I can reach you
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Notas iniciais
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Primeira edição, 2024.
1.
Na sala de reuniões, o monologo se estendia por duas horas seguidas, o que deixava metade dos analistas impacientes. O editor chefe ouvia tudo atentamente, anotando o que achava necessário em seu computador, voltando a atenção ao telão que demonstrava os números das ultimas edições da revista, assim como os números referente aos views online e seguidores nas diversas redes sociais dos modelos contratados.
A Purple+ seguia sendo a empresa número um do país, porém, seus números seguiam caindo mês a mês, o que deixava a CEO atônita. Como pioneira no ramo, por assim dizer, trouxe uma nova visão aos seus modelos contratados. Adequou a rotina dos influencers, junto a sua equipe de marketing, os transformando em potencias no mercado. Eram sempre convidados por diversas agencias mundo a fora para representar marcas de luxo, o que trouxe grande rendimento em pouco tempo a empresa. O sonho da CEO foi firmado junto ao mundo da moda, mas seguia mês a mês, como dito, sendo ameaçado pelos números.
As pessoas estavam cansadas das mesmas pessoas, com o mesmo perfil, recebendo fama através da mídia contratada. Eram geralmente filhinhos de papai, nascidos e criados em berço de ouro, e com isso, a entrada nesse mundo disputado era facilitada pela empresa.
A queda foi causada por uma revista concorrente, em termos neutros, que realizou um levantamento acerca da vida dos modelos da Purple+, o que em titulo sensacionalista, indicou que investiam um valor alto junto a empresa contratante, além da mídia especializada, para alavancar a vida dos modelos. Por fim, questionavam se ‘o processo era justo, comparado aos demais modelos que mereciam o posto fraudado através do dinheiro envolvido’. O tópico ganhou grande repercussão online, através dos fóruns e páginas de fofoca.
Após, os consumidores deixaram enxurradas de comentários negativos nas redes sociais, o que fez os investimentos caírem, mediante a imagem negativa junto a mídia.
A CEO mantivera a postura positiva diante os fatos, mesmo com as perguntas negativas nas coletivas. Era somente um momento ruim, pensou. Porém, depois de três meses, o assunto se manteve em alta, o que fez com que a CEO mudasse a sua percepção e convocasse uma reunião de emergência para redefinir a rota e ganhar seu público novamente.
Ao fim do monologo, o editor chefe se levantou devagar, pigarreou alguma vezes, enquanto andava até a frente da sala. Antes de falar, ajeitou os óculos acima do nariz e olhou a sala.
— Certo, claramente temos um problema, e nesse período todo em que o Senhor Fagundes esteve à frente, pudemos observar que a formula Purple+ está batida. Os números seguem caindo, os comentários negativos aumentando e eu pergunto aos senhores, já sabemos bem qual o problema, essa reunião é inútil se não sairmos com uma solução.
Ele se voltou para a sala novamente, observando os olhares preocupados dos funcionários. A equipe totalizada 20 pessoas, os melhores do país. Ali, no meio deles, um jovem mantinha seus olhos no celular, parecendo desinteressado com o assunto.
Assim, o editor chefe caminhou pela sala, enquanto falava sobre buscarem ideias, e não mostrar o problema repetidas vezes, como ocorreu. Parou quando chegou no jovem desinteressado, olhando para o celular do rapaz, a fim de saber o que seria mais importante naquele momento.
— Bom, creio que o jovem rapaz, que segue interessado no horário da entrega de seu almoço, pode nos dar uma luz, referente ao problema.
Como seguia desinteressado, João não se tocou que o assunto estava focado nele. Demorou alguns minutos até notar todos os olhares voltados a ele, assim, se ajeitou na cadeira e guardou o celular.
— Do que estamos falando?
Houve uma breve risada em uníssono dos outros analistas.
— João, o que te trouxe aqui hoje?
— O problema dos números, se não me engano. Já não tínhamos discutido isso na semana passada?
— Sim, a na anterior... e na anterior. O problema, é que os números caindo segue sendo um problema, não obtivemos uma ideia plausível até o momento para que pudéssemos transformar essas incontáveis reuniões em uma solução.
— Entendo, e você espera que eu traga essa solução?
— Eu espero que, pelo menos, você preste atenção, João. Sinto que tenha que levar o problema referente a sua postura para a CEO avaliar se você merece seguir no cargo em que está.
João sorriu brevemente, notando o desconforto dos demais na sala.
— Vamos manter a calma e focar no real motivo o qual estamos todos aqui, tudo bem? Pra mim, temos que contra-atacar aquela revista de merda. Mostraram um lado nosso o qual, mesmo sendo ruim, é verdadeiro. Assim, temos que buscar uma forma de demonstrar que não somos somente o que foi retratado junto aquela matéria estupida, que somos bem mais.
O editor chefe se manteve em silencio, observando a reação dos analistas, que concordavam e anotavam algumas das frases no bloco de notas. Andou até a frente da sala, parecendo pensativo.
— Em poucas palavras, utilizamos dos recursos necessários, sendo bem pagos, para colocar jovens estúpidos na mídia. Os vulgos influencers que influenciam a quem? Como? E para que?
— Isso, devemos mostrar a eles que não somos uma empresa que coloca qualquer um no topo, somente por ter dinheiro suficiente pra isso.
Ouve uma risada alta, logo contida quando o editor chefe levantou o braço, pedindo silencio.
— João, você fala sério?
Nesse momento, a porta da sala foi aberta rapidamente. Como de costume, a CEO entrou falando ao telefone, ainda usando seus óculos escuros. Atrás, suas duas assistentes entraram em silencio, acenando com o rosto. Os demais funcionários levantaram em sinal de respeito, assim, a CEO deu um breve adeus ao telefone e o entregou a uma de suas assistentes, sorrindo, tirou os óculos de sol.
— Bom dia, pessoal. Como estão? Desculpem o atraso... Chegamos a algum lugar?
Com nervosismo, os analistas buscavam nas anotações algo relevante a que pudessem levar a CEO, que os olhava ainda sorrindo. O editor chefe, a frente da sala, a observou puxar uma cadeira e se sentar, ao final da mesa.
— Samanta, que bom te ter junto ao time. Estávamos ouvindo o João, que teve uma boa ideia. Gostaria de compartilhar com a CEO?
Todos a atenção voltou ao rapaz. Samanta o olhou seriamente, tentando decifrar a postura do jovem que mantinha os braços cruzados.
João Guilherme era alto, o cabelo cortado socialmente. Mantinha uma rotina de exercícios, além de correr maratonas em seu tempo livre, assim, mantinha um bom porte físico. Era filho único, teve a melhor educação e passava os dias com sua mãe na cidade e as férias com seu pai na praia. Teve algumas namoradas, durante os anos, mas nada tão intenso. Se manteve longe de escândalos, a pedido da mãe, assim, mantinha uma carreira inabalável.
— Bom, penso que devemos mostrar um outro lado da Purple+. Eles esperam que lançamos um outro influencer herdeiro e que ele consiga chegar as grandes marcas, pois sempre fazemos isso. Nesse ponto, por que não mostramos que não somos uma empresa que preza somente o capital para elevar uma pessoa a patamares internacionais?
A CEO o observava em silencio. O editor chefe a frente da sala cruzou os braços, parecendo se divertir com a situação.
— Pessoal, vou pedir um momento pra você e já retornamos. Façam uma pausa, de 30 minutos, tudo bem? – Os analistas se levantaram apressados, ansiosos pela pausa. – João, peço que permaneça na sala.
Todos saíram depressa, e o editor chefe foi o ultimo a sair, junto as assistentes de Samanta. João permaneceu sentado, observando Samanta andar pela sala, observando a rua pelas janelas.
— João, esse prédio, eu comprei quando tinha a sua idade. Esse império, meu império, foi fundado com suor e lagrimas. – Ela se sentou na cadeira de frente ao rapaz. – É um momento ruim? Sim, mas não o pior que já passei. Sinto que chegou o meu momento de descansar, de aproveitar todos esses anos de esforço pra que tudo isso valesse a pena. Mas como poderia?
Ela sorriu, enquanto rabiscava uma folha de papel.
— João, não é a primeira vez que o editor chefe reclama da sua postura. Não presta atenção nas reuniões, chega atrasado aos ensaios, não traz ideias plausíveis... Eu esperava mais de você.
— Esse cara me odeia! Sério, ele me persegue desde que eu entrei aqui.
— Ele só não vê o real motivo o qual você ocupa o cargo que tem, João. Admito que a sua ideia é boa, mas você consegue coloca-la em pratica? Consegue exercer a função do cargo que tem?
João ouvia tudo atentamente. A CEO jamais falou dessa forma, mesmo em momentos oportunos. O rapaz pigarreou antes de responder.
— Sim, eu consigo...
— Certo. Então, você tem 01 mês. Coloca a ideia em pratica, como? Eu não sei, e sinceramente, vou confiar totalmente em você. Terá todos os recursos que precisar, mas, se você falhar, está fora da empresa.
João foi pego de surpresa, assim, tentou se explicar, sendo interrompido pela CEO.
— Você tem 01 mês pra me provar que o dinheiro não compra tudo, ok? Eu vou estar na minha sala, e você pode me trazer a ideia impressa para o arquivo. Se funcionar, você será o novo CEO da Purple+.
Samanta se levantou devagar, caminhando até a porta. Antes de abri-la, olhou para João, que estava absorto ao acontecimento.
— Você prefere comida japonesa ou indiana para o jantar?
Ele se virou depressa, olhou sorrindo para Samanta.
— Indiana está bom, mãe. Chego por volta das 7pm, tudo bem?
— Perfeito, filho. Se cuide, e vá almoçar.
Assim, Samanta saiu da sala.
João tinha um árduo trabalho a frente: provar que o dinheiro, assim como o nepotismo, não é o único meio de colocar alguém no topo.
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