Imagine Se...
4 O lado bom de ser invisível... Ou não.
Notas iniciais
No dia seguinte eu estava exausta, capengando, babando, fui me arrastando para a escola.
Na escola entrei como se nada tivesse acontecido e acho que todos tiveram o mesmo pensamento pois ninguém encarava ou cochichavam entre si. Entrei ao som de The Wretched — Attack! Attack! e fui direto para um canto no fim do pátio, longe de todo o drama, peguei meu livro " O Apanhador de Sonhos " e comecei a ler, a parte em que eu estava começara a ficar interessante.
Enquanto eu lia, alguém se sentou ao meu lado, eu não me importei e continuei lendo. A tal pessoa se aproximou mais e mais até colar em mim e fui obrigada a olhar. Era Juliana, uma garota que estudava na mesma sala que eu desde a oitava série, nunca conversamos, até aquele momento.
– Você é Alice né? — Ela perguntou olhando fixamente nos meus olhos, o que me deixou sem graça.
– Depende do que se trata — Eu respondi bem séria.
– Eu sei que é você — ela revirou os olhos — É o seguinte, me encontra atrás da escola no fim das aulas, tenho uma coisa pra você.
– Como você sabe que eu vou gostar?
– Não tem como não gostar.
– O que é?
– Não posso falar, tudo que eu posso revelar é que você vai estranhar a primeira vista mas depois não vai mais esquecer. — Ela disse isso e saiu.
O sinal tocou e eu fui pra minha aula de Química, que infelizmente a sala era organizada em duplas, ou seja, algum miserável sentaria comigo, não tinha escapatória pois a sala tem o número de carteiras o mesmo número de alunos.
Como previ, o babaca foi o Pedro. Ele entrou, me olhou e fez um sorrisinho de " Oi-como-você-tá?!-se-você-não-se-importa-eu-esqueci-de-tudo-que-aconteceu-entre-a-gente", sentou e abriu o livro. Eu por minha vez, não me manifestei sobre a presença dele, o que eu acho que o incomodou porque ele ficou me encarando, ele sabe que eu odeio isso e eu me manifesto à encaradas.
– O que é que você quer pelo amor de Deus?! — Eu disse olhando para o teto como se fosse implorar algo à Deus.
– Conversar. — Ele respondeu apoiando a cabela na mão e me olhando com a maior tranquilidade do universo.
– Na aula de química?
– Na aula de química, na aula de matemática, na aula de literatura, em qualquer hora e qualquer lugar — Ele disse como se estivesse se declarando o que foi muito constrangedor porque ele disse aquilo um pouco alto perante a sala que estava por completo calada, ou seja, todos olharam.
– E por que você acha que eu vou confiar em você?
– Porque nós somos melhores amigos desde a quarta série.
– Nós ÉRAMOS. Até você se rebelar um canalha.
– Sobre isso quero conversar também.
– Não tem nada pra conversar sobre isso. — Eu disse num tom mais alto.
Nesse momento a professora se aproximou com um pedaço de papel e disse:
– Que bom que vocês já resolveram, agora contem as novidades à diretora. — Me entregou o papel e nos mandou para a diretoria por " conversa e distração durante a aula ".
No caminho ele começou com o papo de arrependimento e perdão. Falou que fez aquilo porque queria "me proteger" porque sabia que a Gabriela e sua turma não me deixariam em paz se nós andássemos juntos na sétima série. AH, CLARO, ELE TENTOU ME PROTEGER...
– Mesmo? — Eu perguntei fazendo uma cara de admiração
– Sim — E ele respondeu com cara de Super-Herói
– Então, vem cá e deixa eu te contar um segredo — Eu puxei ele mais perto para que pudesse me escutar — NÃO FUNCIONOU, SEU TROUXA.
Depois daquele grito no pé do ouvido ele ficou quieto o resto do trajeto.
A diretora apenas fez um comunicado para nossos pais e queria-o assinado no dia seguinte, que esse era o primeiro mas que o terceiro viria junto com uma convocação.
Voltamos para a aula, ele não falou nada, nem mesmo respirou com a boca aberta. Achei aquilo legal pois eu ainda o odiava.
Nada surpreendente aconteceu o resto do dia. Quando estava saindo me lembrei que tinha combinado de encontrar a Juliana atrás da escola. Quando cheguei, ela estava lá como o prometido, ela e mais 5 garotos e 2 meninas.
– Achei que não viria — Ela disse abrindo os braços de " Poxa vida hein, Wow "
– Eu cumpro com o que falo -Eu respondi, não gostando nada, nada daquele mistério.
– É essa daí? — Um garoto musculoso, de barba mal feita e touca perguntou para Juliana, eu conhecia ele (de vista), era um tal que Marcos, do terceiro ano.
– É. — Juliana respondeu subitamente
– Do que vocês estão falando? — Eu já estava assustada
– Relaxa... É tipo um acordo. — Quem disse isso foi um tal de Cristian, do segundo ano, eu sabia quem ele era porque as vezes ele arrumava umas encrencas com outros garotos, inclusive com o Pedro o ano passado.
– Que tipo de acordo? — Eu fiquei desconfiada
– É o seguinte, tu tem que manter sigilo total, tu foi a escolhida e deve se sentir privilegiada — Juliana disse isso num tom de superioridade, como se um chefe estivesse falando com suas serventes — Nós precisamos de uma garota no bando e você é a que mais se encaixa no perfil.
– O que é? — Eu já estava morrendo de curiosidade — Parem com esse suspense!
– Nós te escolhemos pra ser nossa vendedora e você pode ter tudo que quiser, dinheiro, pessoas ao seu redor, comparsas e até um pouco da mercadoria se você se agradar mas isso não significa que você não vai pagar se isso acontecer.
– Que mercadoria? Que mercadoria eu vou vender?
– Ah para, você é tão idiota assim? — Juliana falou revirando os olhos. — Drogas né sua anta. Maconha, pó, lança-perfume, sacou?
– E se eu recusar? — Eu meio que me apavorei então minha voz falhou.
– Você é furada — Cristian disse, pegou um canivete do bolso e apontou pra mim- Mas sabemos que você não é tão estúpida de recusar, até porque, você não tem nada a perder, vai ganhar tudo que sempre quis: Dinheiro, bajuladores, um grupo (nós) e um pouco dos "baguio" pra você.
– Eu não sei, não sei como fazer isso, não conheço ninguém, e se alguém me pegar? — Eu tremia
– Nós falaremos pros nossos compradores que tu tem mercadoria também e quanto ao ser pega, aí você tem que aprender a ser esperta — Marcos disse se levantando de um bloco em que estava sentado. — Primeiro você tem que sentir a coisa. — Me entregou um pedaço de papel enrolado em folhas de uma planta amassadas, picotadas? Não sei bem mas reconheci como maconha. — Toma, fuma essa aqui.
– Eu não...
– Pega! — Ele estendeu o braço e me obrigou a aceitar aquilo. Enquanto eu levantava as mãos para afastar as deles de perto de mim, Cristian chegou perto com aquele canivete e encostou na minha bochecha. Eu imediatamente peguei o "cigarrinho".
– Eu não sei como fazer isso!
– Tem a primeira vez pra tudo. — Marcos acendeu o meu cigarrinho e eu coloquei na boca, traguei um pouco, aquela fumaça desceu pela minha garganta e meus olhos começaram a lacrimejar e eu imediatamente tossi. — Isso mesmo, até que não foi tão ruim assim.
Eu fumei aquele cigarro de maconha e eles me entregaram um pacote cheio daqueles iguais ao meu e Juliana disse:
– Você começa amanhã.
Eu me virei para ir embora mas me lembrei de uma coisa, já que eu estava sendo obrigada a fazer aquilo, tinha pelo menos o direito de esclarecer uma dúvida:
– Juliana, por que vocês escolheram a mim?
– Porque você é invisível — Ela respondeu e eu segui meu caminho para casa.
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