I See You
26 Capítulo 26
Notas iniciais
A minúscula fogueira feita entre as primeiras árvores da pequena floresta que se seguia era a única coisa que alumiava o local aquela altura, isso porque as copas das árvores impediam que a luz da lua os iluminasse.
Luna mantinha seus olhos fixos nas chamas, imaginando o que ainda poderia acontecer. Quando tudo parece perdido é geralmente o momento ideal para se ter esperança, mas, a elfa não conseguia encontrá-la dentro de si, e a situação — aparentemente — só tendia a piorar.
Thranduil observava as expressões que ela fazia enquanto estava perdida em pensamentos. Luna era tão ridiculamente transparente que ele poderia dizer com exatidão o que se passava em sua cabeça.
— Agora tudo vai mudar, não vai? — ela indagou com voz pesarosa.
— Tudo mudou há muito tempo.
A elfa engoliu em seco e assentiu em concordância.
— Eu fechei os meus olhos, estive dormindo durante todo esse tempo… — ela iniciou calmamente. Suas íris brilhavam pelo reflexo das chamas quando um sorriso fraco emoldurou seus lábios rosados. — sou egoísta às vezes, mesmo não querendo.
— Se com esta afirmação você espera que eu a conforte dizendo o contrário, está redondamente enganada. — Thranduil exclamou com tranquilidade e Luna alargou seu sorriso.
Era estranho, mas aquilo amenizou a atmosfera do ambiente.
— Jamais esperaria algo do tipo vindo do senhor. — ela retrucou sem qualquer irritação em sua voz e então ele também sorriu.
O silêncio reinou entre ambos outra vez, mas o elfo tinha um nome entalado em sua garganta:
— Annchir… — ele foi interrompido no mesmo instante.
— Eu não quero falar sobre ele! — Luna foi seca, retomando sua expressão soturna.
— Uma hora vai ter que enfrentar este assunto.
— Idem.
— Não transforme isto em uma discussão. — Thranduil disse em seu tom de frieza habitual e aquilo a fez erguer os olhos, devolvendo o olhar dele pela primeira vez desde que chegaram ali.
— Quer falar sobre os meus fantasmas? Por que não começamos pelos seus? — foi a vez do elfo desviar o olhar. — Vossa Majestade recua porque sabe que estou certa.
— Você sempre pensa que está — ele rebateu de maneira ríspida. — mas a verdade é que não sabe de nada.
Luna o fitou profundamente, como se assim pudesse desvendá-lo.
— Então, me conte. Me faça saber, ou melhor, me faça entender — ela fez uma pausa. — entender o senhor.
— Não deboche de mim, Luna. — Thranduil avisou defensivamente.
— Sempre diz que eu nunca sei de nada, em todas as nossas discussões. — a elfa gesticulava com impaciência. — Se meu senhor se sente tão incompreendido, me explique, me conte… use o termo que preferir. Apenas acabe logo com isso. — suas palavras eram duras, mas ela estava realmente disposta a ouvi-lo.
— …
— É tão difícil assim? — indagou mais branda, mantendo seu olhar fixo sobre a figura do rei. Ele parecia emperrado. — Olhe para mim. — Thranduil o fez quase que instantaneamente e eles permaneceram daquela forma por algum tempo.
Os olhos do elfo estavam nublados, indecifráveis. Já os de Luna, como sempre, eram um livro aberto. Ele conseguia lê-la apenas olhando intensamente em suas íris azuladas.
Elas eram tão profundas que Thranduil, às vezes, temia acabar fitando-as por toda a eternidade.
— É por isso que sempre discutimos. — Luna iniciou enquanto cruzava os braços de maneira irritada e voltava a fitar a fogueira. — O senhor nunca está disposto a ceder.
— Eu sou um rei, não preciso ceder. — ele frisou o título, relembrando-a com quem estava falando. — Você parece se esquecer disso em quase todas as ocasiões. — a seriedade em sua fala não chegava a frieza, mas, ainda assim, seu tom prepotente tirava Luna do sério.
Ela suspirou.
— Meu senhor está fugindo do assunto.
Ele franziu o cenho, confuso com aquela repentina postura de maturidade da parte dela.
— Não entendo aonde deseja chegar com essa inquisição. O meu passado não lhe diz respeito.
Luna o olhou rapidamente e, pela centésima vez, voltou a dirigir sua atenção para as chamas.
— Como desejar. — foram suas últimas palavras antes do silêncio voltar a reinar entre os dois.
Thranduil continuou na mesma posição, escondendo a surpresa sob a expressão impassível. Era fácil — absurdamente mais fácil — quando discutiam, ele sabia lidar com aquilo. Mas, a indiferença que ela lhe dirigia era estranhamente desconfortante. O rei da Floresta das Trevas não estava preparado para seu silêncio, não era assim que as coisas aconteciam entre eles.
Não, ele definitivamente não gostava da indiferença de sua chefe da guarda.
Definitivamente.
— Por que não pode facilitar as coisas? — Thranduil se ouviu perguntar.
— Não há como facilitar as coisas, não para nós. — Luna exclamou entre uma risada nervosa. — Por mais difícil que seja admitir, eu poderia não estar aqui se Vossa Majestade não estivesse comigo naquele lugar infernal. O senhor me procurou, me protegeu, me amparou. — ela fez uma pausa. — Isso melhorou bastante a minha visão sobre o seu caráter, ainda que algumas impressões estejam muito enraizadas para serem revisadas. — Luna estava se esforçando ao máximo para agir com sensatez.
— E o que todo este sentimentalismo tem a ver com suas indagações sobre os meus fantasmas? — ele retornou ao assunto inicial e a elfa revirou os olhos.
Thranduil parecia determinado a iniciar uma discussão.
— Desisto. — ela fez menção em se levantar mas logo sentiu uma mão rodear seu pulso, impedindo-a de continuar.
— Fique. — ele pediu e Luna não soube como reagir aquilo. Relutante, ela apenas voltou a se acomodar e, aos poucos, o rei desfez o toque.
Os estalos da fogueira pareciam diminuir a tensão formada entre os dois, e também serviam para acalmar os ânimos de Luna e preparar Thranduil.
— Eu não sei exatamente o que você deseja saber, e nem quero. A resposta nos limitaria a um único assunto e eu creio que há muita coisa a ser dita. — os olhos deles se encontraram. — Você se irrita quando digo que não sabe de nada, ainda que não aja mentira alguma nesta minha afirmação. O seu gênio me julga, mas a sua razão não me conhece. — ele completou com um meio sorriso. — Uma característica interessante para mim, apesar da explícita injustiça.
— Na última vez em que nos encontramos o senhor deixou bem claro o quanto a minha rispidez o interessa. — ela alfinetou com uma gota de amargura.
Ele entendeu o que aquilo significava e baixou cabeça.
— Não é algo que você vá compreender, Luna.
— Achei que estivéssemos tendo essa conversa justamente para isso. — a elfa se pôs de pé num instante, sua paciência havia acabado. — Estamos fadados ao entrave por não conseguirmos ter um único diálogo civilizado ou com algum sentido.
— Me surpreende o seu interesse em termos qualquer tipo de diálogo. — foi a vez dele fazer uso da amargura.
— Ao menos estou arriscando, ao menos estou engolindo o meu orgulho para tentar ver algo que não seja arrogância, prepotência, frieza ou indiferença no senhor. — ela cerrou os olhos e ergueu o dedo em riste. — Sabe o quanto isto é difícil para mim? — sua pergunta pairou no ar. — Não, não sabe, isso porque Vossa Majestade é oco demais para entender. — ela fez uma pausa. — E isso prova que eu não sou a única a não saber das coisas por aqui.
Foi a vez de Thranduil se levantar abruptamente, e algo nele a lembrava um vulcão em erupção.
— E o que quer que eu faça? — ele indagou com rispidez enquanto se colocava diante de Luna. — Quer que eu me abra para você? Que chore no seu ombro e exponha o peso das responsabilidades que carrego? Quer que eu lamente minhas mágoas para que assim a dor em meu peito se amenize? — Thranduil riu com desdém. — O mundo não é colorido como você imagina, as coisas não funcionam desta forma. O mundo é vermelho, manchado com sangue… — ele fez uma pausa e deu as costas para ela, como se precisasse de um minuto para digerir as próprias palavras. — o sangue dos inocentes.
Luna piscou algumas vezes, aturdida.
— Eu consigo ver a sombra do nome dela nos seus gestos mais insignificantes. — o elfo sentiu sua garganta secar ao ouvir aquilo. — Camuflada e quase imperceptível, mas, está lá.
Ele não respondeu de imediato e seu silêncio a fez sentir um nervosismo extremamente incômodo. O coração de Luna batia impaciente e acelerado, tudo por uma simples resposta.
— Celebrian… — Thranduil sussurrou e sentiu uma estranha nostalgia invadi-lo. A luz da fogueira iluminava suavemente seus cabelos, estes que caíam como um véu dourado sobre suas costas largas.
A elfa não sabia como reagir, simplesmente não sabia, e então fez a única pergunta que sua mente conseguiu produzir:
— O que aconteceu? — a postura ereta e elegante do elfo à sua frente permanecia intacta, mas, no fundo, Luna sabia que aquilo era apenas uma fachada. Aos poucos, ela conseguia compreender. — Thranduil… — deu um passo à frente e ergueu o braço para tocá-lo no ombro, se dando conta de que era a primeira vez que pronunciava o nome dele com tanta ternura. — o que aconteceu, exatamente?
Thranduil hesitou por alguns minutos até decidir se entregar ao momento.
— Tentei expulsar as criaturas malignas que passaram a caminhar por minhas terras quando a sombra chegou e as árvores adoeceram, mas o nosso exército quase foi dizimado na Batalha da Última Aliança e eu não tinha soldados suficientes para fortificar as defesas. Amon Lanc já havia declinado e era chamada de Dol Guldur; o núcleo de todo mal que você possa imaginar. Hostes de Orcs se amontoavam no sul e, por um tempo, não ameaçaram nosso reino, mas esta paz armada acabou tão rapidamente quanto iniciou. — Thranduil falava com tranquilidade, ainda que seu coração sangrasse com todas aquelas lembranças. — Nós aguentamos firme por muito, muito tempo. Contudo, a tragédia finalmente alcançou nossos portões…
Luna prendeu a respiração e uma tristeza profunda se deitou sobre seu espírito.
Sim, ela também se lembrava. Ainda estava em sua juventude, nada mais do que uma criança tola para os de sua raça, mas não poderia se esquecer do dia mais sombrio de sua vida.
— Foi tudo tão rápido. — ele riu baixo. — Lembro-me das flores da primavera caindo das árvores e se deitando sobre os corpos sem vida dos meus soldados, das flechas negras atravessando o ar, do cheiro de sangue que subia do rio… tudo.
Thranduil não conseguia controlar os próprios lábios, e foi quando ele se deu conta de que realmente queria contá-la aquilo, que queria compartilhar todo aquele peso. E Luna o escutava atentamente, pois ela se importava.
— Eu escondi Celebrian e Legolas nos jardins, coloquei toda minha guarda particular na frente daquela porta para protegê-los. — ele riu outra vez. Não era cômico, tampouco irônico, era uma risada dolorida. — Mas, nós tínhamos tão poucos soldados e o povo estava morrendo… tudo estava morrendo. O palácio foi invadido, apesar de nossos esforços em mantê-los afastados do portão, e a derrota era iminente. — o rei se relembrou dos gritos, dos choros. Ele se voltou para a elfa com seus olhos nublados. — Celebrian ignorou os protestos de Elenor e liberou os soldados, apesar das minhas ordens. Ela escondeu Legolas em nossos aposentos, debaixo da cama — Thranduil sorriu de lado, imaginando a cena. — e empunhou sua espada para se juntar a mim. Naquele dia nós lutamos lado a lado para proteger o que ainda restava de nosso reino.
Ambos estavam a um passo de distância.
— Continue… — Luna pediu após um momento de hesitação.
— Eu estava tão concentrado em aniquilar aquelas… bestas — Thranduil fez uma expressão de amargura. — que não percebi quando eles a cercaram. — ele se calou e respirou fundo. — Naquela época existia uma passagem que atravessava o rio, como um túnel, e ela estava aberta. Os reforços vindos dali mantinham o ataque dos Orcs estabilizado. — ele fechou a mão em um punho e Luna quase pôde ouvir seus dentes trincarem. — Elenor e Nathrini tentavam cessar o ataque frontal, o que era inútil. Quando percebi que a passagem estava aberta soube que a única maneira de abalar as forças inimigas era fechá-la. — o olhar perdido de Thranduil fez com que a elfa se aproximasse, fazendo-o fitá-la. Aquilo parecia tê-lo feito retornar. — Eu estava tão preocupado em selar aquela coisa, tão desesperado… não percebi quando Celebrian foi atacada. — sua voz soava lenta, quase arrastada. — Ouvi apenas seu grito. Mesmo com todo o barulho ensurdecedor da batalha, eu consegui reconhecê-lo.
— Chega, é muita dor… — Luna fez menção em se afastar.
— Eu olhei para a passagem e para ela, e aquilo foi o suficiente para fazer Celebrian entender o que estava em jogo. — Thranduil exclamou ao segurar seu braço firmemente, obrigando-a ficar ali. Se ela queria ouvir, então ele lhe contaria. — E sabe o que ela fez? — indagou com uma amargura dolorida. — Você sabe, Luna? SABE? — fechou o aperto no braço da elfa, machucando-a.
— NÃO! — ela respondeu ao fechar os olhos com força.
Thranduil, ego!
O grito ainda ecoava em sua mente, como um fantasma.
— Ela se entregou para que eu não a escolhesse, para que eu não desistisse de nosso reino. — o rei a soltou aos poucos. — Celebrian sabia a quem eu teria escolhido, sabia que abandonaria tudo para salvá-la. — ele se afastou a passos incertos e, para Luna, era triste demais observá-lo naquele momento tão sombrio. — Eu fechei a passagem e logo os exércitos de Lothlórien chegaram para nos ajudar. Eles garantiram a nossa sobrevivência, mas eu jamais considerei aquilo como uma vitória. — o elfo se agachou à altura da fogueira, em frente às chamas, e seus olhos refletiram a luz que vinha do fogo. — Mandei destruir a maldita passagem e fortifiquei nossas defesas. Eu isolei todo o reino desde aquele dia, sempre cauteloso para que isso jamais acontecesse outra vez. Não há histórias ou cantos, nada relacionado a este acontecimento. — Thranduil fez uma pausa. — Não passa de uma sombra, uma memória…
Luna permaneceu em silêncio para absorver toda a história, toda a dor. Sua mente trabalhava a mil e ela não conseguia formular uma pergunta coerente o suficiente diante de tamanho sofrimento, mas deveria admitir que ouvir tudo aquilo esclarecia muita coisa.
A história a fazia lembrar de sua própria perda, como se eles finalmente dividissem algo, mas, ao contrário dela, Thranduil se afundou no mais profundo abismo da amargura e se esqueceu de que a vida não é feita apenas de tristezas.
A elfa fitou o rosto pálido de seu rei, estando atenta ao mínimo detalhe daquela face inexpressiva. Ele havia levantado seu muro, mais uma vez, e agora ela compreendia o porquê.
— A rainha fez uma escolha, não estava em suas mãos. — ele parecia não ouvi-la. — Meu senhor não pode continuar se culpando. — Thranduil ergueu o olhar.
Então, é isso.
— Pare, pare de ser desta forma. — ele se pôs de pé e caminhou ameaçadoramente em sua direção. — Eu não preciso do seu consolo, não preciso da sua compreensão. Você disse que queria saber o porque, o motivo, agora já sabe. E eu espero que limite sua fala antes de nos inundar com sua estupidez. — finalizou ao se colocar diante de Luna.
O ar quente que saía de sua boca batia contra o rosto corado de sua chefe da guarda, e apenas sussurros seriam suficientes para que pudessem se ouvir.
Ele queria feri-la, mas a elfa ignorou.
— Não precisa agir como se estivesse em uma batalha. — Luna exclamou suavemente. — Não sou uma inimiga, meu senhor. — fora a primeira vez, em muito tempo, em que ela proferia aquele tratamento com tanto respeito e significado.
— Duvido seriamente disso às vezes. — Thranduil respondeu com suas íris fixas nas de Luna. — Vocês duas… — ele iniciou com a voz rouca ao segurar o queixo dela para avaliar sua face, e aquilo a surpreendeu. — são completamente diferentes. — o que antes era um toque bruto e seco passou a ser leve e suave, quase um carinho. — Ela era como o dia, a minha luz… era perfeita. — queria se calar, na verdade, deveria. Luna não precisava saber daquilo, não precisava saber de nada. Ela não tinha nenhum direito. Porém, Thranduil apenas ouvia as palavras escorregarem de sua boca, sem o poder de controlá-las. — Já você é como a noite, sempre foi. Desperta tudo o que há de mal em mim. — ele mudou sua expressão e se afastou rapidamente.
A elfa permaneceu estática, estando estupefata com o que acabara de ouvir.
— Peço perdão se o desagrado a este ponto. — ela se pronunciou com uma ponta de ressentimento.
— Você não me desagrada, Luna. Céus… — ele chutou qualquer coisa em seu caminho, tentado a voltar à Gundabad e descontar seu furor em toda a montanha dos Orcs. — você não entendeu nada.
Foi a vez dela de se aproximar e puxá-lo para que a fitasse.
— Me explique! — Luna exclamou. — Eru sabe o quanto me custa pedir, mas, me explique! — seus olhos bem abertos deixavam explícita sua agonia. — Estou cansada, absolutamente cansada de brigar, de me encontrar na ignorância e de ser sempre a errada!
Aquela conversa já havia ultrapassado qualquer limite da hierarquia que os separava. Na verdade, a palavra hierarquia sequer fazia parte da conturbada relação dos dois.
— Luna… Luna… — ele fez uma pausa e lhe presentou com um sorriso quase imperceptível. — você me irrita… profundamente.
A elfa também sorriu.
— Não é nenhuma surpresa para mim. — ela sussurrou e meneou a cabeça. Aquela fora apenas uma tentativa de aliviar o ar pesado da conversa.
— Luna, eu… — Thranduil foi interrompido pelo uivo de uma das bestas de Gundabad e ambos retornaram para a realidade que os cercava. Ele retomou a compostura e se afastou de maneira rápida, apagando as chamas da fogueira e levando-os de volta à escuridão da floresta. — É melhor irmos, eles estão por perto. — Thranduil finalizou com a voz gélida e seguiu o caminho por entre as árvores.
Luna sabia que ele havia vestido sua máscara de indiferença novamente. Mas, no final, ela compreendeu a razão; aquele não era o momento. Com isto em mente, a chefe da guarda apenas engoliu em seco e se virou para seguir seu rei.
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Os passos do Orc eram firmes e pesados, como o rugido de bestas famintas que vinha do fundo de um abismo. Ele abriu a grande porta negra sem nenhuma espécie de cerimônia e assim se deparou com as costas de Annchir, este que aparentava estar perdido em seus próprios pensamentos.
— Algum sinal de minha irmã? — o elfo indagou com total rispidez.
— Não, os Wargs perderam o rastro dos dois no início da floresta. As árvores os ajudaram ao dispersar o cheiro. — o general exclamou com um fundo de chacota e esperou alguma reação do outro, mas Annchir permaneceu estático.
— E Eruwen?
— Nenhuma mensagem do seu amigo chegou aos portões, mas há um grupo de Orcs vigiando seu antigo lar, eles nos relatarão caso algo aconteça.
Um silêncio sepulcral os engoliu por um tempo consideravelmente longo, até Annchir ordenar:
— Saia.
— E o exército? — Húrthak indagou com curiosidade.
— Mantenha-o dentro da montanha, nenhum movimento deve ser feito sem minhas ordens. — ele fez uma pausa. — Agora saia.
Mesmo confuso, o general nada respondeu. Não era esse o fim que planejara para aquele episódio, por isso havia libertado os prisioneiros da Floresta das Trevas; para desestabilizar Annchir, de alguma forma. Ele esperava ver o elfo enlouquecer pela raiva, pelo medo… mas, o outro se mantinha inalterado, e aquilo não lhe concedeu o menor divertimento. Com esse pensamento e uma expressão ameaçadora, Húrthak girou os calcanhares e saiu dali a passos pesados.
"Sozinho", Annchir pensou consigo. "Sozinho, mas não em paz."
Seu semblante sombrio seria capaz de esfriar o mais caloroso dos sorrisos, e nem mesmo o poderoso inverno poderia se equiparar a ele naquele momento. O recinto estava em silêncio, completo silêncio, mas inúmeras vozes gritavam na mente do elfo e uma batalha de titãs era travada em seus pensamentos.
Annchir precisava encontrar uma solução para aquele problema antes que visse tudo o que construiu com tanto esforço se esvair entre seus dedos, mas ele não conseguia encontrar um meio de sair do maldito labirinto em que se enfurnara, e soube que deveria ter previsto aquela catástrofe. Ele estava tão convicto de seu plano, da inexistência de falhas, que não levou em consideração nem mesmo a possibilidade de tudo dar errado.
Quando Thranduil chegasse à Floresta das Trevas prepararia seu exército e, na pior das hipóteses, alertaria o povo de Lothlórien sobre o possível ataque na tentativa de obter reforços.
O que fazer?
O que fazer?
O que fazer?
Annchir urrou como um louco durante minutos, destruindo o que estivesse em seu caminho como se desta forma tudo fosse se resolver. Seu rosto estava vermelho e veias saltavam de seu pescoço enquanto ele gritava a plenos pulmões, quão grande era o seu desespero diante da bifurcação desastrosa em seu plano aparentemente perfeito.
Após sua exaltação estouvada e odiosa, o elfo caminhou em direção ao acento no centro do salão e se sentou elegantemente. Ele não poderia considerar aquilo um trono, mas deixava em evidência sua autoridade diante de todas as criaturas de Gundabad. O cenário imperioso fora uma de suas exigências, porém, todo este poder agora estava ameaçado, e nem mesmo aquele acento magnífico poderia mantê-lo caso ele falhasse.
Annchir cruzou as mãos em frente ao rosto enquanto seus olhos transbordavam o mais puro dos ódios.
Pense!
Pense!
Pense!
A ordem preenchia sua mente, e ela era absoluta.
Annchir sentiu um gosto desagradável e enjoativo em sua boca, algo indiscutivelmente familiar.
O gosto da derrota.
Ele ergueu o queixo com elegância e sentiu o orgulho envolvê-lo por inteiro, como uma proteção impenetrável. Sim, orgulho; a maldição de sua família, de seus ancestrais. Este nunca o abandonaria, e nisso Annchir e sua irmã eram parecidos — ou até iguais.
Ah, sim, sua amada Luna…
Pensar nela o fazia voltar para um tempo que agora lhe parecia tão distante, tão remoto e intocável. O fazia se lembrar de seus pais, ou melhor, de seu pai. O fazia se lembrar da maneira como os olhos deste brilhavam como o sol ao repousarem sobre sua primogênita, sua preferida.
A lembrança do dia em que sua mãe dera as joias da família aos dois lhe veio à mente e endureceu sua expressão. Andamallë, a joia que fora dada a ele, era a secundária, a substituível. E desde aquele momento Annchir soubera, sim, soubera de seu futuro.
O elfo ainda podia ouvir o som dos pássaros cantando do lado de fora da casa, e quase conseguia sentir o calor de um pequeno raio de sol que passava pela fresta da janela ainda fechada e tocava sua pele suavemente.
Ele jamais se esqueceria desse dia.
— Dou-te Andamallë Caminho Longo, meu querido, pela cor dos teus olhos! — a elfa iniciou com o colar em mãos. — Esta é a joia da dificuldade, todavia, só é dada aqueles que nunca desistem. Os percalços do destino não podem vencer os corações destemidos daqueles que a carregam, e a vitória sempre os espera no final de sua longa jornada. — ela colocou o colar no pescoço do menino e tocou em seus cabelos loiros com ternura. — É sua, meu filho. Cuide bem dela! — findou com um sorriso amoroso.
Annchir sabia que seu pai havia designado as joias para cada um, mesmo que sua mãe as tivesse dado. Foram palavras bonitas, ele não poderia negar, mas apenas camuflavam o real motivo da cerimônia.
— E a você, minha Luna — ela se aproximou da outra criança, esta que a fitava com seus olhos azulados cheios de atenção e expectativa. — dou Silmalótë Flor de Prata. Prata como Telperion, uma das antigas Árvores de Valinor. Prata como a luz em teus olhos, a mesma luz de Aman! Esta é a joia da esperança, da vida e da compaixão, e também é capaz de iluminar os caminhos mais escuros e os corações mais sombrios. — a elfa sorriu alegremente ao colocar o colar de diamante no pescoço da pequena. — É sua, minha filha. Cuide bem dela!
Lembrar-se das palavras de sua afetuosa mãe era com beber lentamente o mais doce dos venenos, e ele ainda conseguia visualizar o olhar rígido de seu pai, este que assistira tudo em silêncio.
O peso de seus olhos, os mesmos olhos que Luna herdara, era sufocante.
Annchir se remexeu no lugar, sentindo-se desconfortável com a onda de sentimentalismo que o tomara tão inesperadamente. Mas aquilo, de alguma forma, o dava forças, sim, como Andamallë Caminho Longo… ele riu com deboche, era ridículo! E se tivesse a joia em mãos a lançaria nas chamas de alguma fornalha.
O elfo desprezava o valor familiar que a mesma carregava e ficaria feliz em poder destruí-la. Ela era o símbolo de seu fracasso, o destino que seu pai escolhera para si. Isso ele jamais poderia perdoar, pois tudo posteriormente confirmava suas suspeitas.
Annchir sempre acordava antes do sol nascer e se deparava com a cama de sua irmã vazia. Não era preciso qualquer desculpa, ainda que sua doce mãe fizesse uso constante delas, ele sabia a verdade esmagadora; Luna havia acompanhado seu pai à floresta para que este iniciasse seu treinamento e lhe repassasse sua sabedoria. Mesmo sabendo que ele era o filho, que ele carregaria consigo por toda eternidade a honra da família.
Independente da ordem de nascimento, Luna era apenas uma elfa e, mesmo assim, seu ada havia dado a ela o amor mais belo e profundo, deixando para Annchir apenas migalhas do que deveria ser um sentimento genuíno.
Meu filho querido, desejar ser outra pessoa é um desperdício de quem você é!
Ele ainda conseguia ouvir a voz de sua mãe dizê-lo aquelas palavras, como sempre, na tentativa de confortá-lo.
Por muito tempo Annchir desejou receber um olhar de aprovação, um gesto ou qualquer coisa, tendo que aprender a se contentar com as migalhas jogadas do coração de seu pai. Aquilo inevitavelmente havia se transformado em um hábito medíocre e ridículo; o de viver dos restos de tudo o que desejou, sem nunca tê-los completamente.
E tudo por culpa de sua doce e inocente irmã.
Annchir lamentava o dia em que salvara sua vida quando ambos passeavam pela floresta. Por algum motivo, ela decidira o levar consigo daquela vez — como se aquilo pudesse apaziguar o ressentimento que começava a nascer em sua alma — e os irmãos acabaram encurralados por uma criatura negra vinda de Emyn Duir. Diante da besta, a arrogância de Luna foi grande o suficiente para quase matá-la, não fosse por ele, que em um lampejo de amor e compaixão salvou sua vida.
Foi a primeira vez que seu pai o fitou com orgulho, fazendo-o realmente pensar que havia alcançado seu coração. Contudo, Annchir não poderia estar mais enganado. Ele salvara a menina dos olhos de Orodreth, sim, mas a gratidão deste se acabou tão rapidamente quanto uma flecha chega a seu alvo. E o loiro soube que deveria tê-la deixado morrer naquele dia, assim livraria a si próprio do destino da desgraça e inferioridade.
Era dolorido perder seu tempo para se relembrar daquilo que apenas o diminuía, entretanto, era necessário. A dor o fortalecia, o enchia de coragem, de rancor… trazia à tona suas motivações, aguçava sua perspicácia, sua maldade, e aquilo era tudo o que ele precisava para se sentir invencível outra vez.
Annchir estava lúcido, apesar da evidente loucura. Suas pedras de jade brilhavam e um sorriso aos poucos se formava no canto superior de sua boca.
Ele esperaria um pouco mais, daria tempo a todos eles. Aquele não era o fim de seu plano e sim a oportunidade de torná-lo ainda maior, tornar sua vingança mais prazerosa e sua recompensa ainda mais grandiosa.
— Eu espero que você recorra a todos os seus recursos, minha irmã. Espero que chame todos os seus amigos para lutarem a seu lado. — Annchir sussurrou com uma calma assustadora, saboreando as próprias palavras. — Quero ver o seu lindo rosto quando você perceber que nenhum deles poderá salvá-la das minhas mãos.
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