Illusion

6 O que diabos é isso?


Kate Moretti assistia ao noticiário da noite em seu apartamento. Sentada na poltrona, mal havia tido tempo de assistir a mais de duas notícias quando o som da campainha soou. Sem se levantar, olhou em direção à porta por alguns segundos esperando que quem quer que estivesse ali fosse embora para que ela pudesse finalmente descansar sem interrupções após um longo dia de trabalho. Entretanto, não foi o que aconteceu. Fez-se soar a campainha novamente e Kate soube que, quem quer que estivesse ali, parecia não ter a intenção de ir embora tão facilmente.

– Kate, sei que está aí e preciso falar com você. — assim que ouviu a voz de Daniel, ela sorriu. Isso explicava a insistência.

Levantou-se e seguiu em direção à porta, abrindo-a logo em seguida para encontrar Daniel segurando sua bolsa em frente ao corpo, aparentando inquietação.

– O que aconteceu, Daniel?

O professor entrou no apartamento sem ser convidado e Kate, nem um pouco surpresa, mas ainda não totalmente acostumada, fechou a porta atrás de si antes de ir até Daniel, que já começava a falar.

– O nome dela é Elizabeth Jones. Ela morava com a família na Inglaterra antes de todos serem assassinados.

– Todos morreram? E por que ela está aqui?

– Os jornais da época falam sobre um possível sequestro. Talvez o homem simpático do hospital saiba alguma coisa. Talvez ela tenha fugido e ele esteja tentando encontrá-la. Talvez...

– Calma, Daniel. — Kate o interrompeu. — Do que você está falando? Que jornais? Você tem certeza de que está mesmo bem? — ela o olhava, preocupada.

Daniel expirou profundamente e soltou o ar lentamente pelas narinas enquanto observava Kate. — Eu não estou louco, Kate. Não que eu seja muito normal, mas...

Ela sorriu e se aproximou dele, olhando-o nos olhos. — E eu não estou duvidando de você. Só me preocupo quando fica eufórico assim. — lentamente, temendo deixá-lo desconfortável, levou sua mão até o rosto de Daniel, que fechou os olhos por alguns segundos ao sentir o calor de sua pele. Em seguida, ela se afastou, não por estar incomodada, mas por medo de que ele estivesse. — Então, você pode me mostrar esses jornais? Me explicar? — ela o olhava como se nada houvesse ocorrido, de modo que Daniel nem se quer tivesse tempo de sentir-se mal em relação à recente proximidade.

Daniel pigarreou, sentindo-se estranho, e desviou a atenção dos olhos que ainda o olhavam e do calor que ainda sentia em seu rosto para sua bolsa. Retirou de lá a correspondência que havia recebido pouco antes e a entregou a Kate.

– Onde você conseguiu isso? — perguntou, enquanto pegava o conteúdo do envelope.

– Foi entregue em casa não faz muito tempo por alguém que não queria ser visto. Mas é claro que imagino quem seja...

Os recortes foram observados com calma e perícia pela agente que, ao terminar, juntou-os no envelope novamente, entregou-o a Daniel e disse, enquanto desaparecia, apressada, pelo corredor que levava ao seu quarto: — Vamos ao departamento confirmar a veracidade disso.

Daniel ficou olhando para o corredor vazio por alguns segundos antes de se dar conta de que provavelmente estaria parecendo um idiota. Assim, deu alguns passos pela sala vazia. A luz da televisão ainda ligada iluminava o ambiente e ali prevalecia um azul que fazia tudo parecer saído de um sonho. Enquanto observava ao redor, se deu conta de que ainda se sentia estranho. Sua respiração havia se tornado mais rápida, assim como as batidas de seu coração e ele não queria pensar nisso ou descobrir o motivo. Então, deixando seus pensamentos em segundo plano, colocou o envelope de volta em sua bolsa e, ao levantar a cabeça, viu que Kate já voltava de seu quarto, vestida como se vestia habitualmente para trabalhar.

– Vamos. — ela disse. Desligou a televisão e seguiu para a porta com Daniel atrás de si.

No departamento, as coisas pareciam mais calmas do que estavam durante o dia. Em sua mesa, Kate usou o computador para analisar os recortes de jornal e Daniel permaneceu em silêncio, concentrando-se em seus pensamentos. Podia entender um roubo mal sucedido terminado em assassinato. Um rapto ou uma fuga. Mas por que uma perseguição? Queria que o caso chegasse ao fim, mas continuava a sentir que havia algo errado.

– As notícias são verdadeiras. — Kate disse, interrompendo seus pensamentos. — Consegui uma fotografia. Mas não é o que chamaríamos de informação elucidativa.

Daniel se aproximou e viu na tela o rosto de uma garota muito parecida com Karin — Elizabeth, ou quem quer que ela fosse — publicada na edição de um outro jornal de nome sueco. Mas havia algo diferente. Ela se chamava Emma Lund e abaixo de sua pequena foto, estava noticiada sua morte.

– O quê? — Daniel disse em voz alta. — Morta? O que diabos é isso? — olhou para Kate. — E agora voltamos à Suécia?!

– Eu também não estou entendendo mais nada.

– Mas que droga! — ele bateu a palma da mão na mesa, assustando Kate que o olhava em silêncio. Ele se afastou, dando alguns passos em direção à janela mais próxima e ali permaneceu, observando as luzes da rua que pareciam deixá-lo hipnotizado. A mistura de ansiedade e irritação o fazia sentir-se frustrado. Nada parecia fazer sentido.

– Talvez seja melhor você me deixar resolver isso. — Kate havia ido até ele e colocado a mão em seu ombro. Ele permaneceu em silêncio. — Eu te levo para casa e quando você estiver mais calmo a gente conversa, certo?

Daniel respirou fundo, tentando controlar suas emoções. — Vamos até o hospital. Aquele homem ainda está lá? — disse, sem se virar.

– Sim. Mas acho que seria melhor se você descansasse um pouco.

– Eu vou com você. — ele se virou para olhá-la. — Eu estou bem.

– Daniel...

– Por favor. Eu só preciso que isso acabe. Você sabe. — ele sorriu de maneira forçada, enquanto tentava afastar os sentimentos ruins que prevaleciam dentro dele.

Kate suspirou. — Tudo bem. Vamos. Mas depois você vai para casa.

Daniel sorriu, dessa vez mais verdadeiramente, e os dois seguiram juntos para fora do prédio.