Notas iniciais
Olá, meu povo :3 Quero pedir desculpas pelo sumiço, mas minha aula começou a pouco tempo na faculdade e já estou cheia de trabalhos e provas. Quase não tenho tempo para respirar, mas vou tentar (e me esforçar) para, pelo menos, colocar os capítulos no final de semana. Graças à isso, resolvi fazer um capítulo especial. Um não, dois. Sobre as personagens principais, para que vocês possam conhecê-las melhor. Para esse capítulo, tenho uma música especial: Let Me Hear You Scream - Ozzy Osbourne. O link vai estar nas notas finais. Boa leitura :3

FLASHBACKMODE ON.

A cidade estava completamente alvoroçada, já que era o dia do baile de formatura da maior escola das localidades.

Bairros movimentados, limusines luxuosas, meninas maquiadas e garotos de smoking. Mães nervosas e pais mal-humorados.

Mas, em meio a toda aquela excitação, havia alguém que não estava nenhum pouco empolgado... Este alguém era Alecsander Blake.

– Eu tenho que usar isso mesmo? – o loiro descia as escadas da casa. Estava vestido com um terno escuro, mocassins polidos e uma gravata borboleta branca, que ele tentava inutilmente afrouxar. Quando percebeu que não teria chances em desatar aquele nó, ele apenas bagunçou ainda mais os cabelos dourados e emergiu na grande sala de estar.

O cômodo era espaçoso e bem arejado, as paredes brancas contrastavam com o grande sofá preto e as duas poltronas com listras em tons de marrom e bege. Cortinas claras, piso de madeira de bambu escura e uma mesa de centro feita em mármore cor de ébano. Uma das paredes era ocupada por uma grande televisão de plasma, que estava desligada. Arrastando os olhos pelo local ele avistou três criaturas singulares. Um homem sentado no sofá, com a cara enfiada no jornal, os cabelos loiríssimos quase grisalhos de vez em quando apareciam, quando ele levanta o olhar para observar o que estava acontecendo e revelava seu par de esmeraldas oculares. Ao lado dele uma garota, de longos e ondulados cabelos loiro-escuros e olhos castanhos brilhantes, estava quase deitada no sofá e brincava de ligar e desligar o televisor, freneticamente. Em pé estava à figura mais importante de todas. Cabelos negros e longos, uma franja que quase lhe cobria os orbes que eram mais escuros do que as madeixas lisas, trajada de um fino vestido de seda cor-de-rosa e de pé descalços. Parecia nova demais para ter criado dois filhos. Ela saltitava com uma câmera fotográfica em punho, como se fosse uma arma letal.

– Awn, Edwin... Ele está tão lindo. Não é? – a criatura morena falava sem sair do lugar, mas então ela se moveu. Foi em direção ao rapaz como se estivesse flutuando, como a boa ninfa que parecia ser.

– Um baile não vai fazer dele um garoto normal, Chris. – o homem loiro disse com repulsa, não parecia nada agradável com aquela situação. As reações na sala não foram boas. Nada boas.

Christine não ficou nem um pouco feliz com o comentário do esposo. Bufou, mas não deixou se abalar. Começou a bater fotos do jovem formando.

– Edwin, não fale assim do seu filho. – sua voz, mesmo quando estava zangada, parecia como um soar de pequenos sinos. – Você devia ter ao menos penteado esse cabelo, Alec. O que vou fazer com você, hein? – ria, fazendo novamente o seu soar de sinos.

– Não! Eu gosto dele assim. Para com esse flash, mãe. – reclamava Alecsander.

– Para de ser resmungão, pirralho. – Angelina apareceu ao lado da mãe, tinha um pote de gel em uma das mãos e uma escova na outra. Ele nem percebeu quando a irmã saiu do sofá. Por onde tinha passado?

– Sai Angie! Sério. Não toca. – ele tentava se esquivar, mas era quase impossível vencer aquelas duas juntas.

– Você tem que ficar bonitão pro seu par. – ela sorria – Ai que saudades do meu tempo da escola. Agora só posso esperar pela formatura da faculdade. – Angelina, a filha mais velha dos Blake, estudava para ser professora.

– Eu não tenho par. – resmungou tão baixo que nenhuma das duas o ouviu.

– Pare de agir feito um retardado e fala pra fora, meu filho! – Edwin disse ainda sentado no sofá sem nem olhar para o garoto.

– Oi? – Christine tentou encobrir a ignorância do marido e virou-se para o filho com um sorriso.

– Eu não tenho par. – falou, novamente, em alto e bom som.

Edwin se levantou, jogou o jornal no sofá e se aproximou do pé da escada, onde estavam. Batia palmas e dava altas e debochadas risadas com sua voz forte como o trovão. – Olha que bonito! – novamente as risadas que aos ouvidos de Alec parecia que fariam explodir seus tímpanos.

– Sabe por que você não tem par, Alecsander? – o homem abriu espaço entre as duas mulheres e ficou de frente para o garoto. – Porque você é um louco. Esquizofrênico. Esquisito. – despejava as palavras com nojo, desprezo. Era isso que sentia. Seu único filho homem era um louco, comprovado, desde criança.

Tudo começou aos cinco anos, com alucinações e isolamento social. Tinha comportamentos bizarros, falava coisas sem sentido tinha sérias crises de ansiedade. Aos dez anos, Alecsander descobriu sua dupla personalidade e desde então não tinha mais o mesmo convívio com o pai.

– Todos os outros da delegacia falavam de como suas filhas estavam empolgadas com o baile, e como seus filhos estavam prestes a ir para a faculdade. – os olhos verdes de Edwin, frios e sem vida, estavam em choque com os olhos escuros do filho. – E eu? Eu sou apenas um motivo de piada. Pai do Alecsander Blake, o maluco. – a repulsa era nítida. – Você é um castigo. Eu pergunto pra Deus o que fiz. – parecia se lamentar.

Alec engoliu tudo aquilo em seco, parecia que aquelas palavras estavam sendo digeridas do pior jeito possível.

– Edwin! – Christine ficou chocada, não conseguia acreditar naquela cena. – Não ligue pra ele, filho. Seu pai não sabe o que diz.

– Eu sei sim. Não adianta mais ficar passando a mão na cabeça dele. Está na hora do seu filho se virar, Christine. Ele tem que saber que o mundo não vai ser receptivo pra ele. – a frieza com que dizia aquilo era cortante – Alecsander Blake, eu preferia ter cinquenta filhas mulheres a ter mais um louco como você.

A rejeição do pai era o que mais lhe atormentava. Tinha pesadelos constantes com isso.

O jovem começou a perder os sentidos, parecia que as sinapses de seus neurônios não funcionavam mais. Os nervos estavam em descontrole, e o crânio estava mais para um espremedor de frutas: apertando seu cérebro fazendo a massa cefálica se esfarelar e lhe provocar uma terrível dor de cabeça.

– Leve-o para o quarto, Angelina. Eu e seu pai teremos uma longa conversa. – Chris já não falava com seu, doce, tilintar de sinos. Agora era rude, amarga e no fundo de sua garganta o choro arranhava para sair. Queria desabafar.

Enquanto aquela cena, asquerosa, ocorria, Angelina estava paralisada. Simplesmente, não tinha reações para a situação. Seus olhos castanhos saltavam de um rosto para o outro, captando as expressões diversas. O nojo de Edwin. O exaspero de Christine. E, o mais importante, a angustia e sofreguidão que Alecsander tentava esconder por trás dos olhos escuríssimos. “É melhor você calar a boca, velho!” quis gritar ela, mas se limitou ao pensamento, ao lembrar o que o homem podia fazer quando estava descontrolado. Tal lembrança à fez acariciar a cicatriz rosada, em relevo, que levava no braço esquerdo.

– Eu... Vamos, Alec. – a loira precisou de alguns segundos para respirar. Queria ter o maior colo do mundo para poder colocar sua mãe e seu irmão, e assim ampará-los para o resto da vida.

Alecsander, além de pálido, estava frio e tremia descontroladamente. Sentia o toque das mãos macias que lhe guiavam escada a cima, porém não tinha capacidade de esboçar nenhum pensamento, palavra ou ação. Ele sabia o que aquilo queria dizer, e se lamentava por tal.

Ele ouviu o ranger da porta quando sua irmã a abrira com dificuldade, por estar o conduzindo. Conhecia aquele barulho, então ficou mais tranquilo de saber onde estava: no seu quarto.

O cômodo não era grande e tinha as paredes brancas, como o resto da casa. Várias fotos, pôsteres e desenhos estavam destoando à impecabilidade local, junto com escritas inelegíveis e símbolos antigos, outrora, satânicos. Alec não tinha muitos bens, apenas sua cama de solteiro, o roupeiro – que, regularmente, estava vazio já que as roupas viviam espalhadas pelo quarto. – e uma cômoda que ele usava de escrivaninha, qual portava em cima uma máquina de escrever, alguns livros e uma luminária.

Deitou-se e ouviu o bater da porta do quarto, junto com o arrastar de sapatilhas de Angelina, que ele conhecia muito bem. Como sua visão estava sendo prejudicada pela tontura, preferiu ficar de olhos fechados.

Você é louco. Ouviu o sussurro ao longe. Sua família te odeia, porque você é um estorvo.

Conhecia aquela voz muito bem, já que era a sua. Ela ecoava em seus pensamentos, como se seu lado sombrio estivesse implorando por liberdade. E estava.

Porque não se mata, Alecsander? Iria poupar seu pai de vê-lo todos os dias, sua irmã teria uma vida novamente e, principalmente, acabaria com o tormento que sua mãe sente.

A boca do garoto começou a ficar seca, tal qual sua garganta que começou a doer, sem necessidade, como se o ar lhe faltasse. Sentia um formigamento tomando conta de seus pés e mãos, e a hipotermia que lhe invadia o organismo, junto com calafrios percorrendo sua espinha.

Você é semelhante aos insetos, animais indesejados. Ou melhor, igual às baratas, quais nós podemos tentar nos livrar, mas sempre surgem no meio da sujeira e do lixo.

Alecsander ainda estava deitado de olhos fechados, mais ouvia o som de milhares de minúsculas patinhas percorrendo o chão amadeirado de seu quarto. Não deu importância ao barulho, primeiramente, mas ficou curioso para ver o que era. Cuidadosamente, ele se sentou na cama de solteiro e olhou para o chão, onde não encontrou nada além da bagunça habitual de seu quarto. Tornou a fechar os olhos, já que precisava de um pouco de sossego.

Elas vieram te buscar, Alec. Seja um bom anfitrião para seus iguais. Novamente aquela voz, que vinha ficando mais forte e mais presente a cada crise que ele passava.

Alguém chamava por seu nome, mas parecia estar tão distante, como um sussurro uníssono de milhares de crianças. Elas chamavam por ele, como se clamassem pela mãe. Como sempre curioso, ele abriu os olhos novamente para ver o que se passava ali.

Lá estavam. O chão do quarto havia sido banhado por um rio negro que se movia em direção à sua cama, com as antenas atentas a cada respirar fundo que o loiro dava.

Baratas. Nojentas e asquerosas baratas. Invadiam seu espaço, se apoderando da cama, das roupas, indo em direção a ele. Reivindicando-o.

Alecsander se debateu, tentando se livrar dos insetos que a cada segundo se aproximavam mais. Porém, elas eram persistentes e surgiam do nada, inundando o cômodo como um rio.

Junte-se a elas. A voz em sua cabeça dizia em meio a risadas.

– Não! Elas querem me pegar. Mãe? – pediu ajuda, mas ninguém veio ao seu socorro. Continuou gritando, talvez por minutos ou até horas, chegou ao ponto em que suas cordas vocais não tinham mais forças para uma única palavra. Então, ele se encolheu na cama e chorou. Abriu-se para toda sua mediocridade, sentindo as patinhas dos insetos tomando conta de seu corpo enquanto as risadas se faziam sonoras na sua cabeça.

Desfalecia, sem forças e entregue ao vazio. Sentiu uma pontada forte na cabeça, como seu algo estivesse transpassando seu crânio e Mjolnir ajudasse com longas e compassadas marteladas. A dor tornou-se ainda mais lancinante e tudo ao seu redor começou a perder o foco. Alec foi sugado para seu interior perturbado, desmaiado.

...

Tudo começou aos cinco anos de idade. Além de ser uma criança antissocial, Alecsander descobrira um amigo imaginário, Ash, que cuidava dele e incentivava a fazer coisas que nunca teria coragem. Para o garoto era o irmão que nunca teve. Quando Alec completou seu décimo aniversário e fora obrigado pelo pai a encontrar-se com um psiquiatra, descobriu que Ash não fazia só parte de sua imaginação, mas de si como um todo. Era fruto de sua psicose e sua esquizofrenia que crescia a cada dia: seu álter-ego.

Naquela noite Ash teria seu trunfo. O maior feito de sua existência, que ele sabia que poderia haver sérias consequências, não para ele, mas para seu “hospedeiro”. Porém, ele não se importava com o bem-estar de Alecsander Blake.

Quando Alecsander era acometido por suas crises, Ash sempre aparecia para trazer seu caos.

Os habitantes das ilhas Samoa acreditam que, quando a morte se aproxima, pancadas secas paranormais são ouvidas na casa da vítima. Esse estranho fenômeno já foi chamado de ruídos da morte, e sua existência representa mais do que mero folclore.

Quando passava próximo ao ginásio da escola de Ensino Médio da cidade se ouvia as pancadas e os gritos dos adolescentes. Para muitos era apenas a música, mas para ele era o presságio, os ruídos da morte iminente.

Jogou a bicicleta, que lhe conduzira até ali, no chão e caminhou entre os corpos inertes de garotas bêbadas e seminuas que estavam espalhadas pela entrada do ginásio.

– Ei, Blake! Ainda não é Dia das Bruxas. – gritou um dos garotos, ao vê-lo com o rosto pintado como uma caveira, e ergueu sua taça de ponche em deboche.

Ash sacou a pistola de numeração raspada – que há muito tempo Alecsander havia roubado das coisas do pai, em uma de suas muitas tentativas de suicídio. — e a carregou, dando o primeiro tiro no rapaz.

– Eu não sou o Blake. – seu sorriso marcava as covinhas fundas nas maçãs do rosto.

O som do disparo causou um alvoroço, e começou a se formar uma multidão de curiosos para bisbilhotar e fofocar sobre o que acontecia. Ele ainda tinha munição, porém não tinha alvo certo para ela.

Quando entrou no ginásio a música já havia parado de tocar e todos o olhavam perplexos, como animais acuados tentavam se esconder nos cantos e atrás de objetos. Só se ouviam os passos do rapaz, e a respiração cortada de todos os presentes.

Mirou a arma para o DJ, que tentava se esconder na cabine improvisada, mas era em vão.

– Ash odeia música eletrônica. – atirou. Os demais presentes, em pânico, procuraram uma saída e tentavam ficar longe do campo de visão do garoto. – Eu quero ouvir vocês gritando. – dizia entre risos e assobios ritmados.

O caos. Ash tinha seu próprio Império de Destruição, e o conseguira sozinho sem a ajuda de Alecsander Blake.

Vangloriava-se ao ver os corpos desfalecidos, o chão sujo de sangue e os medíocres implorando pela vida. O som do desespero fora tomado pelo barulho e as luzes das sirenes de policia.

– Mãos ao alto, rapaz. – aquela voz ele conhecia muito bem. Virou-se e encontrou a pequena junta policial da cidade, e Edwin lhe apontando uma arma, enfurecido.

– Você atiraria no próprio filho? Isso não seria bom. – não relutou ao colocar a pistola no chão, chutou-a em direção ao homem e ergueu as mãos logo a cima da cabeça, como ele havia ordenado.

– Você não é meu filho. – virou-se e rumou em direção à saída – Prendam-no.

Ash não se opôs a prisão, deixou ser levado para a viatura e sorria ao ver cada rosto amedrontado e sujo de sangue que ali ainda restava. Sentia-se vitorioso, pois alcançou seu propósito: acabar com a vida de Alecsander Blake.

Fora jogado sem muita cerimônia para dentro do camburão, as algemas apertavam-lhe os pulsos e ele gostava da ardência provocada pelo metal.

– O mundo contemporâneo é caótico. Muito além das perspectivas mais otimistas. Pareço em dado momento sofrer delírio de ópio, e ainda me apego a drogas tradicionalistas. O olhar vazio do homem de agora é insano, desconhece sua própria natureza, nunca a conheceu, mas antes existia magia, como engano, restam apenas especulações e maliciosa destreza. As metrópoles cinza refletem o estado sombrio, mais uma apatia diante dos fatos cotidianos. Pessoas sem animo, entregando-se a um mercantilismo doentio nem se importam com dogmas considerados profanos. Céticos embrionários, desde a tenra infância são cínicos, bebem da vida como se fosse uma bebida qualquer, desperdiçam os instantes que não se repetem, tornam-se depressivos, tentam fugir a todo instante de si, mas o fantasma persegue onde estiver. Não tenho mais nenhum engenhoso Fausto para brincar, triste ironia, os cientistas de agora já estão escravizados, seus motivos mirabolantes não conseguem me impressionar. Tenho olhos cansados voltados para algum rebento inesperado. Os jogos com as divindades ficaram fastidiosos, Procuro criar meu próprio entretenimento, É nas crianças ainda inocentes que lanço meu logro, depois espero resultados, tendo a paciência de aturar o tempo. – citou Mefistófeles, com um largo sorriso nos lábios. — Eu fiz isso por mim. Puramente egoísta. Adorei a arte e o ato da morte repetidamente. Simplesmente assim. Depois foi tudo confusão sexual, simbolismo, exaltação ao caído. Eu estava exaltando a mim mesmo. Odiei a decadência e a dissecação. Não houve prazer sádico em matar. Eu os assassinei como eu mesmo gostaria de ser morto, aproveitando a extremidade do próprio ato da morte. Se eu fizesse isso comigo, experimentaria apenas uma vez. Se eu fizesse com outros, provaria o ato da morte várias vezes. – citou Dennis Nilson, que naquele momento se encaixava perfeitamente ao contexto.

A viatura deu a partida rumo à delegacia, ele estava perfeitamente confortável e sabia o que estava por vir. Sabia o quão ferrado Alecsander ficaria dali para frente.

– Eu ferrei você, Blake. – sussurrou.

Notas finais
Novamente, peço desculpas pela demora T.T Comentem o que acharam. https://www.youtube.com/watch?v=Rsa4HktvsU4
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.