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13 Capítulo 13
Notas iniciais
— A noite está pacífica. — Argon comentou ao fitar a comemoração que acontecia nas ruas da cidade.
— Espero que não sejamos surpreendidos por algum infortúnio. — respondeu Luna, também observando a celebração do povo de Valle. — Onde está o arqueiro?
— Não o vejo desde antes de minha senhora chegar da montanha.
Mesmo com uma postura de indiferença, a elfa o procurava de maneira sutil ao varrer a multidão com o olhar. Ela estava demasiadamente ansiosa pela reunião com os chefes das principais famílias de Valle, ansiosa e insegura. Mesmo não permitindo com que notassem. Luna teria de ser persuasiva e cuidadosa com suas palavras, nada poderia dar errado ou ela falharia com o dever que lhe fora designado.
Naquela manhã Dáin havia lhe perguntado como estava a relação entre elfos e homens, e Luna se esquivou o máximo possível em suas respostas. Para se livrar dos questionamentos dos anões, ela aproveitou a oportunidade e indagou sobre o motivo da celebração. Balin a contou que a noite após a batalha pela montanha, onde muitos do povo da antiga Cidade do Lago também foram mortos pelos Orcs, foi uma noite de lua cheia. Noite de perdas, mas também de vitória.
Toda vez que o grande luar aparecia no firmamento havia uma comemoração, pois era o lembrete da desgraça convertida em triunfo.
Luna havia passado o resto do dia debatendo com Dwalin sobre o que sucedeu após o término da Batalha dos Cinco Exércitos e também procurando se manter a par dos assuntos de Valle e de seus moradores, afinal, em algum momento aquilo poderia lhe servir.
Ela cavalgara até a cidade no crepúsculo vespertino e desde então estava posta ali, ao lado de Argon, observando o povo se alegrar. O sol já havia partido e a noite chegara de maneira modesta e profunda, tudo enquanto algumas nuvens cobriam parcialmente o céu, este que se encontrava escuro e sem estrelas.
Ambos os elfos estavam em um ponto onde não eram tão facilmente perturbados pelo barulho excessivo, mas podiam ouvir com clareza os sons vindos do centro da cidade. De repente, no meio do povo, houve um grande silêncio e todos ergueram suas cabeças para fitar a imensidão do firmamento, admirados. As nuvens logo se dispersarem e assim revelaram a lua cheia, em todo seu esplendor.
— Não é bela, minha senhora? — Argon também apreciava o corpo celeste.
Luna ergueu os olhos para contemplar a visão, mas, diferente de todos, aquilo não lhe trazia alegria tampouco admiração. Ela sentiu seu corpo enrijecer e sua expressão se tornou soturna.
Seu rei a beijara pela primeira vez debaixo daquele mesmo luar.
Ela quase podia ouvir o som de sua voz trazida pelo vento que vinha do meridião, que vinha da Floresta das Trevas. Era grave, profunda e impactante. Luna quase podia ouvi-lo pronunciar seu nome com a frieza estampada em cada letra, de modo cruel, mas avassalador. Quase podia senti-lo tocá-la com sua indelicadeza — até brutalidade — de modo que ela sabia que ele não a soltaria, que não a deixaria ir.
A elfa fechou os olhos quando os sentiu marejarem.
Ele estava em sua mente, nas memórias de seu corpo… em tudo a seu redor, inclusive em seus sonhos. Neles o rei a fazia chorar, quase gritar. Ele a tocava e seus lábios sussurravam palavras cheias de lascívia em seu ouvido, sua respiração era sempre quente e lhe causava arrepios… e seu coração, sim, seu coração batia descompassado. Mas logo tudo mudava e os sussurros se tornavam palavras de desprezo e humilhação. E, no final, Thranduil sempre vencia. Seus olhos nunca se apartavam e ele a aprisionava com seus grilhões cruéis, não a deixando partir.
Nunca.
O vento soprou mais forte e bateu contra o rosto de Luna. Aqueles pensamentos eram sempre confusos e perturbadores, e ela os detestava tanto quanto detestava o seu causador.
Thranduil a afastara de Annchir, seu próprio irmão. Tirara sua paz, sua esperança e agora sua sanidade. Ele a estava destruindo, matando-a fria e miseravelmente.
— Minha senhora? — Luna retornou do mar de seus pensamentos após o chamado de Argon.
Ela o fitou com uma expressão confusa antes de perguntar:
— Algum problema?
— Pensei que algo estivesse errado, a dama parecia meditar profundamente. — a elfa não disse nada, não havia uma resposta discreta para aquilo.
Todas as pessoas voltavam a celebrar, agora iluminados pela luz da lua, e havia música e dança por toda parte.
Luna piscou algumas vezes para voltar a se concentrar no que acontecia, deixando assim seus pensamentos de lado. Então, ela voltou a varrer a multidão com o olhar, a procura de Bard. Sua demora já estava irritando-a, afinal, o assunto que tratariam era deveras importante.
Subitamente, a elfa sentiu sua mão ser tocada de modo leve. E ao direcionar seu olhar para trás ela se deparou com a figura de um jovem que a fitava com uma expressão de seriedade.
— Venha comigo. — foi tudo o que ele disse antes de descer a curta ladeira que terminava no início da multidão.
Mesmo estando completamente duvidosa, Luna decidiu segui-lo. E Argon, que assumiu uma expressão de confusão diante da cena inusitada, foi deixado para trás.
O número de pessoas nas ruas da cidade era grande. Estavam em um aglomerado de homens e mulheres que sorriam abertamente e dançavam ao som de várias canções, estas que narravam os tempos de glória de Valle. Tudo era chamativo, desde as coisas mais simples até as mais extravagantes, e o ambiente esbanjava alegria e descontração — o que contradizia com o atual estado político da cidade.
A elfa mantinha seus olhos fixos no garoto, para não perdê-lo de sua vista. Ele caminhava no meio da multidão com dificuldade, passando por todos de um modo apertado e, às vezes, olhando para trás para se certificar de que Luna o estava seguindo.
Depois de certo tempo eles já se encontravam longe do alvoroço, estando próximos à entrada da cidade. O garoto agora caminhava com mais calma, mas ainda mantinha certa distância da elfa. Eles seguiam em linha reta e o número de pessoas ia diminuindo no decorrer da caminhada, mas a rua já estava deserta quando ambos chegaram em frente a uma casa aparentemente abandonada.
— Pronto. — o menino disse ao se colocar em frente à Luna. — Meu pai está lhe esperando lá dentro.
— Seu pai? — ela indagou com as sobrancelhas franzidas.
— Sou Bain, filho de Bard. — ele esclareceu em um cumprimento. — Você deve entrar.
Luna fitou a porta de entrada, que se encontrava entreaberta, e logo seguiu em sua direção. Ela empurrou a madeira envelhecida e um rangido ecoou por todo recinto quando seus pés adentraram o local. A elfa imediatamente se deparou com o breu da escuridão, mas não se intimidou.
O cheiro pútrido que preenchia o ambiente logo a fez erguer um dos braços e tampar o nariz com o dorso da mão. Ela não tinha certeza para onde estava se dirigido, e a cada passo se deparava com teias de aranha em seu caminho. Vários móveis estavam espalhados por toda parte, estes que tinham um aspecto cinzento e apodrecido pelo tempo.
A elfa agora dava passos cautelosos, ouvindo um som que vinha do cômodo que um dia fora uma cozinha. Dali ela finalmente conseguiu enxergar uma luz — muito fraca, mas suficiente para lhe guiar — e assim baixou a mão. Era uma situação extremamente inusitada, mas Luna continuou caminhando na direção do cômodo e daquela pouca claridade.
Três homens, um senhor de idade e Bard a esperavam quando ela finalmente adentrou a cozinha. Todos eles a fitavam com suas expressões pouco visíveis pela luz fraca concedida por uma vela minúscula, e Luna tomou a liberdade de se colocar ao lado do arqueiro — este que sorriu gentilmente em sua direção.
— Agora pode dizer o motivo de ter nos trazido aqui, Bard. — disse um dos homens.
Depois de um breve silêncio, o antigo barqueiro se pronunciou:
— Bem, todos sabem dos problemas que nossa cidade enfrenta e eu não creio que tenhamos tempo para divagações. — ele fez uma pausa. — Mas, se for necessário resumir, a guerra entre nosso povo precisa acabar. Esses rebeldes manipuladores precisam ser detidos o quanto antes.
— Sou Húrin. — um dos homens se apresentou à Luna antes de comentar. — Estamos cansados de viver subjugados por outras raças, então, talvez eles estejam certos. Talvez estejam nos acordando, fazendo com que sejamos capazes de indagar e lutar pelo controle de nossos próprios destinos.
— Esta seria uma boa justificativa, mas é apenas a visão ilusória de um problema muito mais complexo. — Luna contrapôs com elegância.
— Está dizendo que a luta pela causa é apenas uma ilusão, elfa? — o homem ao lado de Húrin questionou, este tinha uma expressão fechada e bem demarcada. Parecia extremamente austero.
— Estou dizendo que a causa é uma ilusão. — ela retrucou a altura, com seu porte altivo e imparcial.
— E o que elfos sabem sobre lutas? O que sequer sabem sobre privações? — o mesmo cuspiu as palavras. — São fartos em sabedoria, alegria e paz. Protegidos pela própria eternidade, a grande e adorada senhora cujos os homens nunca puderam alcançar.
— Elros! — repreendeu o ancião, se manifestando pela primeira vez. Sua voz soava arrastada e profunda, mas era cheia de um conhecimento que Luna apreciou no momento em que o ouviu falar. — Os anos de vida desta dama vão muito além dos meus, e suas capacidades de luta devem ser melhores do que as de todos nós juntos. Então, meu caro amigo, sugiro que você fique quieto e a deixe falar. — o arqueiro sorriu de canto. — Me chamo Bëor, minha senhora, e devo dizer que é uma grande honra tê-la entre nós. — o ancião a saudou e Luna inclinou a cabeça, igualmente cordial.
— Ainda não compreendo aonde pretendem chegar. — admitiu Húrin, ignorando os murmúrios do amigo ao lado.
O terceiro homem ainda permanecia em silêncio. Seus olhos eram negros como a noite sem estrelas e sua expressão era de apatia completa, mas Bard sabia que o mesmo observava e ouvia tudo com total atenção.
— O discurso destes homens é aprazível, doce e encantador. Entretanto, tudo não passa de uma manipulação disfarçada. — todos permaneciam em silêncio, atentos ao que ela dizia. — Eles incitam o povo, jogam uns contra os outros e depois jogam todos contra aqueles que têm algum tipo de poder maior.
— No caso, por que acham que a estadia dos elfos na cidade tem sido motivo de tantas críticas? — completou o arqueiro.
— Estão dizendo que estamos sendo manipulados para desaprovar o povo do rei da Floresta das Trevas? — questionou Elros. — Por quê?
— Nossa missão aqui é estabelecer a paz e, se possível, levantar um senhor sobre Valle. — Luna respondeu e Bëor fitou Bard no mesmo instante, este que desviou o olhar. — Justamente, o que estes homens não desejam que seja feito.
— E por que os nossos não desejariam a paz ou um novo governante? — indagou Húrin.
— Porque eles desejam o poder para si. — Elros concluiu quando finalmente entendeu aonde o arqueiro e a elfa queriam chegar. — Mas, o que isso desencadearia? Um reino fragmentado acaba em ruína, e nenhuma cidade ou casa dividida contra si mesma poderá subsistir.
— Este é o objetivo. — esclareceu Luna. — As pessoas se enfrentam e se destroem. Homens contra homens. Se não houver povo, não haverá resistência.
— A poderosa Erebor se ergue exatamente ao lado de Valle, e é a sua sombra que se deita sobre nós antes do próprio sol se assentar no horizonte. Os anões não permitirão que algo assim aconteça, são nossos vizinhos e aliados! — argumentou Húrin.
— Repudiar o poderio dos anões para logo depois se esconder sob a proteção de suas asas? — Bard foi sarcástico. — Uma bela contradição, eu devo dizer.
— O Rei Sob a Montanha não se intrometerá nos assuntos dos homens. Essa foi a vontade do povo. — Bëor relembrou em tom de lamento.
— O quê? — Luna franziu o cenho. — Como assim, esta foi a vontade do povo? Nos foi dito que os anões tinham seus próprios assuntos para resolver, por isso não poderiam cuidar dos problemas dos homens.
— Uma pequena mudança de palavras, mas este não é o problema, é? Dáin nunca nos abandonaria se esta não fosse nossa própria vontade. — exclamou o ancião. — Ai de nós, minha senhora, nossas próprias decisões nos levarão a ruína. O povo está enfeitiçado pelas belas palavras dos que se dizem os libertadores.
— E quando não restar mais nada que possa ameaçá-los eles consumarão sua vontade e Valle voltará ao jugo pesado da injustiça. — completou o terceiro homem, se pronunciando pela primeira vez e chamando a atenção de todos para si. — Agora entendo aonde querem chegar.
Luna assentiu.
— Nós, elfos, não queremos o controle da cidade, nossa missão é de paz. Porém, até o momento, fomos interpretados de maneira errônea.
— Tem o meu apoio, minha senhora. — Bëor disse convicto. — Eu não vivi tantos anos a espera de que nosso povo se reerguesse para que esses jovens mal-intencionados venham destruir nossas esperanças.
— Concordo com você, meu velho amigo. — afirmou Húrin. — Devemos lutar pelo bem de Valle, pelo bem do nosso povo!
Bard fitou Elros e visualizou sua expressão impassível.
— Ainda que eu continue não gostando de elfos… o inimigo do meu inimigo é meu amigo. — o mesmo se limitou a dizer e então deu de ombros.
Luna reprimiu um sorriso de satisfação.
— Dior? — Húrin indagou. — O que nos diz?
Um silêncio pairou no ar enquanto o homem ainda permanecia ponderativo. A elfa e o arqueiro se entreolharam.
— Iremos reunir o povo amanhã, logo depois que o cansaço da comemoração for esquecido. — ele iniciou calmamente. — Falaremos aos habitantes tudo o que está sendo discutido aqui e abriremos os seus olhos. Nenhuma cabeça se deitará sobre seu travesseiro até que todos esses traidores estejam expulsos de nossas terras.
Os presentes sorriram convictos e determinados.
— Mas, quando tudo acabar, ainda deveremos escolher um novo Senhor de Valle. — relembrou Bëor. — Trará estabilidade a nosso povo.
— Uma fato. — concordou Elros.
O arqueiro engoliu em seco, visivelmente incomodado, algo que a elfa percebeu.
— Este não é um assunto para agora, cada coisa no seu devido tempo. — Bard exclamou com seriedade.
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— Sinto que agora as coisas finalmente irão se encaixar. — ela disse com um sorriso estampado em seu rosto. — Ter o apoio destes homens será de grande ajuda e, quem sabe assim, a cidade encontrará sua paz!
O arqueiro a fitava em silêncio, apreciando a alegria contagiante que emanava de Luna. Ambos estavam muito distantes da festividade, e um vento frio soprava enquanto eles caminhavam.
— Ainda temos muito a fazer. Eles nos ajudarão a expulsar os rebeldes, mas, a jornada ainda é longa… — Bard exclamou ponderativo.
— Não creio que expulsão seja algo necessário, afinal, por piores que sejam, estes homens também fazem parte do povo de Valle. — a elfa fez uma pausa. — Nos consideramos tão aptos a julgar e condenar… eu o digo, sr. Arqueiro, nem mesmo os meus quase seiscentos anos me qualificam para tal procedimento. — Bard sorriu minimamente.
— Admiro a sua benevolência. Contudo, ainda que resolvamos o problema da constante discórdia na cidade, no instante em que os elfos declararem retirada as coisas voltarão a ser como antes. Nós somos homens do norte, somos persistentes, até mesmo aqueles que se deixaram levar pela escuridão. — ele cruzou os braços atrás das costas.
— Uma vida sem esperança é uma vida muito triste, meu caro Bard. — Luna tocou seu ombro e o fez parar de caminhar. — Tenha ao menos um pouco de fé, tudo vai acabar bem!
O arqueiro a fitou e viu suas belas feições serem iluminadas pela luz do luar.
— Eu vejo bondade em seus olhos, uma bondade tão escassa em nosso mundo quanto à própria paz. — ela corou e desviou o olhar. — Não me lembro de tê-la visto no vasto exército de seu rei quando ele veio em busca de suas gemas, no confronto pela montanha.
— Nos tempos de vida de Thorin Escudo de Carvalho, quando meu senhor veio à Erebor, eu guardava as fronteiras de meu reino. — ambos voltaram a caminhar.
— As guardava junto com seu irmão? — a pergunta fez Luna fitá-lo com um olhar nublado.
— Como sabe sobre meu irmão? — ela se voltou para a frente, fugindo do olhar questionador de Bard.
— Argon me disse algumas coisas, mas não muito. Ele mencionou apenas a partida de seu irmão. — percebeu que o assunto a incomodava em demasia e praguejou contra si mesmo pelo que fizera. — Perdoe a minha indelicadeza.
— Não se desculpe. — ela sorriu tristemente e curvou a cabeça para observar os próprios passos. — Este é um fato, uma realidade com a qual eu devo conviver.
Um silêncio se instalou entre os dois e só então o arqueiro percebeu que se encontravam distantes de todos, estando na parte sul da cidade. Dali uma pequena e estreita rua seguia em direção ao leste, onde Argon e Lúthian vigiavam seus filhos.
Bard não sabia o que dizer ou fazer. O silêncio o incomodava, mas, principalmente, a sua insensatez.
— Desculpe-me, eu não deveria tocando neste assunto. Ele não me diz respeito. — ela lhe dirigiu um olhar tão calmo e sereno que o fascinou.
— Não é comum que um estranho me questione sobre um assunto tão particular, nem mesmo o meu povo se atreveu a tal atitude. — Luna sorriu minimamente e então se voltou para a frente. — Mas, eu devo admitir que admiro a sua coragem, mesmo que desaprove a raridade com que ela se manifesta. — ele quase sorriu com a frase, mas se conteve. — Pude ver que seu filho é extremamente parecido com você neste ponto.
— E isto me assusta. — Bard respondeu.
— Por quê?
Eles pararam diante de um muro alto, no limite da cidade. O arqueiro se recostou ao mesmo, com os braços cruzados, e a elfa se pôs a sua frente com a costumeira postura elegante.
— A coragem de Bain é tão grande quanto a de qualquer um e seu espírito é tão impetuoso quanto o vento. Entretanto, ele é teimoso, inconsequente e às vezes iludido por suas próprias razões. — o antigo barqueiro respirou fundo.
— Não pode reprová-lo por isso. O tempo o moldará e a joia bruta se tornará em algo belo, algo forte. Os olhos o fitarão com admiração e ele será louvado por seus feitos. — um vento fraco batia contra Luna, fazendo seus cabelos negros dançarem suavemente.
Bard assentiu com seus olhos vidrados na figura da elfa, esta que fitava um ponto qualquer.
— Luna… — ele chamou e ganhou sua atenção.
— Sim?
Antes que pudesse dizer o que pretendia, passos foram ouvidos e ambos se colocaram atentos. Ele se pôs em frente à elfa, em um ato de proteção, e aquilo a fez fitá-lo com certo divertimento.
— Levando meu treinamento e os anos de minha experiência em conta, nossos lugares não estão trocados? — ela indagou de forma irônica.
— Shii! — foi tudo o que recebeu como resposta, fazendo-a revirar os olhos. — Acho que foi embora.
Luna se afastou um pouco, estando atenta ao mínimo som, e depois de um certo tempo eles baixaram a guarda.
— Seja o que for, não está mais aqui. — ela disse com seriedade. — Melhor nos juntarmos ao povo. Preciso me reunir com Lúthian e Argon para dar as boas novas.
O arqueiro assentiu.
— Estará aqui amanhã de manhã? — ele indagou e ganhou um sorriso de Luna, esta que desviou o olhar para outro ponto.
— Não, apenas quando o povo for reunido. Rei Dáin me convocou para uma reunião, ele quer saber como anda a situação em Valle. — ela esclareceu. — Por quê?
Bard apenas balançou a cabeça negativamente.
— Não é nada. — se limitou a responder.
Ele sentia um estranho nervosismo ao falar com Luna, sempre pensando que diria alguma estupidez. A proximidade entre eles fazia acelerar as batidas de seu coração e o azul profundo dos olhos dela o fascinavam, como nenhum outro jamais conseguiu.
Ambos não disseram mais nenhuma palavra, apenas seguiram em silêncio na direção de onde todos se encontrariam.
Ela sentia o arqueiro observá-la minuciosamente. E, mesmo não demonstrando, Luna se sentia bem a seu lado. Sentia uma paz que há muito não morava em seu coração. Era fácil estar na companhia de Bard, sem mais complicações, e isso era novidade em sua realidade conturbada.
Ele era calmo e suave, como a brisa da manhã. Mas, seu caráter era nítido e a bondade era o símbolo de sua existência. Sua coragem era sempre contida pela vontade de proteger a quem tivesse o seu amor, com o exemplo de sua família.
E a elfa agora o admirava, profundamente.
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