**10 ANOS DEPOIS**

—E agora falaremos com ela, reconhecida em todo continente americano como a autora mais influente de nosso século, apresento a vocês ÚRSULA MARTINS.

A platéia rompeu em aplausos, era a minha deixa.

Subi no palco com um sorriso no rosto. Cristina, a apresentadora, me olhava esperançosa, o programa provavelmente bateria o recorde de audiência.

—Bom dia, querida. – Disse ela quando sentei na poltrona à sua frente.

—Bom dia, Cristina. É um prazer estar aqui.

—Imagine, o prazer é nosso. Mas nos conte mais sobre sua próxima obra, sim?

Sorri.

—Bom... Como todos já sabem, é um romance. Receio não poder dar mais informações.

A platéia pareceu decepcionada.

—Claro. Imagino que queiram manter sigilo, visto que sua última obra vazou na internet antes de ser publicada. Mudemos de assunto, então. Diga-me, como se sente sendo tão influente assim e na sua idade? Quero dizer, você ainda está na casa dos vinte, certo?

—Correto, eu tenho vinte e seis anos. Bem... Para falar a verdade, confesso que às vezes me sinto um pouco pressionada.

—Pressionada? De que forma?

—Sendo tão influente, muitas vezes me pressionam a dar algo que vá atrair o público, um livro que não tenha um ótimo percentual de vendas, ou ótimas críticas, seria uma desgraça na opinião da equipe que trabalha comigo.

—E como você lida com isso?

—Ah, você sabe, eu deixo eles loucos. – Pisquei para a platéia que rompeu em risadas. – Eu sempre tento lembrar que, embora eu tenha que levar em conta a opinião do público, eu também tenho que fazer o que amo, sem mentiras. Eu realmente amo escrever, e quero passar esse amor para os leitores, eu nunca poderia fazer isso escrevendo sobre coisas das quais não sou muito apreciadora.

—Ah, a sua equipe deve passar por maus bocados às vezes, hein?

A platéia riu novamente.

—Você está terminando a faculdade de literatura, não é? Fale-nos um pouco sobre isso. Em que vai afetar?

—Sim, eu estou terminando a faculdade. Agora terei mais tempo de escrever, sem todos aqueles trabalhos.

—Aposto que era cansativo para você. Qual é o seu próximo passo?

—Tendo em vista que meu próximo livro está na reta final, quando terminar a faculdade acredito que vou viajar, tirar uma folga.

Houve um silencio total.

—Mas não se animem muito. – Continuei. – Estou trabalhando em um projeto que acredito ser bem interessante e, assim que puder dar mais informações sobre isso, prometo contar tudo nos mínimos detalhes.

—Certamente você precisa descansar um pouco, já tem algum lugar em mente?

—Sim, tenho um lugar em mente.

A platéia ficou esperando que eu continuasse, mas não o fiz.

Cristina se levantou se dirigiu até lá.

—Agora vamos ouvir uma pergunta de alguém daqui. Alguém tem alguma pergunta?

Várias mãos levantaram.

—Você. – Disse Cristina apontando para um cara alto de cabelos castanhos. – Qual é o seu nome?

—Lucas. – Respondeu ele.

—Qual é a sua pergunta?

Lucas olhou para mim com um sorriso divertido no rosto e eu soube imediatamente o que ele iria perguntar, mas já era tarde de mais.

—Quer casar comigo?

Todos pareceram assustados, mas Cristina pareceu reconhecer aquele sorriso e deu-lhe uma tapa na cabeça, o que assustou ainda mais a plateia.

Eles pareceram relaxar quando comecei a dar risada tentando me controlar.

Lucas, obviamente, nunca iria tomar jeito e merecia aquela tapa por ser idiota o suficiente para irritar Cristina no programa dela.

—Mais alguma pergunta? – Ela perguntou, parecia extremamente irritada.

Dessa vez apenas uma mão se levantou.

-Qual é o seu nome?

—Me chamo Sara.

Cristina concordou e fez um gesto indicando que ela continuasse, claramente se controlando para não avançar em Lucas que, vezes ou outras, deixava umas risadinhas escaparem.

—Primeiramente, gostaria de falar que sou uma grande fã sua e que admiro muito o seu trabalho e...

—Nós já entendemos. Blá, blá, blá. Faça sua pergunta. – Cristina a interrompeu.

Ela murmurou um pedido de desculpas e continuou.

—Ainda há pouco você disse que queria passar o amor que você sente para os leitores, e, em certos pontos, somos realmente envolvidos pelos sentimentos dos personagens de forma única e, não leve a mal, assustadora. Eu por várias vezes discordei de algumas ações dos personagens, mas fui facilmente levada a...

—Faça a pergunta. – Cristina parecia a ponto de explodir.

Sara pareceu ofendida, mas continuou ainda assim.

—Gostaria de saber se você usa como base alguns eventos já vividos por você para escrever esses momentos envolventes e, considerando que grande parte de suas obras são romances, gostaria de saber se você já se apaixonou por alguém.

—Até que enfim. – Disse Cristina voltando ao seu lugar, ainda muito irritada.

—Sua pergunta é realmente interessante. – Comecei, imaginando como eu deveria responder. – Embora eu busque expressar genuinamente os sentimentos dos personagens, eu nunca usei como base algo que eu já tenha passado. Usei, sim, alguns sentimentos que já tive, tais como a saudade. É algo que eu já senti, então eu sei como descrevê-la, mas também já tive que pedir ajuda a pessoas próximas para poder escrever com maior precisão em certas ocasiões.

Dei uma pausa para respirar. Embora eu não quisesse, eu tinha que responder o resto.

—Sobre eu já ter me apaixonado ou não, a resposta é sim. Eu já me apaixonei. É isso.

Cristina levantou de súbito, claramente animada com alguma coisa.

—E encerramos aqui o programa de hoje.

XXX

Eu estava sentada na sala terminando a ultima frase do livro quando a porta foi escancarada e o som de uma bela gargalhada invadiu o apartamento.

—Eu pensei ter dito que não queria ser interrompida. – Falei.

Lucas se aproximou, ainda rindo.

—Você viu a cara dela? “E encerramos aqui o programa de hoje.”— Ele deu mais uma gargalhada histérica.

—Como está a sua cabeça? – Perguntei sem dar muita importância.

Lucas soltou um suspiro de indignação.

—Ela pode simplesmente bater nas pessoas ao vivo? Devia ser despedida. Acredita que quase não consegui sair de lá? Ela ficou me dando um sermão. Quantos anos ela acha que eu tenho? Nove?

Não pude conter um risinho.

—Você mereceu.

—E você é muito chata. – Ele disse atirando uma almofada na minha cabeça. – Então... – Ele falou se recompondo e sentando na minha frente. – O que achou da minha proposta?

—Já conversamos sobre isso.

Lucas parecia, mais uma vez, indignado, mas ainda assim abriu um largo sorriso.

—Sim, já conversamos.

Ele ficou em silencio e pude, finalmente, terminar de escrever.

Soltei o ar, aliviada.

—Então você vai viajar mesmo? – Perguntou Lucas.

—Sim.

—Vai encontrar aquele cara?

Eu ia responder, mas meu celular tocou.

—Alô?

—Sentiu minha falta? – Uma voz masculina falou.

—Mark?

—Há quanto tempo, In Ha. Eu acabei de ver uma entrevista sua pela internet, quando é que você vem me visitar?

—Bem... amanhã será minha formatura, e segunda-feira eu pego o vôo direto para Seul.

—Parabéns pela formatura. – Ouvi algumas vozes distantes. – Desculpe, eu tenho que ir. Vejo você em breve.

Aquilo fez minhas bochechas corarem violentamente e uma sensação incrivelmente boa invadiu meu peito.

Foram dez longos anos sem Mark. Dez longos anos em que mantive minha promessa de nunca esquecê-lo e finalmente eu veria ele novamente. Tudo parecia voltar, o dia em que nos conhecemos, a véspera de natal, o dia em que ele disse que me amava... tudo voltava à minha mente e imagino que eu tenha sorrido como uma tonta, porque Lucas revirou os olhos e disse:

—Que grande babaquice. – Depois imitando a minha voz: — Oh, Mark, como senti a sua falta. Oh, Mark, nunca vou te esquecer. Mark, como você está lindo. Oh, sim, claro, você agora é cheio da grana. Ah, lembra daquele perdedor do Lucas que estudou com a gente? Então, eu continuo ignorando ele porque só você é que...

Lucas parou no meio da frase quando meu celular acertou seu rosto.

—Aquele idiota. – Ele resmungou e saiu irritado.