I'll Be Your Home
1 Família
Notas iniciais
Agradeço de antemão pela atenção e espero que possam aproveitar a leitura como desejam.
Desejo-lhes uma boa leitura.
O frio insano se fazia presente naquele mês. O vento congelante intimidava as pessoas que ainda se arriscavam em percorrer as ruas gélidas. Era fim de tarde e o céu nublado já se encontrava quase totalmente negro. Possivelmente, a primeira queda de neve seria naquele dia. Para muitos, um dia que poderia ser considerada especial. Mas não para todos.
Não para Lilith.
Mesmo com as condições extremas, a baixa temperatura e a eminente escuridão que se alastrava pelas ruas, a mulher caminhava desinteressada, perdida. Seu olhar desfocado não se movia por nada, demonstrando a profundidade em que esta imersa em sua própria mente. Desse modo, ela não tinha se dado conta do que fazia, muito menos a situação ao seu redor.
As poucas pessoas que andavam pelas ruas a olhavam chocadas. Críticas e comentários abusivos eram proferidos aos montes. Tudo em base de seus próprios critérios. Achavam um absurdo... Não que, talvez, não fosse. Afinal, perante as vestimentas ousadas e provocantes da mulher, todos duvidaram que apenas o sobretudo preto seria o suficiente para protegê-la do frio. Porém, o que mais os impressionavam era o descaso que esta fazia. A mulher não demonstrava nenhum incômodo quanto a isso e não parecia ligar que seu tronco estava, praticamente, todo exposto, exceto pelo top ousado de cor vermelha. Os lábios levemente rubros expeliram uma densa névoa branca, revelando um profundo e distante suspiro. Seu ato não significava que havia retornado à realidade.
Na verdade, ela nem sabia se desejava retornar tão cedo.
Seus olhos vermelhos diziam por si. Apesar do agradável e belo brilho que suas íris emitiam, seu olhar parecia sem vida, frágil e instável. A mulher não queria admitir o óbvio, mas era fato que estava mais do que desanimada e desamparada. De certa forma, aquilo não era uma novidade, muito mais naquela época do ano. Seus passos a guiavam por um caminho sem fim, nunca indicando que chegariam em algum destino. Para ela, isso bastava. Assim, perdia mais do seu tempo em seus pensamentos vazios e buscava calar o vazio em seu peito.
Logo, o caminho estava livre de qualquer presença que não fosse da mulher. Tudo estava deserto. As luzes dos postes acendiam um a um, trazendo alguma iluminação para o breu que surgia com o fim da luz do sol. A noite iniciava-se silenciosa e, de certa forma, melancólica. Tão fria e solitária assim como o coração daquela mulher.
Pouco a pouco, os passos que antes eram dados tão naturalmente, agora, perdiam seu ritmo. Devagar, as passadas diminuíam até, enfim, cessarem. Parada em frente à um pequeno estabelecimento, não demorou muito para que seus olhos fossem guiados para a ampla vitrine e seu conteúdo conquistasse sua atenção. Era uma singela joalheria, uma ordinária e que não deveria estar conquistando sua atenção. Mesmo assim, seu olhar não desviava das peças em hipótese alguma. Ela não tinha ou sentia a necessidade de obter joias como outras mulheres. Porém, por algum motivo, seus olhos, involuntariamente, vagavam por entre os belos adereços como quem buscasse por algo.
Logo, as íris escarlates identificaram um brilho tênue e singular, ofuscado pela cintilância radiante de outras peças preciosas. Era um ordinário colar fino de ouro, contendo como pingente apenas uma moeda de mesmo material. Supostamente, o modelo servia para gravar nomes ou poucas palavras, eternizando os mais diversos significados. A imagem da peça fez com que um triste sorriso transparecesse sobre os lábios rubros.
Por um instante, a mulher quebrou sua postura, mexendo em um dos bolsos de sua calça a procura de algo. Não demorou muito e sua mão parou de se mover ao capturar o que queria. Lentamente, a mulher retirou o objeto e manteve seu olhar baixo, enfrentando com certa dor um colar idêntico ao do mostruário. Porém, algo estava cravado na pequena moeda dourada.
Um nome... Um nome que a feria no fundo de sua alma.
Devido à uma forte corrente de ar congelante, a mulher, finalmente, demonstrou-se surpresa pelo frio absurdo que se fazia. No mesmo instante, seus braços contornaram seu corpo, tentando proporcionar o mínimo de calor para seu corpo exposto e fechar o sobretudo o melhor possível. Para ajudar na tarefa, Lilith encolheu-se um pouco onde estava, sentindo seus músculos tremerem violentamente. A mulher sentiu-se patética com sua situação, irônica como poderia expressar tantas reações humanas, sendo que ela não era uma.
Ao menos, não mais.
Subitamente, o peso e um calor inesperado recaiu sobre seus ombros. Ainda mais impressionada, sua face se moveu para se encontrar com a pessoa ao seu lado. Contudo, assim que a visão do casaco vermelho foi visível, esta deteve-se de encará-lo e apenas voltou a sua postura costumeira.
— Podia ter colocado alguma roupa melhor antes de sair nesse frio. — a voz grave e masculina adentrou de forma agressiva nos ouvidos da mulher, causando-lhe um prazer inesquecível. Era uma voz que nunca seria capaz de esquecer.
E dessa forma, a mulher poupou-se do esforço de se voltar para aquele homem e um travesso sorriso delineou seus lábios.
— Não estava tão frio quando saí. — suas palavras acabaram saindo mais agradáveis e gentis do que o normal. Isso a incomodou, porém, mesmo assim, ela não apresentou seu desgosto. Não queria dar ênfase em sua observação e seria mentira afirmar que o outro não havia percebido o mesmo. Por fim, Lilith apenas ajeitou o cobertor entregue sobre seu corpo e dedicou-se para impedir que novas rajadas de vento esfriassem seu corpo quente. — Valeu pelo cobertor.
— Sabe. Se você tem coisas pra tratar aqui, por que apenas não resolve de uma vez? – o homem desabafou aquelas palavras com imenso cansaço. Parecia que ele estava as guardando e sua garganta por um longo tempo. Na verdade, por tempo demais. Isso atraiu o interesse da mulher, um pouco confusa com o que ele queria dizer. Rapidamente, a face do homem se fixou sobre o vidro da vitrine, notando cada brilho vaidoso das joias expostas. – É sempre a mesma coisa. Você some por um tempo, andando sem rumo até chegar aqui e se perder em pensamentos enquanto encara os mesmos colares. O que tanto você vê nisso?
— Está me espionando, por acaso? — a mulher acabou demonstrando um pouco mais do que gostaria. Sua descrença estava levemente mais acentuada, algo que não deveria existir quando se tratava do outro. Afinal, não era uma novidade o interesse dele sobre o que fazia ou o que deixava de fazer.
— Talvez... E se for?
— Sua obsessão me impressiona, às vezes. — Lilith suspirou incrédula, nem perdendo esforços para mostrar o quanto a sinceridade do homem era uma loucura. Por isso, saindo de uma expressão cansada, sua melhor resposta foi sorrir entretida com toda a situação.
— Se quer tanto esse colar, por que só não compra de uma vez?
Com a pergunta sendo dita de forma tão bruta, a mulher não conseguiu evitar de expressar uma pequena reação de verdadeiro espanto. Apesar do tom rude e nada compreensivo, Lilith nãos se sentiu ofendida ou ficou chateada. E o homem não demonstrou arrependimento com sua atitude.
A verdade era que ele não conseguia compreender as atitudes da mulher. Por mais que dedicasse uma atenção nada convencional e nada condizente com sua personalidade, o homem ainda não entendia seus motivos... O que tanto levava a outra a repetir os mesmos movimentos. Parecia um hábito. Um hábito que sempre surgia naquele período do ano. E por mais que não gostasse de admitir, ele não gostava de ver tanto sofrimento incumbido naqueles olhos escarlates.
Desde que teve ciência do estranho comportamento de sua aliada, o homem sentiu-se um pouco idiota por nunca ter notado antes. Ele passou muito tempo acreditando que ela estava apenas aproveitando do tempo livre ou mesmo fazendo pequenos trabalhos. Mas agora, após dias a seguindo durante suas saídas e estudando seus movimentos, não tinha mais como ele voltar atrás. Ele estava curioso. Queria entender sua razão e acabar de vez com o enorme desconforto que assolava seu peito.
Realmente, ridículo...
Em um instante, um sutil brilho dourado requisitou sua atenção. O homem não conseguiu esconder sua surpresa quando percebeu o objeto que a mulher tinha entre seus dedos. O acessório, ao seu ver, tão estimado para a outra já estava ali. Isso o frustrou ainda mais e o enfureceu.
Por que ela continuava a fazer o que fazia?
— Não é o mesmo colar?
A palavras do homem atravessaram a alma da mulher impiedosamente.
Apesar do mesmo não ter reparado em seu próprio tom de voz, sua pergunta fora feita com grande desgosto. A mulher não o criticou por isso e, de certa forma, estava grata por ele ter lhe lembrado do acessório. Logo, um pequeno e cansado sorriso lhe tomou os lábios, tão sem vida quanto o brilho de seus olhos. Novamente, ela se culpava por estar sendo tão tola e deixar que seus sentimentos ganhassem alguma força. Ela não podia ser fraca... Muito menos, transparecer tanta sinceridade. Não se daria a esse luxo, nem sozinha e nem na presença do amigo. Ela manteria sua imponência e se mostraria inabalável, como sempre fez. Mostraria seu lado perfeito, mesmo naquele momento de fragilidade.
Mas por mais que desejasse esconder suas fraquezas, elas continuariam existindo, apenas de aceitá-las.
E por isso, assim que sua boca abriu para respondê-lo, sua própria voz se recusou a sair, nem chegando perto de alcançar o exterior. Elas morriam antes mesmo de serem pronunciadas. Inconscientemente, Lilith agarrou-se ao manto pesado, suspirando inaudível para recuperar sua fala. E diferente do que imaginou, sua voz soou clara e apática.
— É o colar da minha mãe.
Para a surpresa do homem, a resposta dada não era o que esperava... Muito menos o que imaginava.
A informação não transpareceu ter tanto custo, mas isso era uma mentira. Ele sabia disso, pois mesmo que as feições da mulher se mantivessem firmes e indiferentes, seus olhos demonstravam toda a fraqueza que repudiava. E ver todo aquele esforço havia lhe feito mais mal. A raiva tornou-se um incômodo... E desse incômodo surgiu a culpa. O homem se arrependeu de suas palavras, da forma não medida que havia se expressado. Sentia-se que havia obrigado a amiga a respondê-lo o que não gostaria.
E sabia que por mais que Lilith dissesse que eram águas passadas, o passado sempre seria um peso sobre seus ombros.
Afinal, foram mais de quinze anos de dor e sofrimento. Anos que lhe foram confiscados na infância por um demônio. O homem conseguia entender muito bem o que a mulher sentia, o terrível buraco que existia em seu peito. Ter assistido a morte de seus pais e depois ser obrigada a servir o algoz de sua felicidade... Era por esses fatos e muitos outros que ele tinha respeito pela mulher. Por sua força, coragem e habilidade. Era o mínimo que poderia sentir, depois de conhecer sua estória. Devia ser muito difícil...
Tornar-se aquilo que você mais abomina.
E por isso, ele não conseguia evitar demonstrar o peso que sentia em seus ombros. Por mais que sempre mostrasse seu lado mais forte, naquele momento, ele não tinha forças para usar tal máscara. Lilith entendeu perfeitamente sua baixa guarda. Por um momento, agradeceu por ainda conseguir sorrir em deboche, mesmo que pequeno. Ela quis mostrar controle e, de certa forma, ela estava.
Afinal, não poderia ficar presa ao passado.
— Minha mãe, uma vez, me contou que esse colar foi um presente do meu pai. — com olhos cheios de ternura humana, a mulher ergueu a peça o suficiente para que pudesse observar a peça de ouro mais facilmente, guiando seu olhar por cada letra entalhada na pequena moeda. – Ele gravou o sobrenome da família. É até um belo modo de demonstrar o amor que ele sentia pela minha mãe... Por mim também.
Apesar das palavras saírem sem nenhuma dificuldade, o homem conseguia sentir o peso de cada palavra. Logo, os finos dedos da mulher se fecharam sobre o metal nobre. Lilith podia sentir o quanto a peça já se encontrava gélida devido à baixa temperatura, porém, não se importou com o contraste, já que suas mãos não estavam quentes.
Com um longo suspiro, a mulher retornou o acessório para um de seus bolsos da calça, revelando apenas uma fraca expressão de cansaço.
— Depois que eles morreram, isso foi tudo o que restou. É ridículo eu comentar isso, mas quando eu me tornei um demônio, eu achei que não iria mais me importar com essas coisas. Que eu iria me tornar um verdadeiro monstros como todos os outros... E eu estava completamente enganada. É engraçado, né? — o rosto da mulher se voltou novamente para as joias na vitrine da loja, pousando as íris escarlates sobre o cordão de ouro. – Tão idiota... Esse colar me faz lembrar daqueles dias... Antes de tudo acontecer e...
— Do passado que queria esquecer. – ousando em interrompê-la, o homem completou o raciocínio da mulher. Tudo o que esta fez foi voltar sua atenção ao outro, mas sem o encarar de fato.
— Nunca disse que eu queria esquecer... E mesmo se eu quisesse, seria impossível. – bufando em deboche de si, a mulher voltou a olhar para o colar exposto.
— Sabe que não precisa manter essa sua imagem perfeita comigo, não é?
— Não lembro de sermos tão próximos a esse ponto.
— Não somos?
A pergunta descontraída e carregada de malícia atravessou o ar que trouxe um novo ar no denso clima. Não havia sido um ato premeditado, mas o homem estava mais do que satisfeito com sua ação. No mesmo instante, ambos adquiriram visíveis sorrisos travessos, cheios de segundas intensões. A mulher até mesmo deixou um baixíssimo riso ressoar, antes de fixar seu olhar sobre o rosto do homem mal refletido pelo vidro.
— Bem, eu quis dizer no sentindo não sexual.
— Hm... Nos damos bem como parceiros.
— Se é assim, você devia parar de fazer isso também. Eu não sou a única durona aqui.
— Agora, você me pegou.
— Cabeça dura... – dando um longo suspiro, Lilith expressou-se em baixo tom.
Aos poucos, o ar descontraído se esvaia, assim como o calor de seus corpos. A mulher não sabia dizer quando seu sorriso desapareceu, porém, assim que seus olhos encararam seu próprio reflexo, ela teve um pequeno espanto.
Quando seu rosto se tornou tão triste?
— Eu só acho que, no seu caso, você precise desabafar.
Lilith manteve-se calada... E seu silêncio foi perturbador.
— Não há nada a ser dito e vou fingir que você não tem nada para dizer também... Eu não sou a única com um passado complicado.
Dessa vez, era o momento do homem ficar em silêncio.
Ele não tinha provas para contrariar o que fora dito e seria mentira se o fizesse. Amargurado, tudo o que este podia fazer era engolir seu orgulho e não piorar o clima desagradável. Mas havia tanto que ele gostaria de dizer...
Tanto, mas tanto...
Por fim, Lilith ameaçou um fraco e breve riso. Era perdido e cheio de um peso indesejado. A mulher sentia-se patética novamente. Assim que seu corpo se moveu e se voltou para o alto homem atrás de si, pela primeira vez, seus olhos se encontraram verdadeiramente. Ela separou seus lábios, mas, de sua boca, nada fora dito. As íris escarlates enfrentavam os olhos azuis, ferozes em uma seriedade que nunca imaginou ser alvo. Lilith desejou ter a audácia o suficiente para rir da imagem que via. Talvez, assim, a situação se tornasse menos constrangedora para ambos. Ela lutava para convencer sua mente de que não deveria dar tanto crédito para as feições duras do amigo, que ele apenas estava assim para provocá-la.
Como ela queria acreditar naquela mentira.
Com um sorriso mais gentil, a mulher levou uma de suas mãos para o rosto do homem. Porém, antes que as peles se alcançassem, ela deteve seu ato. Por um momento, seus olhos mostraram o pequeno pânico que sentia em seu peito. Não queria admitir, mas estava incomodada com aquele olhar preocupado e zelo demais. Aquilo não estava certo, muito menos condizia coma personalidade daquele homem. E, no fim, aquele cuidado apresentado se tornou uma ameaça para si.
Ele não deveria mexer consigo daquela forma.
— Dante... — ao chamá-lo inesperadamente, a mulher notou seu timbre sentimental e quase não reconheceu sua própria voz. Sua mão, ainda suspensa, tremeu indecisa e, rapidamente, Lilith a abaixou. Seus punhos se fecharam logo em seguida e, para não mostrar daquele lado fraco, esta tentou sorrir mais naturalmente. – Eu estou bem.
O homem sabia que aquelas palavras eram sem valor. Não importava o quanto ela se esforçasse, seu incômodo estava perfeitamente perceptível. Calmamente, Dante fechou seus olhos, ocultando as belas íris azuis-pálidas e buscando encontrar seu próprio passo. Ao menos, ele esperava recuperar um pouco do seu autocontrole para, assim, trazer algum tipo de segurança.
— Olha, eu... Eu só quero deixar claro que pode contar comigo. Até pra esse tipo de coisa.
O silêncio seguinte fora uma grande incógnita para o rapaz, fazendo com que ele saísse da escuridão. Contudo, inesperadamente e antes que seus olhos se abrissem, o homem sentiu um breve e leve carinho sobre seus curtos cabelos albinos. Em choque, Dante buscou resposta, fazendo com que o pequeno sorriso debochado da companheira crescesse por suas reações de surpresa. O contato fora apenas por um instante, mas tinha sido o suficiente para impressioná-lo.
— Não esperava que você conseguisse ser tão sentimental e prestativo dessa forma. Nem parece você.
— Realmente, não parece nem um pouco. – por fim, ele suspirou fraco em derrota.
— Ora... Fiz sua máscara cair?
Em uma tentativa de provocá-lo, a mulher imaginou que conseguiria alguma reclamação ou risada. Esperava encerrar aquele assunto e seguirem em frente entre insinuações e brincadeiras costumeiras.
Mas era óbvio que isso não aconteceria.
Sob o olhar inabalável e denso de Dante, Lilith rangeu seus dentes de forma discreta. Ela sentia-se péssima com aquela expressão... Ainda mais por ser responsável por ela.
— Não me olhe assim. Não quero que tenha pena de mim.
— Não estou assim por pena, Lilith. – o homem não hesitou em tocá-la, deixando sua mão destra na lateral de seu rosto. O ato e o breve afago espantou a mulher, trazendo parte dessa surpresa à tona. – Eu estou assim porque me importo.
— “Importa”... – rapidamente, a mulher desviou seu rosto, não tendo coragem o suficiente para confrontar a força daquele olhar que recebia. Porém, ela riu de forma fraca, amansando suas feições e zombando de aquela desconfortável situação. – Achei que fosse só sexo?
Dante não soube responder de início. Não por ignorância, mas, na verdade, por saber que sua resposta não soaria bem. Nem para ela e nem para si. Afinal, ele gastou boa parte dos últimos anos negando qualquer razão para manter aquele contato com Lilith e qualquer sentimento que poderia sentir por esta. E mesmo sabendo que nunca seria capaz de fingir ou ignorar tais conclusões, ao menos, ele tinha o dever de manter as aparências.
No fim, era melhor que eles continuassem agindo como aliados que, por vezes, passavam noites em claro devido ao calor de certas emoções.
— Vamos embora. – de forma insegura, Dante recuou sua mão de perto da amiga e assistiu esta arrumar seus longos e lisos cabelos negros.— Esse frio está ficando insuportável.
— Certo. — foi tudo o que a mulher conseguiu dizer, antes de bufar mais confiante.
No primeiro passo em que Lilith fez para se afastar do companheiro, esta parou ao perceber o belo espetáculo natural que se iniciava. Os primeiros flocos brancos dançavam em pleno ar, exigindo atenção dos presentes e trazendo, em resposta, uma paz de espírito agradável. Pouco a pouco, a queda sutil mantinha-se constante, tímida em meio a escuridão. A mulher, que mais estava concentrada no evento, não demorou para notar que levaria um tempo considerável para que a neve pintasse o solo de concreto por completo. Para ela, poderia demorar o tempo que for... Não tinha nenhuma pressa e apreciaria o resultado final da mesma forma.
Aliás, observar o cair dos flocos era uma terapia pessoal, além de ser muito amistoso.
Dante, por fim, também deu-se ao luxo de contemplar o acontecimento. Por um momento, um leve curvar surgiu em seus lábios. Contudo, sua admiração rapidamente mudou de foco, caindo sobre a mulher e seu olhar distante. Estava tão serena e, ao mesmo tempo, tão cabisbaixa. Então, o rosto de Lilith se ergueu, para ver o céu negro derrubando os pontos puros de água congelada. Por fim, ela fechou seus olhos e sentiu o frio lhe atingir e brincar com o pouco calor que produzia. Os finos flocos derretiam em contado com a sua face e, por alguma razão, a imagem incomodou o homem de forma indescritível.
Assim que a mulher sentiu seus lábios sendo atingidos pelo frio da neve, rapidamente, eles foram aquecidos pelo beijo de Dante.
Por sua boca se encontrar entreaberta, não fora uma surpresa sentir a fome do companheiro. Apesar de profundo, o beijo que o homem conduzia não era violento. Lilith apenas abriu seus olhos o suficiente para encarar o rosto do amigo tão próximo e, logo depois, tornou a fechá-los. A troca de afeto não tardou muito em cessar. Com ambas as respirações sutilmente mais pesadas, nenhum deles se afastou, fazendo com que o ar quente expelido de seus pulmões aquecesse minimamente seus rostos. No fim, Lilith sorriu entre contentamento e deboche, fazendo com que o homem não compreendesse o que ela, realmente, gostaria de expressar. Ainda assim, o pequeno ato fora o suficiente para satisfazê-lo.
Como se nada tivesse acontecido, Dante ajustou o cobertor sobre a mulher e exibiu seu típico sorriso confiante.
— Vamos indo... Não quero que pegue um resfriado.
— Demônios ficam resfriados? – provocou a mulher, vendo que o rapaz apenas deu de ombros.
— Nós somos meio demônios, então, não quero sentir na pele se isso é possível. E acho que você também não.
— Tudo bem, tudo bem. Vamos.
Sem pronunciar mais uma só palavra sequer, os dois puseram-se a caminhar pelas ruas desertas e gélidas. À medida que reparavam no cenário ao redor, podiam reparar que, gradativamente, a neve fina se acumulava sobre o solo cinzento. O silêncio era mantido sem nenhum problema. Era algo que ocorria usualmente e que nunca fora considerado como incômodo. Por vezes, seus olhos se encontravam, gastando poucos segundos na sustentação do confronto. E o resultado era sempre o mesmo. Eles desviam seus rostos com bobo e indecentes sorrisos.
Após um longo caminho percorrido, ambos avistaram o estabelecimento de Dante e, no mesmo instante, perceberam que algo estava errado. As luzes do interior do prédio brilhavam através das janelas, ultrapassando as persianas maltrapilhas e que não estavam cobrindo as passagens como deveriam. Lilith conhecia o homem tempo o suficiente para saber que ele nunca esqueceria as luzes ligadas. Afinal, ele tinha dificuldades de manter as contas pagas e, até mesmo, o aluguel. Dante, de início, estreitou seus olhos, porém, logo relaxou suas expressões, dando um longo suspiro cansado em resposta. A mulher encarou aquilo como sinal de que não precisaria se preocupar com a situação e acalmou-se.
Assim que diante à entrada do edifício, o homem abriu a porta normalmente, dando passagem para que a mulher ao seu lado adentrasse primeiro. A luz, rapidamente, cegou a ambos, trazendo desconforto aos seus olhos e os forçando a fechá-los, por alguns instantes. Quando a irritação passou e o casal se acostumou com a claridade, foram pegos de surpresa com a imagem que presenciavam.
— Surpresa! — Paty gritou com extrema felicidade.
Luzes natalinas enfeitavam as paredes e os corrimãos da escada. Haviam diversos pedaços de papel colorido sobre o chão, dando vida ao ambiente tão clássico e neutro. Nem mesmo a mesa de Dante havia sido poupada, sendo coberta por caixas de vários sabores diferentes de pizza e uma boa quantidade de bebidas distintas. Algumas, pelo que notado pelos recém-chegados, já se encontravam pela metade.
Paty não era a única no recinto. Lady e Trish sorriam gentilmente para eles, próximas ao pé da escada. Nero se encontrava sentado na cadeira de Dante, totalmente à vontade e tomando uma postura desleixada. O rapaz saboreava um pedaço de pizza calmamente e, ao que seus olhos pairaram sobre os mais velhos, um sorriso debochado cresceu em sua face, não deixando de ser amigável. Dante e Lilith demonstraram um pouco da sua confusão, porém, o homem sacou uma de suas pistolas e mirou para a parede atrás de ambos. Assim que a mulher ouviu seu movimento, conseguiu perceber a presença familiar e dirigiu seu olhar para o local, surpreendendo-se. Próximo à porta e encostado sobre a parede, Vergil mantinha-se quieto e com seus olhos fechados. O casal sustentou feições de dúvida e, buscando respostas, a mulher encarou a mais nova dentre os presentes. Paty não pareceu muito satisfeita com suas reações, inflando suas bochechas e cruzando seus braços enquanto negava com a cabeça. De certa forma, ela não deveria esperar por menos. Afinal, a reunião não era apenas improvável como completamente inesperada.
Por isso, deu o seu melhor ao exibir um gentil sorriso.
— Ok. O que está acontecendo aqui? — Lilithperguntou ao retirar o manto dado por Dante e o jogando no sofá mais próximo. Sua pergunta pareceu ter demorado para chegar aos ouvidos de Paty, que apenas agiu quando a mulher cruzou os braços, aguardando uma resposta desta.
— Como assim? Você não sabe que dia é hoje? — a adolescente ficou surpresa com a indiferença da outra. Lilith apenas levantou uma das sobrancelhas, ainda demonstrando dúvida.
Não demorou muito para que Dante suspirasse e guardasse sua arma no coldre correspondente e, sem cerimônia, tocou o ombro da companheira.
— Eu estou por fora disso também. Alguém pode me dizer como conseguiram arrastar meu querido irmão até aqui?
— Não é como se eu quisesse, mas todos insistiram. – Vergil se pronunciou com seu modo debochado, não ligando para seu tom de voz.
— É véspera de Natal, gente. — Lady respondeu em reprovação, visivelmente decepcionada pela situação.
— E pelas tradições dos humanos, devemos passar esse dia com a família. — Trish parecia se segurar para não rir de sua própria explicação, achando hilário aquele costume e, ao mesmo tempo, interessante. — Pelo menos, foi isso que a garota disse.
— Nossa. E é isso o que eu estou pensando? – Lilith deu um sorriso em deboche. – Somos uma família agora?
— Família... – sarcasticamente, Vergil bufou entretido, dando de ombros e respirando fundo. – Uma definição nada agradável, não é Dante?
— Você é muito temperamental, Vergil. – rindo do comportamento do irmão gêmeo, os dois filhos de Sparda trocaram olhares ferozes e cheios de energia, prontos para iniciarem outra de suas lutas.
— Mas, então!... – rapidamente, Paty chamou a atenção de todos, não dando tempo para que algo ocorresse e estragasse seus planos. Sem demora, a adolescente aproximou-se de Lilith, conquistando sua atenção. Assim que próxima, a garota exibiu uma pequena caixa aveludada negra que tinha em mãos. – Esse é o seu presente.
— O que? – desconfiada, a mulher estreitou seus olhos em desconfiança. – Por que eu estou recebendo isso?
— Bem. Ninguém tinha direito o suficiente para comprar algo bom pra todo mundo e acabamos sorteando uma pessoa.
— E por que eu não fiquei sabendo disso antes?
Com sua pergunta, a adolescente pareceu hesitar. Lilith apenas olhou para trás, fuzilando Dante e vendo este totalmente despreocupado. Por fim, a mulher suspirou cansada, voltando a olhar para a garota.
— Vou passar essa.
— O que? Não! – abismada, Paty negou com a cabeça e abriu o pequeno porta-joias. – A gente comprou especialmente pra você e o Dante disse que você estava namorando isso já faz um bom tempo. Você não po...
Antes que Paty parasse de falar, nenhum dos presentes pareceu ter percebido o estado de Lilith. Com feições de surpresa, pouco a pouco, lágrimas finas escapavam dos olhos vermelhos. A mulher não parecia ter consciência do que lhe acontecia, parada no tempo e ignorando todos ao seu redor. Quando os presentes notaram seu choro silencioso, todos demonstraram espanto e, depois, preocupação. Nero chegou a abandonar o pedaço não acabado em umas das caixas e se levantou. Paty movia seus lábios, mas nada pronunciava. Estava tanto surpresa quanto os outros. Na verdade, até mais em comparação.
— É... – Lilith ameaçou levar suas mãos ao rosto, ainda confusa. – Eu...
Vergil, respirou fundo, não ousando em dizer nenhuma palavra. Ele, simplesmente, aproximou-se em um instante, antes mesmo que Dante pudesse agir. O gêmeo mais velho usou uma de suas mãos para ocultar os olhos marejados da mulher, escondendo as lágrimas vergonhosas. Sabia que esta não queria que isso acontecesse e, por piedade, quis ajudá-la. Porém, rapidamente seu pulso fora pego com força e forçado a sair de perto de Lilith. Assim que Vergil encarou seu irmão, notou que mesmo com as expressões sérias, Dante estava irritado com sua atitude. Prova disso era a proximidade do corpo do homem com o da mulher, sendo o escudo para esconder o choro dos demais.
Por fim, o mais velho suspirou cansado, libertando-se violentamente.
— O que deu em você? – perguntou Vergil, sabendo perfeitamente a resposta para sua pergunta, mas não conseguindo evitar de fazê-la.
— É o ciúme falando mais alto. – Nero riu para transformar o clima desagradável em um mais descontraído. Logo, ele e as outras caçadoras se aproximaram.
— Mas por essa eu não esperava. – Lady comentou ainda um pouco chocada. – E eu também não esperava isso vindo de você, Vergil.
— Só estava fazendo um favor. Nada mais do que isso.
— Hm. Muito estranho vindo de você. – Trish riu fracamente em deboche, conquistando um bufar desgostoso do outro.
— Eu não tenho nada contra Lilith... Não devia ser uma grande surpresa.
— Obrigada...
Com aquele pequeno e sincero agradecimento, todas as discussões se encerraram. Lilith riu maldosamente, voltando com sua postura inabalável e exibindo todo o seu carisma. Já não havia lágrimas para serem secadas e, fixando seu olhar nos olhos de Dante, a mulher deixou claro que estava tudo bem. O homem aliviou suas feições no mesmo instante, sentindo seu peito mais leve.
Lilith não pôde se segurar e rindo um pouco mais forte, acabou por precisar respirar mais profundamente.
— É, Dante. Você tinha razão. Demônios podem chorar.
— Essa piada interna não, por favor. – Lady suspirou em reprovação, porém, seu rosto não parecia concordar com sua atitude, revelando feições suaves e gentis. – Isso é muito a cara do devedor aí.
— Opa. Eu já quitei o que te devia. – Dante se defendeu cansado, assistindo as expressões de vitória surgindo na antiga amiga. Então, sua atenção se voltou para Lilith, vendo esta mais contente. – Espero que tenha gostado.
— Eu sabia que isso era obra sua. – a mulher não demonstrou surpresa. mas logo sua atenção se voltou a mulher à sua frente.
— Só aceite.
Lilith sorriu torto, negando o comportamento do gêmeo mais novo com a cabeça. Assim que sua atenção caiu sobre Paty, a humana lhe estendeu o objeto com um amigável sorriso. A mulher o tomou em mãos e retirou a peça de ouro para analisar a superfície da moeda dourada. Ao virar o pingente, as íris escarlates brilharam de forma diferente, brilhando em felicidade e carinho. Porém, o sorriso sarcástico que tomava forma em sua face fora o real motivo para a curiosidade da adolescente.
— Verdade. O que está escrito no verso, Nero? – a garota, rapidamente, perguntou.
— Eu não sei. – o rapaz deu de ombros, nem um pouco interessado no assunto. Ele apenas se dirigiu à mesa para pegar seu pedaço de pizza e voltou a saboreá-la. – A Kyrie que mandou escrever e não me disse nada.
— E falando dela, onde ela está? – perguntou Trish.
— Desculpem a demora! – subitamente, uma voz gentil se pronunciou no que a porta do estabelecimento fora aberta. A ação revelou a chegada de Kyrie, que parecia envergonhada. Os olhos da humana rapidamente sobrevoaram por todos ali e pousaram em uma pessoa em específico. Com um doce sorriso, a jovem levantou seus braços, exibindo um simplório bolo de natal. – Podemos comemorar agora, não é mesmo?
— Kyrie, o que...
— Realmente. – impedindo que Paty fizesse sua pergunta, Lilith se aproximou da recém-chegada enquanto prendia a joia em seu pescoço, fazendo companhia a coleira negra que usava. A mulher fez questão de tomar a sobremesa das mãos de Kyrie, seguindo para a mesa de Dante e encontraram um bom espaço assim que retirou algumas caixas vazias de cima do móvel. Ela não se dedicou em cuidar da desordem, porém, deixou a superfície mais acessível. – Não seria uma comemoração se não tivesse todos aqui. Agora sim, eu posso beber, né?
Lady e Trish balançaram a cabeça em negação devido àquele comentário, enquanto que Paty e Kyrie estavam assombradas com pelo comportamento da mulher. Dante não se segurou e riu espontaneamente, indo de encontro à mesa e pegando a primeira garrafa e pedaço de pizza que estivesse ao seu alcance. Vergil deu um longo suspiro em desaprovação, porém, sorriu ao que Lilith lhe oferecera um copo cheio de uma das bebidas. E este não recusou a gentileza. Nero chamou Kyrie e ambos se sentaram em um dos sofás, saboreando a comida que era oferecida por Paty.
E a festa continuava tranquila ao seu modo. Afinal, eles não eram pessoas consideradas “santas”. E mesmo naquele caos e provocações, todos se divertiam de jeitos distintos. Observando aqueles rostos, Lilith limitou-se em um pequeno curvar de lábios, satisfeita com a escolha de palavras que Kyrie havia feito para adornar seu presente.
Certamente, não havia uma definição melhor de família. Nada superaria o peso e a verdade nas palavras “Devil May Cry”.
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