I Wont Give Up
1 Whered You Go?
"Where'd you go? I miss you so, seems like it's been forever that you've been gone." (Fort Minor)
A chaleira apitava, indicando que a água já estava quente o suficiente para preparar o meu chá. Joguei o líquido fervendo dentro da xícara branca e coloquei sachê com o sabor selecionado anteriormente. Essa noite deveria estar fazendo por volta de dez graus. O vento entrava pela janela aberta, tocando geladamente a minha pele e me causando arrepios, embora estivesse agasalhada com um casaco e uma calça de moletom cinza.
Eu já estava me acostumando com a temperatura de Wrightsville Beach, uma cidadezinha de 2.577 habitantes, localizada no estado da Carolina do Norte, no Condado de New Hanover. E no inverno, a temperatura chegava a ficar pior, devido a proximidade da casa com o mar. Caminhei até a varanda com a caneca quente nas mãos e sentei-me no sofá que tinha ali.
Hoje fazia um mês desde que eu viera morar aqui.
Suspirei. Tudo aqui me lembrava dele. Meu pai.
Essa era a casa que ele havia me deixado em seu testamento, quando falecera há três anos, vítima de câncer. No início, eu não queria nem pensar, muito menos ouvir falar dessa estúpida herança quando o que eu mais queria era tê-lo aqui, comigo. Infelizmente, nem tudo acontece como planejamos, por mais que façamos de tudo para conseguir e/ou impedir.
Tomei o primeiro gole da bebida, sentindo o calor do líquido quente descer pela garganta, aquecendo todo o meu interior.
Às vezes, temos mania de acreditar que as pessoas que mais amamos viverão pra sempre e que sempre estarão ao nosso lado. Puro engano. Como se fosse para mostrar que sempre estivemos errados, a vida vem e te dá um tapa, te trazendo de volta a realidade.
O vapor que saía da caneca mantinha o meu rosto aquecido, fazendo-me prolongar a "vida" daquele líquido, impedindo-me de acabar com ele. Observei a lua no imenso céu vazio, exceto claro, pela presença dela. Eu estava como a lua: sozinha e num grande espaço vazio.
A casa ficava em pouco distante do centro da cidade e a casa vizinha ficava a uns 200 metros de distância. Eu estava rodeada de "nada", exceto pelo grande mar e a delicada extensão de areia branca e fina, que começava onde a varanda da minha casa terminava. Tenho que admitir, a vista que eu tinha era linda. A praia costumava ficar deserta durante todo o inverno, exceto pela presença dos moradores das casas próximas, o que era raro de acontecer.
Desde que chegara aqui, sentar toda noite na varanda e contemplar essa vista era como se fosse um tipo de ritual para mim. Eu sempre estava aqui, no mesmo lugar.
Deveria ser por volta das onze horas da noite quando eu terminei de tomar o chá e resolvi entrar para começar a escrever. Eu tinha me formado numa das melhores faculdades de Literatura de Londres há menos de dois meses e tudo o que eu queria era ser tão boa quanto o meu pai era. Foi por causa dele que descobri minha paixão por livros e música, além da escrita, é claro. Minha mãe, uma arquiteta bem sucedida, morria de ciúmes. Era engraçado o mesmo discurso de sempre que ela tinha: "Minha única filha não me puxou em nada! Eu sou tão ruim assim?", ela dizia em tom dramático, arrancando sorrisos de mim e do meu pai. "Não é assim, Louise. Ela tem os seus cabelos castanhos lisos e também os seus olhos", ele dizia e a abraçava tentando convencê-la. E isso era completamente verdade.
Minha mãe tinha os cabelos lisos e castanhos, já o meu pai cabelos pretos e levemente encaracolados. Seus olhos eram de um tom puxado para o mel e os da minha mãe eram castanhos escuros. Eu tinha puxado também a sua altura, tendo apenas 1,65m.
Eu ri, lembrando das implicâncias deles um com o outro.
Louise sofreu bastante também com a morte do meu pai e como uma válvula de escape, se encheu de trabalho para não pensar na dor. Mas isso resultou também no nosso afastamento. Sei que não foi proposital, ela só queria afastar a dor e não pensou nas consequências que isso poderia causar. Hoje em dia, embora não nos vemos mais com frequência, pois ela permaneceu em Londres, ainda nos falamos por telefone sempre que podemos.
Mesmo eu dizendo que não é necessário, ela sempre deposita uma quantia em dinheiro na minha conta, talvez para tentar suprir a sua ausência. Eu nunca toquei naquele dinheiro. Eu ainda tinha o meu que economizei nos tempos da faculdade parar abrir algum negócio próprio e também um valor que meu pai havia deixado para mim como herança, mas acho que ele nunca contou isso à minha mãe. Ele juntou essa quantia por anos e sempre me dizia "Pra você investir nos seus sonhos", com um sorriso no rosto.
Olhei para a tela do meu notebook. O editor de texto não tinha sequer uma palavra digitada e tudo o que eu via era uma página em branco do arquivo. Forcei a minha mente para se concentrar na história que eu havia começado a escrever algumas noites anteriores, mas as únicas coisas que eu recebi em troca foram fortes dores de cabeça.
Meus olhos estavam pesados e insistiam em se fechar, mesmo eu lutando contra. Mas fora em vão. Meus olhos cansados, assim como a minha mente, trabalharam juntos para me deixar imersa na escuridão do meu inconsciente.
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