Iguais, porém opostos

11 Como espontâneo e planejado


Notas iniciais
Atrasada? Talvez. Porém as intenções continuam sendo as melhores. Boa leitura ♥

Taehyung realmente esperava que a frase de efeito "A primeira impressão é a que fica" fosse verdade, caso contrário e, pelo menos até então, levaria lembranças não muito agradáveis dos famosos parques de diversões pelo resto da vida — mesmo que aquela fosse uma esperança um tanto inocente e inútil. Ainda assim, o motivo daquele pensamento era que, à primeira vista, as luzes coloridas e os brinquedos grandiosos haviam enchido os olhos do Kim e também ameaçado despertar a criança interior que ele tanto insistia em manter constantemente adormecida; mas aquela fora apenas a impressão inicial. Logo, as filas intermináveis, tanto nos brinquedos quanto nas próprias bilheterias, e o incansável fluxo de crianças barulhentas começaram a mostrar uma outra face do ambiente, a qual ele detestou também à primeira vista.

Mas nenhum daqueles motivos eram o que realmente lhe incomodava naquela noite que tinha tudo para ser agradável, com exceção do seu próprio humor, mas sim o modo como estava constantemente perdendo para Kang Bo Ra. Ainda que jamais fosse admitir, nos jogos de atirar (incluindo aqueles com arminhas de água), lançar, nas máquinas de apanhar bichinhos de pelúcia e até mesmo no carrinho bate-bate, ele estava sempre uma meia dúzia de passos atrás da garota.

Até então, não encontra a diversão que o nome do parque prometia com o seu letreiro falsamente convidativo.

— É porque você ainda é um novato. — Bo Ra dizia dando de ombros, nitidamente precisando de mais um par que braços para conseguir carregar as três pelúcias que ganhara sozinha e seu algodão doce lilás. Taehyung pensou em oferecer-se para ser o tal par, mas encontrava-se emburrado demais para sair por aí andando com bichinhos fofos e coloridos a tira colo. — Anime-se, Kim! Você costumava ser mais competitivo do que isso.

A garota, por sua vez, estava se divertindo mais do que esperava, mesmo que ainda não tivesse notado isso. Sua intenção era de arrancar, pelo menos, alguma essência mais humana de Kim Taehyung e, assim, tentar realizar a façanha de descobrir quem ele realmente era; mas acabou distribuindo muito mais risadas do que o garoto dera em toda sua vida. Era engraçada a expressão de poucos amigos que Taehyung fazia toda vez que eles competiam por algo. No começo, era porque ele sempre acabava perdendo nos jogos, mas depois passou a ser uma espécie de costume de quem já sabia que estava prestes a ser derrotado logo ao ouvir o barulho do start.

E nada era mais engraçado do que Kim Taehyung reconhecendo sua futura derrota.

Até o momento em que Bo Ra finalmente teve pena dele. Como um ato de misericórdia, seus olhos vasculharam a multidão de crianças à procura de um brinquedo que realmente oferecesse alguma diversão à pobre alma do Kim. Quando, por fim, encontrou algo que lhe pareceu agradável para ambas as partes e resolveu fazer uma sugestão, teve seu campo de visão invadido por uma mão que segurava um bolo de guardanapos.

— O que é isso? — ela perguntou, franzindo o cenho.

Ele, por sua vez, manteve os pedaços de papel erguidos na direção dela.

— Você está parecendo uma criança que ainda está aprendendo a comer. — ele respondeu simplesmente, perguntando-se internamente como ela não havia notado o quão lambuzada de açúcar lilás estava.

Ainda que um pouco ofendida pela fala do rapaz, ela aceitou a quantidade exagerada de guardanapos que, no fim das contas, terminaram sendo completamente utilizados — a situação estava mesmo crítica — o que acabou por ser o único motivo pelo qual ela não protestou por ter sido chamado de criança desajeitada.

— Roda gigante . — foi a primeira coisa que disse, lançando o bolo de guardanapos sujos na primeira lixeira que encontrara.

Mesmo sem detectar nenhuma emoção específica nas palavras de Bo Ra, o Kim petrificou onde estava. Encarou a garota, sério.

— O que? — indagou, torcendo internamente para que o açúcar tivesse afetado os neurônios de Bo Ra e agora ela estivesse apenas lançando palavras ao vento sem nenhum motivo.

Fobias podem transformar as pessoas mais robóticas nos seres humanos mais iludidos e Taehyung tinha plena consciência disso, mas aquilo ainda era algo que fugia do seu controle vez ou outra.

— Bem, você claramente está com essa cara fechada por que ao invés de se divertir, está cada vez mais estressado por perder para mim em todos os jogos. Então, vamos deixar os jogos de lado. — pausou, fitando-o. Mal sabia Bo Ra que, por dentro, Taehyung sentiu-se extremamente incomodado por ela tê-lo lido tão bem. — Há uma dezena de brinquedos por aqui. A fila da roda gigante não está tão grande, então...

— Eu não gosto de roda gigante . — ele interrompeu, com a postura ereta.

Bo Ra o encarou, analisando a expressão dele que repentinamente tentava disfarçar algo.

— Você disse que nunca tinha vindo em um parque de diversões antes. — ela relembrou, espreitando os olhos. — Como sabe se gosta ou não de ir na roda gigante ?

— Eu não preciso entrar nisso para saber que não gosto.

O Kim estava agindo estranho e ambos sabiam disso. Quando ele tinha ficado tão péssimo em disfarçar suas emoções? Tinha de ser alguma influência de Bo Ra, com certeza.

De repente, a garota lembrou-se de uma cena. Os dois tinham oito anos quando o síndico do condomínio onde vivem mandou construir uma casa na maior árvore do parque da habitação, o que causou uma enorme euforia até mesmo nas crianças mais esnobes. Todas elas queriam subir para brincar naquela novidade, com exceção de uma única criança: Taehyung. Na época, Bo Ra acreditou ser mais uma demonstração do orgulho inflado do garoto e apenas o ignorou, mas agora começava a pensar que os fatos poderiam estar interligados.

— Por acaso... — iniciou ela, dando um par de passos para frente para aproximar-se dele. — Você tem medo de altura?

Se Taehyung pudesse ver o próprio rosto naquele momento, com certeza teria se amaldiçoado por não ter pensado em controlar os olhos arregalados. Tossiu, talvez engasgado com a própria saliva, porém logo conseguiu se recompor.

— Não. — respondeu, simplesmente.

Bo Ra não precisava que ele movesse nem mais um músculo para saber a real resposta para a sua pergunta, o que a fez bufar exageradamente frustrada.

— Pelos céus, é tão difícil assim dizer a verdade? —indagou, mesmo que soubesse que talvez não fosse a pessoa mais qualificada para julgá-lo por isso. Respirou fundo. — Eu vou ajudá-lo com o seu trabalho e lhe contar algo sobre mim: eu não sou o tipo de pessoa que se aproveita dos medos dos outros, Kim.

Ela não disse mais nada e, por isso, ambos ficaram em silêncio por um momento. Taehyung se odiava e sempre se repreendia quando fazia ou pensava algo idiota, o que era a sua atual situação. Contudo, o pior de tudo não era ter tentado negar algo que provavelmente estava escrito e descrito em sua testa, mas sim o fato de que sabia que Bo Ra estava falando a verdade — por maiores que fossem as diferenças entre os dois, ele tinha certeza de que ela jamais se aproveitaria da fraqueza de alguém para nenhum propósito que fosse.

Isso era mais do feitio dele, na verdade.

O garoto respirou fundo. Enfiou as mãos no bolso do moletom preto que usava (pelo qual acabou decidindo que fora uma boa decisão vestir no lugar de suas roupas sociais, assim que chegaram no parque), o que raramente fazia, e fitou um ponto luminoso qualquer sobre o topo da cabeça de Bo Ra.

— Sim, eu tenho medo de altura. — afirmou, por fim.

Bo Ra o encarou, um tanto incrédula. No fundo, não esperava que ele fosse realmente admitir um medo seu, mas resolveu tomar aquilo como uma conquista dela mesma. Talvez, estivesse um pouco mais perto de entregar um bom trabalho ao Sr. Do.

— Tudo bem. — ela logo respondeu, dando de ombros como se aquela fosse uma situação rotineira. — Vamos procurar outro brinquedo, então.

Taehyung surpreendeu-se com a naturalidade de Bo Ra para encarar algo que fora tão difícil para ele admitir, contudo, não teve muito tempo para manter-se assim. Enquanto ele agradecia internamente aos céus por ela ter desistido da roda gigante mais facilmente do que ele esperava, a garota saiu andando por entre as crianças à procura de outro brinquedo que lhe agradasse —o que obrigou o Kim a apressar o passo para alcançá-la. Ela chegou a cogitar a ideia de perguntar a Taehyung se algo lhe chamava atenção, mas pelo modo perdido como ele andava pelo parque e devido ao seu gosto um tanto peculiar, logo desistiu.

Bo Ra já não sabia mais por quais caminhos havia andado, até que algo finalmente prendeu seu olhar. Grande e colorida, posicionada em um canto um pouco afastado dos outros brinquedos, uma versão um tanto arcaica do videogame Dance Dance Revolution reunia alguns curiosos ao seu redor. A tela do jogo de dança mostrava um manequim divertido, ao passo que as setas onde os jogadores deveriam colocar os seus pés piscavam, o que chamava ainda mais a atenção de Bo Ra.

Dança. Uma pequena paixão de infância a qual, por algum motivo que ela sequer se lembrava, Bo Ra havia posto de lado. Ao perceber que a garota simplesmente havia o deixado para trás e ido na direção do videogame, Taehyung logo entendeu o que se passava na cabeça dela — ele lembrava bem o quão animada ela ia para as suas aulas de dança todos os sábados à tarde, quando eram mais novos. Quando a alcançou, parada um pouco atrás da cerca de meia dúzia de pessoas que rodeavam o brinquedo, colocou-se ao seu lado.

— Está pensando em competir? — indagou, fitando seu rosto concentrado nas luzes que piscavam na base onde os jogadores deveriam dançar.

— O que? — ela rebateu, sem entender.

Só então, Bo Ra percebeu que se tratava de uma competição. Havia uma placa ao lado do brinquedo anunciando que a maior pontuação da noite levaria uma câmera fotográfica como prêmio.

— O próximo participante será o último. — anunciou o homem que manuseava o brinquedo, sem muito ânimo.

Bo Ra fitou o uniforme desbotado do rapaz e, em seguida e novamente, o videogame. Engoliu em seco.

— Não. — respondeu para Taehyung, por fim, desviando o olhar do brinquedo para o garoto ao seu lado. — Eu nem gosto tanto de fotografia assim.

— Mas gosta de dança. — retrucou no mesmo instante. De repente, não conseguiu segurar um breve riso nasalado. — É tão difícil assim dizer a verdade?

Bo Ra não soube se deveria se espantar mais com o fato de Taehyung ter usado sua própria frase contra ela, ou por ele ter finalmente sorrido. Por fim, aceitou ambos como um desafio, depositou as pelúcias que carregava nos braços de Taehyung sem dizer nada e virou-se na direção do brinquedo.

— Eu quero participar. — disse, atraindo a atenção dos presentes.

Com um gesto ainda desanimado, o funcionário do parque permitiu que Bo Ra se posicionasse no brinquedo e, assim que ela o fez, ele selecionou a música. Quando um ritmo extremamente agitado começou a tocar, Taehyung aproximou-se do brinquedo para ter uma visão melhor, ainda que no meio do caminho tenha empurrado uma pessoa ou outra com as pelúcias coloridas.

Por um momento, o garoto pegou-se fascinado com a cena que se seguia. O brinquedo era rápido demais, mas Bo Ra parecia acompanhar sem problema algum. Ignorando as gotículas de suor que começavam a aparecer em seu pescoço e o fôlego um tanto escasso, Bo Ra não errava um passo sequer e sorria orgulhosa por isso. As pessoas ao seu redor começaram a acompanhá-la atentamente, inclusive o funcionário antes sem ânimo, e até mesmo a filmarem. Taehyung acabou tão imerso na habilidade de Bo Ra e também pelo modo como ela se divertia com tudo aquilo, que não notou um breve sorriso surgir em seus lábios.

Sem ninguém perceber, Bo Ra estava alcançando o seu objetivo naquela noite sem realmente tentar.

— Mamãe, ela vai ganhar! — exclamou uma garotinha que deveria ter por volta de dez anos, a única criança que havia entre Taehyung e o brinquedo no qual Bo Ra ainda dançava, chamando a atenção de ambos. — Eu vou perder a câmera...

A mulher ao lado dela, aparentemente cansada e de origem humilde, abaixou-se ao lado da filha e a abraçou de lado.

— Tudo bem, Ye Rin. Se a moça ganhar, será porque ela dançou bem. — disse, afagando os cabelos negros e macios da menina. — Mamãe promete que, assim que eu puder, comprarei uma câmera para você, está bem?

Mesmo desanimada, a garotinha acabou por concordar com a cabeça. A cena logo deixou de prender a atenção de Taehyung, que viu ali uma situação comum e voltou-se para Bo Ra e seus movimentos precisos, mas não foi o mesmo para a garota que o acompanhava.

Os pés de Bo Ra foram perdendo sua velocidade impressionante. O final da música estava próximo, quando ela leu o nome Ye Rin escrito no topo do quadro onde estavam destacados os melhores jogadores da noite.

Lembrou-se, então, do porquê havia posto fim às suas aulas de dança todos os sábados.

"— A senhora não pode pagar a mensalidade agora, vovó, eu entendo. Tudo bem, as aulas nem são tão legais quanto eu esperava."

Na verdade, elas eram, mas Bo Ra sentiu-se satisfeita quando sua avó acreditou nela e suspendeu as mesmas. Ela passou a trabalhar um pouco menos depois daquele dia, o que fazia o sacrifício de sua pequena neta valer completamente a pena.

Taehyung estranhou quando Bo Ra começou a errar os passos, ainda mais por ela não parecer realmente se importar com isso. Quando a música acabou, ela curvou-se para apoiar-se nos próprios joelhos, recuperando o fôlego enquanto a máquina calculava a sua pontuação.

Por cem pontos, ela foi a segunda melhor da noite.

Quando os números anunciaram a vitória de Ye Rin, a garotinha pulou de felicidade no colo da mãe. Apesar de cansada, Bo Ra deixou o brinquedo com um pequeno sorriso no rosto e, enquanto caminhava na direção de Taehyung, foi abordada pela pequena ganhadora.

— Você dançou muito bem, unnie. — ela disse sorrindo, mostrando com orgulho a janelinha que ganhara com a queda de um dente de leite.

Bo Ra fitou a menina em silêncio e, em seguida, inclinou-se para frente para ajeitar uma mecha do cabelo dela que estava fora do lugar.

— Obrigada. — respondeu, retribuindo o sorriso.

Bo Ra não ficou para ver, mas o sorriso da menina ao receber o seu prêmio mal cabia em seu rosto. Caminhando de volta para o meio do parque, ela suspirou.

— Você ia ganhar, mas não quis. — constatou Taehyung, subitamente surgindo ao lado de Bo Ra e a assustando. — Por quê?

Ela parou, virando-se para fitá-lo. Taehyung parecia realmente confuso, o que a fez rir.

— Eu me diverti, oras. Não é isso que importa? — perguntou retoricamente, até porque, não sabia qual poderia ser a resposta dele. — E eu não estava mentindo quando disse que não gostava tanto assim de fotografia.

Não era como se ele não tivesse entendido que Bo Ra fizera aquilo pela garotinha que acabou por ganhar a câmera; ele só não estava acostumado com aquilo. Por fim, vendo-a sorrir sem nenhum motivo aparente, o que deixava nítido que estava satisfeita com o que fizera, Taehyung espreitou os olhos. Subitamente, deu-lhe as costas e saiu pisando firme pelo chão de pedra do parque, sem se importa com o fato de que era um adolescente de beleza extremamente notória carregando três pelúcias coloridas nos braços.

Se ela conseguia fazer, não deveria ser tão difícil.

Bo Ra, por sua vez, pegou-se com a boca aberta diante de tamanha confusão em sua cabeça.

— Aonde diabos você está indo? — ela indagou, mas Taehyung sequer deu-lhe atenção. — Yah, Kim!

Tentando não perdê-lo de vista, Bo Ra viu os papéis invertidos quando precisou praticamente correr atrás de Taehyung. Tão de repente quanto havia começado a caminhar, ele parou. Aproximando-se, Bo Ra percebeu que ele estava, na verdade, no final da fila da roda gigante mais alta do parque.

— O que você está fazendo? — Bo Ra indagou, recuperando o fôlego.

— Tentando me divertir também. — ele respondeu, dando de ombros mesmo com o crescente frio em sua barriga. — Não é isso que importa?

Por um momento, Bo Ra não soube reconhecer o Kim Taehyung parado na sua frente.

Será que ela tinha ido longe demais?

De um jeito ou de outro, ela não se importou. Ainda era divertido assisti-lo.

— Tudo bem, então. — disse, dando de ombros e juntando-se a ele na fila do brinquedo.

***

— Nunca mais eu volto naquele lugar. — Taehyung repetiu pela enésima vez, ainda emburrado.

Bo Ra teve de se controlar para não rir diretamente na cara dele mais uma vez, enquanto eles atravessavam os enormes portões do condomínio. Já era tarde da noite e estava cada vez mais frio, mas, mesmo assim, não havia passado pela cabeça de nenhum dos dois apressar o passo para chegar mais rápido em casa.

— Eu achei divertido. — ela disse, nitidamente ainda prendendo uma risada.

Você achou divertido. Você achou hilário quando a roda gigante parou e nós estávamos justamente no topo. — ele rebateu, sendo o mais rancoroso que conseguia.

— Se você tivesse visto a sua cara enquanto você surtava e gritava lá de cima para os funcionários descerem a roda, também teria tido uma crise de risos.

Dito isso, Bo Ra não conseguiu mais segurar uma risada. Por um momento, enquanto Taehyung xingava os funcionários do parque com palavras que ela nunca ouvira saindo da boca dele, ela desejou ter ganho a câmera na competição de dança apenas para ter gravado a expressão dele em alta definição.

— Detestei o parque de diversões. — ele continuou. — Como eu já esperava, foi uma péssima ideia.

De repente, Bo Ra sentiu-se na obrigação de parar no meio da calçada para encará-lo. Pego de surpresa, ele fez o mesmo.

— Por que? Só por que foi minha? — indagou, sem esperar por uma resposta. Respirou fundo, fazendo um gesto de negação com a cabeça. — Você realmente não tem concerto, Kim.

Taehyung franziu o cenho.

— E, por um acaso, você estava tentando me concertar? — ele perguntou, sem realmente entender o que ela queria dizer com aquilo.

Bo Ra o encarou, perguntando-se porque diabos era tão difícil manter uma conversa com o Kim. Contudo, não era como se ela fosse conseguir fazer todo o trabalho que nunca tentara fazer nos últimos dezessete anos, em apenas uma noite.

— Não. Eu estava apenas tentando tornar nossa convivência suportável, chegando a ter esperança de que conseguiria torná-la agradável. — respondeu, por fim. — Mas esse negócio de esperança nunca foi o meu ponto forte, de qualquer maneira.

Dito isso, a garota voltou a caminhar calmamente pela calçada gélida. Já tinha alcançado a fachada da mansão dos Kim, iluminada por meia dúzia de imponentes holofotes de jardim, quando teve seus passos interrompidos pela voz grave de Taehyung.

— A minha ideia de andar na roda gigante foi péssima. — ele disse, alguns passos atrás dela. — Eu só não gosto de admitir isso.

Ainda com ambos parados onde estavam, Bo Ra permitiu-se dar um sorriso irônico, mesmo que ele não pudesse vê-la. Virou-se e deu alguns passos na direção de Taehyung, fitando seus cabelos tingidos com uma cor extremamente parecida com a da Lua sobre os dois.

— Sabe, Kim, é muito mais fácil conviver com você quando não está mentindo ou tentando esconder sabe-se lá o que do restante do mundo. — ela admitiu e, em seguida, deu uma risada fraca. — Não é como se eu fosse a pessoa mais indicada para lhe dizer isso, mas ainda sim é a verdade.

Por um momento, Taehyung apenas processou aquela informação. Ele sempre tivera plena consciência do modo como agia e nunca havia cogitado a ideia de estar fazendo-o erroneamente — mas, durante aquele breve momento, ele se perguntou o que seria diferente se não fizesse questão de proteger-se de tudo e de todos.

E foi justamente por isso que ele deixou aquela pergunta escapar.

— E o que tem de tão errado nisso? — indagou e, apesar de ser uma pergunta que normalmente soaria rude, ele conseguiu deixar claro em seu tom de voz a mais pura sinceridade que encontrara dentro de si.

Bo Ra sabia que ele estava se referindo ao modo como tentava sempre esconder-se de quem lhe cercava, uma clara tentativa de sobrevivência naquele mundo no qual ambos, querendo ou não, estavam inclusos. Ela não estava muito distante dele e, por isso, Taehyung conseguiu ver em seu semblante que ela nitidamente procurava o jeito mais adequada de dizer algo.

— Eu não posso apontar onde está o erro, até porque pode ser que nem exista um e a minha visão de mundo que seja a errada nessa história; mas eu posso lhe contar o motivo pelo qual eu não gosto de mentiras.— ela iniciou e, em seguida, fez uma breve pausa ao ser pega de surpresa por uma repentina corrente de ar frio. — Depois de um certo tempo, elas formam uma teia da qual é impossível escapar e, no fim das contas, você se torna uma presa em sua própria armadilha.

Por um par de segundos, Taehyung espantou-se com o fato de que não precisou pensar para entender perfeitamente sobre o que ela falava. Uma teia de mentiras. Sua vida e personalidade haviam sido moldadas do mesmo modo que uma aranha construía uma teia — contudo, a diferença entre ele e o aracnídeo era que o último jamais acabava capturado pelo seu próprio artifício.

Já Taehyung, por mais que conseguisse contar nos dedos as vezes nas quais isso acontecera, ainda não podia negá-las.

— Eu ouvi a sua conversa com o Hoseok. — ela confessou olhando diretamente para ele, que mais uma vez naquele dia perdeu o controle dos seus olhos arregalados.

Por mais que estivesse usando o trabalho do Sr. Do como uma desculpa durante todo o dia, até mesmo para si própria, Bo Ra sabia que aquela era a sua verdadeira intenção ao sugerir toda aquela história de parque de diversões. Achava-se digna de um pouco de sinceridade da parte do Kim, mesmo que, para isso, não estivesse pondo a mesma completamente em prática.

— O quanto você ouviu? — foi a primeira coisa que ele questionou.

— Não muito, mas ainda assim o suficiente para perceber o tipo de pessoa que ele realmente é. — ela respondeu, quase como se estivesse dando de ombros. — Sinceramente, acho que no fundo eu já esperava por algo assim.

Não era como se Bo Ra já não estivesse acostumada com a constante guerra de egos do Kobe Suwon, mas, devido aos últimos acontecimentos em sua vida, ela realmente estivera disposta a dar uma chance a Hoseok para se aproximar e mostrar quem e como ele era.

Bem, de um jeito ou de outro, ele acabou por fazer ambos.

Mas ela não estava com raiva, rancor e nem nada do tipo. Passara grande parte da tarde refletindo sobre o assunto e, por fim, chegara a uma única conclusão: estava decepcionada com o garoto, porém não com ela mesma, apesar de ter deixado-se enganar.

Pela primeira vez na vida, não sentiu como se fosse errado ter confiado em alguém.

E, também pela primeira vez, ela apreciou daquela sensação — e não seria Jung Hoseok que a faria mudar o seu jeito de pensar.

— Por que você não disse nada antes? — Taehyung indagou depois de um longo tempo em silêncio. Odiava estar fazendo tantas perguntas a ela, mas não conseguia encontrar nada mais útil do que as mesmas em sua mente pega de surpresa.

Em resposta, Bo Ra emitiu um breve sorriso fraco, como se naquele momento considerasse suas intenções um tanto frívolas.

— Eu queria tentar entender você. — ela respondeu, sem se importar se, talvez, não estivesse sendo sincera demais. — Sei que isso soa estúpido, mas sempre me perguntei o que havia de tão vantajoso em conhecer a verdade e ter em mãos o poder de fazer algo, mas ainda assim optar por simplesmente observar a situação.

Naquele momento, Taehyung não poderia estar mais descrente diante de toda aquela situação.

— Você sempre foi uma péssima observadora. — foi o que disse, dentre todas as outras dezenas de coisas que poderia e queria ter dito.

— Eu sei. — ela admitiu no mesmo instante, afinal, não era como se Taehyung não a conhecesse. — E hoje descobri que é porque eu não tenho o sangue frio que viver assim demanda. É uma pena, porque me pareceu mais eficiente do que a minha cisma com a verdade.

— Pois não é. Acredite em mim.

Em quase duas décadas de vida, nenhum dos dois poderiam ter imaginado que um dia, fosse sob a mais catastrófica das circunstância ou ainda nenhuma, teriam uma conversa como aquela. Normalmente, deixariam a antipatia pelo outro falar mais alto, discutiriam e não voltariam a se falar até a próxima briga. Contudo, ainda que estivessem passando por uma mudança tão drástica em meio a noite mais fria e cinzenta da estação, nenhum dos dois realmente deu-se conta disso.

— Então, por que você continua fazendo isso? — Bo Ra indagou, perguntando-se até que ponto a sua disposição para entender a mente do Kim poderia chegar.

— Porque é o que eu tenho que fazer. — ele respondeu, compartilhando da mesma curiosidade que ela. — Se não for do meu jeito, o que você espera que eu faça?

Aquela não era, exatamente, uma pergunta que Kim Taehyung estava habituado a fazer; contudo, a conversa com Bo Ra parecia prender cada vez mais a sua atenção.

Ela, por sua vez, não soube como respondê-lo imediatamente. A verdade era que, por mais que ela estivesse realmente disposta a entendê-lo pela primeira vez, isso não significava que tinha alguma fórmula mágica pronta para mudá-lo.

Francamente, não chegara sequer a pensar nisso.

Justamente por isso, Bo Ra formulou uma resposta que sabia que certamente não era o que ele queria ouvir, porém julgou que era o melhor que podia fazer.

— Divirta-se. — ela disse, simplesmente. — Afinal, não é isso que importa?

Notas finais
E então, o que acharam? Esse capítulo foi escrito e reescrito uma meia dúzia de vezes, até que eu conseguisse chegar num resultado que eu realmente gostasse. Me contem se vocês gostaram também! Até ♥