Notas iniciais
Enjoy

Passei a maior parte das minhas férias chorando dentro do meu quarto, meus amigos me ligavam, mas eu nunca atendia. Quer dizer, quase nunca. A única pessoa com quem eu tinha coragem de falar era com o Luiz. Ele é o único que me entende.

Eu estou depressiva de mais de acordo com a minha mãe. Isso é estranho porque ela não está tão triste quanto eu, mas deveria estar.

Acontece que perder o irmão no inicio das férias não é um jeito legal de começar um longo tempo de solidão. Era para eu estar dando shows por aí. Não são todas as meninas que tem os melhores integrantes em sua banda... Acho que vou sair. Cansei de ficar aqui. Como minha mãe está me dizendo ha dias, eu deveria ir pro parque pra pensar um pouco.

-Estou saindo, mãe.

-Finalmente resolveu aceitar a minha opinião de sair um pouco? – Minha mãe falou assim que passei por ela. A morte mexeu bastante com ela. Ela pirou um pouquinho e passa a maior parte do tempo vestindo roupas estranhas. Agora ela está vestida de alienígena.

-Sim, e você deveria seguir o meu conselho de parar de usar essas roupas.

-Porque? Você acha muito estranho. É eu sei que é estranho, mas seu irmão gostava quando eu fazia isso, ele achava engraçado – Ela falou e começou a chorar. Argh, odeio quando ela faz isso.

-Olha mãe, você tem que parar de pensar nele, ok? Só um pouco, isso não está fazendo bem pra você...

-Ok, tudo bem. Eu estou bem.

-Tá, eu vou sair.

Ah, eu não aguento mais isso, eu assumi completamente o papel de mãe agora.

Ele era meu irmão mais velho sem vida social, eu é que tinha que levar ele pra festas e coisas assim. Agora, além de cuidar do meu irmão mais novo tenho que cuidar da minha mãe e meu pai nem sabe que eu existo. Ele não sabe que nem um de nós existe.

Cheguei na parada. Tenho que ir de ônibus se não quiser que minha mãe me leve pros lugares. Coisa que eu realmente não quero. Felizmente o parque é perto de casa.

***

Cheguei e fui pra perto do lago. Era lá que a minha banda se reunia pra ensaiar. Passávamos bastante tempo lá. Pelo menos até a morte do Marcos.

-Isso é uma miragem? – Uma voz que eu reconhecia muito bem me tirou do transe.

-Acho que sim. O que você está fazendo aqui, Luiz?

-Tentei ligar pra você, mas você não atendia, então liguei na sua casa e sua mãe disse que você estaria aqui.

-Ah, ela vai me enlouquecer qualquer dia. Adivinho do que ela estava vestida hoje.

-Hmm... de dragão?

-Não, alienígena. Tipo, como eu posso viver com isso?

-Relaxa com o tempo passa. E aí, é muito ruim vir pra cá?

-Só um pouco – Disse me recostando nele. – Mas em casa estava pior... Aqui pelo menos não tem uma pessoa vestida de alienígena... quer dizer tem um de verdade mas é melhor do que a minha mãe estar vestida como um. – Eu disse e ele riu.

É bom ficar com ele. Ele é o único que entende, mesmo que o irmão dele não tenha morrido, eu sinto que ele me entende. É com ele que normalmente eu converso quando estou triste... Ele é o meu melhor amigo.

-Eu amo você, mais do que como amiga. – Ele falou depois de um tempo em silencio. Eu não sei o que responder... ele é o meu melhor amigo. Eu também o amo, mas não sei se é desse jeito. – Desculpa, eu sei que não é uma boa hora... eu tenho que ir. — Ele disse se levantando.

-Espera... – Eu não sei o que aconteceu, mas eu não queria que ele fosse embora – Não vai não. – Ele voltou e ficou um pouco comigo até ficar escuro.

-Eu tenho que ir

-Tudo bem, eu também.

Andamos em silencio até a casa dele que era bem perto de lá e eu fui pra parada pegar um ônibus.

***

-Se divertiu Laís? – Minha mãe perguntou assim que eu cheguei.

-Sim. – Eu tinha muita coisa pra pensar, não podia ficar de papo até tarde. Não que eu fizesse isso, pelo menos não depois da morte do Marcos.

***

Passei a noite em claro e descobri... eu tenho que ligar pra ele...

***

-Deixe seu recado após o sinal... – Droga Luiz, porque não pode atender o celular?

***

–Oi, boa noite tia. Posso falar com o Luiz.

-Você não soube ainda querida? – Ela deu uma pausa e um soluço melancólico. Meu coração apertou, pois eu já sabia o que havia acontecido – O Luiz se matou... – Eu não conseguia respirar as coisas foram ficando escuras a medida que as lagrimas iam caindo. A ultima coisa que eu lembro é do telefone caindo.

Não consegui dizer a ele... isso sempre acontece comigo. Ele não podia ter feito isso... será... será que ele sentiu isso o tempo todo? E eu nunca percebi. A culpa é minha.

Sem realmente perceber o que eu estava fazendo fui para minha janela. Ele havia feito isso, e eu preciso encontra-lo. Eu preciso fazer isso também. E a ultima coisa em que eu pensei quando eu ainda tinha consciência foi: “Eu também amo você” e tudo apagou.

Notas finais
Valeu pra quem leu *00* (rimou)
Kisses&Bye
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!