Illéa e Nova Ásia: Dois reinos, uma seleção.
15 Carter Mason
Notas iniciais
"Tu te tornas responsável por tudo aquilo que cativas".
–Antoine de Saint–Exupéry
Defying Gravity– Idina Menzel
O dia estava uma loucura. Criadas corriam de um lado para outro nos corredores, carregavam vestidos, armações, leques e outros acessórios, tudo muito vitoriano. Carter Mason, que estava sentada em sua cama esperando que seu vestido fosse ajustado, não pôde deixar de se recordar da vez em que houve o tema vitoriano na boate onde era dançarina e, às vezes, cantora. No palácio era tudo diferente, para começar, ela não precisava trabalhar durante manhã, tarde e noite em três empregos diferentes (babá, empregada e dançarina). Era uma rotina bem cansativa, mas ela jamais reclamava, sabia que isso era importante para seus irmãos mais novos.
— Senhorita. — Disse sua criada, fazendo uma reverência. — Seu vestido ficará pronto em uma hora.
— Tudo bem, Katy. — Respondeu a selecionada, enrolando uma mecha de seu cabelo castanho escuro nos dedos — Darei uma volta no castelo enquanto isso.
— Como quiser, senhorita.
* * *
O salão de mulheres estava ainda mais caótico que o de costume. Constance tentava ensinar as garotas à andarem nas saias vitorianas sem tropeçar e cair, mas a maioria delas ainda não haviam se acostumado.
— Essa coisa pesa. — Reclamou uma garota de quem Carter não se recordava.
— Irá se acostumar, senhorita. — A mulher disse. — Apenas respire fundo e deixe fluir.
— Não consigo respirar com esse corpete apertando minhas costelas. — Safira Bender praguejou. — Ainda pede para que eu respire?
Constance dirigiu sua atenção a uma selecionada que prendera o salto alto na barra do vestido. Desistindo de sua caminhada, a garota voltou a seu quarto.
* * *
— Está belíssima, senhorita. — Elogiou a criada, Katy.
Carter mirou-se no espelho. Usava um vestido tipicamente vitoriano noturno, com um corpete que evidenciava e afinava sua cintura. O decote ia até os ombros e era decorado em renda e babados . A cor amarela do vestido valorizava e destacava sua pele negra. Segundo a costureira, esse vestido fora inspirado na primeira fase da época vitoriana, antes do falecimento de príncipe Albert, por esse motivo a roupa era colorida e alegre. Colocando as luvas de renda, Carter voltou a se encarar. Admirou o penteado que fizeram em seu cabelo, era delicado e, em meio à tanto tecido, jóias, crinolina, ela agradeceu por pelo menos uma coisa em si estar presa. decotados até os ombros, com decote decorado em rendas, laços e babados. Levou a mão até o colar de camafeu em seu pescoço, admirada com a beleza de tudo aquilo.
— Fez um fantástico trabalho, Katy. — Disse Carter, sorrindo.
— Imagine, senhorita. Agora é melhor nos apressarmos, a festa começará ao pôr do sol.
— Não se preocupe, já estou indo.
Carter saiu de seu quarto, encaminhando-se para o salão onde ocorreria a festa. Constance dera as instruções de como chegar até lá no dia anterior e, mesmo se não soubesse o caminho, poderia perguntar a algum criado.
— O que faz aqui, senhorita? — Indagou uma criada. Usava um vestido de sarja em um tom escuro e, por cima, um avental branco com babados. Seus cabelos estavam presos em uma touca. A julgar pelos livros de historia, o castelo seguira à risca o vestuário de trabalhadores do século XIX.
— Estou indo ao salão de festas.
— É contra as regras ir sozinha até lá. Volte ao seu quarto e espere que Constance vá busca-la junto das outras selecionadas.
Não contestando, Carter refez o caminho. Encontrou-se com Constance e as outras garotas no meio do percurso. Todas estavam estrondeantes, com vestidos de todas as cores e tecidos. Por um momento, a garota quase se cegou com as belas jóias das outras garotas.
— Podemos continuar a caminhada, Constance? — Queixou-se Margarette. E meio à seus acessórios, fora quase impossível descobrir quem era.
Em fila, todas se direcionaram até o salão de festas, que estava belíssimo. No centro do salão, havia grandes e brilhantes lustres, que envolviam todo o cômodo com sua leve luz. Aos arredores do salão, várias mesas de vidro receberam um belo arranjo de flores brancas e velas. Tudo ali estava perfeito, desde a porcelana dos pratos até o piso de espelho, que refletia a imagem das garotas. O teto abobadado era coberto de pinturas, como se fosse uma das antigas igrejas da época renascentista. Alguns bancos dourados ficavam ao lado das grandes janelas, que agora mostravam o belo cenário do por do sol. Observando a majestade do salão, a garota pensou no quanto se parecia com o salão de espelhos do palácio de Versalhes. Ao fundo do local, alguns músicos tocavam uma leve melodia, uma perfeita harmonia entre piano, violino e violoncelo.
Batidas soaram, escapando de um relógio que não for notado anteriormente. A música cessou e, quando as portas do salão se abriram, os príncipes, com a mesma elegância de sempre, entraram. Pararam no último degrau para que Jonathan pudesse se pronunciar.
— Sejam bem vindas, senhoritas. Posso perceber que todas capricharam no vestuário.
Um risinho escapou de alguma garota ao fundo.
— Eu iria dizer exatamente isso. — Liang disse. — Por um momento, me sinto na época vitoriana. Não se esqueçam de parabenizar as criadas de vocês quando a festa acabar.
— Principalmente se você for eliminada. — Jonathan disse, com um sorriso no rosto.
Liang abriu sua boca em o “O” perfeito antes de tentar amenizar a situação.
— Ora, meu amigo, isso não é algo que um cavalheiro vitoriano diria. Por que não damos início à festa?
Todos bateram palmas e a música recomeçou, dessa vez mais forte e sentimental. Os criados começaram a andar de um lado para o outro do salão, servindo petiscos antes que a refeição principal fosse servida.
— Oi. — Cumprimentou uma selecionada. Carter se lembrou dela, fora a garota que viera junto dela no primeiro dia da seleção.
— Oi, Holly.
Holly parecia estar perfeitamente confortável com seu vestido rosa chá. Abanava seu leque com classe, como se tivesse treinado para aquilo. Conversaram por um minuto ou dois antes que Gisele, outra selecionada, se juntasse a elas para conversar. Quando Carter se deu conta, tinham formado uma “rodinha” de conversa, até mesmo Ming estava lá.
— O assunto está bom? — Indagou Jonathan, se aproximando.
Espantadas, nenhuma selecionada respondeu.
— Pode falar comigo. — Disse o rapaz, rindo. — Eu só mordo quando me pedem.
— Você morde? — Ming indagou, com sua natural audácia. — Por isso é que seu pai vive te chamando de cachorro?
— Ele brinca com isso, é um apelido. — Respondeu o rapaz, tão vermelho quanto o batom de Constance.
— Não parecia ser um apelido... — Desdenhou a princesa.
— Ming! Isso não foi educado. — Liang disse, aproximando-se. — Peça desculpas.
— Não tem problema, amigão. — Jonathan disse, rindo. — Crianças gostam de brincar. Além do mais, já é hora do jantar.
As garotas levaram seus olhares até a mesa no centro do salão, que agora estava lotada de comida. Na verdade, Carter pensou jamais ter visto tanta comida em sua vida.
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