Ia Bem.
1 Capítulo único.
Notas iniciais
Já faziam alguns meses desde o capítulo dos troféus despedaçados, desde a cegueira total e desde a morte de Augustus Waters. Isaac falava no mínimo uma vez por semana com Hazel e sua vida ia bem. Ele ainda estava aprendendo a lidar com as dificuldades de perder a visão, mas ia bem.
Isaac já havia se cansado há semanas de jogar vídeo games daquela maneira. “Abaixe-se” “Há o chão abaixo senhor”. Não tinha mais a mesma emoção e ação de antes, então seu passatempo agora era assistir, ou melhor, ouvir filmes. Ele já estava pegando o jeito da coisa, aguçando a audição e diferenciando as vozes, ouvindo os detalhes, os passos, coisas caindo, pássaros, por exemplo. Mas a vida era realmente muito chata sem Augustus Waters. Gus.
Ele sentia falta de Gus para rir com ele de coisas sem graça, andar com aquele maldito maço de cigarros que nunca terminava e para zombar de Monica, ex namorada de Isaac. Ambos faziam piadas do tipo “ela não sabe o que está perdendo, namorar um cego é um dos privilégios da vida” Augustus dizia e Isaac respondia com “é, quem não vê? Além de mim, claro” e eles riam mais um pouco.
Da ultima vez que Hazel o visitou, ele evitou falar de Augustus, mas era como se o assunto sempre estivesse no ar, ambos sabiam disso. Foi tão difícil para Hazel quanto para Isaac enfrentar a morte de Gus. Sim, ok, Gus era o namorado dela. Mas também era o melhor amigo de Isaac e enfrentar a dor de perder mais alguém repentinamente na sua vida não era fácil, muito menos o seu melhor amigo.
Vendo pelo lado bom, ou nem tão bom assim, ele perdeu a namorada, a visão e o seu melhor amigo mas vai viver mais do que se não tivesse perdido a visão, vai ter mais tempo para viver cego, sem namorada e sem o seu melhor amigo.
Durante os meses que se passaram desde que perdera a visão, Monica não foi visita-lo nenhuma vez, ele não teve sequer alguma notícia dela. Ele imaginava se ela havia se matado pelo o que tinha feito com ele ou se mudado para a china para viver como uma agrícola com a dor de ter perdido o homem que mais a amou na vida. Mas ele logo viu que estava errado.
Foi, pelo o que Isaac percebeu pela falta de pássaros cantando e o barulho da chuva, num dia nublado, cinzento e feio, que Monica decidiu aparecer. A mãe de Isaac não queria deixa-la entrar porque tinha medo de que o filho tivesse um tique nervoso, um ataque do coração ou tentasse descabelar a moça, mas de tanto ela insistir, ela foi obrigada a abrir caminho.
Monica foi direto até o quarto de Isaac, abriu a porta e ficou observando enquanto ele se virava para ver quem era, inutilmente.
– Quem é? – Isaac perguntou.
– Isaac, eu sinto muito ter ficado tanto tempo sem dar notícias, eu sinto muito.
– Monica?
– Sim, sou eu.
– Ah, tudo bem, sabe, quem nunca foi abandonado pela namorada, logo depois ficou totalmente cego e não teve mais notícias dela?
– Pelo menos o seu sarcasmo ainda existe. – Ela disse sorrindo.
– É, e acho que foi mais aprimorado ainda. – Ele disse também sorrindo. – Sente-se na cadeira, se quiser.
Ela se sentou na cadeira perto do computador enquanto Isaac estava deitado na cama ouvindo a televisão.
– Bem, eu só decidi agora vir visitar você e espero que você não faça eu me arrepender. – Ela disse.
– Me explique, então, por que você sumiu, Monica?
– Eu não podia ver você assim. Qual é a cor do cachecol que eu estou usando?
– Como você quer que eu saiba?
– Exatamente! Como eu vou te olhar e reparar em cada detalhe seu, nos seus olhos que se estreitam quando você é sarcástico, no seu dente canino meio torto, mais pra frente dos demais, quando você nem mesmo sabe como eu estou? Você um dia vai esquecer de como eu pareço, Isaac, se já não esqueceu.
– Bem, eu tenho uma memória boa. Sinto muito se não vou mais poder me lembrar visualmente de você, mas agora eu percebo o quanto eu gosto do seu cheiro e da sua voz.
– Você nunca disse isso.
– Talvez porque todos os elogios que eu tinha a você eram por causa da minha visão, olhe só, agora meu olfato e minha audição estão mais apurados.
Monica já estava na beira das lágrimas, se esforçando para não deixa-las cair. Isaac continuou falando:
– Mas, repare, eu sempre gostei do som da sua voz quando fala o meu nome.
Monica riu.
– Isaac, eu não sei o que você está pensando mas espero que saiba que não vim aqui para nos reconciliarmos. Vim para me desculpar.
– Ah, sei sim. Tudo bem, já superei você, encontrei outro amor.
O coração de Monica acelerou, e a respiração dela falhou.
– A-ah, é-é mesmo? Bem, e quem seria?
– Meu computador que narra todas as imagens da tela para mim.
– Isaac, você me deu um susto!
Os dois riram.
Monica se balançou um pouco na cadeira e depois sentou ao lado de Isaac na cama, e então deitou ao seu lado, deitando a cabeça no ombro dele. Isaac passou o braço ao redor dos ombros dela e apertou contra o peito.
– Então, vou continuar o que vim fazer: desculpe-me, Isaac. Por todas as coisas horríveis que fiz a você, como pude pensar que o seu sentimento mudaria alguma coisa depois de ... – Ela evitou falar “ficar cego” – E, nossa, como fui estúpida, sinto muito por ter sumido, desaparecido, não ter nem vindo te visitar, ver como você estava, nem ligado. Sinto muito, sinto muito mesmo. –
Ela fungou, estava chorando. Isaac sentiu a camisa molhar, no lugar onde ela estava deitada, por causa das lágrimas.
– Olha, Monica, sinceramente acho que isso, de você ter sumido e tal, me ajudou a superar a perca da visão mais rápido. Você tem razão, eu não lembro direito de como você era, mas lembro de belos olhos, um rosto lindo e um belo par de peitos. Como eu poderia superar sabendo que isso tudo estava bem ali na minha frente, mas eu não podia ver? Acho que assim, desse jeito, foi melhor. Agora que eu já agucei outros sentidos, percebo coisas que superam isso. O seu cheiro, como o seu cabelo é macio e a sua voz. É como se tudo de bom que você tinha e eu não via antes, saltasse aos meus olhos. E sem trocadilhos com “ver” nem com “olhos” hein.
A esse ponto ela já estava soluçando de tanto chorar. Monica abraçou Isaac com força e lhe deu um beijo na bochecha.
– Então você me perdoa?
– Perdoo, não tem motivo para não perdoar, você se explicou e eu acho que foi bem sincera.
Monica abraçou Isaac mais forte e se levantou, ela foi até a porta e se virou para olhar para ele.
– Tchau Isaac, me desculpe.
– Tchau Monica, e não sei pelo o que eu devia desculpa-la.
Ela abriu a porta e deu um passo para fora do quarto, ainda chorando.
– Monica? – Isaac a chamou. – Para sempre?
Ela fungou, limpou as lágrimas dos olhos, deu mais um soluço e fechou a porta.
Ela andou até a porta da casa e saiu. Quando já estava do lado de fora olhou para trás e com lágrimas nos olhos sussurrou: “Para sempre.”
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