I'm Theo
2 Capitulo 2 - Vizinhança
O ônibus escolar parou na frente da casa de Theodore e ele desceu, amassando neve sob seus pés. Respirou fundo e olhou ao redor, já fazia alguns dias que havia se mudado para a nova vizinhança, mas ainda estava se adaptando.
É uma cidade grande, mas a vizinhança é relativamente tranquila e bonita. A nova casa é maior que sua antiga e Theodore gostava da ideia de ter mais espaço, apenas desejava que os amigos que ficaram longe pudessem ver sua nova casa, gostaria de poder mostrar todas as novidades para eles. Afastou o pensamento em seguida, aquela sensação de saudade lhe apertava o peito e ele preferia evitá-la.
Percebeu as cortinas da casa da frente a sua se fechando e dois pequenos vultos o observando por trás do tecido longo e vermelho. O garoto fingiu que não os viu. Já havia se resignado ao fato de que as pessoas da cidade grande o tratariam de forma diferente e até mesmo maldosa às vezes, assim como aconteceu na escola.
Antes de abrir a porta da porta de sua casa, já com a mão na maçaneta, ele parou. Decidiu que ia mostrar para todos que era tão normal quanto qualquer um. Ele se virou para trás, os vultos ainda estavam ali, aparentavam ser crianças assim como ele.
— Bom dia, viu?! — Gritou para o outro lado da rua, não exatamente de forma educada. No final, acabou soando um pouco áspero, mas ao menos havia mostrado que os havia percebido.
Entrou em casa em seguida, deixando os sapatos molhados de neve na entrada. Aquela casa ainda lhe parecia muito estranha, a maioria das coisas ainda não estavam em seus devidos lugares, as paredes estavam vazias e havia caixas por todas as partes.
— Olá ...? — ouviu a voz de sua mãe vinda da cozinha.
Caminhou para o cômodo antes de responder, a mãe estava ajoelhada em cima do balcão, tirando os pratos de dentro de uma caixa e colocando-os em uma prateleira alta. Ela era uma moça de cabelos curtos e castanhos. Era também um pouco acima do peso, mas continuava tão bela quanto qualquer modelo.
— Oi mãe ... – Respondeu o garoto, não com a mesma animação da mãe.
— Estava falando com os vizinhos, querido? — Perguntou ela, descendo do balcão e separando a caixa vazia.
— Não, eles estavam me olhando.
— Ora, isso é normal, filho — Disse ela, agora carregando uma caixa cheia para o outro lado da cozinha. — As pessoas ficam surpresas quando veem coisas diferentes pela primeira vez.
— Por que eu sou tão diferente agora? — perguntou, não queria descontar nada na mãe, mas não pode evitar uma voz irritada – Eu era normal antes.
— Você ainda é normal filho, mas de um jeito diferente — replicou — E isso não é ruim. Todo mundo é diferente de alguma forma.
— Eu sei, mas nem todo mundo é olhado do jeito que eu sou. — Retrucou ele, sentando-se em uma das cadeiras da cozinha e apoiando o rosto em uma das mãos.
A mãe parou o que estava fazendo, conhecia bem o filho e sabia quando algo estava errado. Percebia que Theodore andava um pouco para baixo na última semana e sabia que ele preferia não ter se mudado. Na verdade, ela também gostava do lugar onde viviam antes, mas estava certa de que eles poderiam ter uma vida ainda melhor na cidade grande.
— Aconteceu alguma coisa na escola hoje? — Perguntou, parecendo desconfiada ou preocupada com algo.
— Não, está tudo bem — Suspirou.
Preferindo não pressioná-lo, tentou mudar a estratégia e tentou soar empolgada para ver se o filho acabaria correspondendo de forma mais animada.
— E então, como foi o primeiro dia? — Perguntou ela — Você fez algum amigo? Tem lição de casa? Seus professores são legais?
— Mãe, foi só o primeiro dia — reclamou ele.
— Oh, tudo bem. Desculpe.
— Tem uma garota – Falou ele depois de um tempo, olhando para a mesa que ainda tinha algumas caixas para desempacotar — Ela é bem legal sabe. Ela é … diferente.
— Ah, que maravilha, filho! — Comemorou a mãe. Andava preocupada, achava que Theo ficaria muito deslocado na escola nova — Como é o nome dela?
— Emma — Theo sorriu ao dizê-lo. Por causa dela, talvez aquele não tenha sido um começo tão ruim na escola.
— Você pode chamá-la para passar o dia aqui amanhã — A mãe sugeriu.
— Eu só conheço ela há um dia! – Replicou, quase rindo. Tinha vontade de ter uma boa amizade com Emma, mas não sentia necessidade de tanta pressa.
— Tudo bem, vamos esperar um pouco mais — concordou a mãe — Eu só quero que se sinta à vontade. Logo você vai ter tantos amigos quantos antes!
— É... — Murmurou, não ligava para a quantidade de amigos, só queria os antigos de volta.
— Quer comer alguma coisa? — Sua mãe lhe ofereceu.
— Não, eu vou para o meu quarto – O garoto recusou, levantando-se.
— Podemos ver um filme todos juntos quando seu pai chegar do trabalho — Sugeriu
— Pode ser. – O garoto parecia bem desanimado.
— Theo? – Perguntou a mãe.
Theodore, já no sexto degrau da escada, não estava a escutava mais. Seu quarto estava quase tão vazio quanto o restante da casa, ainda não havia se sentido animado o suficiente para arrumar suas coisas. Colocou a mochila em cima da cama e sentou-se no chão, abriu uma das caixas a revirou, procurando algo com o que se ocupar, mas acabou não achando nada.
— Ei, querido! — Sua mãe o chamou, abrindo a porta do quarto — Tem umas crianças brincando na rua, por que você não vai participar?
Theodore olhou pela janela, haviam duas crianças em frente à casa que ficava logo em frente a sua, imaginou que fossem as crianças que o observaram através da janela.
— Talvez — Disse ele para a mãe, sem sentir vontade de interagir com eles de fato.
Ela assentiu, fechou a porta e deixou o filho sozinho, resolveu que ia dar o espaço e o tempo que ele precisasse para se acostumar com a mudança de vida. Theodore olhou novamente pela janela, pensou e repensou por alguns minutos, por fim achou que não custava nada tentar. Saiu do quarto e desceu as escadas com uma certa empolgação no rosto.
— Divirta-se — disse a mãe ao ver Theo cruzar a sala em direção à porta.
O garoto deveria ter mais ou menos a idade de Theodore, em torno de dez anos, já a menina aparentava ser mais nova, era fisicamente parecida com o garoto, deveria ser a irmã dele. Eles estavam jogando uma bola um para o outro, às vezes a chutavam quando ela caía no chão, chutando muita neve junto.
Theo aproximou-se deles devagar, afastando aos poucos a timidez.
— P-Posso brincar? — pediu.
As crianças pararam de jogar a bola, trocaram olhares e não disseram coisa alguma por alguns segundos.
— Eu perguntei se eu posso brincar c-... — Theodore repetiu, porém sendo interrompido.
— Não — O garoto murmurou.
— Por que? — Perguntou Theodore, tentando não parecer irritado.
— Você não é nem uma pessoa de verdade — O menino respondeu, desviando os olhos e falando ainda mais baixo do que antes.
— O que? – Falou Theodore, agora parecendo irritado — Eu sou sim!
— Pessoas não tem cauda — Disse a menina, também não estava olhando para Theo.
— Pela Janela eles olhavam para mim ... - Pensou o garoto, irritado
Ele respirou fundo, tentando se controlar.
— Algumas tem sim. — Argumentou ele, encarando as outras crianças e esperando uma reação delas.
— Então você devia ir brincar com pessoas iguais você — Retrucou o menino.
— Ótimo — Disse Theodore, dando meia volta — Eu vou mesmo!
Ele sabia que não havia ninguém como ele por ali além de Emma e ele não fazia ideia de onde ela morava, também não achava que seria apropriado aparecer na casa dela tão cedo. Teria que esperar até amanhã na escola para ver outra pessoa como ele, isso o aborrecia, pensar que outras crianças não queriam estar perto dele.
— Achei que fosse brincar lá fora — Disse a mãe de Theodore ao ver o filho atravessar novamente a sala em direção às escadas.
— E-Eu não gosto daquela brincadeira... – Respondeu ele. Queria ter soado firme, mas a voz vacilou.
— Theodore? – A mãe agora soava preocupada com o filho.
O garoto subiu os degraus depressa, entrou novamente em seu quarto. Sentia-se infeliz e frustrado, tinha saudades do velho lar. Achava as pessoas da cidade grande cruéis e irritantes. Reprimiu a vontade de chorar, não ia ficar triste por causa daqueles idiotas.
Procurou alguma coisa para se distrair e novamente não achou nada, nem mesmo seus brinquedos pareciam interessantes naquele momento. Por fim apenas deitou-se na sua cama, olhando a neve caindo pela janela.
Não muito depois, ouviu a campainha tocando, e sua mãe o chamou em seguida:
— Theo! – Disse a mãe, extensamente.
— O que foi? – Falou ele, como se não quisesse conversar.
— Tem umas crianças aqui querendo brincar com você! — Pela voz de sua mãe, parecia que ela estava mais animada para isso do que ele próprio.
Por curiosidade, ele desceu as escadas já preparado para sair novamente, só lhe faltavam as botas. Ao chegar na sala, a porta estavam as mesmas crianças de antes, o garoto segurava a bola embaixo de um dos braços. Mas não parecia muito feliz de estar ali.
— Nosso irmão mandou a gente brincar com você — Disse ele, prontamente.
— Ele disse que ia comer nossa sobremesa se a gente não fizesse isso, por isso estamos aqui — Completou a menina.
Theodore parou onde estava, próximo do sofá da sala, não queria brincar com ninguém que foi chantageado a fazer isso.
— Quem disse que eu quero brincar com vocês? – Disse o garoto, friamente.
— Você disse — retrucou o menino.
— Eu não disse, não.
A mãe de Theodore riu, quebrando o gelo, pegou o filho e lhe calçou as botas e começou a empurrar o filho para fora de casa.
— Ha ha ha ha, que bonitinhos, agora vão brincar – Colocou o filho para fora de casa e o entregando sua touca — Sejam bons amigos!
Os três se encaram e então viraram os rostos, bufando. Deram uma volta pela rua sem dizer nada, até que o menino decidiu quebrar o silêncio:
— Então, você quer brincar do que? — Perguntou para Theodore.
— Qualquer coisa — Resmungou.
A menina olhava curiosa pela cauda de Theodore, ela estendeu a mão para segurá-la e deu um leve aperto nela. Theodore, sentindo o incômodo tirou a cauda da mão da garota, parecendo meio constrangido e bravo com o que aconteceu.
— Ei, você não pode ir apertando as pessoas desse jeito – Disse ele em um tom meio envergonhado.
— Por que não? — Replicou a menina.
— Porque .... Porque .... Bem, porque não pode!
Os dois apenas continuaram encarando-o. Ao menos agora, estavam olhando diretamente para ele. Theodore suspirou, decidiu esquecer qualquer ressentimento e tentar outra vez.
— Que tal começarmos de novo? Sou Theodore — apresentou-se.
— Alan — disse o menino, colocando uma das mãos sobre o próprio peito — e essa é minha irmã, Chloe.
— Eu sou novo aqui, me mudei na semana passada – Contou.
— Nascemos aqui — Disse a menina.
O silêncio permaneceu por algum tempo enquanto caminhavam, nenhum deles parecia saber ao certo como continuar a conversa.
— Podemos mostrar as coisas legais daqui, qualquer dia — Disse Alan após um tempo.
— É, pode ser — Concordou Theodore — Eu não conheço nada mesmo.
— Todos na sua família são assim? — Chloe perguntou – Tipo como você?
— Não vamos falar disso agora — Disse Theodore, não se importaria de responder perguntas sobre isso mais tarde, não era algo de que ele se envergonhava, mas preferia ser tratado como alguém “normal” naquele momento.
— Bem nós estávamos brincando de... – Disse Alan até ser interrompido.
— Eu conheço uma brincadeira mais legal — Theodore interrompeu — Eu brincava disso com meus amigos onde eu morava antes.
— Com seus amigos meio bichos? — Chloe perguntou. Não era deboche nem desprezo, apenas curiosidade.
— Com todos os tipos de amigos — Respondeu
— Como é? – Perguntou Alan.
Theodore sorriu, de repente orgulhoso por estar comandando a brincadeira, posicionou-se a frente dos outros dois e começou a explicar.
— É mais legal com mais pessoas, mas acho que dá para fazer só com vocês dois. Primeiro temos nós temos que...
Pela janela da cozinha, a mãe de Theodore o observava brincando com os outros dois vizinhos. Sentiu-se feliz pelo filho e por um minuto toda a apreensão que sentiu ao pensar nos problemas que ele poderia enfrentar para se adaptar desapareceu. Sabia por experiência própria que havia muita gente ignorante no mundo, mas cenas como aquela lhe davam um pouco de esperança.
Deixou as crianças brincando e foi terminar de arrumar as coisas, ainda havia muitas caixas pela frente.
—Continua-
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