Idiot

1 Capítulo 1: You are so damn idiot!


Notas iniciais
Boa leitura ~~

Subi no parapeito de concreto da ponte. A chuva me encharcava e o rio abaixo de mim corria com selvageria. Morte na certa, se alguém pulasse.

E era isso o que eu faria.

Depois de tantos anos afogando-me em silêncio, engolindo litros de meu próprio egoísmo e sucumbindo ao meu próprio orgulho, eu já não agüentava mais.

Porque tudo o que bastava para me fazer perder o ar para sempre era uma mínima gota d'água. E ela veio, como sempre vem.

Me fez afundar naquelas águas escuras enquanto o desespero, pouco a pouco, me tomava.

Porque eu sabia que não tinha mais jeito.

Porque eu sabia que já não havia mais alternativas. Não havia nada que eu pudesse fazer.

Acabou. Fim. Já era.

E pior que ainda estava repleto de arrependimentos. Eu não era como os outros, que agüentavam tudo e muito mais sem ao menos tentarem cortar os pulsos. Eu sabia que existiam muitas dores, pertencentes a outras pessoas, que eram bem maiores e bem piores que as minhas, e sabia que não suportá-las me tornava alguém patético, digno de pena.

Mas para mim não importava. Eu, por ser natural e demasiadamente egoísta, ligava apenas para minha dor porque, afinal, ela era minha.

E estava em tudo.

Em cada célula, em cada órgão, em cada mero fio de cabelo solto. Ela estava lá, e doía.

Doía tanto que me fez tomar esta decisão. Dane-se o julgamento alheio! Eu estava sofrendo e a única coisa que queria era que aquela dor acabasse!

E tudo fora por causa do meu orgulho besta.

Sempre orgulhoso demais para passar a mão em sua cabeça. Orgulhoso demais para dá-lhe conselhos, orgulhoso demais para confortá-lo e orgulhoso demais para lhe dizer, pelo menos uma única vez, um “bom trabalho” ou “muito bem”.

Não, nunca.

Nunca me dei conta de que, nesses anos todos, tudo que ele quis foi apenas que eu sentisse orgulho dele, e dissesse isso. Bem alto.

E eu sentia, sempre senti orgulho dele. Mas sempre fui tolo demais para não demonstrar, para não gritar nos megafones, diante do mundo inteiro, o quanto ele me deixava feliz.

O quanto me orgulhava dele.

O quanto eu o amava.

Tudo por causa do meu orgulho besta que apenas me trouxe arrependimentos. Mas já era tarde demais.

Ele veio com aquela gota d'água e me lançou quilômetros no mar, me tirou o fôlego e me puxou para baixo em direção àquela escuridão onde luz nenhuma alcança.

“Como?!”, perguntei, sem acreditar. Não, não, não podia ser...!

“Vou me casar, Arthur”, ele respondeu, sorrindo alegremente.

Eu quis perguntar onde, quando, por que e com quem, mas tudo que pude fazer foi sair correndo dali o mais rápido que meus pés, quase dormentes, conseguiam correr. Meus pulmões procuravam por ar, mas eu estava me afogando terrivelmente, enquanto, de uma forma inútil, tentava respirar.

Eu estava agüentando até aquele momento. Suportando a ausência dele tão bravamente que até pensei que sobreviveria, mas... Não.

Levei o último tiro, o último choque. A última chance se esvaíra de minhas mãos. Nada mais sobrara.

Porque eu nunca aceitei a idéia de que ele não precisava mais de mim. De que havia crescido. De que havia se “apaixonado”. Não, talvez não fosse isso. Talvez a idéia que eu não aceitava era aquela que dizia que eu não havia notado nada...

Que eu havia perdido, deixado de lado, tudo que era importante para ele. E que agora, ele, um adulto, poderia, para sempre, se afastar de mim.

Poderia se mudar, ter sua própria opinião, fazer o que quisesse... Sem mim. Meu maior temor era que, com o tempo, ele passasse a ver cada vez menos de mim nas coisas, lembrar menos de mim, até que, por fim, eu me tornasse apenas só “mais um”.

E não aquele que perdera sangue e ralara por ele. Não aquele que sempre o manteve alimentado, limpo, vestido. Que sempre pagou as melhores escolas.

Talvez ele estivesse sendo ingrato, mas eu duvidava. Porque eu sabia que tudo era culpa minha, fim de papo, e agora eu me jogaria da ponte, morreria e então ela, a dor, desapareceria.

Porque eu jamais agüentaria vê-lo novamente, ao lado de alguém que não fosse eu. Porque eu o criara, não como pai, nem éramos família sequer, mas o fato é que quem o encontrara e o acolhera fora eu.

Eu, o único que sentira pena daqueles olhos azuis temerosos em meio a um beco com caixotes velhos e lixo. Eu, aquele que percebera que amava demais o “afilhado”. Aquele que preferia morrer a ver que realmente perdera a única razão de sua vida.

Aquele que tinha certeza de que Alfred nem sentiria sua falta. Porque Alfred tinha mais coisas a fazer do que dar atenção à pessoa mais arrogante e egoísta do planeta. Aquela que sempre o deixara de lado.

Mas, pelo menos ele não era tão orgulhoso como eu...

Me sentido frio, encharcado, pesado e cansado, dei um passo em direção ao rio tortuoso abaixo de mim. Inclinei meu corpo para frente, esperando que a gravidade fazer o restante do trabalho.

“Perdoe-me, Alfred”, falei, esperando a qualquer momento o choque com a água gelada do rio, que me levaria para um sono eterno e sem dor.

Mas isso não aconteceu, e ao invés disso, alguém me puxou para trás bem a tempo e ambos caímos sobre o concreto frio da ponte.

“Está ficando louco, Arthur?!”, exclamou uma voz terrivelmente conhecida.

Fui virado e, de repente, duas mãos seguravam meus ombros.

Perguntei-me se aquilo não era um sonho, mas ele me apertava com tanta força que achei que não. Tive certeza que não.

“O que estava tentando fazer?! Há horas que procuro você! Você ia se matar?!”, ele gritou. Era engraçado porque eu nunca o tinha visto tão chateado antes.

“Ia”, respondi. Sabia que meu plano tinha ido por água abaixo, mas, inconscientemente, fiquei feliz por saber que ele tinha vindo procurar por mim, mesmo sendo eu a pessoa que ele procurava.

Bem, o que era algo bastante lógico, porque eu havia deixado um bilhete de “adeus” para trás... O que na hora pareceu uma ótima idéia.

“Por quê?! Você bateu a cabeça em algum lugar?! Já imaginou como eu ficaria sem você?!”

Era uma pergunta tão incrivelmente fácil de responder...

“Ficaria... Feliz?”, falei, sendo direto, embora tenha saído como uma pergunta, mas era lógico que ele ficaria quem não ficaria? Talvez apenas os donos do apartamento que eu alugava ou a mulher da padaria da esquina, mas tirando eles...

“Seu idiota”, ele murmurou e então em seguida me abraçou fortemente. Suas roupas pesavam igualmente encharcadas.

Então eu percebi que ele se apoiava em mim. Que independente de onde ou com quem morasse, eu, de alguma forma que não compreendia, era importante para ele.

Porque ele havia se acostumado ao meu jeito de ser, havia se acostumado com meu orgulho besta. Havia se acostumado com a minha ausência nos finais de semana e com a minha falta nas reuniões do colégio. Havia se acostumado a ficar satisfeito em apenas receber, não meu sorriso, porque este não existia, mas meu olhar. Apenas meu olhar. Porque, talvez, ele enxergasse o quanto eu o amava por detrás dos olhos.

Havia se acostumado com as minhas reclamações, minha paranóias, meus silêncios e minhas ausências. As minhas faltas de toque.

O que me doeu, pois ele não merecia, jamais mereceu, por nenhum erro que tivesse cometido nada daquilo. Merecia algo tão melhor...

Eu quis, e ainda queria ensiná-lo da melhor maneira, prepará-lo para a vida. Mas acho que fui duro e inumano demais.

“Alfred me perdoa”, murmurei. Meu orgulho besta começava a se pronunciar, mas eu tinha que dizê-lo, deixá-lo sabendo, o quanto ele era infinitamente importante para mim.

Ele não falou nada, mas senti a pressão sob suas mãos aumentar. Meu orgulho dizia, gritava que eu deveria calar a boca, pois aquele estava sendo um momento de fraqueza lamentável e patética.

Mas eu não ligava.

Se for fraco era um preço a pagar, se ser patético, miserável ou qualquer outra coisa fosse o preço, eu pagaria, e com prazer viraria a mais reles e imunda das criaturas, pois tudo o que eu queria era ser verdadeiramente sincero com ele.

“Perdoe-me por nunca ter ido lhe buscar na escola, por nunca lhe ajudar na tarefa de casa, por não tê-lo visto crescer e por tantas outras coisas que eram importantes para você... Perdoe-me, Alfred”, falei um pouco alto por causa da chuva, que parecia cair tão barulhentamente como uma passeata tocava no volume mais alto.

Ele pôs uma das mãos em minha cabeça, fazendo-a deitar em seu ombro. Algo dentro de mim se agitou e as lágrimas começaram a cair. Não as questionei, mas não deixei de estranhar.

“Está tudo bem, tudo bem, mesmo Arthur. Eu perdôo você”, ele falou. Era engraçado o quanto ele parecia mais velho do que eu, como papéis invertidos.

E era estranho o quanto meu coração acelerava em apenas sentir o toque de sua mão em minha cabeça. Muito estranho, mas, talvez, compreensível. Porque, afinal, eu o amava demais.

Uma hora depois, estávamos em seu apartamento, mais perto da ponte do que o meu.

Uma tristeza súbita se abateu sobre mim, pois mesmo que me sentisse a mais aliviada e feliz de todas as criaturas ao dizer aquilo para ele, tudo isso não mudava o fato de que ele, ainda assim, faria o que me fez afundar em desespero.

Ele iria se casar, e numa forma bem egoísta de dizer, tipicamente minha, ele iria-me “trocar”.

Ele foi até seu quarto e voltou com toalhas, jogando uma para mim e se enxugando com a sua própria.

“Você a ama?”, perguntei, de repente. Eu não queria saber... Sabia que a verdade iria me ferir, mas precisava saber.

Ele olhou para mim, com um olhar surpreso. Estaria se perguntando o porquê do meu interesse? O porquê de eu ter tentado me matar, mas o real por que por detrás de tudo?

O lógico seria eu estar feliz por ele, mas não estava. Meu orgulho, meu ego, minha necessidade de ser egoísta queria matar aquela mulher, separar eles dois, raptá-lo e levá-lo para algum lugar onde pudéssemos...

“Hmm... Sim, acho que sim”, ele respondeu, se virando para ir até a cozinha.

O segui, sem conseguir acreditar direito no que ele dissera.

“Você ACHA que sim?!”

“Sim.”

“Como você pode dizer isso?!”

“Eu gosto dela, mas...”

“Mas?”

“Gosto de outra pessoa.”

“Então não case com ela!”

“Mas eu tenho certeza de que ela também gosta de mim, e essa pessoa... Eu não sei se... Eu...”

Ali eu via minha chance. Ele estava pedindo por conselhos, e se eu dissesse para ele não se casar e ir atrás dessa outra pessoa, ele me obedeceria. O que custava? Era só, mais uma vez, eu ser egoísta com ele, só mais uma vez. Se ele não se casasse agora, eu teria mais tempo com ele, e talvez até realmente demonstrar o que eu sentia por ele...

Então por que eu hesitava?

Por quê? Porque eu sabia que se ele desistisse de casar, ele sofreria mais, e até porque aquela pessoa poderia não gostar dele. Ele sofreria. E eu jamais iria querer isso (embora já estivesse me irritando por já haver “outra” pessoa...).

Por isso, mesmo que por dentro estivesse atrofiando, morrendo, sofrendo miseravelmente, eu lhe sorri o mais encorajadoramente possível e disse:

“É melhor você se casar”.

E então, dois meses depois, lá estava eu, de pé, ao lado do altar, ao lado dele, não sorrindo, mas tampouco chorando, como quem vê o final de uma coisa sem poder fazer nada, sem poder interromper, sem poder sequer salvar a si próprio.

Parecia que haviam derramado ácido em minhas entranhas, e enorme, gigantesco, era o esforço que eu fazia para permanecer de pé ali. Mas eu fingiria o tempo que fosse necessário sofreria o tanto que fosse preciso para vê-lo sorrir, para vê-lo feliz.

Porque ele era, como eu já havia deixado claro, infinitamente mais importante do que jamais fui.

Comprei o melhor terno e os melhores presentes para os noivos, numa tentativa falha de, não procurando ser simpático, mas sim para concentrar minha atenção em outra coisa. Eu sabia que se acreditasse realmente que ele era de outra pessoa, desmaiaria ou cortaria os pulsos de uma vez.

O que significava que tudo estava propositalmente nublado, escondido e disfarçado em meus olhos. A única coisa que me lembro realmente da festa foi a hora decisiva:

“Alfred F. Jones, você aceita se casar com esta jovem?”, o padre perguntou.

Oh, céus, aquela perguntava rasgava meus ouvidos como se cada palavra tivesse pontas de facas. Temia que, literalmente, começassem a sangrar.

Eu esperei por aquela resposta pacientemente enquanto um silêncio se instalava ali. Um silêncio de morte... Ou só um silêncio de expectativa mesmo.

Os convidados se remexiam, inquietos, impacientes, aguardando ansiosamente pela hora do jantar. As tias choravam loucamente, as crianças ou resmungavam ou colocavam chicletes nos cabelos das primas desavisadas. Tios e outros homens tentavam não chorar, pois com o que eu fora acostumado, homem que é homem não chora.

Passaram-se minutos, vários deles. A família da noiva (a enorme maioria, uma vez que Alfred era órfão) começou a murmurar cochichos na maioria das vezes repletos de críticas.

Mas ele ainda estava em silêncio. Completamente calado na pior hora possível.

Mas o que diabos estava acontecendo?

Pousei meus olhos nele, mas ele não parecia bem. Suas mãos tremiam e suavam. Ele encarava a noiva com os olhos pedindo desculpas, mas sem proferir uma palavra sequer. O padre voltou a perguntar:

“Alfred, você aceita casar com ela ou não?”

Ele limpou a garganta e virou o rosto, olhando para mim, e eu entendi e não acreditei. Não tinha como acreditar, não deveria ser real, não poderia, ele nunca...

Houve mais alguns minutos de silêncio e então ele falou, voltando a virar-se para a noiva, e tão forte como eu esperava, aquela palavra me atingiu e me fez cair de joelhos ali, na frente de todos.

Nunca um silêncio (um silêncio fajuto, diga-se de passagem, pois toda a família da noiva começou a murmurar com indignação e a própria noiva gritou com ódio) doera e ferira tanto, principalmente aquele que viera à minha cabeça depois que sua voz parara.

Eu não acreditei, e ainda hoje penso que tudo foi um sonho e que quando eu acordar, ele terá ido embora. Mas segundo ele, aconteceu.

Ele sorriu para mim.

E eu chorei desesperadamente sem saber se gritava com ele ou se ficava feliz, aquele idiota.

Notas finais
Ah, bem, essa oneshot é bem antiga e estava mofando no meu caderno, então decidi trazê-la de volta!Para quem não sabe se o Alfred disse sim ou não, não vou dizer *apanhamuito* Mas aviso que dá pra saber lendo todos os detalhes!Então, mereço reviews??
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!