ILHA DOS DESEJOS

2 Capítulo 2 - TRÊS MESES


Jacob Black já havia olhado para o relógio quatro vezes.

Às sete e cinquenta e dois, percebeu isso e soltou uma praga baixa, afastando-se da janela.

Não estava esperando por ela.

Sarah sabia que o jantar seria às oito. Se chegasse às oito, ótimo. Se chegasse às oito e quinze, ele começaria sem ela. Não havia absolutamente nenhuma razão para estar parado naquela sala, com um copo na mão, prestando atenção a cada ruído vindo do andar superior.

Nenhuma.

Ainda assim, quando ouviu passos na escada, virou-se imediatamente.

E então entendeu por que deveria ter mandado aquela mulher de volta no mesmo avião que a trouxera.

Sarah surgiu no alto da escada.

Jacob ficou imóvel.

Ela usava um vestido verde-escuro que deixava os ombros descobertos e acompanhava delicadamente as linhas de seu corpo. Mas não foi o vestido que prendeu sua atenção.

Foram os cabelos.

Negros, muito compridos e levemente ondulados, desciam pelas costas quase até a cintura. Sarah era morena e absurdamente bonita, mas havia alguma coisa em seus olhos verdes que fazia todo o restante parecer secundário.

Ele já os havia notado na pista.

Agora, sob a iluminação suave da casa, pareciam ainda mais intensos.

E estavam olhando diretamente para ele.

— Algum problema? — perguntou ela.

— Não.

— Você está me encarando.

Jacob levou o copo à boca para ganhar alguns segundos.

— Você está na minha frente.

Um sorriso apareceu nos lábios dela.

— Essa foi uma tentativa bastante ruim de disfarçar.

Droga.

Ela também era rápida.

— Disfarçar o quê?

Sarah terminou de descer.

— Você me achou bonita.

Jacob quase engasgou com o vinho.

Não porque fosse mentira.

Justamente pelo contrário.

Sarah Clearwater provavelmente era uma das mulheres mais bonitas que ele já havia visto.

E ela sabia disso.

O mais irritante era que não parecia usar a beleza como arma. Não havia pose calculada ou necessidade de chamar atenção. Ela simplesmente existia daquele jeito e parecia perfeitamente confortável consigo mesma.

— Convencida — respondeu.

— Observadora.

Jacob deixou escapar um sorriso.

— Perigosa combinação.

— Para você?

A pergunta o atingiu com precisão desconfortável.

Ele colocou o copo sobre a mesa.

— Ainda não decidi.

Mentira.

Já havia decidido.

Sarah era um problema.

E ficaria naquela casa durante três meses.

O jantar havia sido ideia de Embry.

Jacob pretendia simplesmente mostrar a propriedade, discutir o cronograma e deixar Sarah descansar.

Embry discordara.

“Ela atravessou meio continente para trabalhar para você. Pelo menos dê comida à mulher.”

Então Jacob mandara preparar o jantar.

Agora começava a achar que deveria ter ignorado o amigo.

Sentados frente a frente, com o oceano escuro atrás dela e os cabelos negros sendo ocasionalmente movimentados pela brisa, Sarah tornava extraordinariamente difícil manter a conversa estritamente profissional.

Felizmente, ela abriu uma pasta.

Trabalho.

Aquilo Jacob sabia administrar.

— Quero começar pela área externa — explicou Sarah, mostrando-lhe alguns desenhos. — Há coisas que precisam ser preservadas. Essa casa tem personalidade, Jacob. Se tentarmos modernizar tudo, vamos destruí-la.

— Contratei você para mudar a casa.

— Mudar não significa apagar.

Ele ergueu os olhos.

Sarah estava séria.

— Continue.

Ela apontou algumas alterações.

Falava com segurança.

Jacob começou a fazer perguntas propositalmente difíceis.

Ela respondeu à primeira.

À segunda.

Contestou a terceira.

Na quarta, disse que a ideia dele era péssima.

Jacob recostou-se na cadeira.

— Péssima?

— Tecnicamente péssima.

— Existe diferença?

— Existe. Eu poderia simplesmente dizer que não gostei. Estou dizendo que, além de não gostar, tenho razões profissionais para considerar ruim.

Ele teve vontade de rir.

— Você fala assim com todos os clientes?

— Apenas com aqueles que querem derrubar uma parede estrutural.

— Poderíamos reforçá-la.

— Poderíamos também colocar fogo na casa e começar novamente. Seria mais rápido.

Dessa vez Jacob riu.

Sarah sorriu.

E alguma coisa aconteceu dentro dele.

Foi pequena.

Quase imperceptível.

Mas profundamente desagradável.

Porque fazia muito tempo que ele não se sentia daquela maneira.

Leve.

Jacob afastou o pensamento.

— Você realmente leu meu projeto inteiro — disse Sarah.

— Eu não contrato alguém sem saber o que essa pessoa pretende fazer.

Ela apoiou o queixo na mão.

— Mas tentou me mandar embora antes de perguntar qualquer coisa.

Ele sabia que aquilo voltaria.

— Foi um momento de fraqueza.

— Por eu ser mulher?

Jacob ficou em silêncio.

Não.

Definitivamente não era apenas por isso.

Era porque Sarah tinha descido daquele avião com aqueles olhos verdes, aquele cabelo interminável e uma segurança irritante.

Era porque ele soubera imediatamente que notaria a presença dela naquela casa.

Todos os dias.

E Jacob havia passado quatro anos construindo uma vida na qual não precisava notar ninguém.

— Não — respondeu.

— Então por quê?

Ele girou lentamente a taça entre os dedos.

— Eu não esperava alguém como você.

Sarah arqueou uma sobrancelha.

— O que exatamente isso significa?

Jacob deveria ter encerrado o assunto.

Em vez disso, respondeu:

— Quando pedi que encontrassem alguém para cuidar do projeto, imaginei um arquiteto de cinquenta anos que passaria três meses reclamando do calor e falando comigo apenas quando fosse absolutamente necessário.

Sarah começou a rir.

— Isso é estranhamente específico.

— Era o cenário ideal.

— E apareceu uma mulher.

— Apareceu você.

Silêncio.

Jacob percebeu imediatamente a diferença.

Também percebeu que Sarah havia percebido.

Os olhos verdes permaneceram sobre ele.

— E o que há de errado comigo?

Tudo.

Esse era o problema.

— Você realmente quer saber?

— Quero.

Jacob deixou a taça.

— Você atravessou milhares de quilômetros sozinha, desceu numa ilha onde não conhece ninguém e, menos de cinco minutos depois de me encontrar, começou uma discussão comigo.

— Você começou.

— Eu sei.

— Então?

Jacob observou-a.

— Você não parece ter medo de mim.

Ela franziu a testa.

— Eu deveria?

Muitas pessoas tinham.

Funcionários mediam palavras diante dele. Executivos se preparavam durante dias antes de reuniões. Pessoas que queriam dinheiro ou favores transformavam qualquer conversa numa negociação.

Sarah simplesmente havia olhado para ele e dito que estava errado.

— Algumas pessoas têm.

— Por quê?

— Dinheiro. Poder. Reputação.

Sarah ficou alguns segundos em silêncio.

— Isso incomoda você.

Jacob endureceu.

— O quê?

— Que tenham medo.

Era impressionante.

Poucas horas.

Aquela mulher estava ali havia poucas horas.

— Você está aqui desde esta tarde.

— E?

— Não tente me analisar.

— Não estou analisando você. Estou observando.

— Você observa demais.

— E você esconde demais.

Jacob sentiu o corpo inteiro ficar rígido.

Sarah percebeu.

Claro que percebeu.

Ele poderia ter mudado de assunto.

Deveria.

Mas havia alguma coisa naquela mulher que tornava o silêncio mais difícil do que de costume.

Talvez porque ela não o olhasse com pena.

Ainda.

— Minha noiva morreu aqui.

A mudança no rosto de Sarah foi imediata.

Toda a provocação desapareceu.

— Jacob...

— Há quatro anos.

Ele olhou para o oceano.

— O nome dela era Isabella.

— Sinto muito.

Jacob esperou aquela expressão que conhecia tão bem.

Piedade.

Ela não veio.

Sarah apenas permaneceu quieta.

E aquilo tornou mais fácil continuar.

— Foi por isso que você veio morar aqui? — perguntou ela.

— Foi por isso que parei de vir.

— Você ficou quatro anos sem voltar?

— Sim.

— E por que voltou agora?

Jacob respirou fundo.

— Porque fugir de um lugar não muda o que aconteceu nele.

Levantou-se.

Precisava de distância.

Caminhou até a extremidade do terraço.

Alguns segundos depois, ouviu os passos dela.

Sarah parou ao seu lado.

Não tocou nele.

Jacob agradeceu silenciosamente por isso.

— Ela morreu no mar — contou. — Numa noite como esta.

Sentiu Sarah olhar para a água.

— Foi por isso que você me disse para não nadar depois do pôr do sol.

— Sim.

— Corrente marítima?

Jacob assentiu.

As lembranças vieram imediatamente.

A praia.

As lanternas.

Embry correndo.

Homens entrando na água.

E a manhã seguinte.

— Eu estava trabalhando. Isabella resolveu nadar. Quando percebi que ela havia demorado demais...

Não conseguiu terminar.

Sarah não o obrigou.

Ficaram em silêncio.

— Encontraram o corpo na manhã seguinte.

— Jacob...

Ele fechou os olhos.

— Não diga nada.

Sarah permaneceu quieta.

Depois de alguns segundos, perguntou:

— A reforma tem a ver com ela?

Ele assentiu.

— Estou tentando transformar a casa.

— Para esquecer?

Jacob olhou para Sarah.

— Não. Acho que finalmente entendi que não vou esquecer. Quero apenas conseguir viver aqui sem sentir que estou entrando em um mausoléu.

Sarah absorveu aquelas palavras.

Então seus olhos se moveram brevemente na direção do interior da casa.

— A ala oeste.

Jacob ficou tenso.

— Sim.

— Era dela?

— Nosso quarto ficava lá.

Sarah assentiu.

— Não entrarei.

Nenhuma pergunta.

Nenhuma curiosidade.

Nenhuma tentativa de arrancar detalhes.

— Obrigado.

Ela voltou a olhar para o oceano.

— Mas você deveria saber de uma coisa.

— O quê?

— Eu não vou transformar esta casa até ela deixar de parecer sua.

Jacob franziu a testa.

— Achei que esse fosse exatamente seu trabalho.

— Não. Meu trabalho é fazer com que ela volte a ser um lugar onde você queira viver.

Ele ficou olhando para ela.

Sarah parecia não perceber o peso do que acabara de dizer.

Ou talvez percebesse.

Jacob desviou o rosto.

Era oficial.

Contratá-la havia sido um erro.

Quase uma hora depois, Jacob estava na piscina.

Nadar costumava organizar seus pensamentos.

Naquela noite, não estava funcionando.

Sarah aparecia em todos eles.

Sarah discutindo na pista.

Sarah caminhando pela casa.

Sarah dizendo que sua ideia era péssima.

Sarah naquele maldito vestido verde.

Jacob mergulhou.

Nadou até o outro lado.

Voltou.

Mais uma vez.

Quando emergiu, viu duas pernas mergulhadas na água.

Parou.

Sarah estava sentada na borda da piscina.

Ainda usava o vestido verde.

— Achei que estivesse dormindo — disse ele.

— Achei que você tivesse dito para não nadar depois do pôr do sol.

— No oceano.

— Então existe uma brecha jurídica.

Jacob aproximou-se da borda.

— Você é advogada agora?

— Apenas gosto de identificar contradições.

Ele passou a mão pelos cabelos.

E viu.

Os olhos dela desceram.

Muito rapidamente.

Mas desceram.

Sarah desviou o olhar para a piscina.

Jacob sentiu uma satisfação masculina absolutamente inadequada.

— Você desviou os olhos.

Ela imediatamente o encarou.

— Não desviei.

— Desviou.

— Estava olhando a piscina.

— Claro.

Sarah estreitou os olhos.

— Convencido.

— Observador.

Ela riu.

O som atravessou alguma coisa dentro dele.

Jacob nadou para mais perto.

Péssima decisão.

Agora estava diante dela.

Os olhos verdes pareciam ainda mais claros sob as luzes da piscina.

Uma mecha de cabelo havia caído sobre seu ombro.

Jacob teve vontade de afastá-la.

Não fez isso.

— Por que voltou para a ilha agora? — perguntou Sarah.

— Já respondi.

— Respondeu pela metade.

— Talvez seja tudo que você vai receber.

Ela inclinou a cabeça.

— Você faz isso muito.

— O quê?

— Começa alguma coisa e para.

Jacob ficou olhando para ela.

— Algumas coisas precisam parar antes de começar.

Sarah não desviou os olhos.

— Ou talvez você tenha medo de descobrir como terminam.

Ele sentiu aquelas palavras de uma maneira que não deveria.

Aproximou-se.

A mão dele apoiou-se na borda, ao lado da perna dela.

— Eu não tenho medo de você.

— Eu não disse que tinha.

Jacob olhou para a boca dela.

Droga.

Sarah percebeu.

Ele soube porque ela parou de sorrir.

Mas não recuou.

Era exatamente esse o problema.

Outra mulher teria ficado constrangida.

Sarah sustentou seu olhar.

Desafiava-o sem dizer uma palavra.

Jacob ergueu a mão.

Queria tocar o rosto dela.

Queria saber se aquela pele era tão macia quanto parecia.

Queria passar os dedos pelos cabelos negros que desciam até a cintura.

E, principalmente, queria descobrir o que aconteceria se puxasse Sarah para dentro daquela piscina e a beijasse.

A constatação foi como um choque.

Jacob parou.

Quatro anos.

Fazia quatro anos que não desejava tocar uma mulher daquele jeito.

Fechou a mão.

Recuou.

— Boa noite, Sarah.

Ela piscou.

— Está fugindo?

— Estou sendo inteligente.

— Existe uma primeira vez para tudo.

Ele riu.

— Vá dormir.

Sarah levantou-se.

— Boa noite, Jacob.

Ele a observou caminhar em direção à casa.

E percebeu outra coisa que não deveria ter percebido.

O cabelo dela realmente chegava à cintura.

— Sarah.

Ela parou na porta.

Virou-se.

— Sim?

Jacob deveria ter ficado calado.

Mas aquela mulher parecia destruir seu bom senso com uma eficiência impressionante.

— O vestido verde foi uma péssima escolha.

Sarah olhou para a própria roupa.

— Por quê?

Porque desde que ela descera aquela escada ele estava tentando não imaginar como seria beijá-la.

Porque aqueles olhos verdes estavam se tornando um problema.

Porque, depois de quatro anos sentindo praticamente nada, Sarah Anderson havia chegado àquela ilha e, em algumas horas, conseguido despertar coisas que Jacob acreditava enterradas.

Mas ele não disse nada disso.

Apenas respondeu:

— Porque combina com seus olhos.

Antes que ela pudesse reagir, Jacob mergulhou.

Permaneceu debaixo da água durante vários segundos.

Quando voltou à superfície, Sarah havia desaparecido.

Jacob apoiou os braços na borda e fechou os olhos.

Três meses.

Ela ficaria naquela casa durante três meses.

O problema não era Sarah ser bonita.

Nem aqueles olhos.

Nem o cabelo.

Nem mesmo o fato de que ela parecia capaz de enxergar através das barreiras que ele passara anos construindo.

O problema era muito mais simples.

Pela primeira vez em quatro anos, Jacob queria uma mulher.

E ela estava dormindo no quarto acima do dele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.