Iguais, porém opostos
22 Como odiar e amar
Notas iniciais
— Como você pode fazer cara feia para o filme que você mesmo escolheu? — Bo Ra indagou, achando graça da expressão fechada que o Kim carregava.
Ela podia jurar que, em algum breve momento, havia o visto fazendo bico.
— Como eu poderia adivinhar que não gostaria do final? — Taehyung retrucou, defendendo-se. — Foi muito aberto. Não gosto de finais assim.
Por fim, a Kang permitiu-se rir de Taehyung que, percebendo que ela o fazia, fechou ainda mais sua expressão. Eles caminhavam lado a lado na direção da saída do cinema, saindo da sessão que o próprio Kim sugerira assistirem. Assim que alcançaram a calçada, sob a luz do belo luar que os presenteava naquela noite, Bo Ra entrelaçou sua mão na dele.
Taehyung se surpreendeu com a ação, mas a mesma provocou no rapaz um sentimento bom demais para que ele não conseguisse fazer nada além de retribuir o aperto. Ultimamente, quase se tratava de Kang Bo Ra, ele havia percebido que não ter controle sobre suas reações era o melhor e mais proveitoso a se fazer.
— Eu adoro finais abertos. — ela contou, sorrindo ao fitar a Lua. — Acho que nós não poderíamos ser mais diferentes.
De repente, sem nenhum aviso prévio, o Kim interrompeu a caminhada. Parou e, como ela estava de mãos dadas com ele, Bo Ra acabou o fazendo também.
— Mas é claro que não. — ele discordou, sério. — Nós também somos bem parecidos.
— E o que lhe faz pensar assim? — ela indagou, curiosa.
Na verdade, Bo Ra concordava com Taehyung e sabia que, apesar de agirem e pensarem tão divergentemente em alguns aspectos, eram extremamente parecidos em outros — mesmo assim, não lhe custava nada ouvir o porquê dele também acreditar naquilo.
Ele pensou um pouco, encarando a grande leva de estrelas no céu. Em seguida, com um sorriso um tanto torto e quadrado, retornou a encará-la.
— A sua cena preferida do filme foi a em Paris, aquela que mostrava quase toda a cidade de cima. Não estou certo? — disse, confiante. Quando ela cruzou os braços em um sinal mudo de que não admitiria que ele estava perfeitamente correto, ele continuou. — Eu sei disso porque foi a cena que mais gostei também.
Por fim, ela praticamente bufou, dando-se por vencida. Antes de voltar a caminhar, ainda que na frente dele, brincou:
— Até que você é esperto, Kim Taehyung.
Ele sorriu confiante mas, quando percebeu pelo ritmo das passadas dela que logo seria deixado para atrás, teve de se apressar para alcançá-la. Quando finalmente o fez, não conseguiu conter a enorme necessidade que sentira de mantê-la por perto e, por isso, retornou a entrelaçar as mãos dos dois.
Ela, obviamente, não relutou.
— Você sempre gostou de Paris, não é mesmo? — ele indagou retoricamente, pois já sabia a resposta. — Lembro-me de como você ficou feliz pela minha noona quando ela resolveu estudar lá.
O Kim sentia falta de sua irmã mais velha, ainda que já fizesse alguns anos que ela resolvera morar e estudar fora. Vez ou outra ele se pegava segurando seu telefone, prestes a buscar o contato dela, mas geralmente acabava desistindo antes de realmente chamá-la — não era como se não quisesse ouvir sua voz, conversar com ela e ouvir todas as broncas que ela tinha para lhe dar, mas apenas sentia-se receoso de estar incomodando. Em sua cabeça fazia total sentido que Taeyuna tivesse fugido daquele lugar e ido para bem longe de sua família, então ele não se sentia no direito de continuar lembrando-a do que ela havia deixado para trás.
Às vezes lhe parecia um jeito um tanto estúpido de se pensar, mas ele simplesmente não conseguia evitar.
— Sim, eu gosto. — ela lhe respondeu. — Sei que isso soa clichê e batido, mas gosto das luzes da cidade. Parece ser o tipo de lugar que nunca me deixaria perder a esperança nas coisas.
Durante um momento, Taehyung apenas permitiu-se fitar a Kang. Ela parecia concentrada demais em algum pensamento particularmente seu, o suficiente para não notar que o Kim a encarava como se estivesse vendo a Lua de bem perto, toda aquela luz e beleza capazes de encantar gerações e mais gerações. Ele realmente deveria ter sido uma pessoa excepcional em sua vida passada, isso se realmente havia tido uma, para merecer ter Kang Bo Ra ao seu lado nesta atual.
Ele nunca tinha apreciado tanto a caminhada de volta para casa.
— Se você tivesse a chance de conhecer a cidade, você iria? — o Kim indagou, repentinamente.
Na verdade, um pensamento nada comum havia cruzado sua mente naquele instante.
— Você quer dizer como... agora? Esse ano, por exemplo? — ela lhe respondeu com outra pergunta e, quando ele sacudiu a cabeça positivamente, colocou-se a pensar durante um momento. — Não sei.
Na verdade, Bo Ra sempre se imaginara caminhando pelas ruas de Paris e podendo finalmente ser iluminada de perto pelas brilhantes luzes da cidade. Admiraria a arquitetura local, as pessoas e até mesmo o comércio e, pela manhã, tomaria um café em alguma lanchonete simples e calma enquanto observava o movimento dos parisienses na rua — mas, de repente, a ideia de fazer tudo isso sozinha lhe pareceu um tanto banal e descartável. Não era como se tivesse perdido sua independência, mas, a partir de algum momento em sua vida, ela havia começado a pensar que admirar as ruas de Paris, tomar café da manhã e observar os parisienses valeria muito mais a pena se ela pudesse compartilhar aquela experiência com alguém.
Ao olhar para o lado, percebeu o porquê de ter começado a pensar assim. Tudo aquilo só teria graça ao lado dele, por mais incomum que aquele pensamento pudesse ser para ela.
O caminho de volta para casa era curto e, durante o restante do mesmo, nada mais foi dito. Ambos os jovens estavam concentrados demais em seus pensamentos e, sem nenhum incômodo, acabaram permanecendo em um silêncio que respeitava o momento dos dois. Um silêncio maduro. Ainda que Bo Ra dissesse que não havia necessidade para aquilo, Taehyung insistiu em levá-la até a porta da casa anexa.
— Sua avó está em casa? — ele perguntou enquanto ela destrancava a porta da frente.
— Provavelmente. Ela não gosta muito de sair e já passou do seu horário de trabalho. — ela respondeu e, só então, percebeu o quão fora de contexto aquela pergunta soava. Virou-se para ele, deixando a porta atrás de si entreaberta. — Por quê?
— Eu gostaria de falar com ela. — o Kim respondeu, tornando toda aquela situação ainda mais estranha. Bo Ra prestava atenção em cada palavra e movimento dele. — Posso entrar?
Ela o encarou, em silêncio. Sua avó ainda não sabia sobre os dois e, para a mais velha, nenhum Kim jamais havia pisado naquela casa. Ela poderia estranhar ou não gostar, já que Taehyung não deixava de ser seu patrão e consequentemente um dos donos daquela mansão e de suas extensões. Ainda que não fosse do feitio de sua avó reagir mal à presença do jovem, era algo que Bo Ra deveria considerar, especialmente pelo fato de não fazer ideia sobre qual era o assunto que o Kim queria tratar com a mais velha.
— Bo Ra, é você? — a voz quebrou o silêncio entre os dois, pegando ambos de surpresa. Atrás de Bo Ra, a Kang mais velha abriu a porta. — Eu ouvi o barulho da chave há algum tempo. Por que você ainda não entrou, querida? — de repente, ela notou a presença de Taehyung. Sorriu simpática e doce, como sempre fazia quando se dirigia ao rapaz. — Taehyung, o que faz aqui? Vocês chegaram juntos?
— Na verdade...
— Sim, senhora. — o Kim interrompeu a Kang mais nova, que estava no meio do caminho de uma explicação esfarrapada. Ela o encarou, franzindo o cenho. — Na verdade, eu a acompanhei até aqui porque gostaria de falar com a senhora.
Um breve silêncio tomou conta da conversa, mas apenas até o momento que a avó de Bo Ra abriu passagem para o rapaz.
— Entre, querido. Aqui fora está muito frio para conversarmos.
Bo Ra não tinha orgulho em admitir isso mas, de repente, sentiu um princípio de uma sensação de pânico tomar conta de seu organismo. A expressão e o tom de voz de Taehyung eram indecifráveis, o que a deixava ainda mais curiosa e apreensiva. A possibilidade do Kim estar prestes a contar sobre os dois lhe pareceu um tanto assustadora, já que ela ainda não havia pensado em sobre como faria aquilo.
O que diria para a sua avó? Que estava apaixonada pelo garoto que sempre fez questão de verbalizar o quanto detestava? Ou, pior, pelo filho dos seus chefes?
— Deixe-me preparar um chá para nós. — a mais velha comentou, indo em direção à cozinha. — Farei o seu preferido.
Apesar da idade, a avó de Bo Ra ainda era uma pessoa extremamente habilidosa e um tanto ágil, por isso, num piscar de olhos, ela já estava esticando-se diante do armário da cozinha para alcançar sua chaleira favorita.
— A senhora não deveria se esforçar assim. — o Kim disse com um tom mais terno, apressando-se até ela. — Aqui, deixe-me fazer isso.
De longe, ainda parada na entrada da sala e um tanto chocada diante daquela cena, Bo Ra observava a interação tão fácil e sutil entre aqueles dois. O Kim apanhou a chaleira e, automaticamente, também o pote que continha as ervas de seu chá preferido. Por fim, alcançou mais três canecas no armário.
Mesmo sendo estranho poder assistir a Taehyung sendo verdadeiramente educado com alguém, a Kang não conseguiu evitar sorrir diante daquele cenário.
— Mas... — a mais velha iniciou, pensativa. — Como você sabe onde estão as coisas nessa cozinha?
Ela não havia lhe apontado nada além da chaleira e, em silêncio, observou o Kim mais novo cuidar de tudo como se já estivesse familiarizado com o ambiente. E estava. O sorriso no rosto de Bo Ra desapareceu quando ela lembrou-se de que Taehyung já estivera em sua cozinha antes, quando insistiu que prepararia uma sopa para ajudar a curar mais rapidamente o resfriado dela, e que sua avó não fazia a menor ideia de que aquilo havia acontecido. Já ele, não espantado diante de sua ótima memória e disposto a fazer o que estava ali para fazer, não pareceu se abalar com a pergunta.
Virou-se, colocando-se de frente para a mais velha.
— Na verdade, eu vim até aqui porque tenho um pedido a fazer para a senhora. — ele iniciou, firme.
— Que pedido? — ela indagou, curiosa.
Taehyung respirou fundo e, antes de continuar, permitiu-se fitar de relance a Bo Ra que permanecia ainda a uma certa distância deles.
— Eu gostaria de pedir a mão da sua neta em namoro. — ele disse, curvando-se em um sinal de respeito.
— O que? — avó e neta reagiram ao mesmo tempo, ainda que fosse estranho que a mais nova parecesse ser a mais chocada.
Taehyung voltou a erguer-se e fitou a idosa diante de si. Bo Ra começou a se aproximar dos dois lentamente, ainda pega de surpresa, e só então percebeu o quão séria estava a expressão do Kim — mas o tipo de sério que ela estava acostumada a ver, mas sim como alguém que realmente estava disposto a fazer algo e não brincando.
— Eu acho que já passou da hora da senhora saber o quanto eu gosto da Bo Ra. Ela... fez muito por mim. — de repente, ele passou a fitar a Kang que estava do outro lado do balcão da cozinha, retribuindo seu olhar na mesma intensidade. Permaneceu encarando-a enquanto continuava. — Além disso, há um lugar para o qual eu gostaria de levá-la, mas só posso fazê-lo com a sua permissão.
— E que lugar seria esse? — a mais velha indagou, recapturando a atenção do Kim.
Sem pensar duas vezes, ele respondeu:
— Paris.
Pela primeira vez em algum tempo, Kang Bo Ra encontrava-se completamente sem palavras.
Estaria Taehyung realmente brincando?
Não, ele não o faria diante de sua avó, ainda mais tratando de um assunto como aquele.
Então ele só podia ter enlouquecido de vez.
— Paris? — a avó de Bo Ra enfatizou. — Na França?
— Sim. — ele afirmou. — Como a senhora sabe, a minha noona vive lá atualmente. Eu gostaria muito de visitá-la e levar a Bo Ra comigo, como minha namorada. Além disso, nós passaríamos alguns dias lá e a sua neta poderia conhecer a cidade.
Taehyung com certeza tinha perdido de vez todo o juízo que fizera questão de manter nos últimos anos. Bo Ra não conseguia evitar de se encontrar mais chocada que sua avó, ainda que a mesma encarasse o Kim um tanto espantada.
Mas ela também não podia negar que a palavra “namorada” havia lhe balançado consideravelmente.
— Taehyung. — a Kang mais nova o chamou cautelosamente, atraindo sua atenção. — O que você está fazendo?
O garoto franziu o cenho, parecendo não entendê-la.
— Uma surpresa. — respondeu, simples. — Você não gostou?
Por um momento, Bo Ra não soube se o certo a se fazer naquela situação seria reagir com uma crise de risos ou de nervos — ainda que a última opção não fosse algo típico de sua personalidade.
— Não é que eu não tenha gostado. — ela iniciou, tentando ser o mais cautelosa o possível. — Mas acontece que não é algo muito viável, Taehyung. Como você acha que os seus pais reagiriam a isso, por exemplo?
— Mal. — o garoto respondeu sem pensar duas vezes. — Mas eu nunca realmente me importei com como eles reagem ao o que eu faço.
— Mas isso não faz deles menos seus pais. — a Kang continuou tentando explicar seu ponto de vista. — São seus responsáveis legais e as pessoas que lhe sustentam. Se eles lhe disserem um não, a resposta é não.
Um silêncio um tanto incomodo se instaurou no cômodo, logo em seguida. O Kim parecia disposto a manter sua opinião e levar sua ideia para frente, enquanto Bo Ra se perguntava como colocaria um pouco de juízo naquela cabeça tão teimosa quanto a dela.
Era um impasse que apenas uma pessoa poderia resolver.
— Taehyung. — a mais velha o chamou calmamente. — Você realmente gosta da minha neta?
— Sim. — mais uma vez, ele não pensou antes de responder. Tinha em seu rosto um pequeno sorriso quadrado e sem jeito. — Muito.
A Kang mais velha, então, sorriu. Virou-se para a neta.
— E você, minha querida?
Diferente do Kim, Bo Ra não hesitou em não segurar um largo sorriso. Fitou o rapaz e, em seguida, sua avó.
— Muito.
— Então... vocês irão a Paris. — a avó concluiu. — Como namorados.
Dessa vez, Taehyung fez questão de exibir um sorriso de orelha à orelha. Feito criança diante dos presentes que enfeitam a árvore de natal, ele fitava a senhora com uma admiração maior do que a que já possuía por ela.
— Mas como? — indagou Bo Ra, quase se engasgando. Ela sentia um inexplicável misto de felicidade e medo.
Sua avó, por outro lado, apenas ria da situação.
— Eu vou ajudá-los.
***
Depois de um par de semanas, toda a documentação necessária para a viagem de Bo Ra e Taehyung já estava pronta. Na verdade, por já ter feito viagens internacionais sozinho algumas vezes, o Kim já tinha tudo o que lhe era necessário em mãos — precisou, apenas, ajudar a família Kang a preencher formulários e autentificar autorizações. Animado, ele havia escolhido a semana perfeita para a viagem: a que continha um feriado e, por isso e contando com o final de semana, eles teriam quatro dias livres do colégio e de todas as suas outras obrigações. Gastariam quase um dia inteiro dentro de um avião, contando ida e volta, mas teriam os outros três dias livres para aproveitarem Paris e suas maravilhas. Havia um roteiro de viagem e tudo já estava planejado.
Taehyung estava, sem dúvida ou vergonha de admitir aquele enorme sentimento clichê, nas nuvens.
Já Bo Ra, sinceramente, não estava entendendo nada.
A garota sempre tivera plena consciência de que as coisas se resolviam mais facilmente para aqueles com maior poder aquisitivo, mas tudo estava lhe parecendo fácil demais. Quando questionara sua avó sobre sua tal ajuda, a mais velha nitidamente desconversara e fizera questão de mudar de assunto; e Taehyung não estava agindo muito diferente daquilo. Era verdade que a Kang estava muito animada e feliz com a viagem, por poder compartilhar um momento tão especial com o Kim e sua irmã (a qual ela adorava), mas não conseguia evitar aquele sentimento de desconfiança.
Algo ou alguém estava se movimentando por debaixo dos panos para que aquela viagem acontecesse.
— Mas pelos céus, que diferença isso faz? — indagou Jimin, nitidamente revoltado coma aquela situação.
Jogou-se na cama da melhor amiga, quase caindo sobre a pilha de roupas de frio emaranhadas pelos lençóis.
— Toda. — Bo Ra respondeu, firme. — O Taehyung sabe o quanto eu odeio que me enganem ou mintam para mim.
— Você não pode fazer um pequeno esforço para se sentir enganada em Paris? — ele insistiu. — Em Paris, espaguete!
Bo Ra encarou o melhor amigo e, como sempre fazia quando estava com ele, quis rir. Park Jimin estava, na verdade, acreditando ser uma enorme injustiça o fato da Kang ter a oportunidade de viajar para a França e ainda assim colocar defeitos na mesma; e, por isso, estava quase dando alguns tapas amigáveis na amiga.
— Sabe de uma coisa? Eu acho que você está em estado de negação. — ele verbalizou, do nada, enquanto brincava com uma jaqueta de couro que Bo Ra mantinha guardada no armário há meses.
— Como assim? — ela questionou, confusa.
O Park se endireitou sobre a cama, assistindo à amiga separar o que planejava levar na viagem e começar a encher sua mala.
— Até mês passado você insistia na tecla eu odeio Kim Taehyung, porque ele não presta, mas olha para vocês agora! — Jimin explicou. — Acho que você só não está conseguindo acreditar no que vocês se transformaram, dois pombinhos apaixonados o suficiente para viajarem juntos.
Primeiramente, a lógica de Jimin havia soado um tanto infantil aos ouvidos de Bo Ra — mas bastaram alguns segundos para isso mudar.
Afinal, ele poderia estar certo.
A verdade era que Kang Bo Ra não estava acostumada a receber coisas boas tão facilmente em sua vida, por isso odiar Taehyung era muito menos complicado que amá-lo. Antes, bastava-lhe apontar o dedo diante dos defeitos do Kim e julgar suas atitudes nada convencionais e socialmente aceitáveis, mas agora as coisas não funcionavam mais assim. Gostar de Taehyung e aceitá-lo em sua vida incluía entendê-lo e, muitas das vezes, pensar como ele. A sensação no fim do dia era muito melhor do que a que costumava sentir antes, mas também mais difícil de ser alcançada.
Era tão boa, que ela mesma acabava criando obstáculos para dificultá-la.
— Eu nunca achei que eu fosse dizer isso. — ela sussurrou, prendendo uma risada boba.
— Isso o que?
— Você está certo, Park Dedinhos Jimin.
Mesmo estando feliz por ter ouvido aquilo, Jimin não conteve a enorme vontade que sentiu de atirar na direção da amiga a primeira peça de roupa que encontrasse sobre a cama. Uma guerra de roupas se iniciou e, em meio às risadas, a tal arrumação da mala acabou sendo atrasada. Quando o Park deu-se conta, já havia anoitecido e algumas mensagens insistentes começavam a vibrar seu celular.
Cessadas as gargalhadas, ele puxou o aparelho do bolso de sua calça. Em seguida, arregalou os olhos.
— Céus, eu estou tão atrasado! — constatou, pulando da cama.
Bo Ra, por sua vez, o fitou o mais maliciosamente que conseguiu.
— Vai a algum lugar, Senhor Park?
O garoto sorriu e suas bochechas assumiram um tom rosado, dando destaque às suas discretas covinhas.
— Sim.
— Bem, bom encontro, então. — Bo Ra disse, levantando-se para levá-lo até a porta da frente.
— Como você... — ele iniciou um tanto surpreso, porém não conseguiu completar a frase.
— Você não é o único que sabe das coisas, dedinhos.
Assim, rindo, os dois desceram as escadas e logo chegaram na sala de estar. Enquanto calçava seus sapatos, Jimin fitou a amiga.
— Eu vou sentir saudades. — admitiu, manhoso. — Boa viagem, aproveite Paris por mim.
— Aproveitarei. — ela respondeu, sorrindo. — Quanto às saudades...
Jimin estava prestes a se sentir injustiçado (ele fazia muito aquilo) por ser o único naquela amizade a ter um coração, quando Bo Ra terminou sua frase pendente com um abraço repentino. Era um tanto curioso como, mesmo ela sendo alguns centímetros mais alta do que ele, sua figura ainda conseguia se encaixar perfeitamente dentro dos braços dele. O peitoral do Park estava quente e aconchegante, mas ela foi obrigada a separar-se dele para não atrasá-lo ainda mais.
Eles não disseram mais nada e, logo, Bo Ra estava abrindo a porta para que Jimin fosse embora. Ela observava a silhueta do melhor amigo se afastando de sua casa quando, de repente, ele virou-se para trás. Acenou em meio a alguns pulos desajeitados, como uma criança arteira, e só foi realmente embora quando ela retribuiu o gesto, ainda que bem mais discretamente que ele. Rindo, Bo Ra fechou a porta da frente e checou as horas em seu celular.
Logo sua avó estaria em casa, o que queria dizer que ela deveria se apressar para terminar de arrumar sua mala e também a bagunça em seu quarto.
Assim que colocou o primeiro pé sobre o carpete da sala, ouviu um trio de batidas na porta da frente. Sua avó não bateria para entrar em casa, então ela automaticamente pode deduzir quem era.
— O que será que esse garoto esqueceu dessa vez? — indagou para si própria, já percorrendo o caminho de volta até a porta.
Jimin tinha a mania de esquecer seus pertences nos mais diversos tipos de lugares, mas não fora isso que acontecera daquela vez. Parado diante de Bo Ra, havia um Taehyung com uma expressão séria e preocupada. A Kang estava prestes a perguntar se algo havia acontecido, quando ele próprio tomou partido.
— Você quer mesmo viajar?
Pega de surpresa, Bo Ra sequer entendera a pergunta. Talvez pela primeira vez em sua vida, ela estava vendo Taehyung com os cabelos bagunçados e roupas amarrotadas, o que tornava a cena ainda mais estranha.
— O que? — foi o que ela conseguiu responder, mesmo que aquilo não fosse exatamente uma resposta.
— O que eu quero dizer é que... — ele iniciou, mas pausou parecendo procurar as palavras certas. Quando Bo Ra percebeu, ele já abria caminho para si próprio para dentro da casa dela. — Eu quis fazer isso por você, porque você disse que gostava muito de Paris, mas aí eu acho que saí atropelando as coisas. Aprontei tudo sozinho, sem sequer perguntar se você realmente gostaria de viajar. E sabe, quando eu lhe perguntei o que você faria se tivesse a chance de ir a Paris, você disse que não sabia e...
— Taehyung. — ela sentiu-se na obrigação de interrompê-lo. Fechou a porta e caminhou até ele. — Por favor, respira.
Ela quis muito rir do nítido desespero do Kim, mas sabia que isso não chegaria nem perto de acalmá-lo. Kim Taehyung estava simplesmente surtando, o que engraçado e chocante ao mesmo tempo.
Ele respirou fundo, inspirando uma quantidade considerável de ar. Quis erguer os ombros e sentir-se mais confiante, mas tudo o que conseguiu foi deixá-los ainda mais caídos.
Aquele era o estranho efeito que Kang Bo Ra tinha sobre ele.
— Eu acabei não pensando em você, no fim das contas. — constatou, fitando o carpete com o qual já começava a se familiarizar.
Por fim, Bo Ra não conseguiu segurar um sorriso. Taehyung era uma peça singular e única. Era verdade que entendê-lo era mais difícil, mas também valia muito mais a pena.
Com esse pensamento em mente, ela gentilmente ergueu o queixo dele e o beijou. O Kim não se importou com a surpresa pela ação dela e a retribuiu, resultando em um beijo terno e que falava muito mais do que ele precisava ouvir. Mesmo assim, depois de se separarem, ela fez questão de reforçar sua resposta.
— Eu quero ir para Paris com você, Kim Taehyung. — disse, ainda com a ponta de seu nariz colada ao dele. — E eu quero ir justamente porque você também vai.
— Sério? — ele indagou, de olhos fechados.
— Eu amo você.
A confissão havia deixado a boca de Bo Ra sem a permissão da garota, mas ela não se arrependia de tê-la dito. A Kang estava cansada de pensar no que poderia acontecer, no que poderiam pensar e em todo o pacote de consequências que ter Taehyung ao seu lado lhe traria, fossem as mesmas boas ou ruins.
Ele estava lá e já havia passado da hora daquelas palavras serem ditas.
Ela se sentia muito mais leve por tê-lo feito, enquanto o Kim não poderia estar mais surpreso. Pego com a guarda baixa, ele não podia evitar de se assustar diante daquelas palavras que nunca havia dito para ninguém.
Ter medo daquilo que nunca sentira antes.
Abriu os olhos instantaneamente.
— Eu...
Não conseguiu terminar a frase. Não era como se não sentisse o mesmo por Bo Ra, muito pelo contrário, mas tudo aquilo era muito mais difícil para ele do que ele poderia imaginar.
Anos e mais anos de palavras e sentimentos enterrados e escondidos pareciam terem se acumulado bem ali, em sua garganta.
— Está tudo bem. — ela disse e acariciou o rosto dele, um sinal nítido de que estava sendo sincera. — Você não tem que dizer só porque eu disse. Eu o fiz porque...
Não, ele não podia deixar aquilo acontecer. Odiaria a si próprio pelo resto de sua vida se não pudesse dar a Bo Ra o mínimo que ela merecia, ainda que afirmasse não precisar.
O mínimo que ele também merecia.
— Eu também amo você. — ele a interrompeu, dizendo todas as palavras de uma só vez. Respirou fundo um par de vezes e, quando percebeu o que finalmente havia conquistado, permitiu-se sorrir. Segurou o rosto de Bo Ra em suas mãos e fitou cada detalhe do mesmo, como se estivesse querendo cravá-los em sua memória. — Eu amo você, Kang Bo Ra.
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