I See You

22 Capítulo 22


Notas iniciais
Amorecos! ♥

— Eruwen?! — Luna indagou estupefata ao tomar a frente do grupo. — Você está compactuando com esta monstruosidade?

— Infelizmente. — se limitou a dizer e mesmo assim a elfa percebeu a dualidade da palavra. Ele puxou o canto de seus lábios em um imperceptível sorriso de escárnio e logo se dirigiu aos demais. — Sinto-me no dever de informar que o ataque não cessará…

— MALDITOS! — Elros vociferou para então ser contido por Argon, este que sussurrava um pedido de que ele se acalmasse.

— …ao menos que você venha comigo. — Eruwen voltou a falar, referindo-se a Luna.

— Ela não irá a lugar nenhum com você. — Argon tomou a palavra. — O que está acontecendo? — o cavalo de Eruwen estava inquieto e foi nesse momento que o conselheiro percebeu que se tratava de Alcarinquë, a montaria real. — Onde está o nosso rei?

— Sua Majestade encontra-se a espera de sua antiga chefe da guarda, e ele foi bem específico sobre o que deveríamos fazer caso encontrássemos qualquer resistência. — o loiro percebeu o olhar profundo de Argon e ergueu uma de suas sobrancelhas na tentativa de passar qualquer impressão de controle ou autossuficiência. — Tem certeza de que não me deixará levá-la?

— Abaixem estas armas! — Luna ordenou estando alheia ao que seu conselheiro havia notado, pois estava mais preocupada com o fato dos soldados não terem-na obedecido. — ABAIXEM!

— Sua autoridade está temporariamente anulada, minha querida. Agora eles obedecem a mim. — os olhos azulados dela o fitaram com uma surpresa explícita. — Um exército inteiro a espera de combate e o grande Rei Sob a Montanha se esconde no interior de seu portão com seus soldadinhos. — Eruwen debochou.

— Não ouse insultar Dáin Pé de Ferro, seu bastardo! — Elros exclamou de forma gélida. — Ele tem mais força e coragem sozinho do que você com seu exército inteiro.

O loiro revirou os olhos.

— Quero ser civilizado com você, Luna, em nome dos velhos tempos. — Eruwen não abandonava o tom sarcástico. — Você vem ou não? — ele passou a observar a destruição em volta. — Ainda há uma cidade inteira para incendiar e muitas vidas para ceifar, está em suas mãos. Na verdade, sempre esteve. Apenas tente tomar a decisão correta desta vez.

Luna permanecia em silêncio, fitando com desprezo a face daquele que um dia considerou como um irmão.

— E se isto for uma armadilha? — Argon voltou a indagar e Eruwen bufou impaciente. — Você já tomou o lugar de minha senhora, mas seria conveniente que ela viesse a morrer.

— Dou a minha palavra!

— E de que vale a palavra de um destruidor de cidades e assassino de inocentes? — foi a vez de um dos homens presentes se pronunciar.

O elfo desceu de sua montaria e a brisa do crepúsculo balançou seus cabelos loiros junto com sua capa branca, o que o concedeu um ar sereno e quase angelical.

— Não muito menos do que a vida de um mortal qualquer. — Eruwen retrucou indiferentemente. — Última chance… — disse ao erguer uma das mãos e logo todos os elfos apontaram suas flechas na direção do grupo.

Em um deslize de Argon, Elros se desprendeu e foi ao encontro de Eruwen para atacá-lo. O loiro pendeu para o lado rapidamente, porém o homem era guerreiro e a ponta de sua espada ainda conseguiu marcar o rosto de seu oponente com um mínimo corte.

Aquele seria o momento em que os soldados deveriam atirar suas flechas e acabar com todos, contudo, estes mais uma vez ficaram divididos sobre o certo a se fazer. No fim, eles apenas se aproximaram do grupo e os imobilizaram.

— ELA NÃO IRÁ A LUGAR NENHUM COM VOCÊ, MALDITO! — Elros rosnava e investia ferozmente contra o elfo, mas ele já não tinha o vigor de sua juventude e logo se cansou. Sua espada era pesada demais e seus ataques passaram a ser previsíveis.

Calculista, Eruwen esperou até que o homem impulsionasse a lâmina contra sua esquerda e então se dirigiu para o lado oposto para poder atacá-lo de modo certeiro na parte livre de seu abdômen. A dor o obrigou a se curvar e assim soltar sua espada, o que inevitavelmente o fez baixar a guarda. Aproveitando-se disso, o elfo se apressou em erguer o joelho para impulsioná-lo de forma cruel contra a face do homem e aquilo foi o suficiente para derrubar Elros que, apesar de sua costumeira antipatia, foi o único a arriscar a própria vida para defender Luna.

— Caros irmãos mais novos, vocês são tão… patéticos. Patéticos e frágeis. — Eruwen desdenhou ao se agachar até a altura do mortal quase desacordado. — E pensar que eu nem precisei de uma espada. — sussurrou na direção de Elros.

Luna sentia-se fraca e inútil, como se caminhasse pela beirada de um precipício. Ela queria lutar, queria defender aquele homem valente… mas uma mão capturou a sua e a deteve; era um dos homens do grupo. Luna entendeu o que este queria dizer, entendeu que muito mais estava em jogo ali. E ela se odiou por precisar escolher.

Quando Eruwen voltou a se pôr de pé carregava a espada de Elros consigo, e assim a empunhou na direção do homem.

— ERUWEN, ABAIXE-A! — Luna exclamou com o resto de bom senso que ainda tinha. — NÃO FAÇA ISSO, POR FAVOR, NÃO FAÇA ISSO!

O loiro a fitou por alguns segundos, sua expressão calma e inalterada contestava sua real intenção.

— Me desculpe, minha querida. — ele respondeu antes de cravar a lâmina no peito de Elros com frieza. A elfa gritou pelo horror e Argon abaixou a própria cabeça para esconder seu olhar daquela visão traumatizante. A expressão de Eruwen fora de puro nojo quando ele puxou a espada de volta e o sangue escorreu de dentro do ferimento do outro. — Livrem-se dele. — ordenou aos elfos que observavam a cena em silêncio. Eles se entreolharam e então carregaram o corpo do homem com o máximo de cuidado e respeito que conseguiram, levando-o para longe daquele absurdo.

Luna assumiu rapidamente uma expressão endurecida e altiva, porém seu interior estava dilacerado. Era seu orgulho quem a sustentava.

— Como pôde? — ela indagou com desprezo. — Que tipo de rei ordena que matem inocentes e que tipo de objetivo faz com que um servo o siga de maneira tão cega? Aonde está a sua honra, Eruwen? — suas pedras azuis estavam cobertas pelas chamas do ódio. — Gen u-velin, nîn gwerianneg!

Após baixar o rosto por alguns segundos, o loiro sorriu minimamente. Quando o ergueu outra vez, ele a fitou com seus olhos cor de mel emoldurados por algo que ninguém soube definir.

Hiro hyn hîdh ab ‘wanath. — Eruwen exclamou e deu as costas para o grupo. Alguns elfos começaram a mover os homens, e até mesmo Argon, para longe de Luna enquanto outros encaixavam suas flechas nos arcos. Aquilo fora uma ordem bem clara; ela seria levada a força e todos os outros morreriam.

— ESPERE! — Luna disse rapidamente e ele paralisou seus passos para fitá-la por cima dos ombros. Os soldados também pararam o que estavam fazendo e todas as atenções se voltaram para a negociação dos dois. — Dê-me sua palavra de que o exército irá embora de Valle.

— Se vier comigo… — ele foi interrompido.

— Dê-me a sua palavra! — Luna repetiu entredentes.

Eruwen esperou um segundo até respondê-la:

— Dou a minha palavra. — prometeu ao curvar a cabeça levemente.

Não havia outra escolha, mesmo que seu futuro agora fosse incerto o mais importante era a segurança do povo.

— Eu irei com você. — a elfa concordou.

— Luna, não! — Argon pediu aflito enquanto se remexia entre as mãos que o prendiam firmemente. — É uma armadilha! O sacrifício de Elros foi em vão? Ele morreu protegendo-a e no final você irá com eles?

A elfa sentiu o aperto em seus braços afrouxarem e então se voltou para o conselheiro.

— Eu não permitirei com que mais vidas sejam tiradas. — respirou fundo. — Esta é a minha decisão final.

Eruwen ergueu uma das mãos em um convite mudo de que Luna a envolvesse com a sua. Receosa, ela logo sentiu seus dedos serem entrelaçados aos do elfo, este que sorriu extasiado por sua vitória.

— Retirem as tropas da cidade, ninguém deve ser ferido a partir de agora. — ele ordenou antes de subir em seu cavalo, acompanhado por Luna.

O animal ainda relinchava inquieto.

— Você pretende me matar? — ela questionou em um sussurro ao sentir o vento frio da noite bater contra seu pescoço.

— Tem medo da morte, minha querida? — o loiro riu pela própria pergunta e então segurou as rédeas da montaria com firmeza.

— Devemos acompanhá-los, meu senhor? — um dos soldados indagou.

— Não, eu e Luna iremos sozinhos. Vocês… — antes que terminasse a frase todos ouviram um outro grupo de soldados se aproximar, e era Lúthian quem os comandava.

Mae govannen. — ele saudou Eruwen. — Vejo que conseguiu convencê-la.

— Meus argumentos foram convincentes.

— Traidor. — Argon vociferou e então foi contido por um dos soldados. — Como pôde se juntar a eles?

— É tudo uma questão de perspectiva. — o elfo se defendeu. — Jurei ser leal a meu rei e não a… — ele fitou Luna com escárnio. — este ser arrogante e prepotente.

A elfa sentiu seu sangue ferver, mas não pronunciou nenhuma palavra ou fez qualquer movimento.

— Precisamos ir, Sua Majestade nos espera. — Eruwen tratou de dizer. — Lúthian, cuide do exército e garanta que todos cheguem em nosso reino com segurança. Nenhum mortal deve ser ferido a partir de agora.

— Não irão conosco? — o outro indagou.

— Não.

— Mas, nosso rei, ele… — foi interrompido.

— Você tem suas ordens, cumpra-as! — o loiro fitou os prisioneiros. — Liberte estes pobres homens e prenda todo o elfo que se opor a nosso soberano. Independente de quem quer que seja. — finalizou com os olhos vidrados em Argon.

— Sim, meu senhor. — Lúthian assentiu.

— Não tenha medo. — ele sussurrou quando se voltou para Luna. — Ú i vethed… nâ i onnad. — agitou as rédeas e logo o animal cavalgou para longe dali.

Uma fumaça negra subia de Valle e o aspecto da cidade era terrível. A lua escondia-se atrás das nuvens e não brilhou naquela noite.

.o0o.

O vento que soprava do leste batia contra sua barba e a balançava levemente, como se a própria natureza o estivesse alertando, e os olhos do Mago Cinzento fitavam o horizonte com o cenho franzido quando um calafrio subiu por sua espinha.

— Algo o perturba. — a voz de Elrond soou no momento em que este adentrou o pátio e se colocou a seu lado.

— Sinto que alguma coisa acontece sob as sombras da noite. — ele apertou seu cajado, intrigado.

— Tudo isto por sentir a brisa? — o senhor de Valfenda brincou quando também passou a observar o horizonte.

— Não é preciso esperar que a chuva caia para se proteger da água, meu amigo. Fite o céu momentos antes do temporal e você verá as nuvens lhe dizendo o que logo acontecerá. — Gandalf respondeu com a expressão inalterada. — Os sinais, devemos ficar atentos aos sinais…

— Você desconfia de algo? — Elrond agora estava sério.

— Não tenho certeza do que sinto — ele fez uma pausa. — mas acho que devo visitar nossos amigos do leste. Irei a Erebor, contudo, visitarei primeiro a Floresta das Trevas. Apenas para ter certeza.

— Certeza de quê?

— De que nada está fora do normal, meu amigo. — sem esperar resposta, o mago se retirou.

O senhor de Valfenda apenas suspirou contrariado enquanto balançava a cabeça negativamente.

— Diga-me quando alguma coisa está dentro do normal neste mundo, Gandalf.

.o0o.

— Sigrid, onde está sua irmã? — ele indagou apressadamente.

— Está dentro de um dos salões, mestre Balin a levou para junto das outras crianças! — a jovem o respondeu enquanto limpava o ferimento de um dos homens, este que gemia de dor.

Incomodado pela cena, o arqueiro apenas assentiu e então seguiu em direção à outra parte da montanha. Ele caminhou por entre os largos corredores e observou todos os feridos e amedrontados, não conseguindo evitar a própria lembrança dos primeiros momentos da tragédia. Seu esforço quase desumano para manter seus filhos em segurança ainda ardia na forma de uma queimadura em suas costas.

Luna!

Bard sentiu uma onda de furor invadir seu coração apenas com a menção daquele nome.

Como pudera devotá-la tamanho sentimento e ser retribuído de tal maneira? Ele não conseguia aceitar, não podia aceitar. Como ela pudera fazer isto a Valle? Participar de tal atrocidade? O arqueiro queria poder olhar em suas pedras azuladas apenas para lhe dirigir o rancor que agora carregava. Ele havia confiado na elfa cegamente e, no fim, ela o traíra!

Bard ouviu o som do Portão Dianteiro ser aberto e logo vozes ecoaram da mesma direção. Não podendo se conter, ele correu apressado junto aos anões que encontrava pelo caminho e rapidamente um aglomerado estava formado na entrada da montanha.

— Para trás! Para trás! — Dwalin exclamou enquanto penetrava a multidão acompanhado de sua guarda.

O arqueiro aproveitou a chance e se juntou ao grupo, o que o permitiu avistar o centro do tumulto com mais rapidez. Ele pôde distinguir as faces dos homens enviados para as buscas, mas não encontrou Elros entre eles.

— O exército élfico se retirou de Valle! — um deles anunciou e logo toda multidão passou a festejar alegremente.

— Mande soldados à Esgaroth e montem guarda. Que aqueles vermes encontrem a morte caso voltem às nossas terras! — Dwalin conversava com um de seus subordinados.

— Mas, meu senhor, e se for exatamente isto que planejam? — indagou o anão.

— Eles nos deram a palavra de que retirariam suas tropas. — um dos homens do grupo relembrou.

— Elfos não têm palavra. — cuspiu Dwalin.

— Levaram algo como garantia, não creio que quebrariam a promessa.

— Garantia? Como assim? — Bard indagou após se interessar pelo rumo do diálogo.

O semblante do homem se tornou entristecido e todos os outros que estavam consigo cessaram os sorrisos de alegria.

— Saímos daqui em grande número, mas os elfos são tão habilidosos com a espada quanto qualquer outro povo existente em Arda. Não demorou até que nosso esquadrão fosse reduzido a um pequeno grupo de homens despreparados e amedrontados. — ele fez uma pausa. — Mestre Elros disse que procuraria por sobreviventes nas ruas principais enquanto nós deveríamos esperá-lo em um pequeno beco ao sul da praça central.

— Estávamos cercados e seríamos aniquilados se a senhora dos elfos e mestre Argon não tivessem aparecido e lutado a nosso favor. — outro completou.

— Luna… — Dwalin murmurou.

— No final, acabamos todos presos, inclusive mestre Elros. — uma comoção se iniciou no grupo de homens e estes acenderam em furor diante das lembranças. — E nós o perdemos. Ele foi morto pelo líder do exército, Eruwen.

Um silêncio absoluto se formou.

— Elros está morto? — Bard indagou com expressão de incredulidade e então passou uma das mãos sobre a face abatida. — O corpo, onde está o corpo?

— Não sabemos ao certo, os elfos o levaram logo após sua morte.

E Luna, onde ela estava nisso tudo? — uma voz em meio à multidão indagou e logo todos iniciaram um protesto.

— Valle não estaria em paz neste momento se não fosse pela senhora dos elfos.

— Como assim? — Dwalin questionou após lançar um olhar de reprovação para as pessoas que os cercavam.

— Apesar de todo o ocorrido, mais uma vez ela nos provou que é digna de nossa confiança. — murmúrios foram ouvidos. — Eruwen nos disse que as tropas bateriam em retirada se Luna fosse com eles ao encontro do rei da Floresta das Trevas, caso isto não ocorresse o massacre continuaria.

— Ela foi levada? — o capitão estalou a língua entre os dentes. — E Lúthian? Argon?

— Lúthian estava do lado de seu povo, mas mestre Argon se opôs a eles e foi levado preso sob a acusação de traição. Isto é tudo.

Mais uma vez houve silêncio, no entanto, nada era mais gritante do que a culpa pelas acusações desmerecidas.

— Vou atrás dela… — Bard se pronunciou e fez menção em se retirar, mas foi contido por uma das mãos de Dwalin.

— Ninguém vai atrás de ninguém. — o anão ordenou.

— Luna se arriscou por todos nós!

— Foi uma escolha dela! — o arqueiro mais uma vez tentou sair e foi segurado pelo amigo. — Você deve ficar aqui, com o seu povo. — ele comprimiu os lábios. — Não seja teimoso, Bard!

— E o que você espera que eu faça? — ele se agitou. — Se aquele covarde teve coragem de mandar incendiar uma cidade inteira repleta de inocentes, o que não fará com ela?

— É o ódio que fala por você, acalme-se! — exclamou o anão. — Pense nos seus filhos. Aquelas crianças devem estar apavoradas neste momento, precisam do pai para se sentirem seguros. Pense neles!

O arqueiro estava relutante, no entanto, não havia como lutar contra aquele argumento.

— Não há palavras que possamos usar para agradecer Luna por seu sacrifício, seu ato não será esquecido. — Bëor iniciou ao se revelar em meio à multidão. — Porém, estamos derrotados e incapacitados de ajudá-la. A sorte está lançada, só nos resta esperar…

Notas finais
Gen u-velin, nin gwerianneg - Eu te odeio, você me traiu Hiro hyn hîdh ab ‘wanath - Que eles encontrem paz depois da morte Mae govannen - Bom te ver Ú i vethed... nâ i onnad - Este não é o fim... é o início ...