Illéa e Nova Ásia: Dois reinos, uma seleção.
4 Safira Bender
Notas iniciais
“Viver cada segundo como nunca mais”
Safira Bender se olhou no pequeno espelho da parede. Os cabelos tingidos de branco, os olhos com heterocromia (um castanho, outro azul) as maçãs do rosto salientes e o nariz empinado. Vestiu sua longa saia azul e uma blusa branca e saiu do pequeno banheiro. Encontrou sua mãe do lado de fora da sua humilde casa, lendo a mão de um cliente. Era sempre assim, ela acordava e dava de cara com sua mãe no papel de uma cigana. Não que reclamasse disso, afinal, o dinheiro que tinham para comer e se manterem vivas vinha única e exclusivamente dos clientes que procuravam Juliet Bender, a cigana.
A mãe, se desconcentrando rapidamente, sorriu para a filha. Era uma mulher muito bonita, no auge de seus trinta e nove anos, olhos azuis escuros, cabelos negros como a noite e cacheados, pele bronzeada. A única coisa que incomodava Safira eram as roupas da mãe: Coloridas demais, chamativas demais, com muitos acessórios.
Sorriu de leve para a mãe, atravessou toda a extensão de sua casa até a rua e começou a andar, procurando algum amigo ou algum inimigo.
Não encontrou nenhum, infelizmente. Entrou em um mercadinho para comprar alguma comida. Procurou por câmeras de segurança, algo que sempre fazia.
– Safi. – Chamou Sra. Harper. Era uma mulher de sessenta e poucos anos de idade, cabelos curtos e grisalhos. Era bondosa e sempre que podia concedia algo para a garota levar para casa. – Venha aqui, tenho uma coisa para você.
A menina, andando em meio às pessoas, foi em direção à barraca de toldo vermelho da mulher. Sentiu-se sufocada e baixinha, embora tivesse estatura mediana.
– Sra. Harper, o que quer? – Perguntou.
– Tenho um caderno, pequena criança. Mais de cem folhas livres para você desenhar o que quiser.
Sorriu, algo que poucas vezes demonstrava.
– Eu ainda tenho várias folhas lá em casa, consegui poupar.
– Eu sei Safira, mas é um presente.
– Nesse caso, obrigada.
– Sabe me dizer se sua mãe tem horário para consultas ainda hoje?
– Creio que sim, ela sempre tem.
– Bom ,avise que passarei por lá umas duas da tarde, okay?
– Sem problema.
Despediu-se e saiu do mercado, o caderno abaixo do braço.
Ela não reclamava de sua vida, sabia que existiam pessoas em condições muito piores. Não era rica, não era miserável, era somente uma pessoa com necessidades que tentava conter através do trabalho, seja como cigana, desenhista, lutadora nas ruas...
Andou pelas ruas, levantando poeira. As ruas daquela região não eram asfaltadas, mal passavam carros e motos por ali, portanto o povo não ligava muito para isso. Saiu da bagunça das ruas e seguiu até a cerca que separava a propriedade dos mais ricos das dos mais pobres, passou por baixo dela sem dificuldades e sentou-se na grama, gostava de ir ali, era quieto, isolado, um lugar onde ela poderia ficar sozinha e desenhar em paz.
– Psiu. – Ouviu alguém chamar.
Olhou para os lados, rezando a todas as divindades que não fosse um policial. De fato, não era, era só uma garota escondida atrás de uma moita.
– Quem é você? – Perguntou ela.
– Meu nome é Peter Pan. – Falou, irônica. – Você é a Sininho e estamos no reino das crianças.
– Nossa muito engraçada você. – Zombou a outra. – Quem é você?
– Nossa, como você é insistente! Já disse que sou o Peter Pan.
A garota se levantou e foi para o lado de Safira. Era alta como um poste e atlética, cabelos vermelhos caídos sobre o ombro.
– Vou perguntar só mais uma vez. Não sou uma adivinha, então me diga seu nome.
O tom de voz da garota era forte, rude. Qualquer outra garota teria saído correndo dali, mas ela nem se mexeu. Já tinha brigado diversas vezes nas ruas e quase sempre saía campeã, era boa no combate. As cicatrizes espalhadas em seu corpo não negavam isso. Gostava de pensar que era o equilíbrio entre sua mãe e seu pai: Tinha a parte divina, a parte boa e pacífica, mas também tinha o sangue quente, o humor sarcástico e a parte rebelde. Sério, aquela garota não ousaria brigar com ela.
– Já disse que meu nome é Peter Pan, mas você deve me conhecer como Úrsula, Rainha Má, Malévola...
– Cale a boca, inútil. Você nasceu retardada assim ou fez curso?
A menina agarrou sua nuca, bem em cima de uma marca de nascença. A mãe de Safira costumava dizer que aquilo significava proteção dos anjos. Derrubou Safira no chão e começou a distribuir tapas por todos os cantos do rosto.A agressora olhou nos olhos da garota de cabelos brancos e ficou desnorteada, como sempre acontecia com que a encarava.
– Ficou assustada? – Zombou Safira.
A garota a soltou.
– Que diabos têm no seu olho? É uma aberração?
Se aproveitando da chance, Safira se levantou e jogou-se sobre a garota. Caiu por cima da menina de cabelos vermelhos e lhe deu um soco na cara. Desejava ter uma espada ali mesmo.
– Essa cor de cabelo te deixa horrorosa. – Falou, sendo sincera. – Você fica pálida e feia como um fantasma.
– Quem... é ....você? – Indagou a menina.
– Safira Bender, sugiro que não mexa comigo novamente.
– A filha da cigana?
– É, mas também sou filha de Andy Reynolds,o ladrão. Então não mexa comigo.
Ela largou a garota, e essa saiu correndo para fora da cerca. Nem havia sido uma briga direito, Safira já sabia que sairia vitoriosa.
Pegou seu caderno e um lápis que estava nas espirais. Encarou ao longe a casa que detinha de todo esse território e resolveu desenhá-la. Só saiu da propriedade quando escureceu.
* * *
– Safi? – Perguntou a mãe. – Safira, onde você estava?
– Andando por aí.
Tirou seus chinelos e deixou-os na porta. Sua mãe dizia que não devia usar sapatos dentro da casa, traziam maus espíritos.
– Não deveria ficar até tarde nas ruas. O que é isso e seu rosto?
Levou a mão ao rosto, limpando o sangue seco.
– Foi só uma briga.
– Filha, não deveria brigar. Onde está o amuleto de paz que te dei?
– Tive que vender.
– Não se vende um amuleto, ele era especialmente feito para você.
– De onde papai roubou?
– Não foi seu pai que roubou, filha...
– Eu sei que roubou.
A mulher se sentou na cadeira de madeira da cozinha, respirando profundamente.
– Vou tomar banho. – Falou a garota.
– Espere, eu tenho notícias sobre a seleção.
– Quais?
– A carta chegou hoje, e você foi aceita.
Safira precisou se apoiar nas paredes, nem em mil anos imaginou que seria aceita.
– O príncipe de Illéa te espera, minha filha. E a paz pode te fazer ganhar.
Ela não acreditava que a paz a faria ganhar, mas fingiu concordar com a mãe.

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