Notas iniciais
Dois membros da Immortal Star acabam contra a parede contra adversários que exigirão mais do que simplesmente suas vontades de vencer se eles quiserem sair vivos

Talvez seja a primeira vez que eu descrevi uma derrota para o lado da Immortal Star. Infelizmente, minha história não é sobre heróis que sempre conseguem escapar das situações mais complicadas de um jeito verdadeiramente mágico. Não, não. A vida real é muito mais terrível do que os contos de fadas. Nesse mundo, princesas não são salvas e cavaleiros não derrotam dragões assim, sem mais nem menos.

Todos os membros da nossa Guilda em particular estavam passando por poucas e boas. Alguns deles conseguiram sair vitoriosos, mas não ilesos. E até alguns perderam mais do que uma simples batalha. Claro, isso não aconteceu tão cedo. A Guerra em Riven durou muito mais tempo do que deveria, pois batalhas que não deveria ser travadas acabaram aparecendo das sombras que o próprio Reino sequer sabia de sua existência.

Mesmo um certo manipulador das sombras estava com problemas para enxergá-la. E um outro de nossos combatentes estava prestes a não ver mais nada.

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Reita tentava quase inutilmente recuperar o fôlego. Era difícil respirar com sangue travando sua garganta e dor em toda a sua costa. O braço esquerdo dele também tinha começado a doer assim que ele foi jogado naquela maldita barraca de potes. Quando olhou, viu que um caco de porcelana tinha entrado poucos centímetros bem acima do cotovelo. Assim que mexeu o braço, o caco saiu sozinho, mas a dor não.

E por mais que ele estivesse muito ferido, suas percepções ainda estavam ligadas. Ele ouviu passos firmes vindo em sua direção, e não precisava olhar para saber que era sua inimiga. Ela viria para finalizá-lo. E ele não deixaria.

— Parece que você ainda está respirando, soldadinho. — falou Margaret, ainda com fervor em sua voz. Matar aquele homem não aliviaria a dor em seu peito, mas já seria um bom começo.

Essa foi uma hora para ser lembrada pelas futuras gerações. Se existisse um livro chamado "Como escapar de situações perigosas", o ato de Reita deveria estar listado nas primeiras páginas. Vamos começar dizendo que o Caçador não respondeu a óbvia provocação de sua oponente. Antes mesmo dela chegar até perto de onde ele estava caído, Reita já tinha levado sua mão direita até uma bolsa que ficava na lateral de sua cinta de couro e agarrado três objetivos roliços e pequenos. Então assim que Margaret falou, ele apertou os objetos com força e os largou. As esferas cor bege rolaram pelos escombros em direção aos pés da mulher, que percebeu assim que terminou de falar. E então houve a explosão.

Reita tinha se matado? Não, ele não era tão suicida assim. A explosão não tinha sido destrutiva. Foi uma explosão de fumaça. O Caçador não lutava só com seu arco e flecha e sua faca companheira. Em toda missão, ele levava uma série bem específica de itens e objetos mágicos, dependendo da área de sua missão ou do monstro que iria ter que enfrentar. Ele tinha vários tipos de bombas de gás, por exemplo. Uma delas se tratava de um gás de pimenta que seria perfeito nessa situação, mas Reita não teve tempo de mudar de equipamento antes de sair da Base, pois tinha acabado de vir de uma missão.

Mas a fumaça ainda lhe salvou a vida naquele momento. Assim que explodiu e a fumaça cobriu toda aquela área, Margaret deu um salto para trás, tentando sair do meio daquilo. Seus pulmões se encheram com aquele ar poluído e ela teve um ataque de tosse. Ainda daquele jeito, ela manteve o chicote ao seu redor, criando uma área de defesa rápida, para caso aquele maldito lhe atacasse. Mas isso não aconteceu.

Assim que a fumaça começou a dissipar, Margaret viu que seu oponente não estava mais caído naquele local. Ela o procurou com os olhos, sem perder a postura defensiva. Não o encontrou. O maldito era rápido para se esconder! Agora você imagina que ela deve ter ficado uma fera assim como as criaturas que ela controlava, certo? Bom, não aconteceu isso também.

— Acha mesmo que eu vou deixar você escapar depois do que você fez!? — gritou Margaret, ainda com sua voz firme e fervorosa. Ela concentrou energia enquanto mantinha a voz alta. — Pode tentar se esconder o quanto quiser! Mas você NÃO vai escapar das minhas garras! Ou das dele! ABRIR SEGUNDO PORTÃO — WOLFESTEIN!

As magias de uma Mestra das Bestas eram incrivelmente diferentes de qualquer outra classe a não ser, talvez, das dos Magos Invocadores. Primeiro devo lembrá-lo que no início dessa luta, já haviam dois monstros sendo controlados por Margaret, que já haviam sido invocados antes mesmo de toda aquela confusão na cidade se iniciar. Margaret conseguia "guardar" até cinco monstros em um tipo de mundo astral onde eles ficavam em animação suspensa até serem invocados. Ela chamava esse mundo de "Quarto Bestial", que tinham cinco portões.

A mulher chicoteou o chão, mandando uma excessiva quantidade de energia mágica para o local. Dali, um círculo mágico bem peculiar na forma de uma porta dupla apareceu e brilhou intensamente em uma cor arroxeada. O círculo se estendeu de uma maneira de como se as portas estivesses sendo abertas, e dali, uma pessoa surgiu. Sim, não foi um monstro. Foi um ser humano. Um homem magrelo, muito branco, com uma cabeleira lisa e grande, solta e desarrumada, na cor negra. Ele também tinha uma barba de um mendigo que nunca se barbeou na vida. Ele não vestia nada além de um tipo de cueca misturado com panos frontais.

De uma janela em uma casa de dois andares, Reita assistia tudo aquilo de queixo caído. Ah sim, ele não tinha fugido. Ele não podia. Antes de mais nada, não estava enfrentando um inimigo próprio e sim, um inimigo de toda a Guilda. Aquela mulher precisava ser morta antes que pudesse causar ainda mais destruição alheia. Mas aí ela vem e invoca um homem? Não, isso não era possível. Essa classe dela lhe permitia controlar monstros e bestas. Então o que era aquilo? E por que ele estava ficando de quatro?

Margaret chicoteou as costas do magro homem semi nu com vontade, deixando uma clara marca em sua pele branca. Mas o homem não gemeu de dor. Ele gritou com raiva. Mas seu grito era algo totalmente fora desse mundo. Começou em um tom rouco e logo se tornou algo horrível e potente. Mas Reita agradeceria se esse fato fosse a pior coisa que aconteceu.

Assim que gritou, a pele do homem começou a rasgar como se fosse uma camisa velha. Suas costas se abriram, exibindo a pouca carne que ele tinha no corpo. O mais estranho de tudo? Não havia sangue. Acha que consegue ficar mais estranho? A carne do seu corpo estava crescendo como se fosse uma torta no fogão de lenha. A pele dos braços e das pernas também rasgaram da mesma maneira, e seu corpo todo estava aumentando de tamanho. Imediatamente depois, toda aquela carne começou a escurecer e pelos começaram a brotar de todos os lugares, o enchendo completamente. Suas mãos e pés viraram patas com garras brilhantes, sua cabeça se esticou, criando um focinho e dentes pontiagudos e suas orelhas também ficaram grandes e pontudas. Não que a visão já não fosse óbvia, mas ele ainda ficou em pé e deu o maior uivo que Riven já tinha ouvido em todos esses anos.

Não precisou uma nova chicotada para que o Lobisomem entrasse em ação. Ele abaixou a cabeça para o chão e começou a cheirar. A farejar. Reita logo sentiu um frio na espinha. Ele sabia bem o que lhe esperava. O faro de um lobo normal é algo incrível. O faro de um lobo monstro é ainda mais absurdo. Mas o faro de um Lobisomem, uma criatura "não-natural" e com instintos aumentados graças as veias mágicas que corriam por seu corpo, era simplesmente extremo. O monstro levantou as duas orelhas e olhou na direção da casa onde Reita se escondia. Margaret deixou sair um sorriso e daí sim, aplicou mais uma chicotada enviando novas ordens e mais energia.

O que aconteceu a seguir também deveria estar naquele livro de sobrevivência comentado mais cedo, em um capítulo chamado "Nunca espere para ver o que um Lobisomem pode fazer". O monstro se contraiu, apontando sua cabeça para a casa em questão. Reita pensou: "Ele me descobriu! E vai correr até aqui! É melhor eu começar a...". Seu pensamento não foi concluído porque o Lobisomem disparou como um míssil mágico na direção da casa — para ser mais preciso, foi EXATAMENTE como um Míssil Mágico, pois seu corpo estava envolto de uma energia alaranjada e ele voou retamente ao seu objetivo —, destruindo parede, janela e pulando em cima do Caçador ao mesmo tempo.

Reita usou o arco para não deixar o monstro lhe agarrar, então a cena atual era que o Lobisomem estava com as duas patas dianteiras para baixo, forçando o arco de Reita enquanto esse estava caído no chão, de costas. A força do monstro superava a do Caçador, então Reita teve que agir rápido. Aplicou um chute no estômago da criatura e o empurrou com tudo que tinha, fazendo o monstro cair para trás. Ele logo se virou e se levantou, ao mesmo tempo que o Lobisomem também o fez. Os dois se olharam, tentando definir quem era o verdadeiro caçador e quem seria a caça. Como Reita foi o primeiro a correr, foi definido que ele que seria caçado dessa vez.

O Caçador Caçado pulou pela janela do outro lado da casa, quebrando o vidro sem se importar em se cortar. Assim que atingiu o chão em um beco largo atrás da casa, começou sua corrida sem olhar para trás. O que fez bem, pois se ele olhasse, perceberia que o monstro já estava em seu encalço. O Lobisomem tentou cortá-lo com um golpe horizontal com sua afiada garra, mas Reita se jogou para frente, fazendo um movimento inteligente e se virando para o oponente imediatamente. Ele puxou uma flecha e atirou. Mesmo estando tão perto um do outro e a flecha voar em uma velocidade incrível, o Lobisomem simplesmente jogou o corpo para o lado, deixando a flecha passar pacificamente até cair no chão, alguns metros depois. Como dito anteriormente, os instintos dessa criatura era algo que deveria ser temido.

O monstro atacou de novo, com mais ferocidade. Reita jogou o arco para o ombro e puxou sua faca novamente. Ele se esquivou dos dois primeiros ataques e depois defendeu o terceiro. Ou pelo menos ele tentou. O golpe direto do monstro fez o Caçador voar cinco metros para trás, mesmo tendo defendido com sua faca. A diferença de força era algo desvantajoso em uma luta de curta distância.

Assim que Reita se virou para o lado e pensou em correr, o Lobisomem mais uma vez fez aquela investida mágica. Dessa vez, o humano não teve tanta sorte. Reita foi esmagado contra uma parede de alguma coisa que ele não sabia se era uma casa ou um hotel. O ar de seus pulmões mais uma vez se foram, e a dor fez com que ele não aguentasse em pé. Com um joelho no chão e apoiado na parede, ele não pode fazer nada contra a patada de esquerda do Lobisomem, que o cortou das costas até o braço direito.

O membro da Immortal Star foi mais uma vez jogado para longe, quase arrastando pela parede que estava encostado. Reita caiu sem nenhuma reação bem no começo do beco, dando vista para outra rua. Ele tentou se mover, se puxar para frente ou até mesmo se virar, mas foi totalmente inútil. Para começo de conversa, o ferimento do Orc já era sério o suficiente para ele querer correr para uma enfermaria. Imagine ele tentar lutar com aquele ferimento?

Ele sentiu algo pegando sua cabeça, apertando e lhe furando com garras. O Lobisomem o levantou usando apenas uma das patas-mãos, tirando-o do chão e o olhando com curiosidade. Era impossível saber o que se passava na cabeça da criatura. Reita achou que seria algo do tipo "Qual gosto será que ele tem?", já que a próxima ação do monstro foi abocanhar seu pescoço na parte esquerda, perto do ombro.

Reita conseguiu sentir sua vida se esvaindo pouco a pouco. Ele estava tendo uma hemorragia externa bem feia, suas dores estavam começando a sumir — o que, nesse caso, não era um bom sinal — e seus membros estavam trêmulos e um tanto dormentes. Seus olhos estavam se fechando e ele nem conseguiu sentir o cheiro de cachorro molhado que o Lobisomem tinha, mesmo estando "ligados" um ao outro.

Mas algo lhe veio a mente. O único sentimento firme que ele tinha. Além de, claro, querer sobreviver mais um dia. Querer rir das palhaçadas feitas nas refeições da Guilda. Ajudar o pessoal em missões onde ele era a grande estrela. Poder continuar fazendo parte daquela grande família esquisita, onde cada um tinha uma loucura própria. A imagem dos membros da Immortal Star passou por sua cabeça, e ele firmou aquele primeiro sentimento firme que foi dito. O sentimento de saber que ele ainda segurava sua fiel companheira em sua mão direita.

— DESCARNAR!

Reita, com toda a pouca força que lhe restava, atravessou sua faca no peito do Lobisomem e depois deixou sua energia mágica explodir. Assim, ele conseguiu ainda mais força e puxou a faca, ainda dentro do monstro, para baixo. O peito forte da criatura se abriu em carne e sangue espirrou para todos os lados. O Lobisomem soltou Reita, que caiu no chão incrivelmente de pé, ainda que corcunda. O monstro cambaleava para trás, colocando as duas patas no machucado, como se estivesse tentando fechá-lo. Ou seja, ele estava distraído.

— CORTE ELEVADIÇO!

Com a adrenalina ainda ligada, fazendo ele ignorar a maior parte das dores e da falta de sangue, Reita partiu para cima e aplicou um golpe energizado com sua faca. Era um golpe vertical, vindo de baixo para cima. A ideia parecia louca, mas a mira foi perfeita, mesmo naquelas condições. Reita acertou o Lobisomem exatamente no meio de seu focinho, cortando as narinas da criatura. O monstro ganiu alto, mas em contra reação, acertou um poderoso tapa com sua garra no peito do Caçador, o jogando para longe mais uma vez, quase no meio da rua de pedras que ali havia.

Reita caiu no chão rolando, com uma nova dor para lhe preocupar. Mas ele não poderia parar agora. Se ele parasse, se ele esfriasse sua cabeça e suas vontades, seu corpo não lhe obedeceria mais e ele morreria. Ele forçou os braços para se levantar e mesmo se arrastando muito, ele seguiu para o outro lado da rua. Chegou na frente de uma estalagem bem pobre e pequena, que já tinha enfrentado dias melhores. O local estava caindo aos pedaços graças ao ataque de "algo". Não importava. Reita foi até a janela frontal, se abaixou e passou a mão encharcada de sangue no chão de madeira e depois se jogou pela janela.

O Lobisomem estava ainda mais furioso, se é que isso era possível. Ele sangrava pelo peito e pelo focinho, mas não parecia estar ligando. Olhou para os lados e não encontrou sua presa. Mas o humano já deveria saber que era impossível fugir do faro aguçado daquela criatura. Ele começou a farejar e logo viu que tinha dificuldades para tal. Mas ainda sim, o Lobisomem conseguiu se concentrar no cheio de sangue de Reita e encontrou o rastro. Olhou para a janela aberta ao longe e o sangue no chão. Estava na hora de terminar isso.

O monstro destruiu a janela ao passar por ela com um salto furioso. Olhou para os dois lados, procurando aquele que seria sua refeição. A estalagem estava completamente destruída. O balcão estava quebrado ao meio, havia cadeiras de madeira destruídas aleatoriamente pelo salão e uma infinidade de papéis estava jogada para todos os lados. Pratos e copos quebrados também enfeitavam o chão, misturados ao que tinha sobrado do carpete. Mas não havia sinal de Reita. Onde ele estava se escondendo?

O Lobisomem forçou suas narinas a trabalharem, mesmo com toda a dor que isso lhe causava. O cheiro vinha da direita. Deu dois passos para essa direção e viu uma escada ao longe, que levava para cima. Mesmo estando um pouco escuro, o monstro conseguiu visualizar sangue espalhado nos degraus e no corrimão da escada. Ele rosnou baixinho e partiu para lá.

Foi subindo lentamente as escadas, fazendo a madeira ranger sob suas patas traseiras. Ele cheirava o ar e cheirava o chão. O humano tinha acabado de passar por ali. No segundo andar, havia apenas um corredor e três portas. Uma delas, a mais próxima, estava fechada. Uma outra estava totalmente destruída, com escombros bloqueando a passagem. E a última, mais ao fundo, estava escancarada. E o rastro de sangue ia para lá. Tal qual iria o monstro também.

Era um quarto de hospedes. Havia uma cama de solteiro no canto direito, um criado-mudo ao seu lado e um roupeiro de duas portas ao lado do que já havia sido uma janela. Dessa vez, o monstro nem precisaria usar seu faro para encontrar sua presa, já que tinha um claro rastro de sangue indo para o roupeiro. Além disso, havia uma marca de mão ensanguentada na maçaneta. Se o Lobisomem pudesse raciocinar melhor, ele estaria pensando em como o humano era estúpido, querendo se esconder dentro de uma coisa frágil de se destruir. Mas tudo o que o monstro pensava era "Hora do lanche".

Sem perder tempo, o Lobisomem partiu para cima e aplicou um golpe potente e reto exatamente no meio do roupeiro. Iria querer empalar o humano e retirá-lo de lá com violência. Com sua bruta força, a pata do monstro ultrapassou o roupeiro por inteiro, não mostrando resistência nenhuma. Só havia um problema: Reita não estava lá.

Fazer armadilhas mágicas era uma coisa relativamente simples e não consumia muita energia. O que você precisava se focar era como fazer seu inimigo cair nela. Agora quando se trata em armadilhas práticas e mentais, você precisa realmente de muita experiência para saber como começá-la e como fazê-la funcionar. A ideia de Reita foi brilhante. Depois de cortar o nariz do monstro, ele sabia que seu faro seria severamente afetado. Então ele criou uma "armadilha visual" para atrair o monstro. Usou seu sangue para marcar um caminho óbvio para onde ele iria. O Caçador sabia que o cheiro do seu sangue ainda poderia ser sentido pela criatura, pois era algo que o monstro tinha não só em sua mente, como em sua garganta.

O que fazer com essa combinação? Ele correu para a primeira construção com mais de um andar e usando todo seu esforço para não desmaiar, marcou seu caminho e foi para o andar superior. Encontrou um cômodo que tinha uma janela que dava para a rua onde ele tinha acabado de sair e encontrou algo perfeito: um roupeiro onde ele, teoricamente, caberia dentro. Então ele usou seu sangue lá, fazendo outro caminho óbvio. Mas ele não estava lá. Onde ele estava então?

Reita caiu pesadamente no chão, na frente da porta. Ele estava pendurado bem na entrada da porta, usando sua faca encravada na madeira e apoiando os pés nas bordas não destruídas da mesma. Inteligente? Talvez. Maluco? Com toda certeza. O Lobisomem olhou para trás, com a pata direita ainda trancada no roupeiro, e vislumbrou o moribundo sanguinolento vir em sua direção com energia mágica intensa saindo de seu corpo.

— IMPULSO BESTIAL!

Com energia envolta por todo o corpo, Reita correu segurando a faca com as duas mãos, usando toda a firmeza que conseguia em suas condições. Sem poder se mover muito, o Lobisomem foi acertado com um golpe de ponta nas costas, que o fez ganir baixinho. Mas isso não foi tudo. Essa magia de Reita era do tipo impacto, então com a corrida e o impulso, o Caçador bateu com tudo no grande corpo da criatura e a jogou para fora do cômodo, pela janela já destruída. Claro que Reita foi junto, com sua faca ainda enterrada no corpo do monstro.

Os dois caíram pesadamente no chão, bem na frente da janela que eles tinham passado para entrar no estabelecimento. Reita não se machucou, pois usou o corpo do Lobisomem para amortecer sua queda. Já a criatura não teve maneira alguma de sair ileso dessa, e ficou sem ar assim que bateu no chão. E não acabava por aqui.

— ARMADILHA DE ESTACAS!

Você lembra bem que eu falei que, quando Reita ia pular a janela do estabelecimento ele se abaixou e passou a mão encharcada de sangue no chão de madeira? Pois então, aquilo não tinha sido só para atrair a atenção do monstro. Ele tinha marcado o local, colocando um tantinho de energia mágica ali. Ele tinha feito a armadilha final.

Assim que invocou sua magia, depois de sair de cima do monstro, um buraco grande o suficiente para o Lobisomem cair se abriu bem debaixo dele. Não era muito fundo e nem precisava. Mas no buraco haviam várias estacas extremamente pontudas e afiadas de madeira, que atravessaram a grande criatura por todo o corpo. O Lobisomem ainda tentou gritar, mas sua garganta já estava cheia do seu próprio sangue, e sua vida foi rapidamente sumindo desse mundo.

Não muito longe dali, uma certa Manipuladora de Criaturas Horripilantes tinha acabado de sentir um raio por sua alma. Duas lágrimas surgiram sem controle e pingaram no chão aos seus pés. Margaret podia sentir a vida de suas bestas invocadas. Ela sabia que seu Lobisomem tinha acabado de ser assassinado. Mas ela não queria acreditar.

Ela começou a correr na direção de onde tinha vindo o raio, o sentimento de dor e a aura de morte. As lágrimas continuavam a cair enquanto ela chamava o nome da besta em um baixo tom. Quase tropeçou quando desceu uma calçada de pedra. Continuou correndo e virou uma esquina, que dava para a rua onde tudo tinha acabado. Não viu o Lobisomem e também não viu o Caçador. Mas ela viu outra coisa.

Algo veio rolando e bateu em seu pé direito. Era uma esfera ligeiramente grande e negra. Pelo menos pareceu isso à primeira vista. Assim que ela olhou para baixo, começou a tremer. Se abaixou bem devagar e pegou aquela coisa. Era peluda. Tinha sangue escorrendo dela. Virou ainda mais devagar. Encontrou um focinho cortado. Olhos esbugalhados e uma língua para fora. Mais lágrimas escorreram e o desespero lhe consumiu.

Wolfestein era sua criatura mais querida. Ninguém jamais entenderia a relação que os dois tinham. Não era nada parecido com algo de "Mestra e Servo". Não. Wolfestein era seu amado esposo. Na verdade, já tinha sido o esposo. Antes de virar uma besta controlada por Margaret, Wolfestein era um mago com uma curiosidade perigosa e vontades suspeitas. Um dia, ele teve uma ideia de uma certa magia que poderia mudar o mundo. Ele pediu que Margaret lhe deixasse com uma de suas bestas, um grande lobo negro e fez uma experiência de "absorção de vida". O homem sugou a criatura para dentro de si, se fundindo totalmente a ela. Isso fez ele virar um Lobisomem, uma criatura que já existia no mundo. A diferença era que Wolfestein conseguia controlar perfeitamente sua forma bestial e conseguia voltar a sua forma humana quando quisesse. Ou seja, o experimento tinha sido um grande sucesso.

Ou pensou ele, antes de certas contrações começarem a aparecer. Ele estava usando bastante sua forma em muitos combates — Wolfestein era o Líder da War Dogs, então estava tendo muitos trabalhos com a guilda —, talvez por isso demorou para perceber. Mas ele estava perdendo sua humanidade a cada nova transformação. Começou a perder os costumes que tinha antes, e ficava cada vez mais difícil de sequer falar. Até um dia que ele se transformou para batalhar e finalmente perdeu o controle por completo. Daí ele começou a atacar seus companheiros e antes que esses mesmos o matassem, Margaret o "capturou" e o fez uma de suas bestas. A tristeza que a mulher sentiu naquele dia ela nunca mais esqueceria e muitas vezes ela tem pesadelos com isso.

E é por esse motivo que ela caiu de joelhos no chão sujo, chorando sem parar com a cabeça de seu amado nos braços. Ela sentiu algo estranho assim que agarrou aquilo, mas não estava ligando. Ela desistiu do mundo todo para poder salvá-lo e continuar vivendo com ele, mas até isso aquele miserável da Immortal Star lhe tirou! Enquanto chorava, a raiva começou a tomar conta. Apertou ainda mais forte a cabeça em seus braços, ignorando o sangue que lhe pintava as roupas. Onde estava? Onde tinha se metido aquele maldito, desgraçado que não merecia mais viver nesse mundo?

— MARCA DA ATRAÇÃO!

Margaret não ouviu o clamar da magia de Reita. A cabeça do Lobisomem brilhou não muito forte e emanou energia que não era dela. O brilho acinzentado passou para as mãos da mulher e depois para todo seu corpo. Como se acordada de um transe, a Mestra das Bestas começou a raciocinar rápido. Ela tinha comedito um erro fatal. Estava no meio de um combate e tinha se desligado do mundo a sua volta para chorar. E nem percebeu que aquela cabeça estava banhada em energia mágica do seu inimigo.

— CHUVA DE FLECHAS!

Antes de mais nada, você precisa entender que meu conto não é e nunca será algo heroico e vislumbrante. Nem todas as batalhas que eu descreverei serão coisas épicas que devem ser lembradas pela sua grande duração ou uso perfeito de magias e incríveis feitos. Em algumas vezes, os lutadores simplesmente escolhem a maneira mais rápida e mortal para ganhar a luta. Como foi dessa vez.

Reita disparou uma flecha super energizada para cima, na direção de sua oponente. A flecha voou alto, e quando atingiu sua altura pré-estabelecida, brilhou e criou outras dezenas de flechas magicamente, todas apontadas para baixo. Geralmente, essa magia era utilizada para atingir uma grande área e vários inimigos. Mas quando Reita combinava essa magia com sua "Marca da Atração", que era uma magia que fazia com que toda outra magia utilizada seguisse magicamente para o ponto marcado sem nem precisar mirar, a Chuva de Flechas virava uma magia assassina do tipo torrente.

Sem nem poder pensar direito, Margaret começou a ser trovejada por uma infinidade de flechas mágicas que atravessaram todo o seu corpo, da cabeça aos pés. Foi horrível de se ver. Uma das primeiras flechas lhe atravessou o olho esquerdo saindo por trás de sua cabeça, e é bem possível que só essa flecha em si tenha tirado a vida da mulher. Essa foi a Chuva de Flechas mais potente e mais raivosa que Reita jamais tinha lançado.

Como eu disse, nem toda luta foi bonita e grandiosa, ou muito longa e cheia de reviravoltas. Em um outro universo, talvez essa luta teria sido maior, com Margaret invocando sua criatura mais poderosa, que se tratava de um Rei Lich do Abismo, uma criatura lendária e única no mundo com um poder avassalador. Mas ela subestimou seu oponente e cometeu outro erro gravíssimo durante sua luta. Tudo que Reita fez foi aproveitar essa oportunidade.

Que por falar no nosso Caçador destemido e totalmente maltratado e fisicamente morrendo, ele dava passos vagarosos em direção ao resto de carne e ossos que tinha ficado sua oponente. Ele chegou ao lado daquela pilha de sangue e a chutou. Isso era para saber se ela realmente estava morta, além de, claro, descontar sua raiva na maldita que quase o matou.

Reita não aguentava mais, mesmo parecendo que ele estava lutando com força total. Ele tinha utilizado até mesmo suas forças reservas e que iria lhe deixar de cama por muitos dias. Ele deu mais alguns passos em direção ao norte. Queria voltar para a Base. Saber como estavam as coisas por lá. Mas depois do décimo passo, ele foi ao chão, completamente exausto. Suas costas tinham voltado a doer agora que a adrenalina começou a sumir. Ele tentou se arrastar no chão, mas seus braços não tinham mais forças.

— Cara, você ta um trapo.

A voz parecia vir de todos os lados. Reita tentou virar a cabeça para o lado, mas mesmo depois de conseguir esse feito com muito esforço, não conseguiu ver ninguém. E é bom possível que ele não conseguisse mesmo que alguém estivesse bem na frente de seu rosto, já que sua visão estava turva e ele estava prestes a desmaiar.

— Pare de falar bobagem e me ajude a levantá-lo!

Dessa vez, a voz parecia mais suave e o Caçador conseguiu saber que vinha de sua esquerda. Alguém pegou seu braço com muito cuidado e, com ajuda de alguma outra pessoa, o levantou bem devagar. Reita sabia que haviam duas pessoas que acabaram de passar os braços dele por seus pescoços, no intuito de levá-lo para algum lugar. As dores ainda comiam a maior parte de consciência, mas ele poderia jurar que reconhecia as vozes.

— Quem...

— Não fale, Reita. — disse a voz mais suave. Agora que ele estava mais próximo, sabia que era uma voz feminina e delicada. — Poupe suas energias.

— É! Não vai morrer nos meus braços. Isso não é nada romântico!

Reita se virou para a direita. Aquela voz irritante era impossível de não ser reconhecida. Mas será mesmo? "Ele" era para estar em uma missão no extremo oeste do mundo! O que estava fazendo ali?

— Lelouch? — arriscou Reita.

— Capitão Lelouch pra você! — respondeu o Atirador de Elite, sorrindo. — Não se esqueça que você ainda é um subordinado do meu esquadrão e eu demando respeito!

Reita não conseguiu responder. As dores eram demais. Mas por algum motivo, ele conseguiu relaxar o corpo. Seus olhos se fecharam e sua cabeça pendeu para frente, deixando-o totalmente desmaiado. O que era uma pena, pois sua maior vontade naquele momento era xingar seu Capitão da melhor maneira que poderia.

Uma explosão de energia destruiu completamente um lampião que ficava pendurado na parede da bifurcação tripla. Shiro manejou sua arma com força e atingiu a arma mágica de Leon, que não aguentou o impacto e foi jogado dois metros para trás, arrastando os pés no chão, sem se machucar. O maldito tinha feito aquela arma de energia assim que Shiro invocou sua arma mágica e isso só deixava o ninja ainda mais furioso.

Os dois já estavam trocando golpes faz quase cinco minutos, mas nenhum dos dois tinha causado algum dano relevante um no outro. Os corredores e as paredes por onde passaram sim, tiveram uma grande quantidade de cortes e arranhões e destruição aleatória. Carpete rasgados, velas destruídas, quadros quebrados e até mesmo uma estátua do Segundo Rei de Riven não saiu ilesa do embate dos dois guerreiros fervorosos.

Shiro pulou na parede e impulsionou as pernas para pegar ainda mais velocidade em um ataque frontal. Leon, ainda sorrindo, virou a espada e defendeu o golpe, deixando as duas armas soltarem faíscas mágicas que dançaram livremente pelo ar. Assim que o ninja caiu do chão, Leon virou com um golpe horizontal curto e rápido. Shiro se jogou para frente e se virou, ficando de pé logo em seguida. Não podia dar um segundo de chance para aquele cara.

— Tem certeza que não quer reconsiderar a minha oferta e me acompanhar até meu quarto? — perguntou o General, lambendo os lábios muito vagarosamente.

— Quantas vezes eu vou ter que te mandar para o inferno, Leon? — respondeu Shiro, em forma de pergunta. Ele também usou essa oportunidade para concentrar energia. — MERGULHO DAS SOMBRAS!

Shiro utilizou a sombra que uma das velas pregadas na parede ao lado fazia e sumiu da vista de Leon. O sorriso do General se desfez enquanto seus olhos e seus sentidos aumentavam ao máximo para saber onde seu oponente iria aparecer. Mas assim que ele percebeu uma coisinha, ele voltou a sorrir e concentrar energia mágica.

O ninja saiu em cima dele, onde também havia uma vela criando uma sombra pela parede. Era uma oportunidade perfeita, pois não havia muito espaço naquele corredor para que o General pudesse se esquivar ou correr. Mas ele não "precisava" disso.

— MERGULHO DAS SOMBRAS!

Leon sumiu assim que Shiro terminou de manejar sua espada em seu golpe diagonal potente. O maldito tinha acabado de copiar a técnica de seu oponente e entrado na sombra aos seus pés. Shiro caiu no chão de joelhos, quase sem equilíbrio e com certeza, sem ter o que comentar. Já era horrível ter que aguentar as cantadas do General. Mas tudo piorava quando ele utilizava as suas técnicas contra você. E fazia tudo achando a maior graça.

Leon apareceu no mesmo ponto onde o próprio Shiro tinha acabado de aparecer. Ou seja, as mesmas regras de não ter muito espaço para se esquivar ou defender também estavam sendo aplicadas ao ninja. O General desceu com um potente corte impactante vindo de cima e tudo que Shiro pôde fazer foi se atirar para trás. Mas isso não fez ele fugir totalmente do golpe, saindo com um novo corte no braço esquerdo.

Era uma batalha complicada para Shiro. Por mais que ele era muito bom em batalhar em lugares pequenos e apertados, onde suas habilidades de assassinato ganhavam maestria, ele estava enfrentando alguém que conseguia ler cada movimento seu e ainda o imitava com as mesmas magias. Leon também era um oponente assustador em manejo de armas e movimentação de corpo, já que sua magia exigia que seu conhecimento de artes, magias e armas exigia que ele treinasse de infinitas maneiras para estar preparado para qualquer oponente. Ele não tinha se tornado um General do maior exército do mundo por coincidência.

— SHURIKEN DAS SOMBRAS!

Mas ainda sim, ele precisava ter alguma fraqueza. Ninguém era tão perfeito e nenhuma magia era tão absoluta que não pudesse ser contra-atacada. Shiro só precisava descobrir isso. De preferência, antes que ele mesmo seja derrotado e levado para o quarto de Leon para sei lá o que. Era melhor não tentar adivinhar. Shiro puxou uma shuriken de sua bolsa na traseira de sua cinta e concentrou um pouco de energia nela. Mirou bem e atirou. Não parecia, mas o ninja já estava começando a ter ideias.

— SHURIKEN DAS SOMBRAS!

Leon simplesmente fez o mesmo. Concentrou energia, colocou a mão para trás e logo se criou uma estrela ninja feita totalmente de energia enegrecida. Mirou no mesmo ângulo que Shiro e atirou com força. As duas shurikens se encontraram no meio do caminho e outra pequena explosão de energia aconteceu. Leon riu da falha tentativa de seu oponente de lhe acertar com uma magia tão simples. A essa altura, ele já deveria saber que Leon utiliza menos energia mágica do que o oponente para criar a mesma magia. Mas então veio a dor.

Leon olhou para baixo e viu uma shuriken encrava em sua coxa da perna esquerda. Olhou para frente e percebeu o sorriso do ninja. Quando isso aconteceu? Shiro não era rápido o suficiente para atirar aquela estrela ninja sem que Leon visse. Ah não ser...

— Gostou, né putão? — perguntou Shiro, não abaixando a guarda e elevando ainda mais sua energia mágica. — Melhor se acostumar logo com essa dor. Ela é só a primeira que você sentirá!

Shiro tinha uma teoria que fazia sentido, mas ele precisaria testá-la para não cometer erros de iniciantes mais tarde. A Classe Perdida de Leon era algo realmente assustador e qualquer oponente que lhe enfrentasse precisaria ser muito cauteloso se quisesse sair com vida. Mas como ele tinha pensado antes, ela não era "divina". Shiro não sabia que Leon utilizava menos energia que seus oponentes para fazer uma magia do mesmo nível — que cá entre nós, acaba sendo uma forma de luta apelativa em um duelo direto de magias —, mas tinha descoberto algo bem óbvio. Leon só conseguia copiar coisas banhadas de energia mágica.

Teoricamente falando, é uma coisa extremamente simples. Se alguém consegue descobrir essa "falha" em sua classe, esse alguém consegue mudar completamente a maré durante o combate. Então porque o General nunca tinha sofrido uma derrota antes? Isso era porque Leon não dava TEMPO para seus oponentes descobrirem tal coisa. Leon era muito bom em pressionar psicologicamente os oponentes, fazendo-os atacar com todas as forças e todas as magias o mais cedo possível, os levando a própria morte.

Era hora de fazer um contra-ataque realmente efetivo. Shiro deixou escapar um sorriso ao movimentar a espada e depois correr novamente em direção ao seu oponente. Ele precisava jogar da mesma forma que Leon. O General, por sua vez, estreitou os olhos e demonstrou mais seriedade pela situação. O ninja deixou bem óbvio que tinha ficado confiante demais.

Um novo encontro das duas armas mágicas aconteceu. Um barulhento tilintar de ferro ecoou pelos corredores largos do Castelo Real, que parecia mais abandonado do que jamais esteve. Shiro atacou rapidamente com sua ninja blade, não deixando espaço para Leon contra-atacar imediatamente. Mesmo com a incrível velocidade do ninja, era ainda mais impressionante que o General conseguisse acompanhar perfeitamente suas trocas de passos e ângulos.

Mas Shiro não ficou só naquela velha troca de balanços rápidos. Ele começou a concentrar muita energia mágica, só que dessa vez, sem parar de atacar. Leon logo deixou sua energia fluir para fora do corpo, esperando se proteger de alguma coisa. Inicialmente, estranhou que a energia que emanava de Shiro não estava aumentando nem sua força e nem sua velocidade de ataque. Então o óbvio era que ele atirasse alguma nova magia.

— RAJADA DE SHURIKENS!

Como resposta para sua dúvida, Shiro deu um não tão longo salto para trás e colocou as duas mãos para trás, passando toda aquela grande quantidade de energia para lá. Leon copiou o movimento, já concentrado em sua magia espelhar. Sem mais delongas, o ninja movimentou as duas mãos para frente, atirando uma densa quantidade de shurikens mortais na direção de seu oponente. Diferente de sua outra magia, que investia a estrela ninja em trevas para deixá-la menos visível, essa magia se focava na quantidade atirada, pura e simples.

Leon também copiou o movimento dos braços de Shiro e atirou aquela mesma quantidade de shurikens contra a magia que vinha em sua direção. Um encontro impactante aconteceu entre os dois lutadores, com vários barulhos de diferentes tons. Shurikens batendo no teto, no chão, na parede e até mesmo algumas que passaram pelos lados dos dois atiradores. Ficou evidente que as magias tinham se cancelado. Mas alguém saiu vitorioso daquela disputa.

Leon caiu com o joelho no chão, levando a mão no lado direito do peito. Havia uma kunai presa lá, enterrada não muito fundo. Olhou para baixo e viu também outras duas kunais em seu corpo, uma no braço direito e outra na coxa da perna esquerda. Olhou para frente. Encontrou o sorriso de Shiro, contente que seu plano tinha dado certo.

— Esper... tinho...

Ele tinha entendido o plano. Shiro havia o enganado com aquela emanação grandiosa de energia mágica. Ele fez parecer que iria usar uma magia poderosa no intuito de acertar o Mímico, mas sua verdadeira intenção era atirar algumas kunais sem energia junto das shurikens, as camuflando. Ele tinha descoberto que Leon não poderia copiar coisas sem energia mágica. Leon queria sorrir, mas a dor não deixou.

E nem Shiro. O ninja pegou impulso e voltou a correr com tudo na direção do seu oponente machucado. Quanto mais tempo aquela luta durasse, mais desvantagens ele ganharia. Aquilo precisava ser encerrado logo. Então estava na hora de testar outra teoria.

Shiro pulou e desceu deixando seu braço para cima, preparando um golpe vertical com sua espada mágica que havia sido copiada descaradamente. Leon iria pagar por aquilo, e seria agora. Então, o General, ainda caído e tentando se recuperar das dores que não eram tão fortes assim, levantou sua espada copiada para se defender do golpe. Mas aí veio o tal plano: Shiro, em pleno ar, desfez o encantamento da arma e a fez desaparecer em um portal negro. No mesmo instante, a espada copiada desapareceu da mão de Leon, que não teve nem tempo de fazer uma careta de indignado.

Em vez de descer com a espada, Shiro desceu com um poderoso soco que atingiu com tudo a face de seu oponente. O corpo de Leon voou para trás, dando um giro completo no ar antes de cair pesadamente no chão de pedra. O General se virou e tentou levantar, mas enquanto ainda estava agachado, Shiro deu dois passos para frente e aplicou um chute em seu estômago, fazendo-o ir ainda mais para trás. Leon cuspiu saliva e sangue, perdendo quase todo o ar que tinha nos pulmões. Rolou mais uma vez para longe e encontrou uma parede, que usou para tentar se levantar novamente. Mas Shiro não iria deixar aquela oportunidade passar barato. Se aproximou novamente e aplicou uma combinação com três socos potentes e depois um chute giratório que atingiu a cabeça de seu oponente.

Leon foi ao chão e não se mexeu mais. Ele parecia desmaiado, e para ter certeza absoluta desse fato, Shiro virou o corpo dele usando os pés. Ele não se mexeu mais, mas sua respiração ainda era existente. Assim era melhor. Era a chance que ele precisava para escapar dali e ir avisar a Guilda o mais rápido possível. Alguma coisa sinistra estava sendo tramada contra eles, e no meio de toda essa Guerra, era bem possível que a Guilda acabasse sendo completamente aniquilada. Se virou e começou a andar para o outro lado do corredor.

Emanação. Perigo. Respiração forte. O ninja parou. Mais especificamente falando, ele congelou. Suor começou a descer de seu rosto enquanto suas mãos tremiam. O que era aquilo? Ele havia sido envolvido por uma aura assassina extremamente grande, algo que ele não sentia desde que enfrentou Mana no Coliseu.

Tentou se virar. Era de Leon que toda aquela energia estava emanando, ele sabia. Mas ele não estava desmaiado? Como ele conseguiu acordar tão depressa? Não importava agora. Virou. Leon não estava lá.

— REFLEXO DA MEMÓRIA — TELETRANSPORTE!

Shiro recebeu o mais poderoso soco no meio das costas de toda sua vida. Seu corpo voou para cima como se fosse feito de papel. Bateu no teto e depois no chão, fazendo um barulho nada belo de ossos quebrando. Quando parou no chão ralado e quebrado, Shiro começou a tossir violentamente, com a boca cheia de sangue. Sua cabeça estava completamente zonza e sua consciência parecia querer apagar.

O que, em nome de tudo que é mais sagrado, tinha acontecido? Era essa a pergunta que fazia Shiro. Claro que havia alguns palavrões aí no meio, mas não mudava o sentido. Com muito esforço, ele levantou a cabeça e olhou para frente, encontrando Leon em pé, respirando muito rapidamente. Os dois trocaram olhares intensos, só que dessa vez, os olhos de Leon estavam cheios de ódio.

— Você quase me pegou de jeito. — começou Leon, falando entrecortado por causa da respiração. Não dava para saber se ele estava mais cansado pelos golpes que tinha recebido ou pela sua última magia, que poderia ter consumido bastante energia mágica. — Me deixou impressionado com seu pensamento rápido em desfazer a sua arma! — ele bateu duas palmas curtas e depois abriu os braços. — Realmente você é forte o suficiente para me deixar excitado! Mas você passou um pouco dos limites, meu caro. Me fez usar meu trunfo, coisa que me desgasta muito. Esse é outro motivo pela qual tenho que te parabenizar.

— Ahh... Ahhh!

Shiro tentou falar, mas não conseguiu. Sua garganta ardia e estava com um gosto horrível de sangue. Ele tentou se mexer, mas uma fisgada forte em seu abdômen o fez manter de cara no chão.

— Você deve estar se perguntando como eu fiz para chegar atrás de você tão imediatamente, certo? — falou Leon, começando a andar na direção do ninja caído. — Você subestimou minha Classe. Achou mesmo que tudo o que eu podia fazer era copiar as magias que eram invocadas na minha frente? — ele parou há poucos metros de distância, encarando Shiro nos olhos. — Eu tenho um truque, que é uma habilidade especial da minha classe. Eu a chamo de "Reflexo da Memória". — Leon se agachou, parecendo se deliciar com a expressão dolorida de Shiro. — Eu posso escolher três magias que eu tenha visto e "gravar" na minha mente para poder usar quando eu quiser. Eu posso substituir essas magias por qualquer outra nova que eu tenha visto, mas eu só escolho as magias que mais me beneficiariam em um combate, pois elas consomem muito mais energia mágica do que as cópias. — Leon levou a mão até a cabeça de Shiro e começou a afagar sua cabeça, deixando o ninja ainda mais louco do que já estava. — E então, o que achou?

— Vai tomar no...

O ninja não conseguiu terminar a frase, mas não exatamente porque sentiu mais dores gritantes de seu corpo. Ele estava furioso com sua própria decisão de não ter finalizado o General de uma vez. Isso se dava por dois motivos claros: primeiro porque Shiro não era um Assassino. Ele já havia matado algumas pessoas, mas era tudo parte de missões. Nunca assassinou a sangue frio e nunca machucou inocentes. Por mais que fosse brincalhão, ele sempre levou seu trabalho a sério e mantinha um certo código de honra pessoal.

O segundo motivo e muito mais importante, foi porque assassinar um General do Exército Real de Riven, enquanto está acontecendo uma guerra na própria cidade e, acima disso, com o fato de que sua Guilda já estava sendo acusada injustamente, só iria deixar a situação catastrófica. Chegava a ser incrível o fato de que o ninja falastrão conseguiu pensar nisso tudo em tão pouco tempo.

— MERGULHO DAS SOMBRAS!

Como dito antes, Shiro não parou seu xingamento pela metade simplesmente por causa das dores. Não. Ele tinha acabado de descobrir outra coisa bem interessante sobre o poder de Leon. Havia uma outra grande desvantagem em suas magias de cópia, mas o General parecia estar escondendo esse fato muito bem. Leon reagiu rápido com a emanação de energia de seu oponente, mas mesmo tentando agarrá-lo enquanto ele afundava no chão em sua própria sombra, Shiro conseguiu desaparecer. Leon arranhou o chão com raiva por ter amolecido e achado que o ninja estava fora de luta.

Ele virou para trás, de onde estava vindo outra aura forte. Shiro estava encostado na parede, em pé. Na verdade, ele conseguia ficar em pé exatamente por causa da parede, onde seu corpo estava encostado. Ele estava concentrando mais energia mágica do que antes, então mesmo que sua situação parecesse de uma pessoa no pé na cova, aquela emanação ainda fazia Leon levantar sua aura de defesa.

— MERGULHO DAS SOMBRAS!

Leon se decepcionou no mesmo instante que viu qual a magia que Shiro estava utilizando. Toda aquela "cara de mal", toda aquela pose e toda aquela emanação de energia para usar a mesma magia que usou desde o começo da luta? Shiro não era burro, ele sabia que aquela magia não iria funcionar nele. Então por que se arriscar? Aquilo era um plano! Leon afastou as pernas e se preparou para contra-atacar. Dessa vez, ele teria certeza de encerrar a luta de uma vez por todas.

O que Shiro fez foi uma ideia meio maluca, mas que ele já viu sendo utilizada e com sucesso. Mas ele não era tão bom quanto Leon em copiar técnicas de outras pessoas. Em situações de emergência, as pessoas conseguem se adaptar as mais tensas e loucas ações. Depois de invocar sua magia, a mão e o braço direito do ninja entraram na parede em suas costas, por sua própria sombra. Leon começou a concentrar energia. Sabia que ele iria aparecer ali por perto, provavelmente por trás. A única coisa estranha que ele conseguiu de imediato, foi o fato de que Shiro estava demorando demais para fazer a "travessia".

— KUNAI DA IMOBILIZAÇÃO!

Leon sentiu um choque estático percorrer todo seu corpo. Isso foi a última coisa que sentiu antes de ficar completamente paralisado da cintura para baixo. Ele olhou para baixo e forçou as pernas, mas elas não respondiam. Deu umas fortes pancadas nas duas pernas e mesmo assim não as sentiu. Um pouco desesperado, começou a procurar ao seu redor o que poderia ter acontecido, e foi quando percebeu que havia uma kunai enterrada no chão, bem atrás de seu pé esquerdo, onde fazia uma pequena e fraca sombra. Depois, olhou novamente para Shiro, que permanecia no mesmo lugar, sem ter feito nenhum movimento. Pelo menos nenhum movimento que ele tenha enxergado.

— Suas magias de cópias podem ser poderosas e você conserva mais energia mágica do que seus oponentes. — começou a dizer Shiro, tentando não dar atenção à sua costela que latejada. — Mas além de você não poder copiar coisas que não usem energia mágica, eu também percebi que você não pode imitar algo que não consegue ver!

Leon mordeu o próprio lábio enquanto ouvia. Aquele era realmente uma desvantagens de sua Classe Perdida, só que até agora, só duas pessoas tinham sobrevivido o suficiente em uma luta contra ele para descobrirem esse feito. Além disso, era difícil se ter um duelo frente a frente e não mostrar o que você está fazendo. Apenas magias do tipo armadilha ou rituais feitos com antecedência eram um problema para Leon. Ainda sim, ele sempre saia vitorioso por causa das suas investidas rápidas e melhor conservação de energia. Então o que havia dado errado agora?

— Pela sua cara, você nem viu que eu coloquei propositalmente só o meu braço dentro do meu Mergulho das Sombras e o fiz aparecer atrás de você, com uma kunai já energizada. — Shiro se empurrou da parede, ficando em pé por conta própria. Afastou as pernas e começou a concentrar energia novamente. — O erro de você ter me deixado vivo por tempo demais será o último que você cometerá, seu merda! POÇA DAS AGULHAS NEGRAS!

Lembra daquele pensamento sobre não matar Leon para que a Guilda não acabasse sendo alvo de algo realmente concreto que a tornaria inimiga de todo o Reino? Bom, Shiro bloqueou aquilo da sua mente. Agora só permanecia o desejo de vingança. A sede de sangue. A vontade de acabar com tudo. E claro que ele usaria uma magia que faria bom uso do fato de que Leon não poderia se mexer.

A sombra debaixo do General se amplificou magicamente e com um leve tremido, várias estacas negras feitas de sombras vivas emergiram rapidamente, crescendo quase dois metros do chão. A ideia era que, mesmo que Leon copiasse essa magia, ele não poderia evitá-la. E Shiro, mesmo naquele estado deplorável, ainda poderia tentar se esquivar.

— REFLEXO DA MEMÓRIA — CORPO FANTASMAGÓRICO!

As estacas subiram de todos os lados e ângulos e deveriam ter feito uma peneira humana do corpo de Leon... Mas nenhuma das estacas lhe atingiram. Elas simplesmente passaram por seu corpo, como se ele não existisse. Ele ficou quase invisível e por um momento, Shiro achou que ele tinha teletransportado de novo, mas assim que as estacas sumiram, o corpo do General voltou a ficar vívido. Shiro ficou boquiaberto, que era tudo que conseguia fazer naquele momento.

— Parece que você tem uma memória muito curta, meu caro ninja. — disse Leon, usando mais energia envolta de seu corpo para se livrar do aprisionamento daquela kunai em seus pés. Assim que a magia do oponente desapareceu em um brilho fosco, Leon começou a andar na direção de Shiro novamente. — Eu lhe disse que não importa o que você tente, não vai adiantar contra alguém que vive no campo de batalha e respira lutas. Eu já copiei milhares de magias e já observei o dobro disso. Seja lá qual estratégia você queira usar contra mim, vai acabar sendo inútil. — Shiro respirava rápido, coisa que não conseguia esconder de Leon. O General sorriu mais uma vez, mas não parou de andar. — Essa é sua última chance. Renda-se imediatamente!

— Porra, mas tu é chato mesmo! — Shiro começou a dar passos em direção a Leon, o que deixou o Mímico Batalhador totalmente pasmo. Era incrível que ele pudesse se mexer com algumas costelas quebradas. — Essa luta não vai acabar em rendição para nenhum dos lados. Só vai existir um resultado, que é eu vitorioso e você, morto para caralho! BURACO NEGRO!

Quando os dois estavam menos de dois metros de distância entre um e outro, Shiro simplesmente fez sua aura explodir e usou uma magia em sua frente. É muito importante resaltar que o ninja não tinha muito mais energia mágica sobrando, e ele sabia que mesmo que ele utilizasse uma grandiosa magia frontal contra Leon, ela acabaria sendo copiada. Então era melhor usar uma magia que ou seria difícil de copiar, ou em uma situação sem sentido. Shiro optou pela segunda opção.

A esfera negra cresceu exponencialmente e começou a sugar tudo o que havia ao redor. Isso incluía os dois lutadores. A força do vento que puxava era algo aterrorizante, e Leon sabia que não tinha forças para escapar daquilo por estar perto demais. Ele olhou par ao centro da esfera, que parecia levar para o nada. Parecia um convite para o submundo. Se é que isso existisse. Uma coisa era certa: Shiro descobriria se existia ou não... Já que o ninja foi puxado para dentro da própria magia, desaparecendo completamente da visão de Leon.

— REFLEXO DA MEMÓRIA — TELETRANSPORTE!

Foi um ato desesperador, mas era a única coisa que lhe salvaria. Ele não acreditou que o ninja tinha usado uma magia para se matar junto com o oponente. A visão de Shiro sendo sugado com tudo para a infinidade daquele buraco negro fez todos os pelos do corpo do General se enrijecerem, deixando sua mente em caos. Mas mesmo quase sem energia e a um passo da loucura, Leon não iria aceitar morrer ali naquele lugar. Ele usou o que tinha de energia e se teletransportou para trás, quase batendo com as costas na parede no final do corredor.

O buraco negro terminou de puxar quadros, tapete, velas, pó e seja mais o que havia ali naquele corredor largo. Depois, inflou como se fosse um balão e desapareceu em uma implosão rápida e nada espalhafatosa. Tudo o que restaram foram o silêncio e a escuridão. Leon permaneceu no mesmo lugar, respirando rápido para retomar o fôlego. Ele não via Shiro. Nem o sentia aos arredores. Não era possível. Ele realmente tinha escolhido o suicídio? Tudo isso para quê? Não se entregar? Não se desonrar? Ou era porque ele tinha medo de revelar informações sobre sua Guilda? Leon conhecia algumas pessoas fanáticas que eram capazes de dar suas vidas para proteger seus amigos e familiares, mas aquilo era ridículo!

Uma dor aguda atingiu os sentidos de Leon como uma picada de abelha debaixo da unha. Seus olhos arregalaram e sua boca se abriu, derramando um pouco de sangue. Ele permaneceu em pé, reto. Mas seu corpo não obedeceu qualquer outra ordem. Só sua cabeça, que pendeu lentamente, fazendo seus olhos alcançarem a origem da dor. Havia um tipo de ponta de lâmina curta saindo do lado esquerdo do seu peito.

— MORRE DE UMA VEZ, SEU PUTO!

Shiro colocou o pé nas costas de Leon e o chutou com a força que lhe restava, ao mesmo tempo em que puxava sua kunai de volta para si, que estava enterrada nas costas do homem. Leon caiu de cara no chão, dando vários espasmos e sangrando para sua morte. Shiro poderia não ser da Classe dos Assassinos, mas conhecia anatomia humana bem o suficiente para acertar o coração de alguém atacando por trás.

— Co... mo...?

A voz de Leon saiu muito baixa, mas Shiro, que permanecia do lado do seu corpo que esvaia o líquido da vida, conseguiu ouvir. Era interessante como algumas pessoas agiam perante sua inevitável morte. Algumas tentavam falar para a pessoa amada o quanto estava apaixonado. Outros pediam para entregar mensagens para seus amigos ou parentes. Mas tudo que Leon queria saber era "como". Talvez por respeito ou falta de opções, Shiro respondeu.

— Eu usei o Mergulho das Sombras enquanto era sugado pelo meu Buraco Negro. — dizia Shiro, enquanto se abaixava com a kunai ensanguentada em mãos. — Eu não sabia se você iria perceber minha emanação extra de energia ou se ia se focar em se livrar da minha magia. Para minha sorte, seu instinto de sobrevivência falou mais alto, e você deve ter se esgotado para conseguir se teletransportar novamente. Foi por isso que não percebeu eu reaparecendo nas suas costas e nem meu ataque final. — Shiro levantou a mão, fazendo mira. — Quando você chegar no inferno, tente encoxar o Diabo!

A kunai desceu forte na nuca do General desprotegido, passando por sua garganta e retirando o pouco de vida que lhe restava. Shiro se levantou, e ainda sentindo um ódio que não conseguia explicar, cuspiu em cima de Leon. Fazia muitos anos que ele não sentia tal angústia por alguém.

A encrenca que a Guilda iria se meter com a morte de um General de Riven poderia esperar. Primeiramente, Shiro precisava dar um jeito de não mudar o resultado de seu combate para "empate". A dor nas costas eram mais irritantes do que as cantadas de Leon. O ninja da Immortal Star cambaleou até a parede e a usou como um tipo de apoio para sair daquele corredor destruído e escuro.

Agora vinha a questão mais importante de todas: o que fazer? Leon tinha dito que haviam soldados a postos em todas as saídas do Castelo, e mesmo que não houvessem, como ele passaria pela quantidade absurda de tropas que estavam de prontidão na área em frente ao portão? Pular os muros? Isso só seria possível se ele estivesse em condições normais. Machucado daquele jeito, era capaz de Shiro tropeçar até mesmo na calçada da rua.

Enquanto caminhava lentamente apoiado na parede, Shiro percebeu uma coisa que não fazia sentido: o Castelo estava vazio. Ele tinha visto uma grande quantidade de soldados lá fora, mas era para se imaginar que a correria dentro do Castelo também fosse grande. Mas mesmo depois de virar alguns corredores e até mesmo descer uma escadaria longa, Shiro não encontrou ninguém. Outra coisa importante resaltar era que, no atual momento, o ninja estava completamente perdido.

E ainda ficava pior: ele chegou a um corredor que dava em... nada. Aquilo era ainda mais estranho. Quando ele invadiu o Castelo Real junto com seus ex colegas da White Lotus, há alguns meses atrás, ele havia decorado o mapa interior que haviam lhe dado. Mas ele lembrava que o Castelo tinha vários andares até mesmo subterrâneos, coisa que como ele não usaria, decidiu não memorizar. Ótima hora para se culpar pela própria preguiça.

Ele se encostou na parede da esquerda e começou a descansar. Aquilo deveria ser um labirinto. Se não, qual o sentido de um corredor acabar em nada? Não haviam portas, não haviam janelas e nem mesmo marcações nas paredes. Mas foi então que o corpo de Shiro cedeu para trás e caiu rolando uma escada. Cansado, machucado e sem poder se segurar em nada, Shiro só foi parar de rolar quando atingiu o chão plano.

Ele levantou xingando qualquer coisa que pudesse. As dores pioraram e agora ele se sentia enjoado. Da onde tinha vindo aquela escada? Era de uma parede secreta? O que estava acontecendo ali? Cuspiu no chão de metal. Espere. Metal? O ninja, tentando se livrar da tonteira, começou a dar alguns passos para frente. Ele tinha parado em um cômodo quadrado, não muito mais que cinco metros quadrados. Mas estava muito bem iluminado. O chão e as paredes eram de metal, e o teto estava repleto de... canos? O que era aquilo?

Havia uma porta no outro lado. Era grande e dupla, também de metal. Com seu cuidado padrão como invasor, Shiro se aproximou e levou a mão na maçaneta, fazendo de tudo para não fazer barulho. A porta era bem pesada, fazendo o ninja a puxar com as duas mãos. Depois de aberta, ele foi recebido com um barulho repetitivo que parecia vir de todos os lugares. A porta dava para um novo corredor completamente metalizado e muito comprido. Mas bem na sua frente, presa na parede, havia um tipo de mapa. Shiro foi analisá-lo e não conseguiu acreditar. Havia vários cômodos, todos marcados com nomes e para que serviam. Era fácil entender onde ele tinha vindo parar. Só não era fácil acreditar que aquele lugar existia.

— O que um Laboratório de Pesquisa Arcana está fazendo debaixo do Castelo Real?

Muito longe dali, mais especificamente no Alto Acampamento das Tropas de Semangard e de seus aliados, havia sim, muita correria. Os batalhões dos feridos haviam acabado de chegar e a situação parecia realmente assustadora. Não que isso não era uma visão normal para uma Guerra.

Era o que pensava o Marechal Teodorus Lux Indigar VII, o soldado vivo mais antigo do Exército Real daquele Reino. Com seus quase setenta anos, pode-se dizer que ele já tinha visto de tudo em um campo de batalha. Já passou por experiências horríveis, já perdeu entes queridos, já teve que lutar contra sede e fome e já teve até que executar pessoas que ele mesmo considerava inocente. Seus anos de vida lhe pesavam agora. Vestindo sua farda verde e preta, com todas as medalhas e condecorações no peito, ele conseguia sentir que não estava mais apto para aguentar toda aquela pressão. Ele deveria ter se aposentado, mas sua teimosia e insistência de seu Rei fizeram aquele homem se manter nas linhas de frente.

Teodorus tinha acabado de chegar no grande acampamento e a primeira coisa que foram as inúmeras macas e médicos gritando uns com os outros. Não era uma visão muito animadora, mas como já dito, o Marechal já tinha passado por muita coisa, então ele sabia como era estar no lado da maca e "na" maca. Além disso, sua preocupação era o que iria acontecer daqui pra frente.

— Marechal! — disse um soldado, que parecia de patente maior, se aproximando do homem e fazendo uma continência. — Aqui estão os dados que conseguimos do primeiro avanço.

O cansado, mas ativo Marechal deu uma olhada nas três folhas amareladas que foram entregues a ele. Não passou muito tempo lendo. O trabalho dele não era entender cada número que ali estava escrito. Ele só precisava entender o resumo geral de quantidade de perdas dos dois lados daquela guerra.

— São números muito grandes, Capitão. — respondeu Teodorus, com sua voz forte e expressão séria. Ele balançou a cabeça negativamente. — Não acredito que perdemos tantos homens mesmo tendo um grande número de aliados.

— Nosso inimigo nunca poderia ter sido subestimado, senhor. Estamos falando de Riven. As bordas de defesa daquele Reino continuam sendo imponentes.

— Imponentes sim, mas não indestrutíveis. — respondeu o Marechal, andando lado a lado com o Capitão a caminho de uma tenda grande e retangular. Os dois homens entraram e foram recebidos respeitosamente pelos outros sete homens que já estavam lá. Assim que o Marechal ordenou o descanso, ele voltou a falar. — Senhores! Mesmo com um grande número de baixas, parece que nossa investida está mesmo fazendo efeito. Mesmo Riven não pode aguentar por muito mais tempo quando o resto das tropas de nossos reinos se unirem e marcharem para uma investida total.

— Nossas tropas chegarão aos portões do oeste de Riven daqui a menos de uma hora. — disse um dos homens sentados mais a esquerda da grande mesa que havia no meio da tenda e que havia um grande mapa e muitos marcadores. Esse homem estava com um brasão de uma das famílias reais da cidade de Gaim. — É possível que algumas tropas sejam realocadas para lá, deixando a próxima investida frontal mais tranquila.

— Eu gostaria muito de acreditar nisso, Lorde Gouro. — disse um outro homem, sentado do outro lado da mesa. Ele era alto, loiro, olhos azuis claros e com um sorriso que assustaria qualquer criança. Vestia uma farda formal do exército cor azul marinho e riscava a mesa com uma faca de combate. — Mas nossa última investida acabou sendo uma falha graças a um reforço rápido que Riven conseguiu.

— Reforço? — perguntou Teodorus, que não estava sabendo dessa nova informação. — De quantos homens estamos falando?

— Um só. — respondeu aquele mesmo homem loiro, com seu sorriso maléfico. Ele era Douglas Skeadi, General da Primeira Brigada de Lazetna. Extremamente famoso por liderar seus homens lutando na frente deles, mas ainda mais famoso por seu instinto animalesco e sanguinolento. Ele viu que sua resposta deixou os outros homens sérios, achando que ele estava de brincadeira. — Estamos falando de um membro da Planetarium. Ele saiu dos muros da Capital e causou um verdadeiro caos assim que pisou no campo de batalha.

Não importava de qual parte do mundo você era. Se você estivesse envolvido com assuntos políticos ou com o exército de qualquer reino, você tinha o dever de saber o que era a Planetarium. A força dos seus membros era algo realmente fora de compreensão, e eles eram a principal preocupação dessa fronte formada contra Riven. Eles sabiam que os membros dessa organização estariam lá para defender a Capital. Mas até mesmo isso estava "dentro dos planos".

— Eles apareceram cedo, mas isso também pode ser usado como vantagem para nós. — disse Teodorus, atraindo a atenção para si novamente. — Está na hora de usarmos nossa arma secreta e irmos para a verdadeira batalha que dará um fim nessa guerra!

Notas finais
E no próximo capítulo, uma nova onda de ataque ameaça a total destruição de Riven.