Icebergs.

1 Capítulo 1 - Weep For Yourself.


Notas iniciais
Capitulo 1 - Chore Por Você Mesmo.

Elsa estava sentada na mesma cadeira de sempre, ela pedira um café sem açúcar e o encarava entediada, era o quarto da noite.

O lugar estava, como de costume, quase vazio. Um casal cochichava constrangedoramente em uma das mesas, a moça parecia bastante entusiasmada com o que falava e o rapaz só fingia atenção. Em outra mesa, um homem de pelo menos uns cinqüenta anos se sentava solitário, todos os dias Elsa o via sentado com seu livro. Se perguntava se estaria ali daqui cinqüenta anos solitária com o seu café amargo.

O rapaz que a servia todos os dias não tinha mais de dezesseis anos, estava sempre com uma aparência cansada e nostálgica, nunca sorria e raramente falava mais que duas frases. Elsa entendia bem como era ser assim. O rapaz nunca falava, mas era constantemente pego a encarando.

O dia já estava quase amanhecendo quando decidiu sair para acender um cigarro, a neblina que cobria o céu a fazia se sentir em casa. Mesmo tendo nascido e sido criada ali nunca se sentira em casa, sabia que sua casa havia partido a muitos anos atrás junto de seu pai e isso havia sido quase como uma eternidade atrás.

A neblina começava a embaçar os vidros da cafeteria, gotas escorriam como se as janelas estivessem soadas, o vento soprava gelado do lado de fora, mas ele não a incomodava. Era a melhor hora do dia, quando os pequenos raios de luz começavam a apontar no horizonte e ela não precisava se importar com o medo. O mundo não estava olhando pra ela e por alguns instantes antes de se lembrar de quem realmente era ela podia ser quem quisesse.

Ela respirou fundo sentindo o ar frio invadir seus pulmões, aquele era um momento só seu e ninguém podia lhe tirar... Ao menos era o que ela pensava.

***

- Você não devia fumar, sabia? – Disse uma voz estridente atrás dela. – Essa coisa faz um mal terrível, vai acabar com a sua saúde e ainda por cima contribui para poluição do meio ambiente.

Elsa se virou revirando os olhos, a garota de cabelos cor de abobora estava encostada na parede do prédio ao lado, provavelmente já estava ali a algum tempo, mas Elsa não a vira quando saiu, ela na maioria das vezes evitava o contato humano.

- Bom, eu não vejo como isso é da sua conta. Estou, afinal, em um lugar publico. – Respondeu e voltou a ficar de costas pra garota.

Queria dar aquela conversa por encerrado, pois odiava ter que falar com as pessoas mais do que era necessário, mas a outra garota parecia não perceber.

- Só porque tem o direito de ser inconveniente não quer dizer que deva. – Disse a garota quase num sussurro, como se falasse para si mesma, mas ainda sabendo que Elsa podia ouvi-la.

- Eu estou sendo inconveniente? Eu? De nós duas você acha mesmo que eu estou sendo inconveniente?

Elsa odiava quando as pessoas a tratavam daquela forma, sempre como se ela as tivessem incomodando quando na verdade eram eles que não a aceitavam.

- Sim, vocês da cidade grande sempre se acham no direito de fazer o que querem. Poluindo, sujando, maltratando, desrespeitando. Se orgulham de destruir o planeta por alguns simples minutos de prazer fútil. – A garota havia se afastado da parede caminhando em direção a Elsa enquanto falava, ela tinha sardas nas bochechas e um olhar tímido que sempre evitava os olhos de Elsa.

Elsa estava sem palavras. A garota resolvera atacá-la do nada só porque estava em frente a uma cafeteria fumando um cigarro, era uma boa companhia pro seu café e ela gostava do gosto amargo que ficava na boca, fazia todo o resto parecer menos complicado, pois fumar era a coisa mais simples que ela fazia durante seu dia.

- Eu... Não estou tentando destruir o planeta, menina... Me deixe em paz. – Disse apagando o cigarro e jogando em uma lixeira ali perto, teve medo de jogar no chão e a garota estranha voar nela a tapas. Antes que a garota pudesse falar mais alguma coisa ou antes que seus olhos pudessem encontrar aqueles olhos profundos e questionadores novamente ela se virou e foi embora.

***

- Que garotinha intrometida. – Pensou ela quando estava longe o suficiente para acender outro cigarro e o fez somente por birra.

Gotículas de chuva pingavam sobre ela espalhando a fumaça que se misturava com a nevoa que cobria o mundo ao seu redor. O vento gelado balançava seus cabelos loiros pálidos, arrepiava a sua pele, mas não a incomodava, ela o reverenciava, o frio.

Seus pensamentos percorreram todo o caminho de volta até a garota insolente de cabelos cor de abobora e sardas nas bochechas. Ela tinha o tom birrento de uma criança e ao mesmo tempo firme e decidido. Talvez não estivesse tentando ser irritante, seus olhos eram tímidos e sua face estava corada quando desencostou da parede e se aproximou de Elsa. Talvez tivesse reunido toda a sua coragem para falar alguma coisa, talvez.

Quando Elsa se deu por si a sombra de um sorriso se formava em seu rosto, se repreendeu no mesmo instante. Não podia deixá-los entrar. Não podia deixá-los saber.

***

Elsa acordou mais tarde naquele sábado se sentindo estranhamente bem, a dor de cabeça que sentia todos os dias desde que se entendia por gente não estava mais presente. Se mexeu na cama se sentindo estranha, respirou fundo e o ar estava perfeito como a muito tempo ela não o sentia. Se assustou quando pesou na ultima vez que se sentira daquela maneira. Abriu os olhos de repente e se levantou.

Todo o quarto brilhava em tons de azul, cinza e branco. Sua cama estava coberta por uma camada grossa de neve que se estendia pelo chão e por cima doa móveis. No teto cresciam estalactites quase grandes o suficiente para encostarem-se a ela. A janela de vidro não dava mais vista para o lado de fora, pois também estava coberta de gelo.

Ela encarou as mãos pálidas que estavam cobertas por pequenos arranhões, mas logo se tornou impossível de vê-las, pois as lágrimas embaçaram sua visão.

Durante tanto tempo ela lutou contra seus poderes, desde que seu pai morrera a quase dez anos atrás ela os reprimia dentro de si e cada dia era uma guerra. Sabia que seria uma ameaça para as pessoas e para si mesma. Agora, de repente depois de todo esse tempo o seu pesadelo havia voltado para ela.

Fechou os olhos desejando que fosse somente um sonho e sentindo as lágrimas que escorriam congelarem na sua face.

Notas finais
Nada foi
Feito o sonhado
Mas foi bem-vindo
Feito tudo
Fosse lindo.
- Leminski
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.