Ilusões
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Sakura
Acordei, no dia seguinte, com a ressaca do milênio. Nossa, como a minha cabeça doía! Doía tanto que acho que se eu a batesse contra a parede não surtiria efeito algum!
E então, me dei conta de que estava em um quarto. Um quarto completamente desconhecido. Eu não lembrava muito bem de como havia parado ali; apenas lembrava de estar bêbada, e vagando pelas ruas. Ah, lembro dos vômitos, e de ter sido enxotada pelo dono de um bar e por mais algumas outras pessoas. Err.
Levantei de cama e caminhei meio zonza pelo quarto, sendo atraída pelo cheiro de comida. Meu estômago parecia prestes a engolir o restante dos meus órgãos.
Percebi que eu estava em um apartamento. Pude ver pela janela que estava em um lugar alto.
Mas não pude prestar mais atenção à minha volta, porque a dor de cabeça realmente não me permitia. E a claridade do dia ardia em meus olhos, ainda por cima! Então, apenas fui tateando pelas paredes, meio às cegas, até chegar à fonte daquele cheiro magnífico de comida.
Mas, de fato, me assustei com a presença de um cara alto em frente ao fogão. Foi quando realmente me dei conta de que não estava em casa e que eu deveria estar em alerta por isso, ao invés de transitando despreocupadamente. Além disso, apenas minha mãe cozinhava. Desde quando falecera, alguns anos atrás, eu só me alimentava de enlatados. Portanto, ter um homem na cozinha, para mim, era algo surreal; só acontecia em filmes!
Como eu não estava prestando atenção para mais nada, não sei o que lhe chamou atenção para que se virasse para mim.
— Bom dia para você também. — ele me disse. Fiz um esforço tentando me lembrar do que havia acontecido, mas nada me veio meio à mente. Como vim parar neste oásis?
— Você pretende me manter como refém aqui, ou o quê? — eu tinha que ser direta com ele, para lhe mostrar de que não o temia, embora estivesse me borrando de medo. Ele coçou o queixo, de barba rala, e largou uma jarra sobre a mesa. E sorriu.
— Como está a ressaca? — aí, eu me assustei.
— Porque está mudando de assunto?
— Você está livre para ir embora quando quiser! — ele ergueu as mãos para o alto, como se me mostrasse que estava desarmado — Só estou tentando ajudá-la.
Dei mais uma olhada em volta, para ver se realmente estávamos sozinhos, e se não encontrava nada suspeito. Mas o lugar parecia perfeitamente em ordem. Era um belo apartamento, por sinal. O olhei novamente, e me aproximei da mesa.
— Minha cabeça está explodindo. Tem aspirina? — ele nem me respondeu. Apenas puxou do bolso da calça jeans que vestia, uma cartela de aspirinas. E me entregou, largando-a no centro da pequena mesa quadrada.
Depois de tomar o comprimido, olhei para a mesa com mais atenção. Havia de tudo um pouco. Cereal com leite, algumas torradas com geléia de frutas, pasta de amendoim e chocolate derretido. Ainda havia alguns ovos; cozidos e fritos, com a gema meio mole. E ainda um tradicional mingau de aveia, pães e frutas em fatias.
Ele puxou uma cadeira a minha frente, e sentou-se me olhando com escárnio, eu acho. Havia um leve sorriso em seu rosto que não me agradou.
— Que porcaria de café da manhã é essa que vocês comem? —perguntei, olhando para a mesa. Ele revirou os olhos.
— É energético. Vai lhe fazer bem.
— De longe nota-se que é energético. — comentei, sarcasticamente, erguendo um ovo frito com o garfo deixando os pingos de óleo cair sobre o prato.
— Preparei com azeite de oliva. É perfeitamente saudável. — ele diz, revirando os olhos.
— Certo.
Peguei um copo e servi-me com o suco. Peguei a cartela, retirei um comprimido, e o engoli com a ajuda do líquido. Sentei-me em uma cadeira, de frente para ele, e ousei pegar uma fruta para comer. Enquanto isso, ele ficou a me observar.
— Não vai comer? — perguntei.
— Não estou com fome. — ele responde, dando de ombros.
Hum. Não gostei. Eu estava sozinha na casa de um estranho, comendo a comida que ele preparara sem minha supervisão e, agora, ele recusa-se a comer também? Conclusão: a comida estava envenenada.
Cautelosamente, afastei o prato de volta para o centro da mesa. Ele me olhou desconfiado, e cruzou os braços.
— O que houve?
— Não estou com fome. — dei de ombros. Mas meu maldito estômago traidor roncou, neste exato momento. Mas que droga! Parece até praga! E aquilo soou tão alto, que poderia facilmente ter sido confundido com um rugido de leão. Foi bem impressionante, na verdade. Err!
E ele sorriu. Que ódio!
— Não se preocupe. Não costumo usar veneno como tempero.
— Há! Como é que você sabia que eu estava justamente pensando nisso? — ele ergueu as sobrancelhas, e encostou as costas na cadeira.
— Eu não sabia.
— Ops?
Ele coçou o ombro, entre um suspiro.
— Olha... Tudo bem; eu entendo. Você não se lembra de mim. Mas como eu mesmo disse, você está livre para ir embora quando quiser. — aí, ele levantou-se — Na verdade, ficaria agradecido se fosse embora o quanto antes, pois tenho um compromisso antes do meio dia. — ele diz, olhando seu relógio de pulso. Fiz o mesmo. Eram nove e meia da manhã.
Nove e meia? Poxa, o que aconteceu comigo? Nunca levanto antes do almoço! Muito menos em dia de ressaca. Mas que seja. Eu precisava voltar para o hotel antes que alguém sentisse minha falta. Afinal, eu sou notória mesmo. Err.
Minha barriga rugiu mais uma vez, e o cretino me olhou desafiadoramente. Ele estava brincando com meus instintos, isso sim. Ele estava adorando me torturar com aquele seu joguinho perigoso. E aquela comida ali, cheirosa, apetitosa, tentadora,que só faltava falar comigo “me coma, me coma. Fomos feitos para satisfazer todos os seus desejos e necessidades.” Mas eu era durona, e não iria ceder. Talvez... Por uma inofensiva maçã? Não. Controle-se, Sakura. Mostre a ele quem está no controle. Você não possui o pecado da gula. Se bem que, aquilo não era gula. Era fome mesmo. Ter fome é pecado?
Não. Peguei a maçã, e saí correndo feito louca porta afora daquele apartamento. Corri até o elevador. Enquanto esperava, dei uma espiada a minha volta. Tudo parecia calmo; nada suspeito. Nem ele parecia se importar em vir atrás de mim. Hum. Será que exagerei? Nossa! Mas em que aventura fui me meter? No primeiro dia de viagem, já acordei na casa de um desconhecido! Me assusto só de pensar no que poderia acontecer nesses sete dias... O que está acontecendo com o mundo? Que seja. Talvez, eu devesse descer pelas escadas. Uma mulher precavida vale por duas, não é mesmo?
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