I See You
11 Capítulo 11
Notas iniciais
A porta da varanda estava fechada e uma grande cortina a cobria, impedindo que a pouca luz da noite adentrasse o recinto. A entrada de seu quarto também se encontrava devidamente trancada e apenas as chamas da lareira iluminavam o local.
Ele estava sentado na cama de seus aposentos, no grande palácio dos anões, fitando o baú com as gemas em seu colo. Tantos anos em busca daquilo que mais desejou e agora, tendo-as exatamente em suas mãos, estava inquieto.
Thranduil respirou fundo e a luz das joias refletiu em seus olhos azulados. Ele ergueu uma das mãos e tocou as pedras com as pontas dos dedos suavemente, como se fossem desaparecer, e então uma grande e profunda tristeza — um sentimento que lhe era familiar — se apoderou de seu coração.
A lembrança dos olhos cristalinos de sua esposa o atingiu como uma flecha em seu peito, dilacerando-o sem clemência. Ela não estava mais ali e ele não poderia lhe entregar as joias.
Do que lhe valiam agora? Para que serviriam? Elas apenas o lembravam da única que um dia já tivera seu coração, a dona de sua alma, rainha de seu reino.
Sim, amada. Incondicionalmente… avassaladoramente.
Ele baixou sua guarda, abriu seu coração e a deixou entrar. A deixou tomá-lo e dominá-lo a ponto de que o ar que respirava era ela, sua vida… vida que foi arrancada de si de forma cruel. E assim seu coração foi rasgado e sua alma condenada, pois o mundo o havia ensinado da maneira mais triste e tirana de que o amor era uma fraqueza.
Um furacão irracional que apenas destrói.
Então, ele se fechou e o rancor tomou conta do pouco que sobrou de seu coração. A amargura cobriu sua alma como uma capa, o protegendo, o alertando. E ele preferia assim, estava acostumado. Aquele era seu lugar seguro, sem possibilidades duvidosas.
Thranduil fechou o baú com força e o lançou em cima dos travesseiros, levantando-se logo em seguida. Ele se pôs em frente à lareira e permitiu que o calor do fogo o aquecesse, o trouxesse algum conforto.
O rei élfico não tocava naquele assunto, e nem se agradava de que outros o fizessem. Nem mesmo seu filho, seu único filho e herdeiro de seu trono, mencionava algo sobre sua mãe.
Legolas não se lembrava dela, nem mesmo das longas tardes que ambos passavam juntos no jardim quando este ainda era apenas uma criança de colo. Ele e sua mãe se sentavam ao redor das flores e depois ela o banhava nas águas cristalinas enquanto o contava histórias antigas. Ela cantava os cânticos mais belos com sua voz aveludada e Legolas dormia em seus braços. E o rei se perdia em pensamentos diante daquilo, não se importando em observá-los naqueles momentos por horas a fio.
Thranduil riu amargo e ergueu as mãos para retirar sua coroa. Ele a fitou por alguns minutos, o símbolo de seu reinado, e então a colocou em um lugar qualquer.
— Ela não sabe… não sabe de nada… — dizia para si ao endurecer suas feições.
Como Luna ousava tê-lo chamado de rei sem esperança? Ele a possuíra, de todos em seu reino, ele fora o que mais a guardara para si. Mas ela não o salvara, não mantivera o que ele mais prezava em segurança, então o elfo simplesmente exilou o sentimento de si.
Thranduil passou as mãos pelo rosto e sentiu o ódio voltar a ferver seu sangue. Ela não o conhecia e mesmo assim o julgava, como se ao menos pudesse compreender o que se passava nas profundezas de seu ser.
Algo gritava em sua mente e o chamava de tolo, o acusava. Por que ele foi em busca de sua chefe da guarda? Por que permitiu, mais uma vez, com que um pensamento lascivo o dominasse?
Eu a odeio tanto, Luna…
O loiro riu com desdém.
Ela era como uma espécie de veneno, um veneno que mata aos poucos e que corrói tudo por dentro. Um veneno belo e aprazível, como um vinho de aroma suave que por detrás de sua aparência convidativa não passa de algo destrutível e viciante. Inacreditável e malignamente viciante.
Thranduil caminhou cambaleante pelo quarto como se estivesse embriagado, pois ele estava perdido no mar dos próprios pensamentos como um marinheiro sem bússola.
Se lembrou dos olhos de Luna, somente os olhos, como se eles o fitassem naquele momento tão vergonhoso. Thranduil os odiava por completo porque eles o torturavam sem piedade, como se varressem sua alma e desvendassem seus segredos. Neles o rei via o mundo, via o universo. Via a beleza das flores, a luz das estrelas, a pureza do ar e a profundidade do mar.
O elfo passou as mãos pelo rosto mais uma vez.
O que quer de mim?
A pergunta dela ecoou em seus ouvidos. E ele não sabia sobre a resposta, essa era a verdade.
Luna o odiava e disso ele não tinha dúvida, contudo, aquilo era magnetizante. Thranduil queria seu desprezo, ele precisava. Mas, ao mesmo tempo, também queria fazê-la entender. Fazê-la enxergá-lo através de tudo. Então, se ainda desejasse, ela poderia odiá-lo. Não por uma impressão superficial de sua pessoa e sim pelo que ele realmente era.
A lembrança da elfa o observando nos jardins de sua antiga rainha veio-lhe a mente e Thranduil riu em escárnio. Ela correra como um animal assustado. Mas, o elfo não havia se esquecido de seus olhos brilhantes e de seu rosto corado. Não havia se esquecido de seus cabelos negros soltos ao vento…
Não havia… não havia.
Thranduil cobriu o rosto com as palmas das mãos e assim abafou um rugido de angustia. Ele odiava tudo em relação à Luna, mas odiava ainda mais o fato de seu corpo desejá-la. Sua pele alva, sua boca pequena e rosada, seus olhos tão claros e profundos.
Ardiam, os lábios do rei ardiam com a mera lembrança de tê-la beijado tão sofregamente. Sim, ele sentia pequenas gotículas de suor se formarem sobre sua fronte e seu corpo esquentar como brasa. Pensamentos voluptuosos o tomavam e ele se sentiu tensionar. Thranduil ainda ouvia com clareza os gemidos baixos ao pé de seu ouvido, e então arfou…
— Maldita… — ele permitiu com que a palavra escapasse de seus lábios, tendo a imagem de sua chefe da guarda em mente. O loiro abaixou as mãos e fitou o baú sobre a cama, o fitou com todo o rancor que residia em seu coração. — Celebrian… perdoe-me!
Há quanto tempo ele não pronunciava seu nome? Há quanto tempo não se permitia fazê-lo?
O loiro caminhou calmamente até o baú e o fitou de cima, ele se sentia vazio… oco. Uma risada debochada escapou de sua boca, era exatamente como a elfa o havia descrito.
— Luna… — pronunciou em um sussurro. — você não sabe de nada… nada!
.o0o.
O sol já despontava no horizonte quando a elfa arrumou a sela de sua montaria para ir a Valle. Ela ergueu os olhos de uma maneira desinteressada e observou a comitiva de seu rei se preparar para a hora da partida, estando não muito longe dali.
Seu cavalo relinchou repentinamente e aquilo retornou sua atenção para o que fazia. Luna sorriu e massageou a pelagem branca do animal, acalmando-o de forma paciente até sentir que poderia montá-lo. O mesmo batia suas ferraduras contra o chão quando a elfa ouviu o trotar de outro cavalo.
— Me surpreendi quando soube que Sua Majestade disponibilizaria soldados para Valle. — o príncipe comentou ao se aproximar em sua montaria.
Luna o fitou por alguns segundos e então desviou o olhar.
— Ele tinha um interesse particular neste acordo, disponibilizar os soldados era a única forma de consegui-lo. — o respondeu educadamente e sentiu o animal se inquietar sob si, fazendo-a segurar as rédeas com mais firmeza.
Ela se sentiu extremamente incomodada, os olhos do príncipe pesavam sobre si como se a questionassem em silêncio.
— Meu pai parece ser bem complacente quando se trata de você, Luna. — ela ficou surpresa por ele saber o seu nome. — Nem se importou com o fato da dama dirigir os soldados sem que ele mesmo estivesse pronto para partir. Uma atitude um tanto peculiar, não acha?
A elfa engoliu em seco e finalmente dirigiu seu olhar para Legolas, este que a fitava com um misto de curiosidade e dúvida. Seus olhos azuis eram quase iguais aos de seu pai e o porte altivo de Thranduil também estava nele, mas Luna não via a áurea escura de seu rei espelhada no príncipe.
— Sua Majestade tem muitas responsabilidades para se preocupar com as minhas decisões. Ele entende que todas elas são voltadas para o bem comum.
O loiro sorriu de canto com seus olhos fixos na figura de Luna.
— Imagino. — se limitou a dizer e então acenou levemente com a cabeça, na direção da cidade. — Vejo que estava indo para Valle, se incomodaria se eu a acompanhasse?
— Vossa Alteza não precisa se preparar para partir com vosso pai?
— Ele foi convidado para ter o desjejum com o Rei Sob a Montanha, nossa partida foi adiada. Tenho tempo suficiente.
A elfa conteve um suspiro de frustração e se limitou a assentir em concordância. Legolas entreabriu os lábios para dizer mais alguma coisa mas Luna agitou as rédeas do cavalo e o fez cavalgar na direção da cidade dos homens, deixando-o sozinho com suas palavras. O príncipe permaneceu estancado no mesmo lugar, parcialmente surpreso pela atitude da chefe da guarda de seu pai. Foi impossível conter um sorriso de divertimento, e ele logo movimentou as rédeas de sua montaria e seguiu na direção que a elfa havia tomado.
Luna chegou à cidade e cavalgou por entre as ruas principais. Os guardas permaneciam de prontidão, separados em vigília pelas esquinas, e o clima não poderia estar mais calmo. Alguns homens dormiam jogados pelo caminho de paralelepípedos e seu sono era tão pesado que nenhum deles despertou com o som do trotar de seu cavalo. Provavelmente remanescentes da comemoração da noite anterior.
Ela desceu de sua montaria e entregou as rédeas do animal a um dos guardas.
— Tiveram problemas durante a vigília desta noite? — indagou de forma séria ao ouvir outro cavaleiro se aproximar, e não demorou muito até que o príncipe estivesse posto elegantemente a seu lado.
— Alguns homens se desentenderam após retornarem da montanha, mas a situação não se agravou. Fizemos como o ordenado, minha senhora. — o soldado respondeu ao fazer uma leve reverência para ela e para Legolas.
— Ótimo. Avistei homens jogados na rua, não muito distantes daqui. Descubra onde moram e os envie para suas casas. — o elfo apenas assentiu e se retirou.
O príncipe a assistia calado, observando tudo com uma expressão de neutralidade.
— Já estou a par dos problemas que a cidade enfrenta, mas, desejo saber; como pretende amenizar o embate no meio dos homens de Valle? — ele questionou casualmente quando ambos passaram a caminhar por entre as ruas de pedra.
— O objetivo principal, no momento, é estabelecer um sentimento pacífico entre o povo. Como sempre, a cobiça é o núcleo do problema. — Luna o respondeu ao cruzar as mãos atrás das costas, fitando a beleza das casas recém-construídas com certa admiração.
— Me pergunto como será a convivência entre elfos e anões. — o príncipe disse em um tom de divertimento que divergia com sua expressão séria e seu olhar altivo.
— Este será um de meus deveres; manter a paz entre as raças. — Legolas assentiu.
— Suponho que tenha designado alguém para substituí-la na Floresta das Trevas, pelo tempo que ficar aqui. — algumas pessoas já começavam a caminhar pelas ruas enquanto outras abriam seus comércios.
— Elenor, capitão e amigo de vosso pai. — eles desceram uma pequena ladeira que dava entrada para outra parte da cidade. — Ele ficará responsável por meu cargo e responderá ao rei em minha ausência.
— Enquanto eu estava em minha missão chegou aos meus ouvidos de que Tauriel havia partido de nosso reino, mas também que havia deixado alguém em seu lugar. — ele a fitou rapidamente e então continuou: — Vejo que ela fez uma boa escolha. — Luna disfarçou uma risada. — Algum problema?
— Creio que Sua Majestade não compartilhe da mesma opinião, Alteza. — a elfa exclamou ao lhe dirigir um olhar que o príncipe correspondeu. — Ele não parece satisfeito com a decisão de Tauriel, mas eu não o culpo. Meu senhor Thranduil teme pela segurança de seu reino.
— Fico surpreso de que o defenda. É muito comum que o rei seja criticado por seus modos… peculiares. — admitiu o loiro ao menear a cabeça levemente. A conversa parecia diverti-lo.
— Apenas digo que o compreendo, não estou necessariamente o defendendo. — Legolas cruzou os braços elegantemente e então se calou, como se ponderasse sobre o que ouvira.
Ambos caminharam mais um pouco, desta vez em silêncio. Luna fitava cada ponto visível na tentativa de ocupar sua mente e assim parou para admirar o sol, este que já começava a iluminar as ruas com mais intensidade.
O príncipe não era como o rei. Mesmo que aparentemente dividissem o mesmo semblante sério, quase frio, a elfa não poderia compará-los em personalidade.
— Meu pai nunca tolerou que adentrassem os jardins de minha falecida mãe, nem mesmo eu me atrevo a ir lá. — Legolas parou de caminhar e Luna o imitou, pondo-se a seu lado e recebendo um olhar profundo. — Confesso que estou bastante intrigado. — aquele era o assunto que ele pretendia iniciar desde o princípio.
— Talvez a minha insignificância tenha me auxiliado, meu senhor. — ela o respondeu ao dar de ombros, estando parcialmente envergonhada ao se lembrar do ocorrido.
Eles estavam no ponto mais alto da cidade, de onde o horizonte podia ser observado sem qualquer intromissão de terceiros. Luna desviou seus olhos do príncipe e os fixou na direção da bela vista.
— É a sua opinião? — ele indagou.
— Não. — balançou a cabeça negativamente. — Acho que ele não se pronunciou sobre minha entrada no jardim porque simplesmente se desagrada tanto de mim a ponto de estar em busca de um motivo plausível para me exilar. — ela quis soar sarcástica, mas seu tom de voz ganhou um ar cômico e sutil.
O elfo riu levemente.
— Não é uma visão equivocada?
— Considerando o fato de que tem fundamento, não acho que seja. — Legolas abriu um sorriso largo e, desta vez, foi acompanhado por Luna.
Logo o som de um trotar foi ouvido e um soldado se aproximou em sua montaria, interrompendo a conversa dos dois.
— Alteza, vosso pai se prepara para partir e ordena que meu senhor se junte a ele na entrada da montanha. — o elfo proferiu com seriedade.
Luna se voltou para o horizonte e assumiu uma postura desinteressada. A atitude não passou despercebida pelo loiro, que a fitou de esguelha, mas que logo retornou sua atenção para o soldado.
— Diga ao rei que estou indo a seu encontro, não demorarei. — o servo assentiu e assim agitou as rédeas de seu cavalo, partindo para longe dali.
Legolas se pôs a fitar o horizonte ao lado da elfa, apreciando a visão esplêndida concedida pela natureza.
— Meu senhor não deve demorar. Nosso rei não é um exemplo de tolerância. — ela disse tranquilamente.
— Depois de tantos séculos, eu aprendi a lidar com meu pai. Mesmo que às vezes ele ainda consiga me surpreender. — disse ao sentir uma brisa suave tocar seu rosto.
— Bem, não há muito que ele possa fazer que venha, de alguma forma, me surpreender. — Luna retrucou com indiferença e então o fitou.
O príncipe sorriu, ainda estando atento ao horizonte, e o sol refletia em seus olhos azulados quando ele disse:
— Meu pai é um ser de muitas facetas. Com ele, entre o que as coisas aparentam ser e o que elas realmente são há uma grande diferença. — ela admitiu sua derrota ao se calar diante daquilo. — Se importa em me acompanhar? — o príncipe indagou cordialmente enquanto voltava a assumir uma expressão seriedade.
Luna apenas assentiu.
.o0o.
— Não pense em me trair, está ouvindo? — Dáin ameaçou com sua voz rígida.
O rei élfico, já em sua montaria, apenas o fitou indiferentemente.
— Eu deveria sentir medo? — indagou com cinismo.
O ruivo revirou os olhos, mas, no final, fechou uma das mãos em um punho e a bateu contra o peito. Um ato de mais pura honraria. Em retribuição, Thranduil curvou a cabeça elegantemente.
— Que aja paz! — disse o Rei Sob a Montanha.
O loiro o fitou de cima.
— Que aja paz! — repetiu com cordialidade e então se voltou para trás, vendo seu filho se aproximar. — Vamos.
Enquanto partia para longe o rei pôde contemplar o povo da cidade e alguns de seus soldados que ali permaneceriam. Todos se encontravam em um aglomerado absurdo, observando o senhor da Floresta das Trevas e sua comitiva voltarem para seu reino. Os olhos de Thranduil continuaram varrendo cada canto da cidade recém-construída até caírem sobre a figura de sua chefe da guarda, esta que o fitava de longe.
Por um momento ele parou — totalmente estancado no lugar — e todos que o seguiam fizeram o mesmo, confusos. O elfo não tinha expressão, mas de seus olhos transbordavam orgulho e arrogância, como o mar em noite de tempestade.
Luna também o fitava com mágoa e indiferença, mas algo em seu coração a incomodou. Ela não queria se sentir assim, não era de sua natureza. Porém, depois de tantos acontecimentos, esses eram os únicos sentimentos que seu rei merecia de si. Então, em um ato de apatia, ela simplesmente o deu as costas e se afastou para sumir das vistas de seu soberano.
De longe Thranduil a viu partir e se sentiu insultado, sentiu seu orgulho ser pisoteado com a maior das indiferenças. Ele ergueu a cabeça, da forma que somente um rei poderia fazer, e deixou a magnitude de sua soberania em evidência, reassumindo sua costumeira expressão de frieza e superioridade. Os servos mais próximos se curvaram levemente temerosos, demonstrando todo respeito a seu senhor.
O rei élfico logo voltou a seguir seu caminho em direção à Floresta das Trevas, sendo prontamente seguido por sua comitiva. Não, ele não se deixaria vencer. E mesmo que Luna não soubesse, aquilo ainda não havia acabado.
Ninguém pareceu compreender o que ocorria, mas Legolas — com a capacidade de sua visão — pôde perceber exatamente o que capturou a atenção de seu pai. Mesmo jovem para um elfo, o príncipe era sábio. E com um sorriso imperceptível em seu rosto, ele deu suas pesquisas por encerradas.
Fale com o autor