INSTAURUS: A Ascensão de um Novo Rei
1 Um Reino sem Rei
A estação era inverno e o mês já era o último do ano, o clima fazia lembrar as colinas da Norvarya, tão gélido que nenhum moribundo conseguia mais ficar vagando pelas ruas pedindo alimento mesmo que passando fome. Naturalmente qualquer um faminto em meio ao frio de dezembro que fazia na região dos 6 reinos não suportaria um dia sem ingerir qualquer coisa que fosse. Há relatos de que na era dos primeiros Dale houve um inverno tão rigoroso e demorado que a cidade veio a ser conhecida como a cidade branca devido a neve e a densa neblina que fazia com que fosse impossível enxergar um passo a frente.
Da Torre Norte da muralha Syal Impetus conseguia sentir gotículas de água vindas do cais que ficava logo do lado de fora de Fortville. Aquela sensação lhe penetrava até a espinha e o fazia sentir calafrios que por horas chegava a se transformar em tremedeiras, como um atum trazido à solo seco. O mar era agitado e a maré subia muito à noite, nessa hora os pescadores baixavam suas redes e conseguiam obter a maior quantidade de suas especiarias para vender no dia seguinte. Todo dia, a cada noite, a rotina era sempre a mesma, a guarda da muralha, os pescadores, a brisa e os calafrios. Fortville funcionava como um relógio, cada peça girava exatamente no momento exato sem parar.
— Verifique novamente a Torre da Rocha – disse Syal a um guarda subordinado a ele – Traga um relatório completo.
O outro apenas acena positivo com a cabeça e caminha pela muralha em direção da próxima torre de vigília.
Pelos céus, o que diabos esse lugar fez para que os deuses nos castiguem com esse frio todo ano? Até que ir pro inferno não é um castigo como eles ensinam. Quem me dera estar imerso naquele lago de fogo trepando com uma alma linda perdida. – Syal Impetus ria com seus pensamentos nada comuns – Pra falar a verdade uma foda nesse frio já me aqueceria suficiente pra parar de ficar resmungando aqui.
Vez por outra ele olhava para o horizonte, e tentava procurar um conforto dentro da sua manta negra. Mas tudo que conseguia por ficar imóvel daquele jeito era um rosto dormente e de aparência roxa.
Meu Deus. Se eu continuar aqui vou acabar morrendo congelado e depois disso acho que nem o inferno seria o suficiente para mim.
Ele assobiou e fez um sinal chamando outro subordinado, o mas próximo naquele momento. Esse veio quase correndo em sua direção.
— Algum problema senhor?
— Olhe bem para mim filho. Está vendo algum problema além de alguns cabelos brancos? – Falou e ficou o encarando diretamente por alguns segundos.
— Diga o senhor, pois para mim o senhor parece bem saudável. – Respondeu sem jeito.
Syal colocou a mão em seu ombro e deu um sorriso meio travado devido ao frio.
— Esperava um resposta pior rapaz. Até que pra um guarda você é muito respeitoso.
— Senhor.
— Preciso que fique um pouco no meu turno.
— Há algum problema senhor? – Dessa vez perguntou um pouco mais curioso.
— Não ouviu o que eu disse, filho? Fique um pouco no meu turno. Isso é tudo que tem que saber. Fui bem claro agora?
— S-sim senhor. – respondeu gaguejando.
— Ótimo.
Syal saiu rindo e murmurando algumas coisas que o rapaz não conseguiu discernir do que se tratava. Isso o deixou ainda mais espantado. Nuvens Negras — era assim que Syal Impetus era encarado. Poucas coisas sobre ele pareciam certo e o que parecia certo ninguém sabia exatamente até onde era um fato. Tudo que se sabia sobre ele é que entre os mais poderosos membros do rei estava a casa Impetus, uma família que compunha a guarda real. E ele era o líder dessa família, consequentemente, era o mais importante guarda do rei. Fora isso nada mais se ouvia. Onde havia nascido era um mistério, como era seu temperamento só o momento atual podia revelar. “Ele é como nuvens negras, que esconde o sol e trás um clima agradável porém pode romper e derramar uma longa tempestade sobre as nossas cabeças” — essas foram palavras de um antigo oficial da guarda, que após poucos meses teve um sumiço nunca revelado. De longe, Syal era o mais conhecido e respeitado em todo reino. Os camponeses lhe chamavam de o carrasco, a maioria dos súditos falavam sobre ele como um brutamontes sem alma e os morkuns que saíram de lá o descreviam como um dos filhos das trevas do reino.
***
Por mais de 100 anos, a família real organizava disputas sangrentas até a morte entre prisioneiros condenados por assassinato. O campeão, se houvesse algum que sobrevivesse, teria a chance de se adaptar a vida de soldado e ser parte da Guarda Negra. Após a chegada da casa Impetus à corte, nunca mais houve recrutamento de assassinos no Reino. A ocasião conhecida como o Dia Vermelho, agora libertava o campeão da disputa, por mais estranho que fosse liberar um assassino, isso acontecia apenas uma vez no ano e como evidente, ninguém havia conseguido o feito de sair dali com todos os membros inteiros. As conversas na masmorra que aconteciam entre os homens e rapazes delinquentes na noite antes desse dia eram como um grande tribunal prestes a mandar alguém pra forca. Os suicídios não eram tão raros na véspera do Dia Vermelho, a maioria acontecia entre os rapazes de 15 a 20 anos que ainda não vêem diferença entre uma moça e uma mão. Os mais velhos tentavam entrar na cabeça desses para se divertirem como sua última boa noite.
— Pretende sair vivo daqui amanhã jovem?
— Prefiro suplicar ao rei e ser encarado como um fracote por todos pela minha vida.
— Quem você matou, ahn?
— Meu irmão.
— Ora, então você é o matador da família.
— Foi sem querer, eu o empurrei e não vi o machado no chão.
— Como foi, ver seu irmãozinho deitado com as costas engolindo a lâmina de um machado até a espinha?
O rapaz foi de ansioso para triste rapidamente.
— Ora jovem, fica tranquilo, amanhã será diferente e você sentirá algo muito pior que um machado abrindo caminho para o seu sangue escorrer pelo chão.
O garoto arregalou os olhos e a respiração ficou mais rápida.
— Torça pra não encontrar com um maldito que prefere uma clava a uma espada. Ah não, não vai querer encontrar um maldito desses. Eles sentem prazer em esmagar cada membro seu. Eles sorriem vendo suas bolas sangrando esmagadas entre suas pernas. Eles amassam membro por membro até você ter partes suas desgrudando da pele e os ossos saltando para fora e então esperam até que você morra lentamente. Há desgraçados entre nós que lhe arrancaria dedo por dedo, dente por dente, depois passaria para os olhos e depois para a língua. E aí, quando os únicos membros que você poderia usar para se defender forem retirados dolorosamente, eles começam a usar as unhas imundas e enormes deles. Eles lhe arranham até o osso, e os pedaços de carne que ficam entre as unhas, ele mastigam e comem. Nada igual a uma comida diferente depois de tantos anos nesse lugar escuro, não é mesmo?
O jovem começa a vomitar sem parar, com cada nova palavra que o outro cospe para ele. A pele começa a ficar ainda mais gelada e os olhos perdidos. Então o jovem não sente mas o controle do corpo e a vista vai sutilmente dizendo adeus ao passo que fica escura. Ploft! E bruscamente o garoto cai por cima do próprio vômito em sua cela, iniciando a risada de todos os outros prisioneiros maldosos.
***
O clima vai ficando menos congelante à medida que a lua vai cruzando o céu. É uma bela lua cheia. Syal Impetus já está de volta no seu posto, olhando fixamente para o cais e os barcos que parecem minúsculos devido a muralha de mais de sete metros de altura. Ele se lembra de diversas vezes que teve que enfrentar os morkuns. Mas para isso teve que enfrentar seu pior inimigo – o mar. O tal brutamontes da guarda real odiava ter de embarcar seja qual fosse o tamanho da navegação. Quando viajou à Ilha sem Rei, imaginou passar o tempo inteiro trancado num quarto da navegação dormindo, porém a realidade foi outra. Uma vez a bordo, não conseguia relaxar de forma alguma e para piorar, a cada 10 minutos uma nova rajada lhe escapulia pela boca diretamente no mar. Ele dizia que o balanço do barco o lembrava de quando teve que viajar por dias em cima de um cavalo que pinoteava incansavelmente. A diferença era que quando ele puxava o freio do cavalo, o animal sentia quem estava no controle, já na embarcação, quem está no controle sempre é a natureza.
O mar era algo que lhe trazia medo, por outro lado, o som das águas vindo até o cais, era algo que o acalmava, talvez por ser a primeira coisa que ouviu quando voltou da Ilha sem Rei após passar a viagem inteira desmaiado no convés. Ele escutava esse som todo dia do alto da muralha e isso o fazia bem. Igual uma sereia cantando, era Syal com o mar – escutar o canto das águas era algo magnífico, porém de perto o que ele é enxergava era a morte certa. Talvez fosse o mar em si a única coisa conhecida que o causasse medo. Porém se algum inimigo quisesse usar esse fato ao seu favor, seria bem difícil. Aliás, Syal possuía a altura de um gigante, chegando a dois metros e alguns poucos centímetros. Seu corpo mesmo aos 43 anos ainda era incrivelmente robusto. Quem o olhava chegava a desistir de qualquer briga que o envolvesse. Muitas vezes ele já havia vencido confrontos apenas com as mãos. E quando o perguntavam de onde havia saído tanta força ele apenas encarava em silêncio, fazendo o curioso desistir da resposta.
***
O principal motivo de ser obediente ao rei era o lema da casa Impetus: Todos pelo Rei. A Guarda Branca principalmente composta dessa família levava muito a sério seu dever, e estava disposta a morrer caso o rei ficasse em perigo. Cada um deles era leal somente a realeza e nada, nem mesmo a família, ficaria em primeiro lugar. Algumas pessoas pelo reino cochicham que se o rei apenas pensar em executar um deles, o próprio irmão já estaria segurando uma adaga no coração deste.
O comandante está ali postado, no alto da muralha relembrando a sua obrigação e jurando em silêncio proteger a família real não importa de quem seja. A lua está quase no centro do céu, quando ele escuta um som de passos velozes em sua direção. Ao olhar para o rosto do soldado que vem, Syal sente um calafrio na espinha maior que o causado pelo frio e seu rosto fica mais apavorado do que se estivesse se afogando em alto mar.
O outro chega mais próximo e lhe comunica:
— Stephen Dale está morto!
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