I'm Sorry
2 Smith&Wesson
Notas iniciais
Cap.02 Smith&Wesson
Nico DiAngelo
Quando era mais novo eu não entendi direito o que minha mãe quis dizer com toda aquela coisa de uma arma ser sua alma, e nem o entendia muito agora, mas aprendi a tratar minha Glock como se fosse uma artéria, sem ela eu não vivia, com ela eu era frágil, mas com ela eu podia fazer tudo o que queria, desde que tivesse um bom plano. E nós tínhamos um plano razoável.
Se fosse pensar bem o roubo em si não importava muito, mas sim o que minha escolha de hoje representava. Na verdade era como uma tradição: eventualmente alguns dos nossos trazia para casa alguém que “encontraram” pelo caminho, mulheres e homens, adolescentes e crianças, não importava desde que chamasse sua atenção. E daí para frente era como ter um novo animal de estimação, com o qual você poderia fazer o que quiser, quando quisesse, do modo que quisesse. E como hoje eu fazia dezessete era como que uma obrigação que eu fizesse isso, apesar de não gostar muito da ideia de ter que ficar prestando atenção em alguém o tempo todo. Parecia um fardo.
O banco em questão não era tão grande e seus cofres de tamanho proporcional. Nosso grupo consistia em três adolescentes e um adulto, dois carros blindados e cada um com suas armas, eu com minhas duas Glocks e cerca de três minutos para entrar e sair. Não parecia tão ruim assim.
Chris Rodriguez era o mais velho já com vinte e cinco e foi mais como um observador, para dizer tudo para o meu pai depois, não duvido. Era alto e a pele bronzeada, cabelos e olhos castanhos impassíveis. Thalia Grace tinha dezessete e era durona, olhos cor do céu que anunciavam a tempestade que ela trazia consigo. Hoje ela e Drew iriam dirigir e isso me deixava um pouco preocupado. Drew era dois anos mais nova e essa era sua primeira missão que não envolvia usar apenas sutiã e calcinha para seduzir algum cara, eu não confiava tanto nela quanto confiava nos outros integrantes mas seria insultá-la recusar a oferta quando ela se ofereceu para vir, e eu esperava que ela não estragasse tudo. E por último Luke, que parecia um demônio com armas, ele nunca errava uma bala e nunca desperdiçava uma também.
Quando entrei no segundo carro todos já estavam lá. Thalia dirigia esse e eu e Luke entramos atrás. Eram vans blindadas e aquilo me deixava meio claustrofóbico, mas fechei as portas atrás de mim. Thalia olhou para mim e assenti, depois ela se virou para frente e ligou o carro. Drew fez o mesmo com a van que estava guiando com Chris provavelmente lhe dando instruções.
Thalia fez uma sinal breve com a mão direita quando estávamos próximo do local do roubo e colocamos os capuzes pretos e eu conferi minhas armas. Luke me olhou com desdém como se dizendo que não precisava conferir suas armas a cada segundo e eu ignorei. Escondi as Glocks na jaqueta que fora feita pra isso.
A van parou e Thalia saiu do carro enquanto esperávamos. Era o momento exato da troca de turnos e só um guarda estava na porta, Thalia tinha colocado um short minúsculo e apertado e um top preto grudado à pele, passou um batom vermelho e foi tudo que precisou para chamar a atenção do guarda. Vi Luke se mexer desconfortável ao meu lado e brinquei:
– Ela é tão gostosa. – Fingi interesse.
– Cale a porra da boca Di Angelo.
– Mas olha aquele short. – Estalei a língua. – Posso ver a calcinha dela daqui.
Tive a impressão que ele ia me dar um soco, mas então ela agiu, um pequeno aparelho de choque surgiu da sua mão e atingiu a garganta do guarda discretamente, mas ele caiu no chão pesadamente. Essa era nossa deixa. Pulamos do carro quando Thalia já passara das portas com duas armas apontadas a esmo. Não era uma hora de muito movimento, umas dez pessoas na rua, que mal ergueram seus olhos dos celulares para ver quando saltamos dos carros deixando só Drew no volante. Algumas pessoas que se acham profissionais na área diriam que tínhamos feito uma péssima escolha, quatro pessoas que pareciam nada profissionais e um adulto, algumas armas. Mas na verdade em um roubo quase padrão e isso não parecia nada difícil, então tudo teria de correr bem.
Quando passei pelas portas vinte segundos já tinham ido embora. O cenário não era nem um pouco perturbador: Reféns obrigados a se deitar no chão, dois guardas com tiros na cabeça e um com um tiro pouco acima do quadril. Thalia se esgueirou por uma porta lateral onde ficavam as câmeras para apagar provas contra ela, Chris e Luke foram atrás do dinheiro ameaçando mais dois guardas dos quais tinham pegado as armas e o que parecia ser o gerente. Eu fiquei com a parte dos reféns.
Na verdade não se tinham muitas coisas a fazer em relação a isso. Era só apontar as duas armas para onde todo mundo estava encolhido num canto e os mandar calarem a porra da boca de vez em quando. Mas sempre tinha alguém que não calava que chorava demais e irritava, mas hoje era meu dia e decidi não sujar minhas mãos de sangue de um covarde.
E na verdade eu comecei a analisar as minhas opções.
Eram cerca de quinze reféns já que eu não contava funcionários. Sete mulheres entre quarenta a setenta anos que eu descartei só de bater o olho. Três homens de meia idade de terno, todos com alianças nas mãos então decidi que aquilo seria drama demais para mim. Uma adolescente de cerca de dezessete anos também, mas algo nela fez uma careta surgir no meu rosto, acho que parecia desesperada demais. Dei de ombros e continuei, não ficando muito impressionado, mas admito que não esperava lidar com isso hoje: os próximos reféns eram uma mulher de uns trinta e dois anos e duas crianças, uma garota e um garoto com os olhos cheios d’água não chorando por que ela os abraçava e implorava para que não chorassem, ouvi quando eles perguntaram por que “aquele moço estranho tava apontando a arma pra eles” e perguntaram se iam morrer. Acho que eles não eram uma possibilidade. Desviei a arma deles e apontei para o garoto que estava por último. Era loiro e alto e se encolhia contra a parede, sua postura podia demonstrar medo, mas seus olhos o denunciavam. Os olhos azuis percorriam a sala, vagando pelas armas dos guardas como um alarme gigante na sua testa dizendo que ele pretendia bancar o Super Herói.
Eu não pude deduzir quão velho ele era, por que tinha aqueles rostos que podem ter entre dezessete e vinte e um sabe? Usava um terno preto que destacava o azul dos olhos e ele mexia as mãos nervosamente. Decidi-me por ele. Fiquei agradecido por essa ser a minha vez, por que Chris tinha um fetiche por crianças que me dava náuseas.
O tempo continuava passando. Um minuto e vinte. Thalia saiu da sala das câmeras com uma máscara idêntica às nossas e Chris e Luke saíram com duas mochilas cheias de dinheiro, mandaram os guardas se juntarem aos reféns e juraram matar qualquer um que nos seguisse depois que saíssemos. Na verdade aquele assalto estava demorando tempo demais. Quando Chris olhou com um interesse pervertido para as duas crianças que se agarravam á mãe eu apontei para o loiro como que o lembrando de que era minha vez. Luke transmitiu um ruído de surpresa e me olhou, eu apenas dei de ombros, ele não questionou, se aproximou do loiro e o puxou pelo terno, o arrastando com a arma na cabeça.
Um minuto e cinquenta e sete.
– Vamos dar o fora daqui. – Chris gritou.
Quando passamos pelo guarda que tinha sido baleado acima do quadril e se forçava a manter a consciência eles pararam e me olharam em expectativa. Levei exatamente um segundo para entender. O fato de que o corpo estava bem localizado em baixo de uma câmera e a arma na minha mão não eram muito difícil de ligar e então eu olhei para o loiro. Seus olhos me suplicavam que não fizesse isso, e eu tive que me forçar a desviar o olhar. Puxei o loiro para perto e coloquei a arma na mão dele. Chris pareceu alarmado, mas Luke apenas deu um risinho. Coloquei minha mão sobre a do garoto e o forcei a apertar o gatilho. Foi tão rápido que ele mal teve tempo para reagir, mas um olhar de terror demora apenas segundos para dominar os olhos de uma pessoa e foi isso que aconteceu. A cabeça do segurança explodiu e ele parou de se mexer, me surpreendendo ao me fazer lembrar aquele treinamento doze anos atrás. Afastei a memória e empurrei o loiro pelas portas e para dentro da van. Olhar para ele com todo aquele ódio e opressão dirigida a mim me fazia sentir estranho, como um monstro, então evitei as orbes azuis e observei enquanto Thalia dirigia o mais rápido que podia, ou seja, com a velocidade de um furacão.
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