Illusion

3 Qual é o problema desse campus?


– Uma garota que não existe é assassinada e seu corpo desaparece. – Pierce falou enquanto observava as coisas serem deixadas para trás tão rapidamente através da janela do carro de Kate, que o levava para casa naquela noite estranhamente chuvosa. – Apesar de parecer uma brincadeira de mau gosto, alguma coisa me diz que tem algo errado. Você precisa investigar.

– Como vou investigar uma pessoa que não existe e um crime do qual nem se quer temos certeza de que ocorreu? – Kate olhou rapidamente para Daniel, mas logo voltou a prestar atenção no trânsito. – O sangue é dela, tudo bem. Mas uma pessoa pode sangrar e continuar viva. Não temos corpo. Nem se quer temos uma identidade. Não temos nada.

Daniel permaneceu em silêncio. A curiosidade o corroia por dentro, mas não podia negar que Kate estava totalmente certa, apesar de ele estar convencido de que um crime havia realmente ocorrido. Tinham uma testemunha e ela não estava mentindo, ele sabia.

– Além do mais, como você disse, pode ser apenas uma brincadeira de adolescentes ociosos. Uma perda de tempo.

– E quanto ao sangue? Os documentos falsos?

– Ela pode ser detida por fraude. – comentou. — E claro, se ela não aparecer será dada como desaparecida, mas essa investigação ficaria por conta dos oficiais da polícia local.

Permaneceram em silêncio e, embora tentassem se convencer do contrário, ambos estavam convencidos de que as coisas não eram tão simples.

A chuva havia começado quando ainda faziam o interrogatório e o trânsito, que já não era agradável às oito da noite de um dia sem chuva, se tornara quase intransponível. O percurso levou o dobro do tempo que normalmente teria levado, mas chegaram a tempo de ver uma garota parada em frente à porta da casa de Daniel.

– Acho que tem visita. – Kate comentou e Daniel, que não havia visto a garota, seguiu seu olhar.

– Continua dirigindo. — ela o olhou sem entender, mas diminuía a velocidade. – Não para! Não tenho tempo pra isso. – ele a olhou com urgência.

– Tudo bem. Tudo bem. – e voltou a acelerar o carro, deixando para trás a casa que já tinha a porta da frente aberta por Lewicki. – Quem é essa? Alguma paquera descontente? – Kate sorriu e não pôde deixar de olhar para Daniel para ver sua expressão incrédula.

– Muito engraçado. Depois daquela tal garota que foi ao meu escritório só para ficar seminua na minha frente, eu não quero mais me envolver com nenhuma delas. Não que eu tenha me envolvido com alguma. Mas não quero nenhuma delas batendo na minha porta a essa hora da noite ou a qualquer hora do dia. – Daniel expirou e relaxou no banco do passageiro ao ver que a casa ficara para trás.

– Seminua? – Kate ficou surpresa e riu. – Elas realmente te amam. – e sorriu discretamente ao pensar que fora e ainda era uma delas.

– Não é tão engraçado quanto parece.

Permaneceram em silêncio e, em poucos minutos, estavam novamente em frente à casa de Daniel que ficou feliz ao ver que não havia mais ninguém em frente a sua casa.

– Finalmente, uma noite tranquila. – Daniel sorriu discretamente e saiu do carro apressado. — Boa noite, Kate.

– Daniel? – Kate o chamou e ele a olhou através do vidro que estava sendo abaixado enquanto tentava se proteger da chuva com seu casaco. – Você sabe que ela pode estar lá dentro, não sabe?

Ele parou de pé sobre a grama enquanto a olhava. – Obrigado, Kate! Muito obrigado! – e seguiu até a entrada da casa enquanto Kate, sorrindo, seguiu seu caminho.

Após abrir a porta, Dr. Pierce entrou cauteloso e se apressou em observar a sala à sua esquerda, certificando-se de que não havia ninguém o esperando.

– Lewicki! – gritou e esperou, não muito pacientemente, que seu assistente aparecesse. – Lewicki!

O rapaz desceu as escadas, alarmado. – O que? – disse ao chegar aos últimos degraus onde parou, esperando uma resposta de Daniel.

– O que a garota queria?

– Era uma tal Rosie. Ela queria falar com você. Você pode, por favor, me explicar o que está acontecendo aqui? Você desaparece de repente, duas pessoas morrem e uma garota quer tratar de assuntos importantes com você a essa hora da noite! – Max dizia enquanto seguia um Daniel que ia para a cozinha sem parecer dar a mínima atenção para suas palavras. – Você está me ouvindo, Dr. Pierce?

Pierce havia pegado um bule e o enchia de água enquanto Lewicki ficara parado diante do balcão da cozinha, onde apoiara os antebraços e observava Daniel. Este estava imerso em seus pensamentos e não se deu ao trabalho de responder a pergunta de seu assistente. Colocou o bule no fogão e, enquanto a água fervia, foi abrir a geladeira à procura de algo para comer, ou simplesmente por impulso. Não encontrando nada, fechou a porta e onde esta havia estado, apareceu o ilusionista.

– Você agora não. – Daniel disse impaciente para o homem ruivo que o olhava com um sorriso.

– Agora não, Dr. Pierce? Você vai me explicar o que está acontecendo. – Lewicki disse.

– Não estou falando com você, Lewicki. – Daniel olhou para o rapaz que aparentava confusão seguida de compreensão e foi em seguida pegar sua caneca e um sache de camomila, ignorando a presença próxima a ele.

– Você acha que não tem um caso, mas no fundo sabe que ele existe. – o homem, ainda vestido de roxo, disse. – Então você vai perder o controle porque não quer ouvir o que as pessoas têm a dizer?

Daniel olhou para o ilusionista e, após refletir por alguns segundos, se voltou para Lewicki. – Você disse duas pessoas?

– Ah! Agora você resolveu me ouvir? O que há de errado com você?

– Só me responda! Você disse duas pessoas? Quem mais morreu? – Daniel deixou a caneca de lado sobre o balcão, atento ao que Max teria a dizer.

– Acabaram de encontrar um homem morto no campus. A garota queria conversar com você e sua ‘amiga do FBI’ porque acha que existe alguma ligação com a morte de sua amiga.

– Qual é o problema desse campus? – disse enquanto se virava para pegar o bule que repousava sobre a chama, imediatamente apagada. – Ligue para Kate e pergunte o que está acontecendo. – jogava a água em sua caneca sem olhar para Lewicki que permaneceu imóvel por alguns segundos, mas logo foi fazer o que Daniel lhe pedira. Não gostava de admitir que o pedido fora, na verdade, uma ordem.