Illusões Sólidas
2 O vaso de gavinhas
Capítulo II — O vaso de gavinhas
Sasha gostava muito daquele jarro.
Comprou para o dia das mães com a ajuda da irmã mais velha. Costumava colocar as flores do jardim vizinho nele todo sábado. Era de vidro pintado: azul claro com uma linha deitada vermelha perto da base. E tinha desenhos de gavinhas que não tinham cor alguma, aí conseguia ver mais ou menos o que tinha do outro lado. Era legal ver o caule da flor aparecer e desaparecer conforme as gavinhas transparentes dançavam e se cruzavam.
Agora, ele estava estilhaçado no chão, e um grande caco jogado bem perto dos pés. Sasha poderia se machucar.
– Deixa de mentir para mim! — ela se virou ao papai, estava vermelho.
Não vermelho quando fede a vinho, era um vermelho muito mais vermelho que aquele vermelho. Ele tem ficado vermelho assim muitas vezes, esses meses.
saia
A menina olhou para *********, que estava vermelha como o pai, mas chorava como um bebê. Ela gritava alguma coisa de volta, mas estava muito enrolado e a mamãe fungava demais para Sasha entender. ***** parecia entender, e a cada palavra ficava mais zangado.
saia
– Então o que fazia nO COLO DAQUELE FILHO DA PUTA?! – Papai pegou um dos quadros que mamãe havia pintado. Era a floresta da casa de campo, seu lugar favorito.
A bela moldura que segurava o quadro foi logo foi partida em duas quando o pai a atirou contra a parede, como o vaso.
saia agora
Puxaram Sasha para trás e ela viu um borrão negro passar pelos seus olhos, ao seguir o movimento, viu a cadeira de ébano esmagada contra a parede. O pai tinha uma boa mira.
saia
Ela olhou o pai. Ela atravessou a sala. Ela saiu.
– Sasha, está tudo bem contigo? — Artie, a empregada da casa tinha ido até o corredor ao ouvir a porta se fechando — Meu deus, você estava lá dentro?!
– Mamãe queria apoio, mas disseram para eu ir embora.
– Não deveriam intrometer uma criança nas brigas deles... — Ela se ajoelhou e olhou a garota de cima a baixo — Nossa Senhora, já disse para não andar descalça, olhe teus pés.
Sasha olhou. Depois olhou o caminho que tinha feito até o momento, estava tudo cheio de sangue, como quando a irmã atingiu a menarca. Os cacos do vaso estavam todos em seus pés, e agora sentia o vidro, caco e pó, cortando a pele e a carne com o próprio peso.
O ar começou a criar densidade e ficou tudo tão, tão quente. Mas tão frio, ao mesmo tempo, nas pontas dos dedos e dos pés. Sasha respirava forte e percebeu que o calor do peito e do rosto fora roubado das perninhas e maozinhas dela, tremendo como nunca. Sasha caiu no chão em lágrimas e os pés só doíam mais e mais e mais.
E com o grito que deu, a empregada juntou suas forças e carregou a menina pelo corredor.
– Vou chamar um médico para ver a Sasha, depois limpo tudo — Não falou para Sasha, era só uma nota mental. Artie fazia muito isso — Médico, limpeza — Deitou a menina na cama e pegou o telefone pregado na parede.
– Deixa secar.
Ela disse, ainda fungando e passando as mãos pela boca e bochechas. Artie deixou.
Elas lhe disseram o que mostrar ao doutor quando fosse visitar enquanto Sasha abria a gaveta do criado-mudo e pegava a câmera fotográfica.
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