I See You
27 Capítulo 27
Notas iniciais
— Mae tollen, Mithrandir! — os raios do sol da manhã reluziram nos cabelos castanhos da elfa quando ela se curvou para saudá-lo.
— Lórien! — o mago retribuiu o cumprimento ao se voltar para a guardiã das fronteiras. — Corrija-me se eu estiver errado, mas, sinto o ar mais pesado que o normal, mesmo para a temida Floresta das Trevas.
A elfa engoliu em seco.
— Se me permite perguntar, o que o traz a nosso reino? — ela ignorou a afirmação do cinzento e acenou com a mão, convidando-o a segui-la até o palácio.
— O de sempre. — ele respondeu e então ambos passaram a caminhar em direção aos portões da grande fortaleza dos elfos silvestres. — Lembrei-me de que tenho assuntos pendentes com Thranduil que cobram total atenção.
— Bem, creio que tenha dado viagem perdida. Sua Majestade, o rei Thranduil, não se encontra em nosso reino. — Lórien fez uma pausa. — Desconfio que sua vinda tenha por motivo os últimos acontecimentos.
O mago ergueu uma de suas sobrancelhas enquanto apoiava o cajado no solo para ajudá-lo no caminho tortuoso da floresta.
— Do que você está falando? — questionou intrigado.
A elfa estagnou inesperadamente, voltando-se para o cinzento com a face inexpressiva.
— Vou levá-lo até Elenor, ele foi designado para cuidar do reino na ausência do rei… — respondeu e então voltou a caminhar apressadamente. — ele saberá o que lhe dizer.
Mithrandir assentiu e respirou fundo, estando completamente convencido de que sua decisão de visitar o reino do leste havia sido mais do que excelente.
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— Seja bem-vindo, meu amigo! — Elenor veio a seu encontro com um sorriso gentil. — Lamento dizer, mas, nosso soberano se encontra ausente.
— Sim, sim, já fui informado disso. — o mago balançou a mão com impaciência enquanto a outra segurava o cajado firmemente. — Contudo, não é mais sobre este assunto que desejo falar.
O capitão automaticamente dirigiu sua atenção para Lórien, esta que os observava em silêncio no canto do recinto. Ela sustentou seu olhar com seriedade, dando a resposta que ele buscava naquele ato tão singelo.
O cinzento percebeu o diálogo silencioso.
— Eu sou leal a meu rei, Mithrandir. Porém, confesso que esta é uma situação extremamente apelativa. — Elenor proferiu com pesar em sua voz.
— Pelos céus, digam logo o que está acontecendo. Eu detesto ser o último a saber das coisas. — ele bateu seu cajado contra o chão e o som do impacto se propagou como um estrondo pelo recinto.
O elfo apenas suspirou.
— Primeiramente, eu preciso que faça uso da sua sabedoria. Escute-me com atenção e tente encontrar a falha em toda essa história, você perceberá que muitas peças não se encaixam bem. — ele pediu com seu melhor tom. Dentre todos os servos do rei, Elenor era o mais gentil.
— Diga o que tiver para dizer Elenor, filho de Eruvadhor, e deixe para mim o trabalho de julgar se a sua história é coerente ou não. — Mithrandir se apoiou no cajado e ergueu uma de suas sobrancelhas, fitando o amigo fixamente.
— Tudo começou quando a antiga aliança entre os elfos da Floresta das Trevas e os anões de Erebor foi refeita. Dáin concederia a meu senhor suas gemas e o mesmo enviaria uma tropa para resolver os problemas que assolavam a Cidade de Valle. — Elenor iniciou com uma calma quase absurda. O mago e Lórien permaneciam calados. — Tudo estava saindo como o planejado, até Orcs começarem a invadir nossas terras. O mais intrigante em tudo isso é que tais criaturas conheciam os segredos da floresta. — ele se relembrou dos vários entraves que tivera de enfrentar para defender seu reino em meio a escuridão da noite.
Nem mesmo Mithrandir pôde evitar uma expressão de confusão ao ouvir aquilo, era algo absolutamente peculiar.
— Caminhar pela floresta é uma tarefa fatigante para um não residente do reino, quase um suicídio. Você bem sabe o quanto ela pode ser traiçoeira, mas parecia não ser um problema significante para os Orcs. — o capitão fez uma pausa para repousar a mão na própria fronte. — Como solução, meu senhor decidiu que as tropas em Valle e sua líder, Luna, deveriam retornar para auxiliar as defesas de nossas terras.
— Mas ela se recusou. — Lórien tomou a palavra e atraiu todas as atenções para si. — Minha senhora é extremamente decidida, ela não permitiria que a honra do povo da floresta fosse lançada ao vento. Preferiu ficar e finalizar a missão, e eu não preciso dizer o quanto isto desagradou nosso soberano. Ele acabou por ir buscá-la, e levou todo nosso exército consigo. — a última parte havia saído quase como um sopro.
Mithrandir fechou os olhos e contraiu a expressão, como se estivesse prevendo o que logo ouviria. Ele conhecia bem o gênio forte de Thranduil, mas não conseguia aceitar que o filho de Oropher seria capaz de qualquer atrocidade. Infelizmente, o semblante e tom dos outros elfos ali presentes o diziam o contrário.
— O que aconteceu?
Elenor hesitou, mas acabou por contá-lo de uma vez:
— Há dois dias meu senhor saiu do reino e levou consigo o exército, Eruwen e Nathrini, dois de nossos principais capitães. — ele suspirou pesadamente. — Ontem, ao entardecer, um dos elfos voltou com a armada, e também com a tropa alojada na cidade dos homens. — Elenor se referiu a Lúthian e o mago ouvia atentamente cada palavra. — Ele nos contou do ataque a Valle e… — foi interrompido.
— Ataque? — Mithrandir se exaltou ao bater seu cajado contra o chão, estava estupefato.
— Sim, ataque. — Lórien sabia que procrastinar não os levaria a lugar algum. — O que deve ser dito é que aquele povo não teve chance ou tempo para se defender. Nunca pensei que chegaria a falar isso, mas agradeço os anões por terem protegido os sobreviventes atrás das rochas de Erebor. — um silêncio respeitoso se fez no recinto até a elfa decidir continuar. — Segundo a história que nos foi contada, nosso rei não participou do ataque, ele enviou outro em seu lugar.
— Quem, Lórien? — o Maia conseguia sentir a aversão sob o tom contido da guardiã das fronteiras.
— Eruwen, filho de Elöhin e amigo de Luna. Foi ele quem liderou o ataque a Cidade de Valle e é ele quem agora ostenta o título de novo chefe da guarda real, no lugar de minha senhora. — ela quase conseguia ouvir os pensamentos de Mithrandir trabalhando. — Muitos dos nossos não concordaram com a chacina na cidade dos homens e agora são acusados de traição. Um deles é Argon, meu primo, que chegou amordaçado como um cão por seu próprio povo. — a raiva era óbvia na entonação de Lórien, mesmo sua face estando inexpressiva.
Elenor suspirou como se a própria Arda estivesse sobre seus ombros.
— Tudo isso nos foi dito por Lúthian, o elfo que trouxe o exército e a tropa de volta para o reino. — o capitão exclamou enquanto sustentava o olhar profundo do mago. — Ele também disse que Eruwen havia levado Luna à presença de meu senhor para ser julgada. — Elenor fez uma pausa prolongada, tentando passar para o outro toda sinceridade contida em suas palavras. — Ficamos completamente desacreditados dos acontecimentos. E independente dos fatos, eu sei que meu soberano, o rei Thranduil, jamais ordenaria uma atrocidade como esta.
O mago não fez nenhum movimento, apenas perguntou:
— E este Eruwen? Conte-me mais.
— Ele chegou não muito depois dos soldados e terminou de nos contar os acontecimentos. Disse que meu senhor havia ido visitar seu filho, o príncipe Legolas, e que eu havia sido incumbido de comandar o reino em sua ausência. Como Lórien já informou, ele é o novo chefe da guarda real. Meu senhor Thranduil destituiu Luna do cargo. — o capitão finalizou.
— E o que aconteceu com ela?
— Eruwen disse que o rei a levou consigo. Nathrini também não retornou.
Mithrandir permaneceu em silêncio por alguns minutos, ponderando sobre o que havia escutado.
— Eruwen disse, Eruwen disse… eu ouvi muito disto nessa história. — foi a primeira coisa que ele exclamou após assumir uma expressão diferente. — Apesar da teimosia e inconstância de Thranduil — fez uma pausa. — duvido que ele pudesse ordenar um ataque à Valle. O seu rei não é o elfo mais sábio que já conheci, mas também não é nenhum insano.
— Eu avisei, meu amigo, não faz sentido. — Elenor cruzou as mãos atrás das costas.
— E onde está este Eruwen?
— Na floresta, reagrupando a guarda. — Lórien lembrou. — É uma tradição após a entrada de um novo líder.
Os olhos azulados do Maia fitaram a figura da elfa com firmeza.
— Há algo acontecendo e eu suponho que este contador de histórias tenha conhecimento. Lórien, vá buscá-lo. Vamos ver o que ele tem a dizer…
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— Eruwen, filho de Elöhin. — o mago o saudou.
— Mithrandir. — o loiro respondeu ao fitá-lo com uma expressão inalterada, e então se voltou para a elfa. — Eu gostaria de saber a razão para ter sido arrastado até aqui, Lórien.
— Não são as suas dúvidas que devem ser eliminadas, e sim as nossas. — os olhos esverdeados da guardiã se fixaram no semblante confuso do outro. Ela era terrivelmente direta. — Onde está nosso rei, Eruwen?
— Pensei já ter esclarecido esta questão. — o tom de voz dele era calmo e aveludado.
— O que você considera um esclarecimento eu tomo como uma mentira, meu amigo. — Elenor tomou a palavra. — Vamos, não haja como se pudesse esconder algo de nós.
— Verdadeiramente não compreendo o que querem dizer e vejo este interrogatório como um disparate imperdoável. Não posso mais perder meu tempo com isso, tenho tarefas a cumprir. — Eruwen dirigiu um rápido olhar aos presentes no recinto. — Com licença. — deu-lhes as costas e fez menção em se retirar.
Sem alternativas, Elenor curvou suavemente a cabeça — em uma ordem muda — e assim o outro elfo teve seu caminho barrado pelas lanças dos guardas postos na entrada.
— Podemos começar ou eu precisarei tomar medidas drásticas para que você entenda que não escapará desta conversa? — o capitão questionou ríspido.
Eruwen assumiu uma postura de espanto mesclada ao desgosto.
— É uma lástima que venham duvidar da minha integridade. — se defendeu.
— Eu estava ao lado do rei enquanto ele planejava ir buscá-la, Eruwen. E digo com toda certeza em meu coração que o meu senhor não ordenou um ataque àquela cidade. — Elenor fez uma pausa e cruzou as mãos atrás das costas. — Ele tem suas razões para deter de características duras e às vezes incompreensíveis, mas nem tais motivos o fizeram cruel e inescrupuloso, como esta atitude o intitularia. Não o rei que eu jurei seguir e honrar.
— Você se baseia no passado, porém, as pessoas podem mudar. — Eruwen retrucou. — Eu estava lá, Elenor. Foi a mim que ele ordenou que incendiasse a cidade.
— E Nathrini? — Mithrandir resolveu se pronunciar. — Por qual motivo Thranduil usaria um capitão inexperiente para liderar um ataque dessa proporção se poderia simplesmente enviar um de seus principais? Melhor, por que ele mesmo não foi ao ataque? — o mago apertou o cajado entre os dedos. — Não é do caráter do rei da Floresta das Trevas usar bodes expiatórios.
— Sua Majestade é imprevisível, não há como justificar suas ações quando eu particularmente não as compreendo. — Eruwen crispou os lábios. O olhar do Maia era profundo, como se este desvendasse todos os segredos de seu coração. — Eu não sei o motivo dele ter me enviado, apenas obedeci.
— Você consegue imaginar como suas afirmações soam desqualificadas? — Lórien questionou. — Sua total falta de vergonha em difamar nosso rei é… — foi interrompida.
— Estou dizendo a verdade! — o elfo se defendeu.
— Eu não acredito nas suas palavras. — ela retrucou entredentes.
— Não sou obrigado a ouvir afrontas e desconfianças vindas de meus próprios irmãos! — esbravejou, mas logo o olhar do mago o alcançou e ele sentiu seu corpo estremecer por inteiro.
Mithrandir se aproximou de si de maneira lenta, arrastando seu cajado contra o chão e causando um desconforto estranho a seus ouvidos.
— Pare! — Eruwen ordenou ao ver o Maia continuar a caminhar em sua direção. Seus sussurros baixos e profundos eram palavras que nenhum deles conseguia compreender. — Pare! — ele voltou a repetir enquanto observava os lábios do outro se mexerem rapidamente em murmurinhos que penetravam seus ouvidos e serpeavam sua mente.
A atmosfera do lugar se tornou pesada, escurecida e extremamente poderosa. A áurea de Mithrandir parecia estar elevada. Mesmo Lórien e Elenor podiam assisti-la se agigantar no recinto, ainda que apenas Eruwen sofresse com ela. E tudo aumentava a cada passo do Maia na direção do elfo.
Eruwen caminhava para trás, tentando se manter afastado do Cinzento, mas acabou se afobando em seu temor e tropeçou por um descuido. Uma luz escarlate passou a irradiar das palmas de suas mãos e esta quase o cegou. Aquilo queimava como fogo, e os gritos dele preencheram o recinto.
Os olhos esverdeados de Lórien o fitaram assustados, mas Elenor se mantinha firme.
— Man carnet, Eruwen Elöhinion? Selman mana? — o mago proferiu com rispidez e sua voz soou como um estrondo que as paredes do recinto não conseguiram preservar. — Esta luz representa a sua traição, representa o sangue dos inocentes que foram derramados pela escuridão que cobre o seu espírito corrompido e decadente em glória! — a áurea poderosa do Maia se expandiu em uma luz que ofuscou a todos e assim ele tornou a diminuir, moderando o seu poder e voltando a ser apenas Gandalf, o Cinzento.
— O que você fez comigo? — Eruwen proferiu com sua voz estremecida quando suas mãos voltaram ao normal e a dor insuportável desapareceu. — O que foi isso?
— Uma sombra fria e ameaçadora toma forma em seus olhos, mas, contra toda a sua esperteza temos uma vantagem; nem mesmo o mais sagaz e vil dos seres está livre das manchas de seus delitos. E você, meu caro Eruwen, se encontra inacreditavelmente imundo. — Mithrandir ergueu o cajado na direção do elfo.
Lórien acabou se cansando de toda aquela conversa, ela nunca havia duvidado da culpa do loiro. Avançando rapidamente na direção deste, sua intenção ficou clara quando ela puxou uma das adagas de seu traje. Elenor ainda tentou detê-la, mas a elfa se desvencilhou de suas mãos com facilidade e, segundos depois, estava com a lâmina no pescoço de Eruwen, mantendo-o de joelhos e o fitando de cima.
— Onde está nosso rei? — ela interrogou com a voz baixa e rouca. — Onde está Luna?
— Elenor! — Eruwen clamou pelo capitão. Ele havia sido treinado ao lado da guardiã e tinha total conhecimento de suas habilidades. Estava mais do que certo em temê-la, pois o espírito guerreiro dos elfos silvestres estava cravado na essência de Lórien.
— Não pense que eu terei piedade. Nós não somos amigos. — ela estreitou os olhos e os fixou nos do loiro de modo ameaçador. — Onde eles estão?
— Lórien, deixe-o! — a voz de Elenor ecoou em tom de repreensão. Ele sabia onde aquilo poderia acabar se não refreasse a ira da guardiã das fronteiras.
— Estão em Gundabad! Estão em Gundabad! — Eruwen tratou de dizer, já podendo sentir a dor que o objeto metálico contra sua garganta lhe proporcionava. — Junto com Nathrini! — ele completou. — Estão todos presos!
Elenor e Lórien se entreolharam, desesperados.
— Por qual motivo o rei da Floresta das Trevas estaria aprisionado em Gundabad? — o mago franziu o cenho, sua curiosidade mesclava a desconfiança.
— Não direi mais nenhuma palavra… — ele foi interrompido pelo próprio gemido de dor. A elfa havia empurrado a adaga ainda mais contra seu pescoço, ferindo-o parcialmente.
— Responda a pergunta! — o capitão verbalizou o aviso que Lórien acabara de dar.
— ANNCHIR! — foi tudo o que Eruwen conseguiu responder. Um pouco de seu sangue começava a sujar a lâmina da adaga.
Mithrandir apertou o cajado entre os dedos e trocou olhares com o elfo a seu lado.
Aquele nome não o dizia nada.
— Annchir é irmão de Luna. Ele fugiu das terras do rei há algum tempo. — Elenor esclareceu, mesmo que aquilo não explicasse muito. — Mas, o que ele tem a ver com tudo isso? — se voltou para Eruwen.
— Mande-a afastar a adaga! — o elfo barganhou. — Mande-a!
— Lórien. — o mago interveio.
Longos segundos se passaram e, mesmo relutante, ela recuou — mas não permitiu com que Eruwen se levantasse quando ele quis fazê-lo.
— O que Annchir tem a ver com tudo isso? — Elenor repetiu a pergunta com uma paciência invejável.
O outro elfo sentia um bolo se formar em sua garganta e suas mãos começavam a esfriar. Trair os planos do irmão de Luna era se submeter a ruína, lançar todo o esforço que fizera no mar do esquecimento e da insignificância. Mas a justiça de seu povo contra ele seria muito pior, e Eruwen era muito apegado a própria vida para arriscá-la tão estupidamente.
— Ele se aliou ao inimigo. — respondeu da forma mais sucinta que conseguiu.
— Seja mais claro. — Lórien disse ao dar um passo à frente, o que alarmou Eruwen.
— Após a derrota em Erebor as opções estratégicas do Senhor do Escuro ficaram bem limitadas. Tentando se favorecer disso, Annchir deseja mostrar-se útil a seu mestre, por ser o primeiro elfo a se prestar a tal papel. Ele quer provar sua lealdade.
— Não entendo, como tudo isso se interliga a Luna e a meu senhor? — Elenor se pronunciou.
— Todos nós conhecemos os sentimentos dele pela irmã. — continuou Eruwen. — Annchir nunca se conformou por não ter as mesmas capacidades, as mesmas honrarias, o mesmo respeito. Apesar de serem irmãos gêmeos, de terem o mesmo sangue correndo nas veias. — ele fez uma pausa. — Em busca de poder e vingança, por sempre estar à sombra de Luna, Annchir fugiu e se aliou ao inimigo.
— A grandeza inspira inveja, a inveja engendra o despeito e o despeito produz a malevolência. — Lórien murmurou enquanto se relembrava de seus confrontos constantes com o irmão de sua senhora.
Ela deveria ter dado ouvidos a seu instinto quando teve a chance.
— Acho bastante pertinente que você nos exponha as particularidades do problema familiar envolvido na questão, mas, não é por esta razão que ainda estamos aqui. — Mithrandir tratou de se manifestar, sério e objetivo. — Por qual motivo Sauron desejaria que Thranduil fosse aprisionado e Valle atacada? O que tudo isso tem a ver com Erebor? — ele estava profundamente intrigado e, por conta disso, sua cabeça trabalhava incessantemente.
— O rei foi capturado para que o reino ficasse indefeso, sem seu líder. É evidente a maneira perdida com que todos aqui parecem agir sem aquele nobre para dizer o que devem fazer ou quantos passos devem dar. — Eruwen ironizou e logo sentiu o punho de Lórien atingir seu ouvido esquerdo, o que o deixou desorientado por alguns segundos.
Elenor não conseguia compreender os motivos de Annchir e Eruwen, tudo soava como pura loucura a seus ouvidos. Ele os via como jovens, apesar de seus tantos séculos. Criaturas tolas a procura da própria ruína.
— Mais respeito, ele ainda é seu rei! — Lórien alertou com rispidez enquanto observava Eruwen respirar fundo e engolir a dor. — Continue.
O elfo demorou alguns segundos, mas logo fez como o ordenado:
— Erebor teria sido um ponto estratégico para os planos do Senhor do Escuro, mas ele perdeu a Batalha dos Cinco Exércitos e ficou sem alternativas. — fez uma pausa. — Quando Annchir chegou, tudo mudou. Ele lhe deu uma nova perspectiva, um novo plano. Vocês sabem que Annchir sempre foi um bom estrategista. — todos o ouviam atentamente. — No lugar de Erebor, ele sugeriu a Floresta das Trevas como ponto principal.
— Ponto principal? — se conter era uma tarefa extremamente difícil para o mago, que se limitava a escutar na maior parte do tempo.
— Sim e, antes que pergunte, eu não sei o que isso significa. — Eruwen tratou de responder. — Annchir não confia em mim o suficiente para me contar todas as partes de seu plano. Eu já disse tudo o que sei.
Todos viram a verdade nos olhos do elfo e assim o silêncio abraçou o recinto, o que foi um alívio para Eruwen — que finalmente viu os olhos esverdeados de Lórien se desviarem de si.
Depois de alguns minutos de ponderação, Elenor se pronunciou:
— Por seus atos de traição, o seu castigo seria a morte. Mas, eu serei complacente.
— Isso é um absurdo! — a guardiã das fronteiras discordou de sua sentença.
— Quando Sua Majestade estiver de volta decidirá o destino do traidor. Eu não mancharei as minhas mãos com o sangue de ninguém. — ele findou ao fitar a elfa com a expressão séria, deixando clara sua imparcialidade. — Levem-no para a prisão e soltem todos aqueles que vieram cativos da Cidade de Valle por não concordarem com essa loucura.
Os guardas na entrada logo se apressaram em carregar Eruwen dali, o qual não fez menção em protestar pois sabia que merecia destino pior. Por hora, aquela era uma alternativa que o manteria seguro das mãos de Lórien e Annchir — o último quando descobrisse sua traição. Mas, quanto a Thranduil, talvez não houvesse escapatória.
— O que faremos? — a elfa indagou após o loiro ter sido retirado do recinto. — Precisamos libertar nosso rei e Luna imediatamente!
— Não podemos fazer isso sozinhos. — Mithrandir iniciou. Ele estava perturbado com toda aquela história. — Antes de tudo precisamos de reforços. Invadir a fortaleza de Gundabad não é um trabalho qualquer, necessitaremos de auxílio.
— O que sugere? — o capitão questionou.
— Elenor, logo você irá comigo até Erebor. Devemos esclarecer Dáin sobre a realidade da situação. Ficou bem explícito na batalha pela montanha que anões e elfos trabalham muito bem juntos, apesar das diferenças. Eles serão de grande ajuda! — se voltou para Lórien. — E você, vá até os senhores Celeborn e Galadriel e peça que seus soldados fiquem de prontidão, eles não os negarão ajuda.
Ela assentiu rapidamente e se retirou do recinto a passos largos e precisos.
— Mithrandir, se Sauron está por trás de tudo isso, o que você acha que ele quer tentando se apossar de nosso reino?
O mago permaneceu em silêncio, pensando na pergunta.
— Eu verdadeiramente não sei, meu amigo. — ele meneou a cabeça. — Verdadeiramente, não sei.
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