If I should fall, perpetual run
1 Capítulo 1. Relembrando o passado
~Sete anos atrás~
O som da música alta eclodia por todas as paredes da casa do Kevin, o anfitrião da festa. Mas naquele instante um silêncio absoluto se instalou nos pensamentos de Emily, ela estava diante da, provavelmente, escolha mais marcante de sua adolescência. Uma pergunta lhe foi feita e bastaria uma única palavra para determinar as rédeas que o jogo tomaria.
—- Verdade ou consequência? -- Alice a fitou.
Emily sabia dos jogos maliciosos que Alice costumava fazer com os amigos, e principalmente com ela, mas o efeito do álcool em seu sangue lhe deu coragem para desafiá-la.
—- Consequência. -- Ela respondeu confiante, mas instantes depois uma sombra da preocupação lhe veio aos pensamentos. Ela sabia que coisa boa não viria.
Alice sorriu e pressionou os lábios enquanto pensava. Os cabelos castanhos claros e levemente ondulados lhe caíam bem junto aos olhos castanhos claros, quase em um tom amarelado.
—- Eu soube através de algumas pessoas da escola que a tua amizade com a Anne é bem verdadeira. – Nesse momento Alice, uma jovem de cabelos negros e pele extremamente clara, olhou para Alice, uma das participantes da brincadeira, como se a dedurasse. -- Se isso é verdade, porque não nos prova isso mostrando que uma amizade assim pode superar até mesmo um beijo? – Alice arqueou uma das sobrancelhas ao ouvir as palavras de Alice, pois o combinado entre elas não era este.
Todos que estavam na roda da brincadeira pertenciam à mesma escola, o centro educacional Leonel Vincht, e todos olharam imediatamente para a reação de Emily. Mas os olhos da garota estavam ocupados demais preocupados com a reação de Anne.
A amizade das duas seguia inabalável desde os 12 anos, onde elas se conheceram no primeiro dia de aula cursando a sexto ano do ensino fundamental. Cinco anos se passaram até a festa, onde a amizade delas tinha sido colocada a prova de fogo, ambas estavam agora cursando o ultimo ano do ensino médio.
Com o silêncio abafando todos os outros sons que a música e as pessoas produziam, Emily só conseguia observar os detalhes e olhares que Anne lançava sobre ela. Nenhuma das duas sequer havia pensado na possibilidade de um beijo, nunca. Ambas se encontravam tão preocupadas uma com a outra, com a reação, com os sentimentos e pensamentos, que acabaram perdendo a noção do tempo que ficaram se olhando.
—- A paquera fica para depois. Vai ou não vai rolar o beijo, Emily?
Alice gozou de Emily e Anne, que por fim despertaram do transe. Não demorou muito para que Emily se aproximasse de Anne, suas mãos soavam frio e seu coração disparou. O silêncio entre as duas permaneceu até o momento em que Emily se encheu de coragem e após tocar a mão de Anne, que se encontrava sobre as próprias pernas, afirmou.
—- Anne, se você tiver alguma coisa contra isso não precisamos fazer. É só uma brincadeira idiota. -- Emily apertou a mão de Anne suavemente mostrando a ela que estava presente ali, como uma eterna amiga. E esse toque fez Anne se sentir confiante de que nada, até mesmo um beijo, enfraqueceria essa amizade.
—- Nós podemos lidar dar com isso. -- Anne sussurrou.
O primeiro passo foi dado pela própria Anne que vagarosamente se aproximou. Os olhos de Emily alternaram entre os olhos e a boca da amiga, aqueles lábios vistos tão de perto não eram os mesmos que visto a distância, toda delicadeza das curvas e os traçados bem definidos mexeram com a garota. Emily estava suficientemente próxima para beijá-la, mas sua primeira reação foi a de respirar fundo, o perfume da pele de Anne tomou todos os seus sentidos. O cheiro do perfume 212 que Anne costumava usar era maravilho. Anne umedeceu os lábios ao passar a língua discretamente sobre eles. Emily tocou o rosto da amiga com uma das mãos e acariciou. Os lábios roçaram-se até que o beijo aconteceu. A língua de Emily invadiu a boca de Anne lentamente até que ela se entregasse por completo, e ela o fez instantes após o inicio do beijo. Naquele instante a música Sky's Still Blue — Andrew Belle,lhe veio à cabeça, a música soava como se a própria estivesse tocando em uma sinfonia perfeita, como a de uma orquestra, em sua cabeça. As línguas se entrelaçavam em um ritmo lento, mas intenso. Ambas sentiam como se pudessem continuar naquele beijo para sempre. Naquele beijo a dimensão em que elas estavam não parecia ser a mesma do mundo em que sempre haviam vivido.
—- Acho que sempre foi mais que amizade, não é pessoal? -- Alice debochou e todos os presentes na roda caíram na gargalhada, exceto Alice, que não demonstrava estar satisfeita com a consequência exigida pela morena.
As risadas fizeram com que Anne se afastasse, mas não de forma rápida, a medida em que se afastavam os lábios dela quase imploravam por mais daquele beijo caloroso e Emily não retirou seus olhos dela por um segundo enquanto se afastava.
Quando Anne tomou consciência do ocorrido ela se levantou rapidamente interrompendo a conexão entre os olhares que uma lançava sobre a outra.
—- Eu não quero mais brincar disso. – Ela correu para fora do quarto e
Emily a seguiu sem pensar duas vezes. Os anos de amizade lhe concederam o dom de enxergar quando a amiga não estava bem.
A perseguição percorreu as escadas da casa que davam para o segundo andar e terminou na penúltima porta do corredor, que dava acesso a um dos banheiros da casa.
—- Anne, o que houve? Porque saiu daquele jeito? -- Emily se aproximou e tocou o ombro da amiga no intuito que ela se virasse, mas Anne deu um passo à frente, distanciando-se Emily.
—- O que aconteceu lá no quarto? -- ela questionava a ação em um timbre assustado e repleto de anseios.
—- Nada aconteceu Anne. Nós só mostramos para todos que nossa amizade é verdadeira. E que não é um beijo que mudará isso.
Embora estivesse claro que Emily sentiu coisas muito além do que alguém que só queria provar algo, ela precisava ocultar isso para a amiga, para que Anne se sentisse segura em relação ao ocorrido.
—- Emily.. -- A voz de Anne fraquejou durante o sussurro. E em um súbito movimento ela se virou e logo envolveu Emily em um abraço apertado.
—- Não se preocupe com o que aconteceu. Isso não muda nada entre nós. – Emily se afastou brevemente para que pudesse beijar a testa da amiga, mas ao se afastar Anne a olhou diferente, um olhar que Emily não saberia entender até o momento da verdade ou consequência. Emily logo percebeu que Anne estava pronta para beijá-la de novo. Seus corpos pediam por mais, pediam mais proximidade, mais toque, mais sentimento e não demorou muito até que um clima se estabelecesse entre as duas. Os olhares se fixaram, e quando seus lábios quase se tocavam alguém abriu a porta em um único movimento.
—- O que está acontecendo aqui?. -- Alice manteve seus olhos sobre Emily por alguns segundos, incrédula por pegar as duas quase se beijando fora da brincadeira.
Anne afastou-se da ruiva, Emily, em um rompante. Empurrando-a para longe, deixando escapar de sua boa a primeira coisa que veio em mente:
—- Nada! Nada está acontecendo. – Ela encarou a jovem que segurava a porta entreaberta, e em questão de poucos segundos saiu do banheiro em passos apressados, deixando Emily e todo o seu constrangimento ali, acompanhada da única pessoa que ela não queria enfrentar justo agora: Alice.
~ Atualmente ~
Emily nunca havia se sentido tão dominada por alguém, mas aquele olhar profundo que encontrou em meio a uma multidão penetravam em sua alma, como sempre fizera, arrepiando cada parte do teu corpo, desvendando todos os segredos, inibindo todas as suas fontes de pensamento. Naquele momento Emily jurava poder ouvir as batidas do próprio coração que alegremente se fortaleciam e aceleravam, cada parte de seu corpo queimava como fogo, e a dona daqueles olhos tão profundos e castanhos escuro finalmente sorriu ao avistar Emily.
Todas as ações de Emily se encontravam fora de controle, o ar que ela respirava era insuficiente para suprir todo o ar que os próprios pulmões precisavam. Aquele olhar aquecia seu coração de forma tão completa que preenchia todo o vazio que antes se instalava lá. Os desejos da garota lutavam pelo controle do seu corpo, e mantê-lo era uma tortura. Com as palmas da mão úmidas pelo suor do nervosismo e as pernas fracas pela tremedeira, Emily puxou todo o ar que conseguiu e o prendeu por alguns segundos na tentativa de estabilizar as emoções. Naqueles poucos segundos em que segurou a respiração ela se lembrou da frase que uma vez ouvira da própria mãe: “-- O coração jamais se esquece daquela pessoa que o fez sentir a adrenalina do amor, a palpitação e a falta de fôlego.”. Emily sabia que era a hora de enfrentar todas as confusões que seu coração havia criado no passado. Toda força que ela havia juntado durante os seis anos que passou longe foi esquecido no exato momento em que o sorriso de Anne novamente a fez vulnerável as suas vontades. Anne cortou a multidão em passos largos e acolheu Emily em seus braços.
—- Estou tão feliz que tenha voltado! -- Anne apertou o abraço, aproveitando cada segundo daquele momento.
—- Como é bom te reencontrar Anne! -- A voz fraquejou e Emily quase derramou uma lagrima.
As amigas não se viam há seis anos, e não se falavam a quatro. Quando Emily foi embora, fugindo de seus sentimentos e responsabilidades, não houve despedidas, a jovem havia passado na UFOPE em Ouro Preto e deixou a cidade sem comunicar a ninguém que não fosse de sua família.
~ 4 anos atrás ~
O celular de Emily tocou e a garota atendeu quase que instantaneamente.
—- Até que enfim! Pensei que não fosse ligar hoje. -- Emily se jogou na cama, animada.
—- Desculpe Em, mas eu estava resolvendo coisas tuas aqui.
—- Como assim coisas minhas? Eu não deixei nada pendente por ai. -- A voz de Emily mudou.
—- Tem certeza? Olha, há dois anos, quando eu flagrei você e Anne quase se beijando naquele banheiro, de alguma forma eu soube que vocês deveriam acabar juntas. Mas você está estragando tudo! -- O tom de voz de Alice não era o de alguém que estava falando sério.
—- Você não vai vir com essa história de novo, vai? Você sabe o que aconteceu.
—- O que eu sei é que vocês deveriam conversar. Liga para ela.
Alice e Emily sempre se falavam por telefone, e Alice sempre recordava a amiga que ela precisava se desculpar com Anne por ter ido embora sem se despedir, mas a garota nunca ouvia. Naquele dia, a história não era a mesma, Alice tinha outros motivos para insistir na ligação.
—- Anne precisa de você. -- Alice que sempre era brincalhona quando tocava nesse assunto, ficou mais séria.
—- Eu também precisava dela. -- Emily pensou ser mais um dos jogos de Alice para convencê-la a ligar. -- Mas a vagab..
Alice interrompeu.
—- João Paulo morreu esta manhã. -- Emily ficou incrédula e paralisada do outro lado da linha.
João Paulo era o irmão caçula de Anne e Emily sabia o quanto a amiga era apegada com o irmão. Ela o conhecia quase tão bem quanto Anne, pois elas tomavam conta dele nas noites de terça e quinta feira, quando os pais saiam para jantar.
—- Emily, ainda está na linha?
—- Sim. -- A voz de Emily soou mórbida.
—- Você irá ligar, certo?
—- Irei. As coisas mudaram. Meu orgulho não vale o preço.
Emily deixou de lado o orgulho e a mágoa, ignorou todos os acontecimentos do passado e decidiu que ligaria para a amiga naquele mesmo dia. Ela sabia do quanto Anne precisaria do apoio da única pessoa que a conhecia tão bem. E Anne estava realmente abalada com a morte do irmão. João Paulo não apresentava sintomas de nenhuma doença. Os pais notaram que o menino não estava respirando na cama em que dormia e então correram para socorrê-lo, mas já era tarde, o corpo pequeno do garoto já estava gelado. Os legistas diagnosticaram a morte por consequência de uma parada cardíaca súbita. João Paulo sofria de Miocardiopatia.
~ Atualmente ~
—- Obrigada por ter vindo me ver no aeroporto. -- Emily soltou-se dos braços de Anne e observou a amiga. Um sorriso enorme se instalava no rosto de ambas.
Emily era uma ruiva de descendência holandesa, seus olhos eram de um tom azul claro. A ruiva possuía cílios compridos e pele pálida. O cabelo pouco ondulado e comprido caia sobre o ombro cobrindo parte da regata branca que ela adorava usar. As pernas torneadas e pouco volumosas estavam a amostra, Emily estava usando um dos seus shorts jeans escuro preferidos, e um tênis Calvin Klein folha cinza.
—- Eu não perderia sua chegada por nada. Só é uma pena eu ter que voltar para o escritório. -- Anne pareceu desanimada ao relembrar dos horários que tinha a cumprir, era seu primeiro mês no escritório de advocacia e ela não podia causar má impressão.
—- Teremos outros momentos para conversar.
Anne possuía uma beleza incrível, os desenhos do rosto e da boca se aproximavam da perfeição. Os olhos e cabelos eram de um tom castanho escuro, e a pele parda sempre estava bronzeada. Anne adorava ir à praia. As curvas corporais eram moderadas, pois Anne nunca foi uma pessoa totalmente dedicada à vaidade, coisa que Emily cuidava muito bem de fazer.
—- E você não sabe o quanto eu esperei por esses momentos. -- Lágrimas se formaram nos olhos de Anne. A emoção de reencontrar a amiga lhe trazia lembranças boas, mas também lembranças ruins. -- Podemos jantar hoje à noite?
—- Essa com certeza é uma ótima ideia. Teremos mais tempo para colocar a conversa em dia. Vejo você à noite então? – Emily sorriu, já estava empolgada para jantar com a amiga.
Emily acompanhou Anne até a saída do aeroporto. Ambas teriam que pegar um táxi, embora fossem seguir sentidos diferentes. A primeira conversa entre as duas tinha deixado Emily nervosa. Durante quatro anos elas só se falavam pelo celular e pelo skype, vê-la e tocá-la enquanto conversavam foi diferente, Emily sentiu seu coração pular a cada sílaba que Anne pronunciava.
Os planos de Emily para o dia de sua chegada à Porto Alegre se resumiam em dois pequenos passeios. Ela queria rever seus amigos. Sua primeira jornada foi até a casa de Matheus, um amigo de longa data. Para sua sorte, o rapaz ainda morava no mesmo lugar. Emily bateu à porta e esperou por alguns minutos até que foi recebida por Márcia, mãe do Matheus.
Márcia era uma mulher elegante, sempre bem arrumada. O estilo de mãe de família que usa salto até dentro de casa. Sua vaidade era totalmente notável. Emily quando a viu nem sequer acreditou que ela continuava com as mesmas feições de seis anos atrás.
—- Emily, querida, quanto tempo! -- Márcia envolveu Emily em seus braços. – Como eu sei que não está aqui só para me ver, sinto-me na obrigação de lhe informar que o Matheus não está. Mas se quiser ficar para conversarmos, seria ótimo saber da sua viagem.
Notas finais
Sou nova neste site, e espero poder trazer à vocês uma experiência única e maravilhosa!
Conto muito com o apoio e incentivo de cada leitor para que eu possa melhorar cada vez mais e trazer à vocês capítulos mais cheios de vida, mistério e muita emoção!
Espero que gostem e se envolvam com os personagens!
Um grande beijo, e até breve :*
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