou para trás e levou a mão esquerda no machucado, o apertando. Sangue quente escorria e manchava a sua roupa. Mas seus olhos não pareciam ter se desviado do oponente. O membro da Immortal Star deu um único passo para frente e movimentou sua espada, a mirando para baixo.
— Você acreditou firmemente que tinha conseguido me prender aqui. — falou o mago, tentando parecer o mais calmo possível. Sua espada começou a brilhar forte em um tom azul claro, emanando energia mágica — Mas nunca imaginou que isso seria jogado contra você! GÊISER OCEÂNICO!
Antes de descrever o que exatamente aconteceu aqui, vou deixar bem claro que Aristarkh colocou muita energia mágica nessa última magia. Depois de se concentrar o suficiente, ele enterrou a ponta da espada no chão e mandou toda aquela energia para o chão mais uma vez. Assim como a primeira magia de Kely, todo o terreno naquele arredor começou a tremer violentamente, abrindo fendas em alguns pontos. Os mais visíveis estavam dentro daquele poço escuro onde dois antigos amigos se digladiavam. Kely deu um salto para trás, tentando se afastar o quanto podia do oponente e para ter tempo o suficiente para evitar a magia.
Não adiantou de nada. Bem do meio do poço, uma fenda maior se abriu e um enorme e quente gêiser de agua foi aos céus com uma força arrasadora. O gêiser pegou todo o poço, então não havia lugar seguro para se estar. Atingiu Kely com toda aquela força, jogando-a para cima como se fosse uma folha seca. O gêiser ultrapassou a altura do poço, e com isso também foi o corpo da mulher, girando pelo ar em todas as direções. Kely caiu de costas na borda da construção alta feita pela própria magia, lhe retirando o resto de oxigênio de seus pulmões. Ela deve ter apagado por alguns segundos, pois assim que caiu, sua magia começou a se desfazer, fazendo toda aquela construção de terra sucumbir ao chão.
Agora tudo que havia sobrado era um cenário lamacento, uma mulher caída no chão e um homem ajoelhado, tentando recobrar o fôlego. Aristarkh olhou para seus arredores enquanto respirava rápido, e logo percebeu que os soldados dos dois lados haviam se afastado um bom tanto de onde ele lutava. Ele também não conseguia mais ver Lila em lugar algum. Aristarkh já tinha visto a companheiro lutar e conhecia sua força, mas os membros da Tropa EX eram cheios de artimanhas e poderes diferentes.
— É inacreditável... — começou a falar uma voz feminina, um tanto fraca e lenta. Aristarkh arregalou os olhos e voltou a olhar para frente. E o que parecia realmente inacreditável era que Kely estava se levantando. — Você realmente ficou forte depois de todos esses anos.
— Kely, por favor, não se levante. Não continue essa luta. Me machuca mais te atacar do que levar seus ataques!
— Você já pode parar com esse papo cavalheiro antiquado! — falou ela, agora com mais força na voz. — Somos inimigos em um campo de batalha! — ela tinha conseguido ficar de pé agora. Seu braço ainda pingava sangue, mas ela parecia não estar sentindo dor alguma. — Você escolheu ser inimigo do meu reino, do meu Rei! Escolheu ficar contra mim! Agora você precisa arcar com as consequências de suas escolhas!
Algo explodiu dentro dela. E não foi só metaforicamente falando. Sua energia mágica cresceu exponencialmente, criando uma aura ao seu redor que parecia fogo selvagem, mas em duas cores variadas. Ela segurou a lança dupla com mais afinco, a fazendo vibrar. Depois, como se fosse algo evoluindo, as duas lâminas da arma começaram a mudar de forma. A parte marrom engrossou e se tornou algo como uma lâmina de machado, já a parte amarela se tornou turva e mais comprida, como se fosse um relâmpago.
Por já ter visto de perto armas especiais como as de Mana e Shiro, Aristarkh sabia que sua oponente agora segurava uma arma que faria um diferencial enorme naquela batalha. A emanação de energia era tão densa, que chegava a provocar ilusões de ótica com o calor ao redor da mulher. Mas essa visão logo mudou quando ela fez dois giros rápidos com a lança e bateu com força no chão à sua frente, mandando ainda mais energia mágica para todas as direções.
— FENDA SEM FIM!
Foi uma magia instantânea. Nem mesmo o mais rápido da Immortal Star teria tido tempo de reação suficiente para ter se livrado dessa magia. Assim que foi invocada, o chão dela até Aristarkh se rachou, mas exatamente embaixo dele, uma fenda negra se abriu e o engoliu. Simples assim.
Em uma mistura de desespero e adrenalina, o mago vermelho caia girando aleatoriamente e tentando, ao mesmo tempo, pensar em alguma coisa. Sem ter mais tempo para pensar ou até concentrar alguma energia, ele balançou o braço com força e atacou a parede ao seu lado, cravando a espada na terra e fazendo sua queda desacelerar. Ele teve medo de sua arma quebrar, mas parece que tinha aguentado o seu peso e tinha o parado.
— TROVÃO EXPLOSIVO!
Sem tempo, sem tempo, sem tempo. Aristarkh não poderia se mover de onde estava, sem contar que sua cabeça ainda parecia dar voltas. Ele ouviu a magia ser encantada e sentiu uma onda de energia vindo em sua direção, mas ele não teve folego e tempo o suficiente para se esquivar. Assim, foi atingido por um trovão descendente cor amarela que lhe deu um dos maiores choques de sua vida.
Sua mão escorregou da espada e ele caiu para o fundo infinito daquela fenda terrestre. Sua oponente olhava lá de cima, com rosto congelado em uma só expressão. Ela viu o corpo de seu ex-colega desaparecer no abismo de trevas e mesmo assim, não sorriu ou abaixou a guarda. Continuou olhando, parecendo ter certeza de que ele reapareceria. Ela não sabia dizer o porquê, mas aquela sensação de uma batalha ainda não finalizada pairava no ar, a irritando ainda mais. Ainda olhando para a fenda, Kely viu a espada de seu oponente se desprender da terra e cair também, como uma folha de uma árvore.
Como esse mundo se tratava de locais mágicos, seres mitológicos, animais bizarros e até mesmo pessoas com poderes estranhos, não é de se estranhar que as vezes, até mesmo a natureza conseguia se superar e criar eventos meteorológicos bizarros. Vou descrever um que aconteceu ali naquele momento.
Nuvens vermelhas apareceram em cima do campo de batalha. O cenário não só ficou escuro, como avermelhado, como o clarão de um sol poente. Chuva caiu logo em seguida, sinistramente. As gotas eram grossas, e quase machucavam quando batiam na pele. Ventania que não soprava para um só lado revirou o cenário, levantando poeira e mato morto para todas as direções. E por último, a terra tremeu. Mas não como um leve tremor. Não. Foi um terremoto de verdade, onde o chão inteiro se abriu em inúmeras crateras, sugando tudo que havia na superfície. Isso quase incluiu a própria Kely.
Ela pulou para longe, indo de pilar de terra para pilar de terra, até se ver livre daquela mistura demoníaca de clima e desastre. Ela não se deixou ficar abismada pela situação. Sabia que era uma coisa “mágica”. E tinha certeza de quem estava fazendo aquele caos todo. Naquele momento, os olhos afiados da guerreira procurava seu oponente, indo da direita para a esquerda.
Mas ela não precisava ter procurado tanto, era só se manter olhando para a fenda que ela mesma tinha aberto. Como se pudesse voar livremente pelos céus, Aristarkh apareceu flutuando, parecendo um Deus surgindo para terra. Sua roupa estava rasgada e chamuscada, haviam feridas ao redor do corpo, com sangue gotejando pelos braços e pela cabeça. Não era uma visão santificada, mas chegava a dar medo.
— TÉCNICA SECRETA, ORBES DA SUPREMACIA ELEMENTAL!
Ainda voando, Aristarkh abriu os braços e os fez brilharem tão intensamente como uma explosão de luz. Parecendo estar sugando todas aquelas abominações climáticas para si, dez esferas de cores diferentes surgiram ao seu redor, indo metade para cada braços e dando voltas como se fossem luas de um planeta. Assim que as esferas terminaram de serem carregadas, Ark pousou e olhou sua oponente nos olhos, que permaneciam queimando.
— Nunca imaginei que fosse obrigado a usar minha técnica secreta para poder sobreviver contra uma conhecida minha.
— Palavras clichês. — praguejou Kely, girando a lança em seu lado. Ela realmente não parecia surpreendida pelas esferas coloridas. — Não importa qual técnica ou magia você tenha escondido na manga, nunca vai conseguir aguentar o poder da Gaia&Zeus!
— É isso que iremos colocar à prova nesse momento! MAGIA SUPREMA DE GELO, TEMPESTADE DE GRANIZO CORTANTE!
Uma das esferas, a que tinha uma cor azul clara, tremeu, brilhou por um segundo e depois desapareceu. Todas as nuvens e a chuva se transformaram em um novo tipo de abominação caótica. A temperatura despencou instantaneamente e aquela ventania aleatória decidiu tomar um só caminho: contra Kely. As gotas de chuva se tornaram sólidos fragmentos de gelo e sopraram com força poderosa. Assim que os primeiros fragmentos chegaram na mulher de lança, sua pele já fria começou a sofrer arranhões, derramando filetes de sangue. O mais sinistro dessa magia era que, como a temperatura estava muito baixa e o corpo de Kely estava praticamente congelado, ela não sentia dores dos arranhões.
— PAREDE REFORÇADA!
Mesmo não sentindo dores, Kely sabia que estava levando danos demais e logo seu corpo iria cair sem sangue se aquilo continuasse. Ela não conseguia se mover, então teve que improvisar uma defesa. Virou sua lança até deixar a parte marrom para baixo e depois estacou-a no chão. Invocou sua magia e fez uma parede de terra sólida aparecer em sua frente, bloqueando todo aquele tufão de vento congelante que vinha direto em seu corpo.
O poder da magia de Aristarkh foi comprovado quando partes da grande e grossa parede de terra começou a se quebrar. O gelo foi se formando em frente à parede, e logo começou a tomar as laterais, as destruindo como se fossem gelo picado. Kely percebeu que sua magia não seria suficiente para aguentar uma Magia Suprema, então tomou controle do corpo e deu um salto longo para trás, correndo para sair da área de atividade da magia de seu oponente.
E aqui temos uma inversão de papéis. Assim que Kely começou sua fuga, Aristarkh apareceu voando em cima dela, a olhando furiosamente. Os dois tiveram uma rápida troca de olhares intensos, que pareceu uma eternidade. Seus olhos faiscaram, como se um soubesse exatamente o próximo movimento do outro. O Mago Vermelho esticou o braço direito para sua oponente e uma outra daquelas esferas que o rodeava brilhou novamente.
— MAGIA SUPREMA DE TROVÃO, PILAR ORBITAL ELÉTRICO!
Assim que Aristarkh abaixou a mão apontada para Kely, o céu em cima deles ficou em uma mistura de negro com branco, soltando sons de trovões. Mas a magia dele não pareceu sair exatamente daquelas nuvens carregadas. Não, era algo muito mais acima. Parecia que era algo vindo de fora do planeta, como se viesse da Lua.
Para Kely, poderia vir do inferno, do Sol ou seja lá da onde for. Ela viu um pilar de energia amarelada e branca, completamente eletrificada vindo em sua direção em uma velocidade alta o suficiente para não deixa-la esquivar ou procurar abrigo. Naquele momento, ela não pensou em coisas como “Aristarkh atirou MAIS uma Magia Suprema?” ou “Como ele consegue invocar tantos elementos diferentes?”. Kely teve que agir rápido. Tudo o que se passou pela cabeça dela era “Ah não, você NÃO vai me pegar com uma magia de Trovão!”.
— LANÇA DA ABSORÇÃO DOS CÉUS!
Kely enterrou a lança com a parte amarela virada para baixo e passou uma densa quantidade de energia para a mesma. Sua lança emitiu um brilho fosco, mas intenso, rodeando sua usuária e um tanto da área em volta dela.
O pilar de trovão pareceu ser atraído pela lança mágica de Kely. O impacto foi grande, enorme. Uma área de mais ou menos dez metros quadrados foi simplesmente pulverizada, destruindo cada grão de areia da terra já maculada por magias. Mas o mais incrível foi ver o que tinha acontecido no ponto exato do impacto. Kely e sua arma tinha entrado quase dois metros para o chão, sendo empurrados pela força abissal daquele raio. Só que a mulher não havia sido danificada. Sua lança serviu como um tipo de “para-raios”, absorvendo a magia de uma ponta e mandando de volta para o chão embaixo de seus pés.
A magia de Aristarkh se espalhou por aquela terra já destruída, causando ainda mais estragos e abrindo várias crateras de diferentes tamanhos e profundidades. Aristarkh pousou no chão, assim que a esfera de cor amarela que o rodeava sumir. Agora ele tinha oito daquelas esferas, que ele torcia ser o suficiente para derrota-la. Ele sabia que essa última magia não tinha surtido efeito, provavelmente porque a lança dela controlava Trovão e Terra. Ou seja, não adiantava ataca-la com esses elementos.
E claro, antes que você, que está me ouvindo tão atentamente fique ainda mais boquiaberto com o fato de Aristarkh utilizar duas Magias Supremas seguidas, deixe-me explicar como funciona o poder secreto e especial dele. Como Mago Vermelho, Aristarkh pode aprender magias de todos os elementos, assim como magias de proteção e cura de Clérigos e Sacerdotes. Mas nenhuma dessas magias atinge o seu poder máximo que um mago específico desses elementos conseguiria. Ou seja, em uma disputa direta de magias elementais, Aristarkh sempre vai sair perdendo, a não ser que ele adicione muito mais energia mágica que seu oponente.
Para suprir isso, ele inventou uma técnica única que ele dividiria quase toda (ou, as vezes, toda) sua energia mágica em forma de esferas, cada uma carregando um elemento específico, e criou Magias Supremas ligadas à elas. Então sim, ele tinha dez Magias Supremas consigo, mas seu poder comparado a outras magias do mesmo nível seria obviamente menor. A diferença era que com essa técnica, Aristarkh conseguiria fazer uma batalha em qualquer situação, contra qualquer tipo de inimigo.
Só há outro porém em sua técnica secreta. Como é extremamente difícil manter o controle de dez elementos diferentes ao mesmo tempo, além de ter que manter uma concentração apurada para manter as esferas ativas, Aristarkh colocou uma “Restrição de Ligação Corporal” em sua magia. Em troca de conseguir manter o controle, utilizar outras magias e poder usufruir de controle máximo de sua energia mágica, para cada elemento que ele usa como Magia Suprema, ele perde um dia inteiro de utilização de sua energia. Essa é uma técnica que ele só usaria em último caso, pois ele fica completamente indefeso depois de utilizá-la.
Kely surgiu correndo na direção do mago da Immortal Star. Ela estava sem nenhum arranhão novo, mas parecia mais lenta, provavelmente pela quantidade de energia mágica que tinha utilizado para se defender. Aristarkh já se preparou para se afastar, pois agora estava sem sua fiel espada, que tinha desaparecido nos confins negros daquela fenda terrestre.
— ONDA DE TERRA ENGOLIDORA!
Kely continuou correndo, mas girou a lança para o lado e encostou a parte marrom no chão, fazendo-a levantar pedaços de terra e fazendo uma linha no chão. Depois de concentrar mais um tanto de energia mágica, a mulher fez um movimento horizontal para sua frente, moldando o chão e criando uma onda gigantesca de terra pura. A onda ia rápido para cima de Aristarkh, que o engoliria por completo se ele não fizesse alguma coisa.
— MAGIA SUPREMA DE SUPORTE, CUBO DA PERFEIÇÃO!
Sem soterrado vivo não estava nos planos de Aristarkh. Ele pegou uma das esferas em sua mão e depois a jogou no chão, ficando agachado. A esfera de cor rosa se espatifou e sumiu assim que tocou o solo, e sua energia contida foi espalhada ao redor do mago, em quatro linhas formando um quadrado. Depois, das linhas, paredes de energia sólida se levantaram e se fecharam em cima, criando um cubo com ele dentro.
Sem mais delongas, a onda terrestre caiu com todo seu peso e poder em cima do ex príncipe. Em seu caminho, qualquer buraco ou cratera que tinha sido aberta anteriormente foi completamente fechada pela quantidade absurda de terra que se espalhou nesse momento. Kely estava mais atrás e viu tudo ser consumido por sua magia, mas sabia que seu oponente tinha lançado alguma magia antes de ser atingido. Ou seja, aquela batalha ainda não tinha terminado.
Aristarkh saiu com um tipo pequeno de explosão, levantando terra e poeira. Kely estreitou os olhos e voltou a ficar em posição defensiva. Ela já não estava com tanta energia mágica sobrando quanto gostaria, pois tinha certeza que depois que utilizasse o poder total de sua lança, a batalha se encerraria sem problemas. Mas parece que Aristarkh se tornou um Mago mais poderoso do que ela conseguiria imaginar. Era realmente uma pena ele estar lutando pelo lado errado.
— Parece que não adianta mesmo eu atirar várias magias contra você se não tiver preparado pra ficar esgotada. — falou a mulher, alto o suficiente para que ele pudesse ouvir. Sua voz não estava tão carregada de ódio como antes, mas nem ela saberia explicar o porquê.
— Me subestimar não foi sua ideia mais brilhante hoje. — respondeu Aristarkh, dando alguns passos para frente. Ele precisava ataca-la sem parar e encerrar aquela luta de uma vez por todas. — Agora que viu do que sou capaz, você pode reconsiderar parar seu ataque, ou vamos ter que finalizar isso da pior maneira?
Kely não respondeu com palavras. Ela apontou a parte marrom para seu oponente e começou a concentrar energia mágica. A diferença? A quantidade. Um tremor começou e se espalhou ao seu redor, a ponto de que Aristarkh conseguia sentir também. Ele teve um calafrio, pois não imaginava que ela tivesse tanta energia sobrando. E também sabia que agora as conclusões iriam começar a se acertar.
Nesse ponto, eu devo dizer que Aristarkh cometeu um grave erro de ação. Ele sabia que Kely usaria uma magia extremamente poderosa, e seu plano de defesa seria utilizar uma das sete esferas mágicas que ainda possuía. Isso fez com que Kely tivesse tempo para conjurar uma de suas magias mais poderosas sem ter perigos de ser atacada no processo.
— LIBERAÇÃO TOTAL – FLORESTA DE GAIA!
Essa magia vale todo o esforço para explica-la, pois além de poderosa, era uma magia linda para se ver. Claro, não se você é o seu alvo. Começa com vinte pilares perfeitamente redondos de terra que crescem em volta do oponente. Os pilares não eram tão enormes assim, chegando só a três metros de altura. Mas a velocidade que eles aparecem e que logo criam um tipo de “toldo” por cima, era algo fenomenal.
Aristarkh não sabia para onde pular primeiro. Na verdade, não havia para onde correr. Assim que levantados, os pilares começaram a se transmutar rapidamente, criando pontas. Aqui sim o mago conseguiu saber o que viria em seguida: uma chuva lateral de estacas. Dos pilares, centenas de estacas mais grossas que lanças se formaram e foram atiradas na direção dele. Não dava para se defender, não tinha lugar para correr e se esquivar era impossível. Ele só tinha uma maneira de sair vivo sem se tornar uma peneira humana.
— MAGIA SUPREMA DE PEDRA, ARMADURA DO ROCHEDO NEGRO!
Aristarkh pegou uma das esferas, a que tinha a cor cinza escura, e explodiu-a em seu peito. Assim que a esfera sumiu, todo o corpo do mago se envolveu por uma forte energia mágica cinzenta, e partes de armadura feito em pedras negras começaram a preenche-lo. Não demorou nem dois segundos para ele estar completamente vestido em uma armadura completa com pedra fortificada com magia.
Foi um encontro breve, as estacas contra o corpo com a armadura de pedra. A velocidade do acontecimento foi tanta que o próprio Aristarkh não soube exatamente como reagir no momento. Isso porque a armadura conseguiu sim, defende-lo das primeiras estacas de terra, aplicando-lhe apenas empurrões. Mas o mago não esperava que a magia de sua oponente fosse tão duradoura. Logo as estacas infinitas começaram a rachar as fortificações de pedra de seu corpo, e já na primeira que encontrou sua pele, Aristarkh teve um surto desesperado.
A primeira estaca que o feriu de verdade o pegou pelas costas. Imediatamente fez Aristarkh cuspir sangue e saliva, além de perder o equilíbrio momentaneamente. Isso fez ele levar dois arranhões um tanto doloridos no rosto, e outro ferimento mais profundo na perna direita. Isso era só uma amostra ambiciosa de uma das magias mais poderosas de Kely, que usava todo o poder terrestre de sua arma mágica.
Como eu já tinha dito, Aristarkh estava em um estado desesperado, então não é de se estranhar que, naquele momento perigoso e sem saída, ele teve a ideia mais absurda que sua mente conseguiu lhe proporcionar. Ele se agachou e mandou toda sua energia mágica restante para sua magia previamente utilizada, para a armadura. Isso a fortificou, mas no fundo, o mago vermelho sabia que isso não seria o suficiente, pois não sabia quanto mais a magia de Kely ficaria ativa. Ou será que ela só “desligaria” depois que o oponente dentro daquele inferno estivesse morto? Quem saberia?
Agachado e fortificado, ainda recebendo uma quantidade infindável de estacas, Aristarkh fez uma coisa que somente magos de níveis mestres conseguem fazer: dividir sua mente em três partições. É fácil explicar o que isso significa. Qualquer pessoa que utiliza qualquer tipo de magia precisa estar concentrada em seu corpo e sua mente, transferir energia mágica e atirar a tal magia. Alguns magos muito bons conseguem fazer duas magias ao mesmo tempo dividindo duas concentrações ao mesmo tempo. Isso, no entanto, não era recomendado, pois pesava a mentalidade, cansava o corpo e a possibilidade de um erro é grande demais.
Mas Aristarkh não estava prestando atenção em consequências. Ele se concentrou totalmente em sua divisão de mentes, ignorando todas as dores das estacas que continuavam lhe atingindo e fazendo o chão embaixo de si se tingir de vermelho vivo. Lentamente ele colocou os dois braços apontados para frente, com as mãos abertas. Três esferas brilharam ao mesmo tempo e se locomoveram até estarem em frente as mãos dele. Foi aqui que sua consciência apagou.
Kely arfava rapidamente, seu corpo completamente encharcado de suor que tinha quase totalmente limpado o sangue que ainda lhe escorria de alguns cortes. Ela finalmente percebeu que não sentia mais nenhum tipo de emanação vindo de dentro de sua magia, e finalmente conseguiu parar de mandar energia para sua arma. Ela a tirou do chão, cancelando de vez sua magia, e seu corpo quase desmaiou também. Cuspiu duas vezes e deu socos no peito, como se tivesse com falta de ar.
Os pilares caíram devagar, se desmanchando em fragmentos de energia e muito, mas muito pó. A nuvem de poeira cobriu todos os três metros dos pilares e se espalhou rapidamente para todas as direções, fazendo ser impossível ver o resultado de dentro daquela cúpula de terra. Pouco a pouco Kely percebeu a quantidade de furos e buracos feitos no chão, a ponto da própria terra ceder em alguns lugares.
— TÉCNICA SECRETA, FÚRIA DE CÉRBERO!
A última coisa que Kely viu foi uma rocha sangrenta com duas toras apontadas para ela. Aristarkh tinha usado tanta energia mágica em sua proteção, que a armadura tinha evoluído em um pedregulho mal lapidado, não deixando nada de humano se visto de longe. Por isso que a mulher não conseguiu reagir quando três orbes de energia, uma negra, uma azul escura e uma vermelha brilharam fortemente, rodearam umas às outras e se fundiram para depois desaparecer.
Três cones de energia mágica pura foram atirados contra Kely. Um era negro, tinha o formato de um dragão escamoso do tipo cobra, com pequenas guaras e um focinho dentado. Outro era azul escuro, e tinha o formato de um turbilhão de água, como se fosse um rodamoinho compactado e esticado. E o último era vermelho vivo, tinha o formato de uma serpente do tipo Naja, completamente incendiada, parecendo consumir tudo ao seu caminho.
Eram três Magias Supremas atiradas ao mesmo tempo. Não se via isso em lugar algum do mundo. Não era um tipo de técnica que se usaria em qualquer situação. Nem nas melhores exibições mundiais se encontrava esse tipo de visão. Isso porque todo tipo de técnica considerada secreta, levava esse dilema a sério. Apenas o oponente que levava a magia em seu corpo tinha um vislumbre de uma técnica secreta, e geralmente, esse oponente não sobrevivia pra contar histórias.
Kely ainda conseguiu ter um tempo de reação ao ver os três cones de energia coloridas. Ela girou sua lança e concentrou energia. Sabia que precisaria utilizar sua outra magia suprema. Ela só poderia utilizar uma magia de cada elemento por vez, então tinha que usar sua magia de trovão. Segurou a lança com as duas mãos em frente ao corpo. Abriu as pernas. Concentrou. A lança brilhou. A parte amarela vibrou. Concentrou ainda mais. Seu corpo tremeu. Estava difícil de respirar. O chão tremeu. Energia aumentou. Mirar e atirar. Mirar e atirar!
— LIBERAÇÃO TOTAL – LANÇ---
Impacto direto. Kely foi atingida em cheio pelas três magias, sem estar em posição defensiva. Simplesmente não houve tempo o suficiente para ela invocar sua outra magia suprema. E isso era devido ao seu cansaço por ter mantido a outra magia por tanto tempo. Foi por pouco, mas em algumas batalhas, um mísero segundo pode custar sua vida.
O estrago foi horrível. O cone dragão negro lhe consumiu completamente o braço esquerdo e parte do peito, levando ossos e carne como se fossem água lavando sujeira. O cone turbilhão de água lhe atingiu na parte da cintura para baixo, lhe quebrando muitos ossos e corroendo boa parte da pele. Já a parte de fogo lhe atingiu a cabeça, pescoço e boa parte dos ombros. O fogo consumiu sua carne rapidamente, lhe deixando sem nenhuma consciência ou sequer, nenhuma vida.
Kely caiu de costas no chão, largando a lança que imediatamente voltou ao seu formato original, não emanando mais nenhuma aura mágica. Ainda havia o barulho da terra sendo mexida, caindo em inúmeras crateras feitas anteriormente. Mas tirando isso, o silêncio abraçou aquele campo de batalha, quase como se ela fosse a juíza que determinasse o vencedor da batalha.
Já Aristarkh, não se mexeu. Nem um centímetro, nem um músculo. Ele tinha realmente desmaiado assim que terminou de dividir sua mente em três, e foi por isso que sua oponente tinha achado ter o derrotado. Não foi possível sentir nada vindo dele. Então como ele atirou sua última magia? Com um comando automático. Deixou um comando no seu subconsciente ligado à sua energia mágica. Assim que a grande quantidade de energia mágica que o atacava cessasse, sua magia deveria ser disparada para onde estava apontada suas mãos. Foi um risco enorme, pois Kely tinha várias formas de se defender... Isso se já não estivesse exausta. Sorte? Pode se dizer que sim. Mas mesmo desmaiado e sem poder usar magias por vários dias, Aristarkh tinha saído vitorioso dessa batalha.
Enquanto os dois antigos amigos conseguiram se afastar um tanto do campo de batalha real onde as tropas dos dois reinos se matavam, Lila e Maraya faziam um verdadeiro inferno lutando entre os soldados. E eu quis dizer literalmente. Elas esbarraram em vários duelos travados por soldados que não esperavam uma interrupção tão abrupta. E não digo só esbarrões: alguns dos golpes das duas garotas chegaram a atingir um ou outro soldado que estava no caminho. As duas não pareceram se importar, mas não por falta de compaixão, e sim, por não terem tempo para baixar a guarda.
Em alguns momentos, os soldados de ambos os lados quiseram se intrometer na luta das duas, e aqui sim foi uma horrível demonstração de desmembramentos e confusão. As duas estavam tão focadas em seu duelo direto, que utilizaram ataques amplos para todos os lados, atingindo inimigos e aliados. Gritos e xingamentos foram o que fizeram muitos soldados entenderem que, o melhor para todos, seria deixar aquelas duas malucas se matando.
Em questão de níveis de força, as duas pareciam extremamente equilibradas. Pareciam ter a mesma velocidade, o que parecia ser um dos maiores atributos de ambas. Suas magias se cancelaram algumas vezes e em questão de força física, as vezes uma empurrava a outra, e depois a outra levava a melhor.
Mesmo com essa igualdade em poder, Maraya parecia estar a levando a melhor por muito pouco, pois ela tinha menos arranhões que Lila. Nenhuma delas parecia estar perto de se cansar ainda, mas elas também tinham conservado muita energia mágica enquanto trocavam golpes. Parecia que uma esperava a outra para saber do que era capaz, para assim poder contra atacar com mais chances de acerto.
— ESPADA ELEMENTAL, FOGO!
Pelo jeito, Lila tinha sido a primeira a querer exibir suas façanhas. Passou um tanto de energia mágica para sua cimitarra e a fez entrar em combustão, espalhando suas chamas que dançavam pela lâmina da arma. Imediatamente depois partiu para o ataque mais uma vez, aplicando um corte diagonal vindo de cima. Maraya o aparou com a ponta tripla de seu tridente, mas logo entendeu que aquilo não poderia se repetir. O impacto mandou fagulhas quentes para seu rosto, atrapalhando sua visão. Foi por isso que ela foi obrigado a recuar.
Mas Lila continuou indo para cima, atacando com ferocidade que era raro ver em uma mulher de seu porte. Uma das coisas que seu pai, mestre do Estilo Hyun-Sung, lhe ensinou, foi que fazer um oponente recuar perante seus ataques poderia criar uma brecha mortal com a falta de equilíbrio ou tropeços.
A garota membro da Immortal Star atacou duas vezes com estocadas rápidas, dois cortes horizontais mirado nas pernas e depois um golpe potente vindo de cima em vertical combinado com uma pirueta para distrair a atenção do oponente. Os primeiros golpes foram facilmente esquivados pela usuária de tridente, usando apenas passos curtos e balanços do corpo. Ela era uma ótima leitora corporal e era difícil fazê-la levantar sua arma para se defender. Mas o último golpe lhe atingiu de raspão, não por causa da tal pirueta, e sim, porque as chamas na espada de Lila tinha atrapalhado a visão na hora da defesa, e isso a fez levar um corte no ombro e um meio desequilíbrio para trás.
— AGORA! ESPADA DE FOGO, CÍRCULO FLAMEJANTE!
Era o que Lila esperava. Ela colocou a mão esquerda na lâmina em chamas e parece “sugar” um pouco do fogo vivo, sem que aquilo lhe queimasse. No próximo segundo, ela faz um movimento aberto de jogar algo, como se tivesse atirando uma shuriken. Mas em vez de uma estrela ninja, um círculo de fogo concentrado foi disparado em direção à Maraya.
Sem equilíbrio e um tanto desnorteada, a membra da Tropa-Ex pareceu... Tranquila. Até chegou a sorrir, na verdade. Ela segurou firmemente sua arma e colocou só um pouco de energia nela. Depois, com a maior leveza e tranquilidade do mundo, aplicou um golpe de ponta contra a roda espiral de fogo que vinha em sua direção. Assim que eles se encontraram, o resultado foi único: a espiral sumiu imediatamente fazendo um “puff”. Não deixou resquícios, nada. O que permaneceu tinha sido a expressão emburrada de Lila.
— Desculpe garota, mas você nunca vai me atingir com essas magias. — disse Maraya, ainda sorridente, e continuou imediatamente depois. — Que aliás, vamos apagar essa sua tocha aí, sim? ENCHARCAR!
O tridente de Maraya brilhou e se tornou azul marinho. Mas não era a coloração que era estranha. Era uma aura que a envolvia, parecendo algum tipo de gosma quase invisível. Alguma coisa viva, parecia. Lila só foi ter uma comparação melhor, a de que se parecia uma “água viva”, depois de Maraya ter partido para cima com tudo.
Foi um ataque de ponta que seria mortal se a garota viciada em doces não tivesse aparado o golpe ainda em seu trajeto. Mas o resultado também não tinha sido favorável. Assim que as duas armas se encontraram, uma cortina de fumaça foi criada no rosto das duas, como se fosse um balde de água sendo jogado em uma lareira.
Lila se afastou para não perder o oponente de vista, mas assim que ficou longe da pequena fumaça esbranquiçada, percebeu que sua espada tinha voltado ao normal. A aura de fogo que a envolvia tinha desaparecido, e a lâmina gotejava, completamente encharcada.
Esse reles segundo de distração foi um tanto fatal. Maraya aproveitou e avançou com dois passos rápidos e silenciosos, aplicando um outro golpe de ponta potente. Para não dizer que Lila tinha sido pega totalmente desprevenida, ela ainda teve tempo para se esquivar para o lado, evitando o impacto direto... Mas uma das pontas do tridente ainda lhe perfurou a lateral da cintura, quase do lado do umbigo. A dor primária não tinha sido tão preocupante. Mas havia algo de errado.
— Mas o que é isso? — perguntou a lutadora da Immortal Star, ao olhar para baixo e ver que o local da ferida estava muito inchado e com uma cor azulada, como se tivesse envenenada. Além disso, ela sentia um “peso” vindo do machucado. Quando o tocou, sentiu também que sua pele estava bem mais frágil ao redor.
— Impressionante, não? — falou Maraya, em tom de superioridade. Ela chegou a empinar um pouco o nariz para falar. — Minha magia cria um tipo de balão de água que infla e expande a pele onde ela acerta. É uma sensação horrível, não acha?
Lila atacou. Foi uma reação um tanto impressionante para alguém que tinha acabado de levar um golpe estranho e que não sabia do efeito em si. Mas Lila era alguém que só compreendia as coisas pela prática. Para ela, aprender teorias mágicas e elementais, ou estratégias complexas de combate não serviam. Ela precisava aprender com o corpo, no calor do momento. Isso lhe causava um bom número de problemas, mas como ela tinha um certo talento para o aprendizado, nunca chegou a ser algo fatal.
Aplicou um golpe potente em forma horizontal, mirando a face da oponente. Nesse primeiro golpe ela já entendeu mais ou menos qual era a desvantagem que trazia aquele ferimento inchado. Seu corpo perde um tanto de equilíbrio por não estar com o peso correto, e os ataques acabam não sendo tão precisos. Foi por isso que Maraya conseguiu defletir esse golpe com mais facilidade.
A garota do tridente aproveitou e aplicou várias combinações diferentes de estocadas. Esquivar e defender tinha sido uma tarefa mais difícil para Lila, principalmente quando uma estocada lhe atingiu no ombro esquerdo e, por causa da mudança de peso dessa nova ferida, outra estocada lhe atingiu a perna do mesmo lado. Cambaleando para trás e depois pulando para sair de perto de sua oponente, Lila começava a ver o verdadeiro terror do poder especial de sua oponente.
Mas como eu disse, Lila aprendia coisas durante o momento, durante a ação. Então ela teve uma ideia tremendamente idiota quando Maraya avançou contra ela mais uma vez. Essa última atacou com uma nova estocada rápida, e em vez de virar o corpo para se esquivar, Lila fez ao contrário. Colocou o peso contra o tridente e cerrou os dentes, tentando aguentar a dor da nova estocada. Maraya ficou paralisada por um segundo, não entendendo o que tinha acontecido.
— ESTILO HYUN-SUNG, RASANTE DO FALCÃO!
Com um pequeno brilhar de sua lâmina, Lila aplicou primeiro um corte vindo de cima para baixo, e antes mesmo do golpe parecer terminar, ela girou a cimitarra na mão e a trouxe de volta para cima, aplicando um novo corte. Como estavam muito próximas uma da outra, Maraya não conseguiu se esquivar dos golpes, sendo atingida duas vezes em seu peito desprotegido e rasgando seu top, quase deixando-a seminua.
— Você se deixou ser atingida de propósito só para me acertar também? Que tipo de estratégia é essa? — perguntou a Soldado da Tropa EX, inconformada. Ela tinha dado alguns passos para trás, mantendo sua mão esquerda no novo ferimento que lhe pintava a pele.
— Será que foi isso? — perguntou Lila, tentando soltar uma risada curta. O que saiu tinha mais tom dolorido do que divertido. Sua expressão exibia mais cansaço do que diversão. — Ou será que eu tenho um plano melhor para te derrotar? Quem sabe? ESPADA ELEMENTAL, VENTO!
Lila puxou sua espada para trás e para baixo, depois mandou energia mágica para lá, fazendo um tufão surgir em volta da lâmina. Não foi só por essa visão, mas assim que a aura de força começou a exalar de todo o corpo de sua oponente, Maraya tirou qualquer dúvida ou planos elaborados de sua mente e se concentrou também. Parecia que agora sim as coisas tinham começado a ficarem sérias.
— ESPADA DE VENTO, CORTE TORNADO!
Ainda mantendo a espada apontada para trás e para o chão, Lila liberou sua energia, mandando o vento ao redor de sua espada se intensificar, criando um verdadeiro tornado atrás de si. Mas ao invés de jogar aquele moinho de vento contra a oponente, o seu próprio corpo foi jogado com uma força impressionante, criando um furacão atrás de si. Assim que chegou perto o suficiente, ela jogou a espada para frente, aplicando um corte junto com o furacão.
— GÊISER PROTETOR!
Maraya girou sua arma até estar com as três pontas viradas para baixo, depois aplicou um golpe para baixo, enterrando não muito profundamente no chão. Depois, arrastou a arma ao redor de seu corpo, criando um círculo. Com um rápido brilho azulado, um gêiser de água quente potente foi aos céus, criando um tipo de barreira natural.
O impacto não chegou a ser explosivo, mas causou um tanto de alvoroço. A ventania mandou água para todos os lados, como se fossem respingos de ácido, já que caíam no chão fazendo aquele barulho “FSSS”, como se algo estivesse sendo corroído. Vendo que o tal gêiser era um tanto poderoso, Lila aumentou sua liberação de energia, criando ainda mais vento e o fazendo girar ainda mais.
O resultado foi que o gêiser não foi o suficiente para defender tanta força de vento e acabou se desfazendo. Mas o tornado também havia sumido, então podia-se considerar um empate em termos mágicos. A diferença era que o golpe com a espada de Lila ainda estava a caminho.
O corte foi certeiro. Diagonal, pegando em cima do ombro esquerdo de Maraya e descendo por seu peito e barriga, até sair no lado direito de sua cintura. A pouca roupa que ela vestia também se foi, deixando-a nua no peito, se você não considerar uma terrível abertura na pele e carne, ensanguentada como um porco abatido. A mulher de tridente não gritou, mas se afogou com saliva enquanto era jogada para trás até cair no chão de costas.
Lila pousou pesadamente no chão, de joelhos, e começou a arfar rapidamente, recuperando o fôlego. Seu corpo estava bem mais pesado do que deveria, mas isso já estava em seus “planos”. Ela não poderia dizer isso para sua oponente, mas tinha levado a última estocada no braço propositalmente, não para poder lhe atingir uma vez, mas sim, para que essa parte equilibrasse o peso do seu lado esquerdo. Então sim, ela usou a magia de sua oponente para equilibrar o próprio corpo que já estava desestabilizado por causa da MESMA magia. Eu disse que Lila não era a pessoa mais inteligente do mundo, mas aprendia as coisas rapidamente no calor do combate.
Maraya girou o corpo para trás e se afastou, dando um pequeno susto na guerreira da Immortal Star. A garota usou o tridente para se apoiar e finalmente ficou de pé, fazendo Lila ignorar as dores e o cansaço e ficar de pé também. Mesmo com um golpe potente e certeiro daqueles, a batalha não parecia ter terminado. Na verdade, para deixar as coisas ainda mais sinistras, Maraya estava com uma expressão contente no rosto.
— Ahahah... — riu Maraya, com a voz entrecortada. Ela não pareceu se incomodar com o fato de estar semi nua ou sangrando perigosamente. — Faz muito tempo que eu não recebo um ataque tão direto assim. Tinha até me esquecido de como é ter dor de verdade.
— Ah, mas você se dá muito crédito! — falou Lila, em tom de escárnio. — Já ouviu falar no ditado que diz: “As cicatrizes são o que fazem um guerreiro experiente de verdade”?
— Acho que temos culturas de guerreiros bem diferentes! — respondeu a guerreira da Tropa EX. Imediatamente depois, começou a concentrar uma grande quantidade de energia mágica ao redor do corpo. — Mas você precisa de uma prova mais sólida do que eu estou falando. BENÇÃO DE POSEIDON!
Maraya segurou sua arma com as duas mãos, em sua frente, deixando as pontas viradas para cima. Era a mesma posição que Kely tinha ficado quando liberou o poder total de sua lança. Nesse caso, o tridente brilhou fortemente, exibindo a luz azul marinho já vista durante esse combate. E foi com isso que ela explicou porque magias de fogo não lhe causavam mal algum.
Seu corpo ficou amolecido. Foi uma transformação estranha para quem assistia, pois deu para ver os membros se deslocarem para o lado que não deveriam. Ela ficou mais magra e mais gorda em questão de milésimos. Sua estrutura corporal lhe deu mais altura e logo depois lhe tornou mais baixa. Isso tudo enquanto infinitas gotas de água caíam pelo chão, e sua pele ia ficando azulada e cada vez mais clara, até se tornar praticamente invisível e intangível.
Ficou ainda pior quando ela começou a “avançar” para cima de Lila, que não sabia o que estava enfrentando. Era como se uma água viva enorme lhe atacasse. O fato de ser difícil de enxerga-la, fez com que Lila não reagisse a tempo o suficiente para escapar do primeiro avanço, sendo atingida novamente no braço esquerdo. Não tinha sido algo sério, mas era um corte a mais para conta.
Lila começou a se mover mais rápido para conseguir deter a nova combinação de ataques de sua oponente. A única coisa que parecia “real” era o tridente, que não tinha mudado de forma, tirando o fato que brilhava em azul sem parar. Foi na arma que Lila se concentrou, mas nem isso a ajudou totalmente. Os movimentos de Maraya se tornaram completamente aleatórios e inconstantes, como as ondas violentas de uma praia do litoral. Isso lhe fez ganhar mais três ferimentos pelo corpo.
Até o momento que ela cansou de se defender e aplicou um golpe certeiro e rápido. Maraya não se esquivou ou aparou o golpe. Na realidade, ela nem sequer tentou fazer uma dessas coisas. A espada de Lila entrou fundo no corpo de sua oponente, espalhando... Água. Não houve resistência que a carne ou ossos dão quando há um golpe dessa magnitude. Lila teve a impressão de estar atacando uma gelatina enorme.
— Agora entende por que eu não sou ferida tão facilmente? — perguntou Maraya, mas foi muito difícil de entende-la. Sua voz parecia vir de alguém que está com uma máscara de gás. — ESTOCADA DO TRITÃO!
Maraya não precisou se afastar para aplicar esse golpe. Ela só puxou sua arma para trás, passando aquela forma estranha que estava no seu corpo para o tridente, que vibrou e se encheu de energia mágica. Lila ainda teve tempo para dar um salto para trás, mas sua oponente foi mais rápida para atacar, criando um tridente de energia azulada cinco vezes maior que sua própria arma e aplicando um golpe para frente com tudo que tinha.
Pular para trás pode ter diminuído o dano inicial, mas a realidade é que o golpe foi certeiro. Lila sentiu uma dor intensa e teve dois ou três segundos de desmaio enquanto voava para quase dez metros de distância, onde só parou porque atingiu dois soldados que avançavam despercebidos. Os três foram ao chão, criando um bolo complexo de pernas, armas e xingamentos.
Os dois soldados se levantaram primeiro. Eram de Riven, por sorte de Lila. Ainda um tanto desnorteados e não entendendo o que tinha acontecido, eles viram a garota jogada no chão, sangrando com ferimentos sérios. Olharam para o outro lado, de onde ela tinha vindo e deram com a visão bizarra do corpo mágico de Maraya se aproximando devagar. Os dois eram espertos o suficiente para saberem quem eram seus aliados e inimigos naquela guerra. Eles juntaram suas armas no chão e ficaram em posição de defesa, completamente desprovidos de sabedoria sobre o que teriam que enfrentar.
— Não... — ouviu-se uma voz atrás dos dois soldados. Uma mão um tanto trêmula tinha segurado a perna de um deles, o fazendo olhar para trás imediatamente. Os dois viram aquela garota machucada se levantar cambaleante e depois cuspir sangue duas vezes. — Não tentem enfrenta-la. — pediu Lila, com uma voz fraca e falando devagar. Um tanto que se apoiando no soldado a sua direita, ela conseguiu ficar de pé, mas em forma corcunda. — Ela é minha oponente até que se dê um resultado claro.
Os dois soldados olharam primeiramente para ela, depois para Maraya, que continuava avançando a passos lentos, e depois um para o outro. Eles tinham expressões confusas, como se um esperasse que o outro respondesse algo que os ajudasse a resolver aquela situação.
— Você não está bem. — falou o soldado à esquerda. Provavelmente tinha sido a coisa mais óbvia que ele tinha dito naquele dia.
— Acredite se quiser... — começou a falar Lila, mas parou e cuspiu no chão de novo. Aproveitou e pegou sua espada também, ficando totalmente ereta por fim. — Eu já estive pior.
Os dois soldados se afastaram, não sabiam se era por respeito ou por medo. Alguma coisa naquele duelo atraia a atenção deles, e não era a visão dos seios nus de Maraya. A atmosfera estava pesada, e estava claro que um encontro poderoso estava preste a acontecer. Os dois tinham suas ordens, mas não conseguiram sair dali.
Lila deu alguns passos cambaleantes para frente, respirando rapidamente. Dores lhe tomavam toda sua mente. A mão que segurava a espada tremia, e ela teve medo de não conseguir aplicar nenhum outro golpe com precisão por causa daquilo. Outra coisa que lhe preocupava era que a maioria de suas técnicas mais poderosas necessitava de muitos movimentos, e ferida do jeito que estava, utilizar tais técnicas só apressaria seu falecimento.
— ESPADA ELEMENTAL, LUZ!
Lila se concentrou e mandou energia mágica para sua espada, que emitiu uma luz forte e brilhante. Depois ficou com uma aura branca e pulsante. Não parecia tão poderosa em primeiro momento. Ela ainda segurava a espada e falava algum tipo de encantamento, mas não dava para ser ouvido. Foi por isso que sua oponente atacou com vontade, sem medo.
— ESTILO HYUN-SUNG, ESPADA BUMERANGUE!
Mas ela não conseguiu dar nem três passos. Lila puxou a espada para trás e depois de mirar bem, a atirou com uma força que esperava ser o suficiente. A espada voou rodopiante em direção à cabeça de Maraya, que parou imediatamente seu avanço e jogou o corpo para o lado. A espada passou voando rápido, sem fazer nenhum outro efeito.
Mas Maraya não era como Lila. Ela não era de esperar as coisas acontecerem na hora. Ela já estava preparada. Olhou para frente e viu que Lila mantinha a mão levantada em sua direção. Ela não ia atirar outra magia... Então provavelmente havia algo a mais naquele arremesso. Foi fácil adivinhar que a espada provavelmente voltaria, tentando lhe pegar desprevenida. Isso não iria acontecer. Virou para trás e preparou o tridente, vendo que tinha acertado em cheio, já que a espada estava voltando ainda mais rápido do que tinha ido.
— Liberar ligamento prévio de energia. — falou Lila, para si mesma. Fechou a mão e imediatamente a abriu de novo, a fazendo brilhar rapidamente. — ESPADA DE LUZ EXPLOSÃO!
Ainda em movimento, a cimitarra giratória brilhou e brilhou, a um ponto tão alto que chegou a explodir. E isso aconteceu a poucos centímetros de distância da face de Maraya. A explosão de luz não era uma magia de dano, então não a feriu. Mas a intenção da magia não era essa. O brilho foi tão intenso, que cegou momentaneamente Maraya. Ela deu três passos errados para trás, levantando o braço nos olhos que ardiam ainda mais que o ferimento em seu peito. Parecia que mesmo depois de ter se tornado naquela forma líquida, ela ainda sentia dores.
A estratégia de Lila foi mais um experimento do que uma tática de batalha. Ela sabia que com aquele corpo, golpes físicos não a afetariam. Mas era impossível ela ficar imune a magias também, a não ser talvez magias do elemento fogo. Por isso ela pensou em atirar a espada. Se ela fosse totalmente imune, nem se daria o trabalho de se esquivar. Mas sua magia era muito simples, então era melhor planejar um passo à frente. Foi por isso que logo depois que ela invocou sua espada de luz, ela colocou mais energia mágica na arma e a ligou em si mesma, para poder atirar outra magia enquanto a espada não estivesse em suas mãos. Mas isso não era tudo.
— INCORPORAÇÃO ELEMENTAL, SOCO TROVÃO!
Então, como eu posso dizer isso de uma forma simples... Lila não invocava elementos somente em sua arma. Ela também poderia invocar em seu próprio corpo, podendo utilizar golpes com elementos. Mas havia um porém: esse tipo de técnica era muito mais difícil de se controlar, pois você tem que literalmente fundir sua pele com o elemento em questão. E Lila ainda não tinha um bom controle disso. Mesmo assim, seu braço direito todo se eletrificou, como se tivesse agarrado um relâmpago com as mãos nuas.
Sem esperar mais outro segundo, Lila correu na direção de sua oponente, engolindo suas dores, e aplicou um potente soco em suas costas, que fez sua mão atravessar aquela geleia líquida que era o corpo de Maraya. Assim que houve o impacto, Maraya soltou o primeiro grito alto de dor, recebendo um choque que não dava para saber de qual intensidade.
Mas mesmo levando aquele choque, a soldado da Tropa EX se virou em um só movimento e aplicou um golpe lateral com seu tridente, jogando Lila para trás. Essa última não foi ferida, mas estava um tanto melindrada. Não imaginava que sua oponente conseguisse aguentar aquele golpe, ou se recuperar tão rápido.
— Você... — começou ela, mas sua voz estava entrecortada e ela fazia puxadas longas de ar. — Pensou bem em usar magias de trovão... Ahahah! — essa risada dela foi bem sinistra, sendo que ela parecia cansada e ferida. Se virou totalmente para Lila e abriu os braços antes de continuar. — Claro que minha água conduziria seu choque! Mas você subestimou minha Benção de Poseidon! Todos os pontos negativos que você pode encontrar, eu já treinei e os superei! Você não tem chances nenhuma contra mim!
— E você fala demais! — praguejou Lila, liberando uma nova onda de energia ao redor do corpo. Se Maraya estava com um sorriso naquele momento, pode acreditar que desapareceu. — Achei que você fosse como eu, que lutaria com tudo do começo ao fim, que aproveitasse cada novo golpe, cada nova investida. Mas parece que você adora se bajular de seus poderes em vez de tentar me derrotar com eles! Deixe de atacar para ferir e me ataque para matar!
Foi uma mudança de atitude deveras repentina. Maraya, que não a conhecia, estranhou a mudança no tom de voz e na dura expressão em seu rosto. Lila parecia ter perdido o cansaço e estava pronta para lutar como se a batalha ainda não tivesse começado. Isso era um sinal perigoso, pois Maraya sabia que sua oponente estava preste a atacar com todo o poder que lhe sobrava.
A realidade era muito mais dura e cruel. Lila fez uma aposta alta falando sua última frase. Ela já estava em suas últimas energias, dores lhe corroendo a consciência e com muitas dificuldades de manter o corpo ereto, pois o peso extra que tinha recebido ainda estava ativo. Ela não aguentaria lutar por muito mais tempo. Por isso quis fazer cabeça de sua oponente, para que ela viesse para cima com tudo de uma só vez. Talvez isso a fizesse ter mais aberturas para atacar, ou talvez ela se cansasse a ponto de perder aquela forma líquida. Eram muitos “talvez”, e por isso que era um risco alto.
Parece que tinha funcionado. Maraya liberou uma poderosa onda de energia mágica ao redor do corpo e girou o tridente, se preparando para fazer uma nova investida. A soldado da Tropa EX se sentiu um tanto insultada pelas palavras de Lila. Nunca tinha enfrentando um oponente que lhe pedisse para vir com tudo para cima. Geralmente seus oponentes pediam clemência e compaixão. Parece que a Immortal Star era realmente uma guilda repleta de loucos que não se importavam com a própria vida. Ela não estava errada.
— ESPADA ELEMENTAL, TROVÃO!
Mais uma vez, Lila passou energia mágica para sua cimitarra e a fez ficar eletrificada, soltando faíscas luminosas a cada balançar da arma. Maraya sorriu e partiu para cima. A mulher de tridente achava graça ao ver que sua oponente tinha decidido continuar lhe atacando com trovão, só por causa do dano previamente causado. A maioria dos seus oponentes lhe atacavam com esse elemento, e foi por isso que ela treino ao extremo pra ficar com uma resistência maior do que o esperado.
Houve uma nova troca de golpes. Alternaram entre ataques e defesas rapidamente, como se nenhuma delas estivesse ferida ou cansada, o que deixou os seus espectadores ainda mais impressionados. Maraya atacou com três estocadas rápidas mirando as pernas, para tirar o movimento de sua oponente, mas Lila conseguiu aparar dois golpes e pular para o lado no último. Depois aplicou uma sequência de cinco cortes com mais velocidade e menos força, para que sua lâmina aplicasse um choque na oponente. Mas Maraya defendeu todos os golpes, sem sofrer quaisquer efeito colateral.
— TURBILHÃO DE PIRANHAS!
— INCORPORAÇÃO ELEMENTAL, CHUTE FURACÃO!
Entre a troca de golpes, Maraya fez um movimento extremamente complicado, jogando o tridente para a mão esquerda e defletindo um golpe de Lila, jogando seu braço para cima e a deixando rapidamente sem defesa. Nisso, ela abriu sua mão e concentrou energia mágica ali, depois disparou um turbilhão em forma de cone de água oceânica. O cone parecia ter serras ao redor dela, enquanto que por dentro, uma mistura uniforme podia ser vista, como se fosse piranhas destruindo uma carniça.
A reação de Lila foi imediata. Passou energia mágica para sua perna esquerda e a fez liberar um tufão de vento, imediatamente se tornando um tornado em volta do membro. Como estavam muito próximas uma da outra, Lila teve que chutar imediatamente, mirando no turbilhão. A ideia não era combate-la, mas sim, mudar sua trajetória.
O resultado não foi exatamente o esperado pelas duas lutadoras. O chute acertou a parte do braço esticado de Maraya, um pouco acima do pulso, o que realmente fez o turbilhão mudar de direção além de lhe danificar um bocado. Mas para isso, a perna de Lila teve que “entrar” dentro daquela magia de água, o que fez o turbilhão corroer boa parte da pele e carne de sua perna. Resultado? Foi um empate, com as duas saindo danificadas.
— ESFERA DE ÁGUA SALGADA!
— ESPADA DE TROVÃO, RELÂMPAGO!
Sem esperar para ver o verdadeiro resultado do primeiro embate, Maraya deu um salto para trás e, assim que caiu no chão, concentrou energia mágica na mão direita, criando um círculo de aura em volta da mesma. Depois, ela fez um movimento de jogar, atirando uma esfera superconcentrada um tanto grande na cor azulada escura. Mas Lila também reagiu rápido, e como não conseguiu sair do lugar onde estava por causa do dano em sua perna, ela concentrou energia ali mesmo e disparou um relâmpago reto e amarelado contra a magia de sua oponente.
Houve mais um embate e mais uma explosão mágica, destruindo partes do chão e fazendo aquela velha fumaça já conhecida. Em termos mágicos, elas pareciam realmente empatadas, já que suas magias se cancelavam todas as vezes. Lila tentava recuperar o fôlego, e colocou a mão no ferimento na perna esquerda, que tremia e sangrava. O problema de enfrente Maraya, era que por causa daquele corpo líquido, não dava para saber o quão ferida ela já estava.
— TRIDENTE VOADOR DE NEREU!
Dessa vez a reação de Lila não tinha sido da mesma velocidade que as anteriores. Parte disso era devido ao fato de que o tridente disparado por Maraya emergiu daquela pequena fumaça criada no encontro das duas magias anteriores. A outra parte, era porque seu corpo estava ficando realmente em seu limite.
Lila moveu a espada para cima, tentando defletir o tridente azulado e carregado de energia. Até conseguiu, mas não tão bem a ponto de sair totalmente ilesa. A arma lhe cortou o ombro direito, e o impulso foi tanto que a fez cair de costas no chão, completamente indefesa. Cansada, machucada e agora sem ar, Lila tentou desesperadamente fazer seu corpo obedecê-la. Tentou se virar e se levantar. Mas Maraya já estava ali.
A mulher aquática pulou no pescoço de Lila, o agarrando com as duas mãos líquidas e, por incrível que pareça, fazendo uma terrível força para esmaga-lo. Imediatamente Lila sentiu como se estivesse debaixo da água, se afogando e sem oxigênio. Seu corpo se debateu e ela tentou afastar Maraya, mas com aquele corpo, nada lhe atingia. Sua consciência estava se esvaindo, parecendo levar seu corpo para as profundezas do mar. Estava ficando escuro. Mas bem pior que isso era que estava ficando frio. Seu corpo parando de funcionar, sua mente falhando. Frio e mais frio, a ponto de dar tremedeiras. Suas mãos estavam afrouxando e sua consciência tinha sumido de vez. Frio. Espere... FRIO!
— INCORPORAÇÃO ELEMENTAL, SOCO CONGELANTE!
Acontecia — e muito, na verdade — em uma luta demorada ou muito destrutiva, do lutador fazer muitos movimentos em um estado inconsciente, ou que o corpo, por pura experiência e costume, age completamente sem a prévia aprovação do cérebro. Essa foi uma dessas vezes, onde Lila soltou a mão esquerda que tentava agarrar inutilmente o corpo da oponente, carregou energia mágica o suficiente e depois aplicou um soco reto e não muito potente e nem tão rápido. Mas o importante é que foi certeiro.
O punho entrou sem nenhuma resistência no estômago de Maraya, que na hora do impacto, não sentiu absolutamente nada. Mas foi apenas no primeiro segundo. Quando sentiu mais de dez mil agulhas lhe perfurar a barriga, ela se debateu sem jeito e caiu no chão, rolando para longe. O local do golpe tinha sido marcado com um círculo azul claro, de onde estava progredindo um tipo de absorção inversa, como se o gelo tivesse tomando conta da água.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Maraya entendeu que se aquilo continuasse, ela viraria uma estátua de gelo para sempre. Então mesmo com a dor absurda que sentia que quase não a deixava se concentrar, ela conseguiu “desligar” sua forma líquida, voltando para seu corpo físico bem treinado e seminu. Mesmo tendo retornado aquela forma, o ferimento era visível, mas não sangrento. Maraya deu dois passos para trás, colocando a mão na barriga e sentindo o frio infernal que aquele ferimento lhe proporcionou. A dor ainda não havia sumido, mas o gelo tinha parado de se alastrar.
— Maldita... MALDITA! — gritou Maraya, que parecia fazer um bom esforço para se manter de pé. — Por que você não desiste logo? Não vê que não possui chances contra mim?
Lila não respondeu, mas não porque não quis. Ela estava tentando se levantar agora, cambaleante. Até mesmo os dois soldados que observavam a luta sabiam que Maraya estava em uma vantagem bem maior. Mas Lila ficou de pé enfim. Respirava ainda mais rápido, tentando tomar o fôlego que tinha perdido. Quase vomitou por causa da ânsia de perder a respiração. Procurou a espada e a encontrou jogada ali perto. Percebeu que não sentia o braço esquerdo. Olhou para ele e viu que estava completamente congelado. Um pós efeito de sua magia não controlada. Olhou para sua oponente. Aquela luta não havia terminado. Ainda não.
— Quem você... pensa que é... — falava Lila, pausadamente enquanto recobrava o fôlego. — Pra decidir... se eu tenho ou não... chances?
— Garota imbecil! — respondeu a outra, claramente mais furiosa do que aparentava. — Você quer uma batalha épica? Quer uma DERROTA sensacional? É isso que você quer? — Maraya fez uma pausa, parecendo esperar por uma resposta. Mas mesmo que Lila conseguisse pensar em uma, ela não tinha fôlego para responder. Isso só fez Maraya se irritar ainda mais e aumentar sua concentração de energia. — Se é isso que você quer, é isso que terá!
Assim que uma aura gigantesca começou a irradiar do corpo de Maraya, o seu tridente, que naquele momento estava um tanto longe por ter sido jogado há poucos segundos atrás, vibrou, foi ao ar e depois partiu de volta para a mão de sua dona. Nada de muito alarde aqui. Manter um “link” mágico com uma arma era uma coisa um tanto básica, e isso é ainda mais normal quando a arma é especial. Isso é ainda mais visível para aqueles que tem golpes onde se “atiram” as armas.
O que foi verdadeiramente alarmante foi o pequeno tremor que pôde ser sentido junto com a liberação espontânea de energia que saia do corpo de Maraya. Ela parecia estar sem dor alguma, transformando tudo em fúria e energia para sua próxima magia. Seus dois braços ficaram azuis, mas não líquidos como antes. O ar tinha dobrado ou triplicado de velocidade, empurrando poeira e criando um pequeno tufão ao redor do campo de batalha. Não foram só os dois soldados espectadores que conseguiram ver e sentir aquilo, já que aquela luta estava bem próxima da batalha total entre os reinos.
Lila juntou a espada e tentou concentrar energia também. Foco na parte do “tentou”. Seu corpo já tinha chegado no limite, e ela sabia que qualquer dano que levasse seria o suficiente para ela desmaiar. Seu cansaço era tanto que um de seus olhos nem abria mais. O mais estranho disso tudo é que a luta não tinha durado tanto, o que só deixava ainda mais claro que o poder de Maraya era terrível. E parecia que poderia ser ainda pior.
O que foi mais estranho, no caso, AINDA mais estranho do que tudo que já aconteceu até agora, foi que assim que Maraya parou de concentrar energia, ela não simplesmente atirou alguma coisa contra Lila. Ela deu um pulo grande para cima, virou a cabeça para baixo e... Entrou no chão. Simples assim. O local onde ela entrou liberou uma ondulação tripla, mas foi só isso que aconteceu.
Não dava para sentir energia alguma e nem sede de sangue ou algo do tipo. Maraya tinha desaparecido no chão como se tivesse pulado de um penhasco diretamente no mar aberto. Mas é claro que ela viria em um ataque. Apareceria com uma magia. Nem precisava ter muita experiência de combate para tal. Até os dois soldados prenderam o ar, esperando pelo ataque.
Mas não Lila. Ela conseguiu concentrar energia mágica pelo corpo, e imediatamente viu que não iria conseguir aplicar seu golpe mais poderoso. Não só pela falta de energia ou exaustão, mas porque ela precisava dos dois braços para executar. Então precisava ser algo que fosse mais fácil para contra-atacar... Seja lá o que viesse em sua direção. Pensou em algumas magias. O elemento gelo foi o mais efetivo contra ela.
O momento decisivo aconteceu, como sempre, em um só instante. Lila percebeu três faixas de linhas azuis se formando em volta dela, em um círculo de mais de dois metros de diâmetro. Por dentro do círculo, tudo ficou azul escuro, e Lila percebeu que aquilo estava a travando, puxando-a para baixo. De novo, aquela sensação de afundar, mas agora era algo mais místico, mágico. Tinha a ver com o golpe de Maraya.
Foi o último pensando rápido de Lila. Depois disso, independente do resultado, ela não teria mais nada para utilizar. Colocou um pouco de energia nas duas pernas. Elas ficaram mais leves. Flexionou-as. Olhou para cima e saltou. Deixou todo o resto de sua energia mágica sair em uma só explosão. Dividiu o melhor que pode entre o corpo e a espada. Golpeou. E ao mesmo tempo, “aquilo” veio.
— Magia Suprema! LIBERAÇÃO DO KRAKEN!
— ESTILO HYUN-SUNG, DIVISOR DE MONTANHAS!
É mais fácil explicar primeiro como era o golpe de Lila, pois era bem mais simples também. Esse golpe fazia tanto seu corpo quanto sua espada se tornarem uma grande lâmina de energia afiada e destrutiva. Quem via de longe, conseguia ver que a aura que os rodeavam fazia o formato de uma espada reta de um só gume. Com o impulso que ela dava para cima antes, o golpe que vinha em vertical, descendo e acelerando, se tornava um corte de uma espada manejada por um gigante.
O problema era que Lila não estava esperando a aparição de um monstro verdadeiramente gigante aparecer do círculo, de baixo para cima, em um bote como se um tubarão saltando atrás de um peixe menor. O monstro era azul, feito de energia. Tinha seis tentáculos iguais ao de um polvo. Cabeça arredondada, mas sem um torso propriamente dito. Era escamoso também. Sua boca poderia engolir facilmente uma carroça, com dentes pontiagudos e saltando para fora, um tanto tortos. Os olhos tinham camadas profundas nas bordas, com a íris amarelada, demoníaca. Não tinha orelhas, mas possuía alguns chifres por cima da cabeça em lugares uniformes. Era uma criatura horrenda.
Não houve encontro de magias em uma grande explosão, como os dois soldados estavam esperando. Na verdade as duas magias entraram uma na outra, uma destruindo os fragmentos de energia da outra. A magia de Lila cortou o meio da cabeça daquela criatura monstruosa, que começou a parti-la ao meio. O problema era o tamanho exorbitante daquilo. Antes mesmo de chegar no meio de sua grande cabeça, os seis tentáculos voaram contra o corpo desprotegido e já cansado de Lila e a acertaram com força total.
Lila foi ainda mais para cima no impacto, fazendo-a se separar de sua cimitarra, que voou para o outro lado. Não que isso fosse de alguma preocupação da guerreira. No momento que recebeu o impacto, seu cérebro decidiu que já era hora de parar por um tempo e apagou completamente todos os sentidos já afetados de seu corpo. Lila voou uns três metros de distância antes de cair no chão pesadamente, rolando uma só vez e parando ali mesmo. Não se mexeu depois disso.
Maraya apareceu no meio do círculo onde estava sua oponente há um segundo atrás. Ela estava de joelhos no chão, e um grande corte lhe varava do topo da cabeça até o meio do torso. Não sentia o nariz, respirava com dificuldade pela boca e não enxergava do olho direito. Sangue pingava em demasiada quantidade, sem parecer ter alguma chance de parar. Mas por mais que sua situação parecesse deplorável, ela estava com um leve sorriso. Olhava para Lila no chão, imóvel. Era isso. Ela não se mexeria mais! A vitória tinha sido alcançada! Não! Ela precisava ter CERTEZA! Maraya deu um passo para frente.
E parou. Os dois soldados que observavam até o presente momento tinham saído de sua pseudo-paralisia causada pelo vislumbre daquela batalha. Os dois, empunhados de suas armas, correram até a frente do corpo imóvel de Lila. Aprontaram suas armas, ficaram em posição de defesa. Seus rostos, por mais suados que tivessem, não pareciam ter dúvidas. Eles iriam lutar.
— Ahahah! — riu Maraya, dolorosamente. — Me impressiona o fato de vocês terem observado o combate sem se intrometerem, assim como ela pediu. São mais honrados do que aparentam. Mas eu vou avisando: não pensem em ficar no meu caminho! — a voz dela ficou um pouco mais potente. Mas não foi o suficiente para fazer qualquer efeito naqueles dois. — Não se intrometam!
— Não há o que se intrometer! — falou um deles, alto o suficiente para ser ouvido. — Você ganhou esse combate! Ela não está nem consciente!
— Cale-se! — ordenou Maraya, raivosamente. Mexeu o braço curtamente. — Ela queria uma batalha até o fim. O “fim” é a morte! Preciso me certificar de entregar isso a ela!
— Não vamos deixa-la morrer! — respondeu o outro, acompanhando o fervor da voz de seu companheiro. — Ela é uma aliada de Riven, que lutou por nós. Se quiser matá-la terá que nos matar primeiro!
Os olhos de Maraya se estreitaram. Ela já estava exausta também, e na verdade, não estava nem se aguentando em pé. Mas ela não poderia se dar ao luxo de demonstrar aquilo. Ela tinha que ter algum plano para amedrontar aqueles soldados. Não importa o quanto queiram parecer valentes, muitos homens fogem do perigo imediato, colocando suas seguranças em primeiro lugar. Mas como ela faria isso se não tinha mais energia mágica sobrando? Talvez com a ajuda de sua arma especial...
— CAPITÃ!
Maraya parou e olhou para trás. Viu um soldado de seu exército correndo ao seu encontro. Era um batedor, um soldado especializado em corrida para passar informações para os esquadrões de maneira mais rápida. Ele estava arfante e machucado, mas nada sério. Parecia um tanto aterrorizado, na verdade.
— Capitã Maraya! Temos novas ordens! Precisamos bater em retirada imediatamente!
— O QUÊ? — perguntou a mulher, gritando. Isso foi um erro, pois seu estômago pareceu puxar uma dor aguda de onde estava congelado. Tentou respirar e falou novamente. — Como assim retirada? Não é possível que nosso exército esteja perdendo para esse bando de frouxos de Riven!
— Não são soldados normais de Riven, Capitã! — apressou em responder o batedor, não querendo aumentar a raiva daquela mulher já cansada. — É aquela tropa que apareceu por último! Eles usam magias poderosas e aniquilaram rapidamente os esquadrões dois à oito. — Maraya esbugalhou os olhos ao ouvir a notícia. — Os remanescentes ou foram capturados, ou fugiram. Eles passaram por nossas defesas e nos separaram, deixando-nos sem escolhas. Precisamos recuar para organizar e montar uma nova frente para atacar. São ordens de nosso General!
Maraya apertou os dentes e xingou mentalmente. Não estava esperando aquela notícia. Quem adivinharia que Riven conseguisse esse tipo de aliado, logo em cima da hora? Da onde diabos aquela tropa destruidora tinha saído? Seu reino tinha todas as informações sobre o exército de Riven, e a única coisa assustadora era a quantidade de soldados, que superava qualquer outro reino. Mas até nisso eles foram superados por causa da aliança.
— Essa garota teve sorte hoje. — falou ela, olhando para os dois soldados, que continuavam preparados. — Ela sairá perdedora, mas como vida. Isso se sobreviver com essa quantidade de ferimentos. — se virou e começou a andar com o batedor, provavelmente voltando para onde suas tropas pretendiam recuar. — Ah! E avisem ela quando acordar: se algum dia nos encontrarmos de novo, eu a atacarei com tudo que tenho logo de início!
Ajudado pelo batedor, a mulher de tridente foi se afastando até ficar difícil de enxerga-la. Só aí que os dois soldados conseguiram relaxar. E mais importante, só agora os dois foram tentar salvar Lila.
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