If I die young

3 Capítulo III: Olhos de ressaca


Notas iniciais
Obrigada pelos comentários ^^- e o mesmo para quem apenas lê. Visitem o meu perfil, estou vendendo alguns mangás e... bom ;_; me deixem feliz, por favor! uahauahuua. Enjoy ~

Os dias seguintes voltaram a sua rotina, o ruivo não se encontrara mais com o loiro de olhos azuis, as janelas da casa de Catarina estavam sempre escuras desde então. “Ele foi embora” acendeu o cigarro da tarde, juntamente com a caminhada para casa.

Bom, não que Matt esperava que algo fosse realmente mudar em sua vida com aquela agitação no final de semana. Agora era como se nada tivesse acontecido, mesmo sem a presença da amiga, tudo era como se nada realmente tivesse mudado. “Seres humanos e sua percepção de vida...” suspirou. Por isso nunca fazia alarde com as coisas que lhe aconteciam, mais tarde, quando o problema fosse embora – ou o que seja – ele sentaria na porta de casa com um cigarro nos lábios e teria aquela mesma sensação: parece que nada aconteceu. E assim seguiria sua vida.

Como de costume, retirou o coturno sujo de terra e entrou. Ao bater a porta, sentiu uma vibração prolongada correr pelas paredes fazendo tremer as janelas, mais um pouco e aquele barraco viria ao chão literalmente, precisava de uma madeira aqui e outra ali; talvez pedisse ajuda ao seu chefe no final de semana. A cozinha era outro ponto que o preocupava, final do mês sempre era apertado, se tivesse sorte teria arroz e ovo para o jantar. Fazia tempo que não comia um bom bolo de chocolate.

Bolos, uma pequena lembrança invadira sua mente: uma mulher alta segurava com cuidado uma grande caçarola de vidro, o cheiro doce do forno fazia o garotinho de oito anos olhar curioso para cozinha. “O que está fazendo mamãe?” perguntou animado “Um bolo” e então a mulher levou os dedos aos lábios provando o recheio “Aposto que também quer” emendou ao ver o pequeno engolir em falso.

A imagem de Dahlia o fez fechar os olhos por um momento, a quanto tempo não pensava em sua mãe? Não era como se Matt quisesse esquecer sua família ou algo assim, ele simplesmente não costumava pensar nas coisas do passado. “Logo Mello também será apenas passado” disse para si mesmo colocando ponto final.

Algumas batidas na porta fizeram o ruivo se voltar para trás, quem seria? Edgar era o único que tinha seu endereço e não o esperava.

— Pois não?

Oh...

— Caralho... essa ladeira... é foda _resmungou um Mello mal humorado _desculpe, hum... oi, se lembra de mim certo? Preciso de um favor.

— ...claro, entre Mello _respondeu por fim de alguns segundos.

— Com licença, ou melhor, podemos sair? Eu ainda não comi nada.

Mello parou a dois passos de atravessar a porta e esperou o ruivo se decidir, logo estava o esperando passar o cadeado na porta de madeira. “Não gosta de trincos?” zombou sarcástico e recebeu apenas um sorriso em resposta.

Tiveram que descer o morro a pé, Mello deixou o carro estacionado perto de sua antiga casa – um modelo popular, mas bem conservado. Sairiam de lá para o centro, tinham coisas a negociar.

— Então? _quis saber o ruivo depois de alguns minutos em silencio.

— Não costumo levar pessoas para jantar, então vou escolher o restaurante que eu frequento.

— Ah não!... _seu rosto tomou um ligeiro tom carmesim _quis dizer... o que você veio me pedir.

— Você se dá bem com os moradores do morro?

— Me dou bem com quem convivo... sua mãe e meu chefe _deu os ombros _não sou muito sociável.

— É... _o loiro mudou de marcha e virou a esquerda voltando a ficar em silencio.

Mello desviou de seu caminho habitual afim de não pegar transito, em pouco tempo estariam no lugar de destino, então era melhor que terminasse suas explicações ainda no carro. No geral, não tinha interesse em sair para conversar, ele apenas dizia e fazia as propostas sem rodeios; e Matt parecia ser um cara que entendia bem esse tipo de coisa. Mas desde que fora embora, sentiu uma pontada de impaciência em ver o outro, queria conhecê-lo um pouquinho mais antes de fazer o acordo.

— Bom, eu cresci naquela casa... se ficar abandonada os moradores irão invadir _bufou _e mesmo se deixar para alugar a chance de algum idiota acabar com a construção é enorme. Eu ainda sou bem conhecido, mas as coisas mudaram bastante. Será que você não pode alugar a casa? Acho que minha mãe confiava em você o suficiente.

— Eu nunca teria dinheiro o suficiente para pagar! E outra... bom... tenho medo de ser incomodado, uma vez que a senhora Catarina era bem querida lá, colocar um cara como eu –

— Não esquenta, eles já nos viram juntos, por isso deixei meu carro e fui te buscar a pé. Eu posso cuidar dessas duas preocupações pra você.

O ruivo respirou fundo, mudar de casa seria bom uma vez que seu barraco era caro e estava caindo. Mas isso seria novamente sair de sua vida tranquila.

— Por favor _o loiro cortou a linha de pensamentos do outro.

— Tudo bem, mas me deixe pagar de acordo.

— Ótimo.

Matt agradeceu por finalmente sentarem para comer, não que realmente passasse fome, mas seu estomago estava reclamando desde que saíra do trabalho quase duas horas atrás. Com o contrato firmado, agora podiam conversar sobre qualquer coisa – literalmente jogar conversa fora. O ruivo descobriu que Mello morava á duas ruas dali e que pelo menos uma sexta-feira do mês tirava folga. Trabalhava num prostíbulo disfarçado de cabaré; fazia parte de uma equipe com seis mulheres e quatro homens.

— Já foi em um? _perguntou o loiro divertido.

— Não... não, muito caro _coçou a nuca um pouco envergonhado _quando eu estou afim, pego alguma que queira se divertir sem compromissos. E a faculdade? Bom... medicina parece bem difícil, mesmo assim consegue tempo.

O loiro cutucou o resto de arroz com o garfo antes de responder.

— Tranquei no quinto ano, não tive saco para continuar estudando _o tom de aborrecimento era forte em sua voz _mas eu preferi não contar pra ‘velha. Na verdade, perdemos o contato faz anos.

— ...entendo. Estudar parece mesmo ser um porre _emendou divertido.

— Na... não é bem esse o problema, tanto os alunos quanto os professores são muito burros, meu QI é 300 _riu _brincadeira.

Matt não duvidou, uma vez que o seu era aproximadamente 280, mas preferiu não dar ao loiro essa informação – qual a chance de dois super gênios estarem jantando juntos? E mais um ponto lhe cutucou a consciência, tinha esse dom quase extraterrestre e continuava comendo pão com ovo. “Seres humanos... tsc”.

— Já... conseguiu alguma informação sobre... você sabe _disse com um pouco de receio, se referia a senhora Catarina.

— Não, algum idiota foi roubar suas coisas e atirou, foi o que a policia disse... sabe, Matt...

O outro esperou por uma conclusão que não veio, decidiu por sorrir de volta num incentivo para que continuasse a falar.

— Por que você está sorrindo?

— Eu não sei, se incomoda? _tirou um maço quase no final do bolso do jeans.

— Vá acendendo um pra mim também, por favor.

Mello passou no caixa para pagar a conta, quando deixou o estabelecimento, Matt já estava com o cigarro nos lábios. Ele achava, desde a primeira vez que o vira, seus lábios muito macios e combinavam perfeitamente com o objeto preso com delicadeza entre eles; era raro encontrar alguém que fumasse daquela forma. “Quero tocá-los...” desejou.

Os olhos azuis se estreitaram, Matt viu a aproximação, mas não se moveu; pelo contrario, parecia aceitar as intenções do outro. Um par de mãos puxou a cintura de Matt para mais perto, entretanto ele não provou os lábios que tanto queria de imediato, primeiro perdeu alguns segundos nos olhos claros diante de si: o verde tinha alguns traços cor de mel mesclando num tom raro.

— Vamos sair daqui.

Matt pode sentir o halito morno a centímetros de sua boca. “Idiota” trincou os dentes, esperava por um beijo, mas talvez se conter um pouquinho o levaria a coisas mais interessantes. Não era segredo que Mail Jeevas estava a dias com vontade de provar mais um pouco do outro – e não ia colocar nenhuma ética na frente de seus desejos.

A fachada do apartamento não era de classe alta, tinha ali suas manchas pretas e a tinta descascando, mesmo assim era bem bonito. Matt novamente deve certa nostalgia ao passar pelo portão de ferro e entrar no elevador; se bem se lembrava, seu lar era no terceiro andar de um prédio de esquina azul claro.

— Não é como se... _Mello chamou a atenção de volta pra si _estivéssemos vindo para transar ou algo assim.

— Relaxe _soltou um riso abafado _não dá pra negar os fatos, mas... sei lá, você acabou de perder sua mãe, tudo bem em querer companhia.

O ruivo não recebeu a resposta mal criada que achou que viria, o outro apenas se limitou em dar um sorriso forçado e destrancou a porta para entrarem. Era um mar de coisas jogadas pela mesa, sofá e cadeiras, ainda assim tudo parecia estranhamente organizado. Matt ocupou a varanda da sala para mais um cigarro enquanto Mello tirava os sapatos apertados, largando seu corpo no sofá.

— Seu apartamento é bem legal _comentou ao fim de cinco longos minutos.

— Obrigado... pode fumar aqui dentro, aliás, me desculpe _ligou a tv e ficou a encarar o rosto delicado da jornalista.

— Não encontrei um cinzeiro.

O cigarro terminou de queimar e foi jogado na rua, errou por um triz a caçamba de lixo um pouco mais a frente. Cansado, sentou ao lado do loiro tomando a liberdade de tirar o casaco para ficar mais a vontade. E assim ficaram, calados e vendo qualquer noticia idiota na tv. “Não é como se tivéssemos vindo para transar?” pensou o ruivo segurando a vontade de rir, bom, talvez Mello tivesse razão, porém não ia ficar passando vontade daquele beijo que só ficou na intenção.

Como se o outro tivesse lido seus pensamentos, segurou a blusa listrada e o puxou para mais perto indo de encontro aos lábios que cobiçara mais cedo: eles eram, assim como imaginou, realmente macios. O gosto de cigarro logo deu característica ao beijo, mas ele se perdeu nos sentidos do loiro quando um par de mãos ágeis o empurrou para que deitasse no sofá. Sem querer quebrar o clima com algum comentário sarcástico, optou por agarrar as costas largas do outro deixando claro seu aval.

— Você tem um beijo gostoso _comentou enquanto assistia o mais novo se desfazer da camiseta.

Matt geralmente faria algum comentário em resposta, mas estava tentando se concentrar o máximo possível para não se lembrar de Catarina, era um pouco constrangedor estar se deitando com o filho da mulher que comera à dias atrás. “Quem é a puta agora, uh?” tratou de afastar pensamentos broxantes e continuou a morder o pescoço pálido abaixo de si.

Se Mello era profissional, Matt ainda não sabia responder muito bem, entretanto descobriu particularidades logo na primeira vez: O Keehl gostava de ser comido como uma vadia, de quatro e olhando o rosto de outro no espelho da frente. Isso o deixava um tanto desconcertado; seu rosto era tomado por sorrisos envergonhados e caretas contidas a cada vez que os olhos azuis o miravam “E para piorar, dá muita vontade de gozar” mordeu o lábio tirando um sorriso divertido do outro.

— Não perca o ritmo, isso está incrível _balbuciou Mello incentivando-o.

Mas incentivo não era exatamente do que o outro precisava e logo Mello o sentiu se afastar alguns centímetros para o liquido quente então espirrar em suas costas. O ruivo soltou um muxoxo rouco que soou como pedido de desculpas.

— Não ligue pra isso... _respondeu aos tropeços.

A adrenalina não o deixou perceber de imediato que Mello tentava retardar seu próprio orgasmo.

— Ei... por que está se seguran-

Foi interrompido agora por um movimento brusco, sua vez de ser jogado contra o estofado e sem esperar por uma reação, Mello subiu no corpo definido até a altura de sua boca.

— Porque quero seus lábios macios _sibilou apenas um mexer de lábios.

Matt relutou por um breve segundo, resolver abocanhar o que lhe era oferecido e fazer um bom trabalho, ou pelo menos tentar já que nunca tivera aquela experiência antes – bom, pelo menos tinha a noção que não podia usar os dentes¹.

A visita ao apartamento de Mello lhe rendeu um bom sexo, mas também uma enorme preguiça de voltar pra casa, abriu um dos olhos para checar as horas no relógio do DVD; 22:46, se não saísse logo perderia o circular e ainda teria que subir a ladeira rezando para não ser baleado. “...ele não vai se importar” foi a única coisa que pensou antes de dormir abraçado ao loiro.

Ainda era bem cedo quando Matt finalmente alcançou o chão de terra, teve mais uma vez aquela sensação ruim de acordar as 4 da manhã e sair de uma casa que não era a dele. Talvez devesse ter acordado Mello e ter se despedido, mas não ficou com vontade, além disso, não era uma mulher de caso com o outro. Passou pela construção que agora estava sob sua responsabilidade, iria precisar da ajuda de alguém para carregar as coisas se não quisesse fazer pelo menos três viagens; não que tivesse pilhas de roupas e moveis, alias, os moveis nem eram seus, apenas o sofá.

A paz na comunidade era algo raro, por uma leva de boa sorte, a semana seguinte passou tranquila. Os moradores podiam respirar aquele clima agradável mesmo com todo o cheiro de insegurança que pairava no ar; Matt em breve deixaria ser o morador do barraco bege, instalado entre dois prédios altos, com o telhado quebrado e a porta presa por correntes, entretanto isso no momento não fazia sua vida animar nenhum pouco: desde que conhecera Mello, sentia-se inquieto e isso não era nada agradável. O ruivo tinha ido morar naquele lugar justamente para não precisar pensar coisas como aquelas e de repente se via contra a parede, como foi acabar assim?

Seis anos de paz, se ele parasse um segundo para pensar no passado, ainda tinha vivas as lembranças daquela época, porém tratou de guarda-las e estava bem com isso. E assim queria continuar até morrer! “Droga...” repetiu seu palavrão costumeiro, aquele loiro tinha algo que lhe chamava a atenção de maneira irritante e intensa, e o pior, sem motivos. Foi só um jantar e uma transa, por que diabos isso lhe pareceu tão pouco? Passara a semana toda imaginando quando ele viria lhe trazer as chaves do apartamento, quando se veriam novamente.

— Idiota _xingou a esmo passando pela padaria perto de casa.

Parou de caminhar e contou mentalmente as moedas que tinha no fundo do bolso, decidiu que era hora de comprar uma cerveja e tentar um novo recorde no fliperama. Se distrair era a chave para o sucesso de uma vida tranquila.

— ‘Tarde _cumprimentou o senhor que logo lhe devolveu um sorriso _uma ficha e uma loira _pediu, mas logo que quem disse a palavra loira, seu rosto se contraiu numa careta. “Preciso mudar o apelido da cerveja” pensou.

— Alguém te abateu.

Martin, o neto do dono da padaria saiu correndo de dentro da cozinha com o rosto afogueado pelo calor do forno.

— Essa semana, alguém colocou um nome antes do seu!

— Está brincando não é?

O ruivo então se aproximou do fliperama e checou a lista, sim, tinha um nome antes do seu e a surpresa conseguiu ser ainda mais desagradável ao ver o conjunto de 5 letras: M.E.L.L.O; qual a chance de existirem dois Mellos naquela comunidade?

— Peça mais uma ficha para o seu avô, vou deixar ele lá em baixo!

— Uh... isso até pareceu pessoal _o menino comentou deixando o outro desconcertado, isso não o abateu, tinha uma vingança a cumprir.

Não foi difícil, Matt percebeu que nunca jogara aquilo realmente a sério, cravou seu nome no topo com uma larga diferença e saiu de lá se sentindo outra pessoa. Então era assim, Mello não sairia mesmo dos seus pensamentos por um bom tempo, como sempre, se adaptaria a isso até que algo de repente acontecesse novamente outra mudança em sua vida. Mudanças bruscas aconteciam de tempos em tempos e faziam no rapaz uma nova cicatriz, um novo trauma; estava cansado daquilo, porém parecia inevitável. Quisera ele nunca ter perdido os pais, estaria agora trabalhando em um bom lugar, dormindo no mesmo quarto, convivendo com as mesmas pessoas. “Acho que estou um pouco melancólico” disse para si mesmo.

— Matt! _a vozinha infantil chegou aos seus ouvidos o fazendo se virar para procura-la _o que faz aqui?

— Rosa minha princesa _cumprimentou a menina com um beijo no rosto _vim... uh, comprar algo para comer.

— Veio beber cerveja, está cheirando a cerveja e cigarros! _inflou as bochechas e o puniu com um tapinha na cabeça _não pode, isso não é saudável.

— Tem razão... onde está seu pai? _olhou em volta percebendo que a criança estava desacompanhada.

— Estou com a vovó, mas ela anda tão de vagar... ah olha ela ali _apontou para a senhora que entrava na padaria _tenho que ir antes que ela gaste todas as moedas com tranqueiras _revirou os olhos impaciente _estou com saudades, apareça em casa mais vezes.

— Pode dei-

— E isso é uma ordem _completou impedindo o outro de falar.

Matt riu e fez um sinal de positivo com as mãos, esperou a menina sumir dentro do estabelecimento e recomeçou sua caminhada de volta para casa. Tinha um longo caminho até ela, a preguiça grudou em suas costas, o efeito do álcool estava pesando em suas pálpebras. Deu mais dois passos, agora eram os pés que pareciam deixar de obedecer, mais um pouco e se arrastaria para aquele fim de mundo.

— Não sabia que tinha uma filha.

A frase processou lentamente em seu cérebro, seus olhos miraram o nada, sem foco. “Isso foi pra mim?”

— Está me ouvindo?

Olhou mais uma vez em volta.

“Ah sim... só podia ser você”.

— Oi Mello, me desculpe... não, é filha do meu chefe _respondeu calmo seguido por um bocejo.

— Já tirei as coisas do apartamento, pode ser mudar _balançou um molho de chaves.

— ...obrigado.

Os lábios do mais novo repuxaram para um sorriso, aceitou as chaves as guardando no bolso em seguida.

— Então... tem muitas coisas para levar?

— Uh, não, algumas roupas... e livros _deu os ombros _se precisar fazer duas viagens sozinho deixo metade lá mesmo.

— Livros são a melhor coisa que vai poder carregar.

— ...nerd _resmungou num tom divertido _ah, te passei no fliperama.

— Não tem problema, passo outra vez. Vamos, eu te ajudo vai.

— Você deve me amar mesmo.

Matt ganhou um dedo do meio duplo. De carro, obviamente, eles fizeram uma só viajem e logo o ruivo se ocupava em guardar seus pertences nos armários deixados pelo loiro: um guarda roupas minúsculo, os armários da cozinha, o sofá-cama e surpreendentemente a tv. O aparelho era antigo e pegava mal alguns canais, mas era melhor do que ficar no completo silencio.

— Level up _disse o ruivo ao terminar de ajeitar os livros num canto.

— Gamer _resmungou _quanto você me passou no fliperama? _perguntou sem real interesse.

— ...578 pontos _forçou sua memória juntando as sobrancelhas.

Mello não respondeu, não sabia dizer se aquilo era muito ou pouco, tentaria numa outra hora superar a meta por diversão. O apartamento estava arrumado completamente agora, ambos fitavam as paredes brancas da casa.

— Então estou indo _anunciou o loiro alguns minutos depois _ainda tenho que trabalhar.

— Valeu pela ajuda... uh, a casa é sua _ficou sem jeito ao abrir a porta para o loiro _e como eu te encontro para pagar o aluguel?

— ...toda segunda sexta feira do mês, pode ser? Eu venho buscar _resolveu a data rapidamente, era sua folga então poderia sair sem problemas.

— Ok

Mello deixou o ruivo para trás e desceu as escadas pensando o quanto de peso elas suportariam, assim que chegou no ultimo degrau, como num gesto automático, se virou para se despedir do outro que ainda o olhava do topo. Com um aceno de mãos, foi embora.

Ainda era bem cedo quando o ruivo decidiu tomar um banho e deitar, estava sentindo seu corpo estranhamente pesado, talvez fosse o cansaço da mudança. O chuveiro era bem agradável, fazia bem uns seis anos que não tomava um banho sem preocupação de estar na casa de segundos, nem com a possibilidade do chuveiro desligar enquanto lavava o cabelo; tinha que agradecer o loiro por isso. A água quente atingiu seus cabelos e fez o movimento de abaixar a cabeça mirando assim is próprios pés, porém alguma coisa deu extremamente errado com aquele simples movimento: uma tontura forte tombou Matt para o lado que teve que se escorar na parede para não cair.

— Mau dia... _resmungou para si mesmo alguns segundos depois, ainda com a vista turva.

A segunda seguinte estava sendo um tanto nostálgico para o ruivo, novamente ele deixava a sala do consultório médico, mas dessa vez com um esparadrapo no braço e outro na testa, motivo? Enquanto trabalhava, acabou se desequilibrando e cortou a testa na mesa de ferro; se o senhor Edgar não o conhecesse a tanto tempo, precisaria apenas de um kit de primeiro socorros, porém o garoto não era nem de perto desastrado: tinha algo por trás daquele simples acidente. Decidiram então fechar a serralheria meia hora mais cedo e passar no posto de saúde; Matt ganhara um curativo que ficara escondido sob os cabelos cor de fogo e também uma agulhada na veia para 20 minutos de soro.

— Ei, o que o garoto tem?

— Hum... talvez anemia _respondeu a enfermeira sem dar muita atenção _está bem magro.

— Ah, então não morre cedo _gargalhou dando um tapinha na cabeça do mesmo _talvez eu deva aumentar seu salário um pouquinho.

— Não... _Matt sentiu até as orelhas pegarem fogo.

O homem mais velho riu numa gostosa gargalhada ao se lembrar da cena deixando o outro com ar de interrogação; resolveram não discutir o assunto. De volta para casa, agora com o céu escuro, Matt mantinha os olhos fixos em algum ponto nas ruas a frente, a melodia que era seguida pelo assovio baixo do motorista estava o embalando em nostalgias.

Sua mãe adorava aquela musica, “what’s going on de 4 non blondes”, ela falava de um alguém jovem esperando por uma vida melhor, basicamente, era o que Dahlia queria. Sempre dizia que aconteceria uma revolução! E então perguntava ao pequeno: “o que está acontecendo?” Matt sabia que era apenas uma musica boba dos anos 90, nunca deu importância, porém naquele carro, vendo sua vida passar lentamente pela mente sonolenta, percebeu que a letra fazia para si todo sentido. Já tinha pensado na possibilidade de acontecer uma mudança repentina por causa de Mello, mas isso seria realmente concretizado ou era apenas impressão por conta da ansiedade em tê-lo um pouco mais?

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Notas finais
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