I See You

28 Capítulo 28


Notas iniciais
Amorecos! ♥

Eles andaram a manhã inteira em silêncio, e o sol do meio dia já ardia sobre suas cabeças quando enxergaram o rio Greylin — que nascia aos pés das Montanhas Cinzentas. Quando seus olhos repousaram sobre as águas aparentemente frias, Thranduil assumiu uma expressão mais neutra e suspirou aliviado por terem chegado até ali em segurança, apesar do cansaço e da jornada incessante.

Quando se aproximaram da margem ele ergueu a cabeça e visualizou o outro lado, sabendo que quando atravessassem deveriam continuar indo para o leste, até o início do Rio da Floresta.

Não havia campos ou cavalos indomados por aquelas terras, tudo era solitariamente fechado e mesmo a relva parecia desprovida de alguma cor significativa. Definitivamente, seguir a pé era um meio lento de chegar até seu reino, apesar da explícita velocidade com que percorriam o caminho.

Thranduil avaliou rapidamente o local e então se agachou à beira das águas. Ele uniu suas mãos em concha e as afundou no rio para saciar sua sede e molhar parte do rosto e pescoço, o que minimizou os efeitos do calor. Quando voltou a se pôr de pé, ele sentiu a presença de Luna um pouco atrás de si e a fitou por cima dos ombros.

— Beba! — aconselhou. — Ainda temos um longo caminho a percorrer.

Ela acenou negativamente e então suas íris azuladas se fixaram no mesmo ponto que ele; a outra margem.

Havia um peso entre os dois e o rei da Floresta das Trevas não poderia estar mais arrependido de ter despejado toda sua dor, o que nunca fizera. Ele baixou os olhos para seu reflexo na água e questionou o fato de não conseguir se reconhecer.

Luna pigarreou e interrompeu seus pensamentos.

— Perdoe a minha intromissão na noite passada… — ele a cortou.

— Você é e sempre será intrometida. Não perca seu tempo se desculpando por algo que fará de novo.

— Eu realmente sinto muito por ter tocado em um assunto tão particular, mas preciso lhe dizer que saber de tudo aquilo me fez compreendê-lo um pouco melhor. — os olhos azulados de Thranduil a fitaram de esguelha.

— Não espere que eu a parabenize por esse feito. — ele foi extremamente rude, mas a verdade era que não tinha nenhum interesse na conversa que a elfa aparentemente pretendia iniciar.

— Então, voltamos ao início? — Luna se aborreceu. — Eu sendo complacente e respeitosa enquanto o senhor é indiferente e rígido?

— Não me lembro de nada respeitoso ou complacente vindo de sua parte. Nunca. — a elfa revirou os olhos.

— Ao menos estou tentando.

— E eu já não lhe disse para parar? — o que mais ele precisava falar para que ela se calasse?

— Não haja como se fosse o único ser a carregar dor em seu coração, a saber o que a perda significa e o quanto ela machuca.

Thranduil apenas deu de ombros e indagou com sarcasmo:

— Você já terminou?

Um suspirou de frustração escapou dos lábios rosados de Luna enquanto ela cruzava os braços em frente ao peito. Depois de um silêncio longo e desconfortável, a elfa resolveu se pronunciar:

— O meu pai era um soldado das fronteiras, e para honrar a memória dele sempre dei o melhor de mim como guerreira. — ela exclamou suavemente, mantendo o olhar sobre as águas do rio. — Ele também lutou quando o reino foi invadido, mas, infelizmente, o ataque de um dos Orcs foi mais rápido do que a flecha de seu arco. — os olhos deles se encontraram. — Minha mãe ficou inconsolável, e eu ainda consigo me lembrar da tristeza profunda em sua face… — Luna curvou a cabeça, escondendo seus olhos lacrimejados de Thranduil. — ela foi consumida pela dor e pela perda, e não desejou mais esta vida. Um dia, seu espírito abandonou seu corpo e ela partiu para os Salões de Mandos, para encontrar-se com meu pai. Eu e Annchir ainda éramos muito jovens quando isso aconteceu. — ele esperou alguns segundos e então decidiu se aproximar dela, fazendo-a fitá-lo nos olhos.

— Luna… — Thranduil tentou dizer, mas foi interrompido.

— Eu posso compreender a sua dor — ela fazia pausas em sua fala, tomando fôlego suficiente para não se entregar as lágrimas. — meu senhor não foi o único que perdeu alguém importante naquele dia, ou depois disso.

Sua face estava corada a ponto de realçar seus olhos azulados e seus lábios rosados. Thranduil ergueu uma de suas mãos para tocar o rosto de sua chefe da guarda e, assim que seus dedos entraram em contato com a pele dela, Luna fechou os olhos.

Uma onda percorreu seus corpos e, por um minuto inteiro, eles se esqueceram de onde estavam ou qualquer coisa fora daquele momento.

O rei prendeu um suspiro.

Quanto tempo fazia desde que repousara seus olhos sobre ela pela primeira vez? Quanto tempo fazia desde que a tocara pela primeira vez? Em certas ocasiões, Luna tinha o poder de fazê-lo se esquecer de tudo que havia vivido — como se sua memória começasse a trabalhar somente a partir do momento em que ela adentrou sua Sala do Trono, com as mãos trêmulas e a cabeça curvada.

Luna lhe parecera um pássaro, sim, um pássaro que ele jamais conseguiu controlar ou engaiolar. Ela havia sido intransigente e incansável desde o primeiro momento, o que foi muito diferente de toda a submissão e paparicos a que estava acostumado.

O rei fez menção em cessar o toque e, no mesmo instante, viu os olhos dela o fitarem com um ar questionador.

— Por que age desta forma? — a voz de Luna soou fraca, quase ressentida.

— De que forma?

— Vossa Majestade é normalmente indiferente, amargo, sarcástico e às vezes cruel. — ela não tinha nenhum receio em dizer o que pensava sobre ele e Thranduil quase sorriu com aquilo, quase. De uma hora para outra é tão suave e sincero, sinto como se pudesse ouvir seu coração bater e penso que sua alma está tão perto de mim que eu seria capaz de tocá-la se apenas erguesse a mão.

— Achei que tivesse dito que eu não tenho coração… — ele a relembrou com uma ponta de humor.

— E eu achei que o desejo se tornasse algo anódino quando saciado, e que o senhor não teria problemas com ele outra vez. — Thranduil ouviu as próprias palavras serem jogadas contra sua face enquanto Luna se desvencilhava de seu toque e desfazia qualquer proximidade entre eles. — Esqueça, foi apenas uma ponderação.

O elfo cerrou os olhos e fechou as mãos em punho.

— Achei que tivesse compreendido o real sentido de minhas palavras ontem, quando lhe contei todas aquelas coisas. — ele exclamou ao se voltar rapidamente, segurando um dos pulsos da elfa e a fazendo fitá-lo com surpresa.

— E eu compreendi, já disse! — ela reafirmou em alto e bom som. — A dor em seu coração é totalmente inteligível, só me é desconhecido o que isto tem a ver com suas palavras cruéis depois de termos… — Luna parou sua exclamação no mesmo instante, dando-se conta do que estava prestes a dizer.

Thranduil ergueu uma das sobrancelhas.

— Depois de termos o quê, Luna? — indagou friamente. — Depois de tê-la tocado? De tê-la feito minha? — ela quase podia sentir a intenção maldosa; ele queria atingi-la.

A chefe da guarda se remexeu e assim conseguiu se livrar do toque de seu soberano, fitando-o completamente furiosa.

Eu não sou sua! — exclamou entredentes.

O rei da Floresta das Trevas sorriu de canto, quase petrificando-a com seu olhar gélido e impassível. Mas, no fundo, ele estava ofendido.

— E a quem você pertence? A Bard? — o nome escorregou de seus lábios coberto de desgosto e furor. — Você o ama, Luna? Ama aquele mortal? Não quis voltar para o seu reino por ele?

Um silêncio glacial reinou entre ambos e a batalha entre os olhares era intimidadora. A elfa se aproximou o suficiente, com sua respiração batendo contra o peito de seu rei, e então respondeu:

— Certamente que não. — seu tom de voz era baixo e áspero. — Porém, ainda que eu varresse toda a Terra Média ou a própria Aman com meus olhos, ele seria o único a realmente merecer o meu coração. E eu o daria de bom grado se pudesse. — o semblante de Thranduil era sombrio. — Não que isto lhe importe, Vossa Majestade foi bem claro no que me disse naquele dia… — ela foi interrompida.

— Luna…

— Não! Eu não desejo ouvir nada. O senhor — ela ergueu o indicador e o encostou no peito do elfo. — me usou para provar algo a si mesmo. E ainda que a sua razão para fazê-lo não me interesse nem um pouco, nada modifica ou diminuiu aquilo que me causou.

Thranduil tentou falar de novo, mas Luna não o permitiu se manifestar.

— Eu me entreguei e no dia seguinte o ouvi dizer que não lhe servia. — a elfa disse com deboche, frisando sua mágoa. Finalmente tinham chegado àquele ponto. — Nunca vou esquecer as suas palavras, nunca! — sua respiração estava pesada e ela o perfurava com seu olhar. — Não tem nada a dizer? An? — insistiu ao inclinar a cabeça, e então sorriu com ironia. — Eu sabia.

Luna o deu as costas e se preparou para atravessar o Greylin, que era extremamente calmo naquele ponto e não dificultaria o plano dos elfos.

— Eu estava enganado. — ela estagnou ao ouvir aquela resposta e ele tratou de passar por si e tomar à dianteira, fazendo exatamente o que Luna pretendia segundos antes.

A elfa observou suas costas largas por longos minutos até se dar conta de que Thranduil já estava quase do outro lado da margem, o que a fez acordar abruptamente de seus devaneios. Ela piscou várias vezes, suspirou e então começou a refazer os passos de seu rei.

Eu estava enganado.

A frase ecoava em sua mente e despertava uma dúvida cruel, e Luna se indagava sobre o que ela significava.

Aquela conversa, definitivamente, não havia acabado. Tanto ela quanto Thranduil estavam cientes disso, mesmo que preferissem adiar o momento por conta do orgulho em seus corações.

.o0o.

Ele caminhava rapidamente por entre os corredores, tentando ignorar os olhares preocupados e vacilantes que recebia. Aquela altura, todo o povo já sabia o que verdadeiramente havia acontecido ao soberano da Floresta das Trevas, e o lamento das servas ecoava pelas paredes do palácio. Nem mesmo os pássaros, amigos dos elfos silvestres, cantavam naquele dia — compadecidos pelo sofrimento do povo de Thranduil.

Elenor teria ido à Erebor no instante em que descobriram a farsa de Eruwen e Annchir, para pedir auxílio aos anões, mas Mithrandir o havia impedido. O Mago Cinzento o convencera a esperar um pouco mais, o convencera a fortificar as defesas do reino para impedir qualquer ataque inesperado do inimigo. Se eles fossem sair do palácio deveriam deixá-lo devidamente protegido, pelo bem do povo.

Lórien — que fora ao reino de Celeborn — havia deixado Argon responsável pelas fronteiras, e Elenor tinha sido estritamente claro ao ordená-lo: “qualquer movimento estranho além dos nossos limites deve ser averiguado e, se necessário, aniquilado.”

A Floresta das Trevas já havia passado pelo infortúnio da tragédia e o capitão, na ausência de seu senhor, deveria impedir que aquilo acontecesse outra vez.

Sua Majestade… lembrar-se dele o fazia se sentir um fracasso. Era seu dever proteger o soberano, e ele falhara. De novo. Mithrandir percebia aquela frustração e tentava confortá-lo ao dizer que Thranduil era mais valioso vivo do que morto, e que nada aconteceria a ele enquanto os planos do inimigo — que ainda não haviam sido revelados — não tivessem entrado em ação.

— Aranir. — Elenor chamou assim que adentrou o local onde os estrategistas do exército da Floresta das Trevas se reuniam para discutir o melhor plano para invadir Gundabad.

O soldado ergueu a cabeça no momento em que escutou seu nome ser chamado e tratou de se aproximar.

— Senhor. — ele fez uma mesura.

— Tenho uma tarefa de extrema importância para você. — os olhos do jovem elfo ficaram atentos. Seus cem anos eram evidentes em seu rosto ansioso por novas aventuras. — Quero que vá ao encontro do príncipe Legolas e o conte sobre os últimos acontecimentos. Diga que nós precisamos de sua presença aqui — Elenor respirou fundo. — para o caso das coisas piorarem. Leve Merida e Beleg com você, e sejam rápidos.

— Sim, meu senhor. — o elfo assentiu e se retirou apressadamente, todos sabiam que não havia tempo a se perder.

Notas finais
"...os olhos do jovem elfo ficaram atentos. Seus cem anos eram evidentes em seu rosto ansioso por novas aventuras." Como dito na frase de Elenor, Aranir ainda é um elfo jovem — mesmo com cem anos. Não é segredo para nós, amantes de Tolkien e suas obras, que os elfos tem um ciclo de vida diferente dos homens. A puberdade dos Primogênitos acontece entre seus cinquenta e cem anos. Aos cinquenta eles atingem sua estatura adulta e aos cem estão completamente desenvolvidos. Site Valinor: https://www.valinor.com.br/8247 ...