I See You
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Os três dias se passaram rapidamente, tão rapidamente quanto qualquer um dali gostaria.
Desde a visita de Dáin Pé de Ferro o rei élfico se isolara nos Jardins da Rainha, onde somente ele adentrava. Os antigos diziam que era o lugar mais belo de todo o Reino da Floresta, beleza esta que agora pertencia apenas aos olhos de seu soberano.
Luna utilizara desse tempo para organizar os soldados que com ela partiriam para a Cidade de Valle e também para escolher quem ocuparia o cargo de chefe da guarda em sua ausência. Depois de muito ponderar, a elfa achou melhor escolher Elenor para tal tarefa. Ele era, indiscutivelmente, o mais qualificado.
A noite estava escura, pois a lua se escondia atrás de algumas nuvens num céu escasso de estrelas. O ar estava seco e não havia brisa, tudo apático demais para a própria natureza. Eles partiriam apenas ao raiar do sol, mas os soldados já se encontravam de prontidão. Perfeitamente organizados e a espera da ordem para marchar, assim como a comitiva do rei.
A elfa caminhava para dentro do palácio, indo em direção aos aposentos de seu irmão. Ela subiu pela grande escadaria, passou pela sala de armaria e então chegou ao corredor dos dormitórios dos guerreiros. Andou mais um pouco e logo alcançou seu destino.
Luna abriu a porta com hesitação e, a passos cautelosos, adentrou o recinto. Ela sentiu uma sensação de profunda nostalgia ao estar ali, mas tratou de dissipá-la. Foi em direção a uma pequena mesa, ao lado da cama de seu irmão, e abriu uma de suas gavetas. Ela retirou algumas folhas dali, colocando-as de qualquer maneira sobre a parte de cima da mobília, e então direcionou os dedos para o interior da gaveta, pressionando e levantando a madeira, revelando assim um fundo falso.
Com cuidado, Luna retirou o suposto fundo e encontrou uma pequena caixa guardada ali. Ela a tomou em mãos imediatamente e logo começou a reorganizar todas as coisas na gaveta, voltando a fechá-la.
A elfa se sentou na cama e, cuidadosamente, abriu a caixa. Ela teve a visão de dois colares brilhantes e vistosos, colares feitos em tempos antigos, muitos séculos antes de sua família residir no reino da Floresta das Trevas. Pertenceram a seus antepassados quando ainda Thingol, rei da antiga Doriath, era vivo. E aquilo era tudo que Luna sabia.
Seu pai lhe contara a mesma história que o pai dele o contou, que após o assassinato do rei Thingol — e, em sucessão, a queda de Doriath — os elfos de sua família se refugiaram em outros lugares. Mas, seu avô levou os colares consigo. As joias de maior estima de sua família.
Luna suspirou e parou para observá-los, apenas por alguns instantes. Ela semicerrou os olhos e franziu o cenho, eram tão bonitos e tão diferentes.
O primeiro era de jade, lapidado no formato de uma esfera perfeita. Em suas bordas minúsculas pedras de ônix eram firmadas como adorno, como súditos que reverenciam seu rei. O mesmo era banhado em formosura, ainda que fosse austero. Aquele sua mãe dera a Annchir, pela cor de seus olhos ser semelhante à da pedra.
O segundo era de diamante, brilhante como a luz das estrelas. Era lapidado em formato de gota e não estava acompanhado por nenhuma outra pedra, pois sua beleza era incomparável. Seu pai dizia que o mesmo fora feito em homenagem a Melian, esposa do rei Thingol e rainha de Doriath, pois a luz de Amam reluzia em seu rosto. A mãe de Luna lhe dera a joia dizendo que em seus olhos fulgurava a mesma luz.
A chefe da guarda fechou a caixa e segurou com firmeza contra o peito. Era seu dever mantê-las em segurança já que ela e Annchir eram os únicos de sua família que ainda viviam. E assim a elfa faria, levando-as consigo.
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— Minha senhora. — ela se voltou para trás e viu Nathrini caminhar apressado em sua direção.
— Sim? — indagou quando o mesmo já se encontrava à sua frente.
— Sua Alteza, o príncipe Legolas, se aproxima. Lórien e seus guerreiros o receberam na fronteira oeste, há poucos minutos.
— Avise o rei sobre a chegada de seu filho. — Luna o respondeu de modo natural e o loiro assumiu uma expressão apreensiva, porém, contida.
— Minha senhora — ele iniciou vacilante. — Sua Majestade se mantém recluso nos Jardins da Rainha e de lá não faz menção em sair. A Grande Porta está fechada e as servas temerosas. Não demorará até o sol nascer e as trombetas soarem para a partida.
Luna franziu o cenho enquanto decidia o que faria. Nathrini esperava uma resposta, uma ordem, qualquer coisa.
Ela se sentiu encurralada.
— Eu cuido disso. — se limitou a dizer e viu o elfo assentir visivelmente aliviado. — Cheque mais uma vez os soldados que partirão para Valle comigo.
— Sim. — o mesmo fez menção em se retirar.
— Nathrini! — chamou-o. — Onde está Eruwen? Eu o convocaria para me acompanhar, mas não o encontrei.
O elfo a fitou confuso.
— A dama não sabe?
— Não sei o quê?
— Antes de se isolar o rei enviou Eruwen e outros três elfos à Valfenda.
— Por qual motivo?
— Não tenho conhecimento, perdão. — respondeu e curvou a cabeça levemente.
— Tudo bem. — a chefe da guarda assentiu. — Agora vá.
Após o elfo se retirar, Luna permaneceu no mesmo lugar, estava perdida em pensamentos. Por que seu rei enviaria Eruwen à casa de Elrond tão repentinamente? E por que seu amigo não a avisara? Ela respirou fundo, precisava focar em suas prioridades.
O céu perdia sua escuridão e a lua não mais estava presente no firmamento. E uma brisa suave, mas um tanto fria, começou a soprar — indicando que pouco faltava para o alvorecer.
Luna caminhava apressadamente enquanto seguia em direção aos corredores da ala superior, onde seu senhor residia. Era a primeira vez que adentrava aquela parte do palácio e seus olhos brilhavam ao contemplarem as paredes cobertas pelas tapeçarias que contavam os feitos dos elfos da Floresta das Trevas na Batalha da Última Aliança. Entrave onde o rei Oropher lutou com grande bravura até sua morte.
A chefe da guarda dobrou vários corredores e pensou estar perdida. Ela bufou, mesmo não estando presente seu rei conseguia lhe irritar de alguma forma. Foi quando a elfa ouviu alguns murmúrios e se apressou em segui-los, acabando por encontrar um grupo de servas — provavelmente do rei — paradas perante um grande portal entalhado desde sua base até seu pico. O mesmo se encontrava fechado e uma luz saía pela pequena brecha próxima ao chão.
Assim que sua presença foi percebida uma das elfas se aproximou.
— Minha senhora, Sua Majestade se recusa a sair para se preparar para a jornada.
— Batam na porta. — a chefe da guarda a respondeu de maneira objetiva, vendo a expressão da serva se endurecer.
— Não ousaríamos tal desrespeito.
Luna simplesmente passou pela elfa e se pôs em frente à porta, tocando com a ponta dos dedos o entalhe sobre a madeira. Segundos depois, ela fechou uma das mãos e a ergueu com certa hesitação. Bateu suavemente e esperou algum tempo, mas não obteve resposta. Bateu uma segunda vez, mais firme, porém, novamente não ouve retribuição.
Ela franziu o cenho, curiosa, e assim encostou as duas palmas em cada lado do grande portal.
— Minha senhora… — uma das servas exclamou em tom de advertimento, mas Luna a ignorou. Tragando um profundo ar de coragem, ela empurrou a porta para abri-la.
Uma luz brilhou e ofuscou sua visão por alguns segundos, mas a elfa não teve medo. Depois de um tempo seus olhos se acostumaram com a claridade e ela imediatamente estranhou, ainda não havia amanhecido e o lugar estava iluminado, tal como o meio-dia.
As servas atrás de si temeram e se colocaram de costas, pois se negavam a contemplar o lugar.
Luna vislumbrava um lindo e indescritível jardim. E se antes havia se maravilhado com as tapeçarias dos corredores, agora descobria que nem mesmo a mais bela dentre as que enfeitavam as paredes da ala real poderia ser comparada a magnitude daquele lugar.
Ela adentrou, sem temer, e então fechou a porta atrás de si.
Que os covardes fiquem para trás!
A elfa fixou seus olhos azuis nas árvores e logo em seguida no riacho que banhava suas raízes. O jardim continha diversas flores, mas nenhuma em maior número do que as petúnias brancas — estas que se encontravam em todas as direções que ela fitasse.
Ansiosa para contemplar outras belezas, Luna seguiu por entre um curto corredor de orquídeas azuis e violetas — não resistindo em tocá-las suavemente no processo — e então foi levada até a beira do riacho, onde as águas tocavam a grama verdejante com ternura.
Aos poucos a elfa se aproximou e seus olhos visualizaram melhor as águas cristalinas, quase um espelho perfeito. Magnífico, tudo ali era magnífico. Ela pretendia caminhar para mais perto do riacho, mas foi impedida por um som que vinha de seu fundo.
Então seu rei emergiu e as gotículas de água refletiram a luz em sua pele de marfim. Seus cabelos lisos caíam por suas costas nuas e revelavam seus ombros largos, suaves e dominantes, da mesma forma como a neve se deita sobre o pico das grandes montanhas.
Luna sentiu seu coração bater acelerado enquanto seu rosto esquentava, ela estava corando. Sua mente lhe dizia para sair dali o mais rápido possível antes que seu senhor a notasse — se já não o tivesse — mas seu corpo permanecia paralisado no local. A sorte lhe sorriu, pois uma árvore a cobria parcialmente.
Enquanto o observava, Luna pôde contemplar sua serenidade em todo aquele cenário extraordinário. Sua entrega. Sua beleza impactante. Seus braços longos e firmes. Era tudo tão irreal… e ela foi pega quando Thranduil se voltou rapidamente e seus olhos se encontraram.
Os lábios do rei estavam entreabertos e seus olhos azulados a fitavam profundamente.
— Luna… — ele sussurrou seu nome de forma rouca.
Como se acordasse de súbito — e estando imensamente envergonhada — a elfa correu para sair dali sem olhar uma única vez para trás. Seus cabelos e suas vestes esvoaçavam ao vento e ela sentia seu coração querer saltar para fora de seu peito.
Luna abriu o portal de forma rude e quase esbarrou em uma das servas de seu senhor, e só assim ela decidiu parar um instante. Em meio a sua respiração entrecortada, a elfa olhou em volta e descansou seus olhos azulados na figura do príncipe — este que a fitava com uma expressão de curiosidade. O mesmo curvou a cabeça cordialmente, mas não a dirigiu palavra.
A chefe da guarda, não sabendo o que fazer e ainda atordoada com o que acabara de acontecer, simplesmente saiu apressada dali.
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Assim que pisou fora do palácio, passando pelo Grande Portão, Luna ouviu o som da trombeta soar. O sol enfim havia nascido. Houve comentários entre a comitiva do rei, pois o mesmo ainda não estava presente, mas a elfa apenas os ignorou. Os soldados, em um grupo mais afastado, estavam em suas posições e mantinham a formação. Estavam silenciosos e a espera de Luna, que os conduziria.
Seu cavalo foi posto à sua frente mas a elfa hesitou, ela voltou seu olhar para a comitiva do rei e ponderou se deveria esperar seu senhor se apresentar para partir junto com eles. Apenas segundos foram necessários para que ela meneasse a cabeça negativamente, sabendo que não conseguiria nem ao menos fitar seu soberano depois do que havia acontecido nos Jardins da Rainha.
Luna subiu em sua montaria e tomou a frente dos soldados. Sua espada reluzia na bainha e seu arco prateado pesava em suas costas. Seus cabelos negros estavam amarrados em um coque firme e com pouquíssimos fios soltos, estes que caíam com graciosidade sobre seu rosto. Sua capa era leve como o vento e azul como a safira, e estava presa a seu pescoço pela insígnia da Floresta das Trevas.
Seus olhos demonstravam seriedade e nenhum de seus soldados ousaria questioná-la. Após uma última olhada para o grande palácio onde havia passado a maior parte de sua vida, ela agitou as rédeas para seguir em direção à Erebor — e foi seguida por sua tropa.
Depois de tantos acontecimentos seu coração pesava e sua alma ansiava a paz. Tudo o que ela não encontraria nas terras de seu povo. Os elfos são eternos e o tempo é submetido a eles, pois não pode vencê-los. O mesmo trabalharia para Luna e, no final, curaria suas feridas.
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— Ainda não entendi o motivo de sua vinda, sua missão foi encerrada? — Thranduil indagou enquanto uma de suas servas o vestia com sua túnica carmesim.
— Ouvi rumores de que a aliança entre nosso povo e os anões da Montanha Solitária foi refeita. — esclareceu o príncipe. — Não pude acreditar e achei melhor vir pessoalmente descobrir a verdade. Acredite, meu senhor, minha surpresa não poderia ser maior quando eu me deparei com um grupo de soldados e uma comitiva na entrada do palácio.
O rei dispensou a serva e esta se retirou após uma leve reverência.
— Não penso que… — Thranduil foi interrompido pelo ressoar de uma trombeta.
Legolas se dirigiu até a grande janela dos aposentos reais e fitou o que se passava do lado de fora. Ele observou uma elfa subir em seu cavalo e então a reconheceu de imediato.
A mesma se pôs em frente aos soldados e, alguns minutos depois, todos iniciaram sua partida para longe — com exceção da comitiva de seu pai. O som da marcha dos elfos foi ouvido por Thranduil e o fez se aproximar de seu filho para também observar o que se passava.
— Imaginei que ela faria isso. — o mais velho sussurrou para si mesmo, porém, sua frase não passou despercebida pelo príncipe.
— Majestade, o que está acontecendo? — ele questionou calmamente. Seus olhos se encontraram com os de seu pai.
— Estou indo à Erebor. — respondeu-o ao dar-lhe as costas. E se dirigindo até a saída, Thranduil completou: — Venha, se assim lhe aprouver, mas não me prenda com suas questões. Tenho um compromisso e nenhuma pretensão em esclarecer as suas dúvidas. — dizendo isso ele cruzou a saída.
Legolas permaneceu no mesmo lugar durante alguns minutos, mas, após respirar profundamente, o príncipe logo tratou de seguir seu pai — decidindo que o acompanharia até o reino dos anões.
Ele estava intrigado com a bela dama que entrara nos jardins de sua mãe, onde ninguém, além do rei, tinha permissão de adentrar. Algo no íntimo de seu coração o dizia que alguma coisa acontecera em seu reino enquanto estivera fora, e ele estava ávido em descobrir.
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Ela agitava as rédeas de seu cavalo, guiando-o para o leste, e então permitiu que os guerreiros a ultrapassassem para que tivesse a visão completa de todo esquadrão. O que a encheu de um orgulho profundo e uma admiração evidente.
No fim do caminho a elfa pôde avistar o limite leste da Floresta das Trevas, e Lórien os esperava. A chefe da guarda cavalgou pacientemente até se aproximar da guardiã das fronteiras.
— Minha senhora. — ela a cumprimentou. Luna parou seu cavalo e ouviu a marcha dos soldados cessar, a sua espera. Lórien ergueu seus olhos esverdeados para trás da montaria da outra elfa, procurando algo em meio à floresta. — Pensei que Sua Majestade os acompanharia…
O olhar de Luna vacilou.
— Nosso rei não estava pronto na hora da partida e eu resolvi adiantar os soldados para que não nos atrasássemos. Estamos em um número maior do que a comitiva real e retardaríamos a viagem. Mas, imagino que ele venha logo em seguida. — ela foi o mais lacônica possível e Lórien apenas assentiu. — Não sei ao certo quanto tempo passarei em Valle. Então, em minha ausência, Elenor ficará no comando. O aconselhe, caso necessário. Minha confiança está em vocês.
— Minha espada será dele e meu escudo o protegerá. — a elfa respondeu ao se curvar respeitosamente, demonstrando que seguiria Elenor como seguira a Luna. — Que O Único abençoe sua estadia na cidade dos homens, minha senhora.
— Que assim seja. — Luna inclinou a cabeça em retribuição. Seu cavalo se agitou e ela soube que era hora de partir. — Caso alguma notícia de Annchir chegue a seus ouvidos, por favor, me avise. — pediu calmamente e a outra assentiu.
Sem mais nenhuma palavra, a elfa agitou as rédeas e seu cavalo cavalgou para longe. Os soldados agora voltavam a marchar, firmes e decididos, todos seguindo sua senhora.
Durante o caminho Luna se permitiu imaginar em como tudo seria dali para frente. E se a vida à sombra da montanha fosse mais agradável? Ela pensou em seus companheiros, em Eruwen — e em quanto desejava tê-lo trazido consigo — e até mesmo em seu irmão gêmeo. E aquela lembrança criou uma nuvem escura sobre seu coração… mas Luna logo tratou de expulsá-la de si.
A elfa preferia pensar que o mesmo estava em alguma missão e que logo retornaria para seu lar na Floresta das Trevas, se negando a acreditar que ele a tinha abandonado. Preferia manter lembranças boas e criar justificativas alucinógenas do que envenenar sua alma com a tristeza da realidade.
O sol ainda subia no horizonte, quase de maneira tímida. Uma brisa suave batia contra o rosto de Luna e ela fechou os olhos para aproveitá-la enquanto sorria abertamente e sentia seu coração bater descompassado.
Então esse é o sabor da liberdade? Livre como os pássaros que voam no céu e como as águas que se agitam no mar.
A elfa abriu os olhos e, apertando as rédeas de maneira firme entre os dedos, deduziu que eles chegariam antes do sol se pôr. Então a última frase de Lórien veio como um sussurro em sua mente:
Que O Único abençoe sua estadia na cidade dos homens.
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