I See You

17 Capítulo 17


Notas iniciais
Amores! ♥

O eco de seus passos ressoava pelo corredor e, por conta do silêncio, o pisar de Luna se tornava um estrondo, exatamente como o som de trovões em uma tempestade. A elfa fitava cada pedaço do caminho sem uma real atenção e todos os seus movimentos eram automáticos, como se ela estivesse literalmente fora de si, como se estivesse impossibilitada de se reconectar com a parte dominante de sua própria mente.

Ela crispou os lábios ao ter sua expressão tomada pela confusão e contrariedade, era absolutamente terrível se sentir daquela maneira.

Cautelosa e envergonhada, Luna havia se deparado com a solidão após despertar nos aposentos reais naquela manhã; nada de Thranduil ou qualquer sinal de que ele havia estado ali. Como um fantasma, uma sombra, um personagem de sua imaginação… e, por alguns segundos em seu confuso despertar, ela se sentiu louca, ou era apenas desorientação?

Luna não parou para qualquer análise que sua mente pretendesse iniciar, apenas se vestiu com o vestido deitado a seu lado na cama e saiu dali o mais rápido que pôde.

A chefe da guarda não percebeu quando passou a caminhar pelo palácio, pois estava infinitamente perdida no mar de seus pensamentos. Ela se desprendeu do mundo exterior e se deixou guiar pelos passos ritmados de seus pés.

Um arrepio percorreu seu corpo e Luna tocou o próprio pescoço, permitindo com que as lembranças invadissem sua mente como um turbilhão que não poderia ser contido. Aquilo a estava assombrando, torturando-a lenta e dolorosamente…

Arfou angustiada.

O que aconteceria dali em diante? Seu coração batia disparado, enlouquecido pela culpa e ao mesmo tempo encharcado pelo anseio. A elfa repudiava o fato de ter se entregado, de ter permitido com que ele a tocasse de maneira tão íntima. Ela era uma vergonha a seus antepassados, uma desonra, uma fraude.

Luna teve vontade de libertar todas as lágrimas contidas, como as águas de uma represa miseravelmente destruída. Ela abria e fechava as mãos, repetidas vezes, como um meio de cessar o formigamento entre seus dedos. A suave e quase inexistente voz em sua cabeça a acusava de maneira cruel enquanto as imagens da noite anterior preenchiam sua mente sem o seu consentimento.

O que raios estava acontecendo consigo?

A elfa estava dividida, seus preceitos e convicções já não eram tão fixos e indiscutíveis. Sua crença antes absoluta em si mesma agora se tornava desfocada, transparente. Ela jurara ódio e desprezo a Thranduil, mas, agora, não sabia o que pensar.

Tudo havia mudado radicalmente…

Seu corpo inflamava com as marcas dos beijos dele ao mesmo tempo em que sua alma suplicava pela misericórdia do esquecimento. Ardiam, os lábios dela ardiam como labaredas de um vulcão em erupção. Ele a fitara com a profundidade do mar, com a leveza dos céus, tudo enquanto a apertava junto a si. E ela jamais imaginara que seu rei sequer fosse capaz de ter um olhar diferente do frio e petrificante que eriçava os pelos de sua nuca.

Luna tentava de todas as formas esquecer, não se permitindo pensar ou ponderar sobre o que ocorrera. Porém, ainda fluía em si o desejo que a tomara, que a fizera se entregar e, mesmo negando veemente para sua própria consciência, ela não era tola. Podia ouvir o som da voz profunda de seu senhor ser reproduzida por sua memória de forma impactante. Sua pele antes alva agora estava marcada, marcas deixadas por ele, e elas falavam por si mesmas. Então, acossada dentro do indisfarçado conflito, a elfa recorreu à fuga.

De seu rei, de sua terra natal, de si mesma…

Ela certamente não tentaria compreender os motivos do elfo, pois as alternativas dadas por seu bondoso e fraco coração eram infinitamente descabidas e impossíveis de serem verdadeiras. Não, seu senhor não fora movido por nenhum sentimento melódico, e Luna sabia disso. Na verdade, por que justificaria suas atitudes quando ele mesmo não se dava ao trabalho de fazê-lo? O rei era um enigma que ela não estava disposta a decifrar.

Deu de ombros e riu de si mesma.

A elfa sabia que não deveria perder seu tempo, não quando tinha certeza de que Thranduil não estava passando pelo mesmo infortúnio. Mas, e se estivesse? Ela balançou a cabeça negativamente, dizendo a si mesma que não esperasse nada.

Sem expectativas, sem decepções.

Luna o sentira verdadeiramente, sentira sua alma e seu coração. Não havia indiferença em seus olhos ou indícios de sua antipatia, e, mesmo que sua arrogância estivesse intacta, ela pôde realmente enxergá-lo pela primeira vez. Vira através de sua armadura, por uma brecha minúscula e quase inexistente, e havia algo em seu interior. Algo vivo, porém, durante muito tempo, adormecido.

Sua precipitação era inevitável, mas estava inquieta, surpresa… encantada.

Desfazendo-se da ordem original de sua razão, Luna encontrou um desejou íntimo de compreendê-lo. Ela estaria enganada em seu conceito sobre seu soberano? Como um mar de águas turbulentas, a elfa sabia que ele era indomável. Mas a tempestade é justificada pela inquietação das águas nas nuvens do céu, então, qual seria a justificativa para o modo de agir do rei da Floresta das Trevas?

Ela voltou a balançar a cabeça negativamente e deu o entrave em seus pensamentos por encerrado, o que foi inútil. O mesmo era continuado de forma automática por sua própria consciência, esta que estava intrigada no enigma daquele que agora encontrava-se no centro de sua atenção.

Luna sempre voltava para a noite anterior, com flashes de algo tão longe e, ao mesmo tempo, tão perto. Ah, sim, as lembranças ainda eram vívidas em sua mente, tanto quanto o caminho diante de seus pés. As paredes do corredor pareciam querer prensá-la, como castigo para seu delito. E, no fim, a chefe da guarda se viu encurralada por uma questão cuja fuga era inevitável:

Como olharia nos olhos de seu rei?

Não, não conseguiria!

A elfa andou mais depressa e o pensamento de liberdade lhe assediou a mente, como águas ávidas pela independência do mar. Mais e mais ela se viu próxima de seu destino e não respondeu aos cumprimentos que lhe eram dirigidos, o que a fez ser observada por muitos olhares curiosos. Luna chegou à ala principal e desceu algumas escadas, fazendo menção em seguir para a saída, mas uma voz deteve seus passos:

— Minha senhora! Lórien cumprimentou-a de maneira cordial, aproximando-se e fazendo uma leve reverência.

Ela se voltou para a guardiã das fronteiras com um olhar contrariado, mas tratou de camuflar seu descontentamento.

Aiya, Lórien! a saudou com uma expressão neutra.

— Fui informada de sua chegada por meu esquadrão, e como está Valle? Suponho que tudo esteja indo de acordo com seus planos. disse alheia ao incômodo de Luna.

— A cidade está estável e os conflitos se encontram no passado. ela se limitou a responder. Na verdade, se me der licença, estou retornando neste exato momento. fez menção em se retirar.

— Creio que isto não será possível. seus olhos azulados voltaram-se para a figura de Lórien, curiosos. Sua Majestade a convocou. A senhora deve ir até a Sala do Trono, imediatamente.

A elfa mantinha um semblante sério e altivo, quase inalterado, mas por dentro sentia-se estremecer. Sem dizer mais nenhuma palavra, Luna assentiu e assistiu a guardiã das fronteiras se curvar suavemente e então se retirar.

Sozinha com os próprios pensamentos, ela se perguntava o que faria e como o encararia depois de tudo. Gotículas de suor começaram a se formar em sua fronte e suas mãos estavam frias.

Mesmo contrariada, fugir já não era uma opção.

.o0o.

— Vossa Majestade. Luna disse ao fazer uma leve reverência, se apresentando em frente ao trono onde Thranduil a fitava com sua expressão gélida e impassível.

A elfa sentia os pelos de seus braços eriçassem e suas mãos estremecerem, e ela permaneceu detida em sua reverência, com os olhos fixos no chão, como qualquer súdito diante de seu soberano. Seu peito subia e descia de maneira lenta enquanto controlava sua respiração e disfarçava seu desconforto.

A áurea pesada do ambiente era quase palpável, e algo em seu interior a alertava de que aquilo não terminaria bem. Nada bem.

— Você estava de partida… a voz de Thranduil soou de forma apática. não me lembro de ter consentido com isto.

— Tenho assuntos não acabados em Valle, meu retorno para a cidade dos homens é necessário, meu senhor. ela argumentou.

O rei voltou ao silêncio e aquilo a causou uma irritação irremediável. Luna odiava quando ele se tornava tão imprevisível.

— Está fugindo? indagou com cinismo. Interessante.

— Creio que não tenho motivo para tal atitude. ela retrucou com rispidez. Tenho? desafiou-o quando, enfim, ergueu os olhos para fitá-lo diretamente.

O elfo sorriu debochado.

— Não cabe a mim respondê-la, esta é uma questão sua. fez uma pausa. Particularmente, isto não me interessa. Thranduil arqueou uma de suas sobrancelhas e deu de ombros. Não a convoquei para um interrogatório.

Ela franziu o cenho.

— Algum problema com a segurança do reino durante minha ausência?

— Também não é sobre o reino que desejo falar. exclamou indiferente enquanto voltava a massacrá-la com seus olhos. Ele ergueu uma das mãos em uma ordem muda para que seus guardas se retirassem, e eles assim o fizeram.

— Meu senhor…? a elfa foi cortada pela expressão sombria e descontente do loiro.

— Eu já vivi muitos séculos, Luna, e assim vi o mundo se transformar a cada novo alvorecer. Você também sabe, os anos se vão como folhas secas levadas pelo vento. ele desviou o olhar, passando a observar cada ponto de sua Sala do Trono. O tempo dá a todos parte de seu tesouro, e a mim foi concedido tudo que tenho hoje. fez uma pausa. A outros ele deu uma nova perspectiva, deu esperança. Uma chama quase apagada, porém, renovada no último resquício de uma fagulha.

Luna sentia sua respiração pesada.

— Não compreendo o que deseja dizer, meu senhor. exclamou confusa.

— Eu não sou assim. Thranduil foi direto, cravando seus olhos gélidos nela. Não vejo esperança no mundo e me apego a certeza de que este pensamento perpetuará eternamente. ele adotou uma expressão desgostosa. Mesmo o seu coração puro e bondoso não mudará isso, eu não permitirei. o rei ergueu-se de seu trono com sua postura ereta e elegante. Me deleito em minha dor, sacio minha sede em meu próprio sofrimento e me alimento do que sobrou da vida dentro de mim mesmo.

A mente de Luna trabalhava a mil.

— E o que tenho eu com isto?

Thranduil lhe dirigiu um sorriso fraco e cruel, seus olhos azulados pareciam congelados e sua expressão era indescritível.

— Tudo. se limitou a responder, com se todas as questões fossem resolvidas pela simples palavra. Você não serve para mim, Luna.

Aquilo a fez recuar um passo e franzir o cenho.

— O que disse?

— Eu jamais prometi coisa alguma. ele era tão frio em suas palavras, tão impassível.

A elfa estava confusa, sem saber o que responder. Aquilo era alguma espécie de chacota? Ele estava brincando com ela?

— Não consigo compreendê-lo. Luna sussurrou.

— Então pare de tentar. respondeu e voltou a se sentar em seu trono.

— Está dizendo que o que fizemos foi um erro, e disso não tenho dúvidas. Mas, como ousa me culpar? Colocar sobre mim todo peso? O peso de algo que você mesmo iniciou.

— E preciso? indagou com seu tom encharcado pelo sarcasmo e indiferença. Ele a insultava pela mera forma apática de se portar.

— Por que se sujeitou a tal atitude se o arrependimento seria inevitável?

Thranduil ponderou.

— Talvez porque eu precisasse provar algo a mim mesmo.

— E a que conclusão chegou? Luna fechou as mãos em um punho, como válvula de escape para não se prestar a um ato grotesco do qual iria se arrepender.

— Que não há mais ninguém neste mundo que possa me fazer sentir algo outra vez. respondeu-a de forma indiferente. Confesso que sua petulância me interessa. A sua coragem, mesmo sendo motivo de irritação para mim, me atrai. ele a fitou de cima a baixo, não importando-se com o efeito de suas palavras. Nada mais que isso. O desejo se torna algo anódino quando saciado, e eu creio que não terei problemas com ele outra vez…

Ela entreabriu os lábios, horrorizada. Seu cenho franzido denunciava sua indignação, mas, ainda assim, Luna não pronunciou nenhuma palavra. Seus olhos brilhavam pelas lágrimas contidas, mas a elfa não as derramaria, não! O sentimento de humilhação só era vencido pela dor de seu coração partido, este que sangrava como uma ferida recente e profunda. Mas a chefe da guarda ergueu o queixo e o fitou de igual para igual, o orgulho a mantinha de pé.

— Então foi por isso… ela iniciou com um sorriso forçado. fico realmente feliz que tenha esclarecido suas dúvidas. completou com ironia. Luna ergueu o dedo em riste, na direção do rei, sentindo seu sangue borbulhar em suas veias. Por uma noite, por uma maldita noite, você me enganou. ela desviou o olhar, recuperando o controle, e então voltou a fixar suas íris nas de seu senhor.

Thranduil fez menção em tomar a palavra, mas Luna apenas continuou:

— Pensei ter ouvido um coração bater, mas não era uma batida, era um eco. ele estreitou os olhos para aquela afirmação, esforçando-se para manter sua firmeza. Quer saber a verdade? Esta coroa em sua cabeça é apenas um objeto, um símbolo. Sem ela você não passa de um sopro, uma sombra débil e obtusa. Eu não o odeio, tampouco o desprezo. É mais que isso… respirou fundo. eu sinto pena de você. Pena! Luna endureceu sua expressão e fez menção em se retirar. Continuarei em meu ofício por respeito a meu juramento e amor a meu povo, mas, você… você não é mais um rei para mim. finalizou entredentes.

O elfo curvou sua cabeça e escondeu o olhar, tudo como se o rosto de Luna o queimasse. Com voz profunda e desprovida de qualquer vitalidade, ele disse:

— Se eu me moldar a cada opinião alheia com o intuito de agradar serei apenas um produto do nada e uma mistura de coisa alguma, onde terei tudo de todos e nada de mim mesmo. fez um gesto com a mão. Agora saia daqui.

A chefe da guarda respirou suavemente, não suportando sequer permanecer em sua presença. Após um último olhar infestado de ressentimento, ela deu as costas para o trono e sentiu o rei fitá-la em todo seu percurso até a saída.

Luna não sabia o que pensar, não sabia o que sentir. Tantos pensamentos invadiram sua mente e ela sentiu que ia chorar, mas se conteve. Aquele não era o lugar para agir com fraqueza. Então, com um esforço surreal, a elfa se concentrou em ir para longe, o mais longe que seus pés a levassem.

Notas finais
Aiya - Olá ... Na verdade, “Olá” em sindarin é “A”. Porém, presando a estética da frase, nós preferimos usar “Aiya”, que pertence ao quenya mas tem o mesmo significado.