I See You

10 Capítulo 10


Notas iniciais

— Como assim? — Bard perguntou ao abrir os braços para evidenciar sua surpresa. — Elfos?

O rei anão se remexeu em seu trono e meneou a cabeça, onde sua coroa descansava soberana.

— Confesso que foi uma ideia de momento — ele admitiu. — mas não tive escolha. Aquele elfo não refaria a aliança se não tivesse aquelas malditas gemas, e eu não as daria de graça. — o arqueiro cruzou os braços e ergueu uma das sobrancelhas. — A culpa também é sua! — Dáin o acusou irritadiço. — Se você tivesse aceitado o cargo de Senhor de Valle nada disso aconteceria.

— E nossa aliança com Thranduil não seria refeita. — intrometeu-se Balin, estando ao lado do trono. — No fim, tudo saiu como deveria.

— Elfos narcisistas não acalmarão os ânimos do povo neste momento delicado. Tem certeza de sua decisão? — Bard estava apreensivo.

O ruivo o fitou e se sentiu encurralado.

— Você e seus homens lutaram ao lado do meu povo na Batalha dos Cinco Exércitos, e por isso todos de sua linhagem são e sempre serão bem-vindos em meus salões, meu amigo. Porém, mesmo que a estadia dos elfos o desagrade eu já dei a minha palavra, e a palavra do Rei Sob a Montanha é de ferro e não pode ser alterada. Eu já fiz a troca; as gemas serão de Thranduil e seus soldados serão meus. Você mesmo poderia ter evitado isto se a teimosia não conduzisse o seu coração. — Dáin gargalhou alto antes de continuar: — Às vezes penso que você é um anão que, por algum motivo, cresceu demais… — ele sorria para o arqueiro, demonstrando o quanto sua amizade lhe valia.

O homem apenas sorriu de volta, confiando no rei que chamava de amigo. E antes que pudesse pensar em algo para dizer, Dwalin adentrou a Sala do Trono com sua irritação explícita em suas rígidas feições.

— Eu desisto, desisto! Esses homens podem se matar, se quiserem. Eu não gastarei mais as minhas forças e as forças dos nossos guerreiros tentando apaziguá-los! — dizia o capitão enquanto bufava furioso ao passar de modo rude por Bard.

— Mais um confronto? — indagou Balin.

— Estão ficando mais frequentes. — o arqueiro esclareceu. — Preciso voltar para casa, meus filhos estão a minha espera.

— Não demorará até que a minha fadinha favorita chegue a nosso reino para oficializarmos nossa… reconciliação. Dáin não era nem um pouco discreto em seu desafeto pelo rei élfico, o que fez Bard sorrir de canto. — Uma grande festa será feita em meus salões, e você é meu convidado de honra!

— Ainda não concordo com isso. Não digo pela aliança e sim da parte em que elfos viverão entre nós, em Valle. Deste modo, não creio que minha vinda à sua comemoração seja algo bom, meu amigo. — respondeu-o gentilmente.

— Ora, vamos… sabe quanto esforço eu fiz para não cortar cada fio dourado da cabeça daquele elfo arrogante? — o Rei Sob a Montanha gargalhou alto e foi acompanhado por todos os presentes. — Quanto mais amigos estiverem ao meu lado, mais essa vontade se manterá apenas em meus pensamentos.

— Prometo pensar em seu convite, mas não prometo aceitá-lo. — Bard exclamou e viu o anão revirar os olhos. — Bem, preciso ir. — fez uma leve reverência e então se retirou.

— Acham que ele vem? — Balin questionou curioso.

— Sem chance. — retrucou Dwalin.

— Você disse teimoso como um anão? — o conselheiro se voltou para seu rei e Dáin sorriu com diversão antes de respondê-lo:

— Exatamente.

.o0o.

Bard adentrou a cidade e se deparou com o caos instaurado. Ele avistou um grupo de homens que discutiam entre si e outros que se esmurravam, quebrando tudo que viam pela frente. As mulheres gritavam temerosas e crianças choravam no colo de suas mães.

O arqueiro imediatamente desceu de seu cavalo e foi em direção ao centro do tumulto. Ele passava pela multidão com dificuldade, quase sendo acertado por um objeto que não soube identificar.

— PAREM COM ISSO, SEUS TOLOS! — Bard gritava entre os homens e não recebeu qualquer atenção. — PAREM COM ISSO! — repetiu ao se colocar entre dois rapazes que se agrediam violentamente, apartando-os de forma rude.

Suas tentativas estavam se mostrando falhas, ninguém parecia ouvir seus apelos ou sequer percebê-lo. O arqueiro sentia sua cabeça girar pelo som dos gritos, coisas se quebrando… estava perdendo a paciência. O sol já se deitava no horizonte e o céu ganhava uma cor laranjada quando o som de uma marcha firme e constante foi ouvido pelos morados da cidade.

Aos poucos o tumulto cessou e todos pareciam atentos ao estrondo tão peculiar. Bard tentava abrir caminho para se dirigir até a rua principal de Valle, e foi quando ele avistou um grupo de elfos adentrar a cidade. Estes estavam alinhados e com suas expressões escondidas por seus capacetes dourados.

Todos os fitavam surpresos e admirados, menos um.

O arqueiro franziu o cenho, confuso. Não pensava que os soldados do rei élfico chegariam tão rapidamente à montanha. E ele não era o único a estar surpreso, muitos murmuravam entre si enquanto questionavam o motivo da presença dos Seres Imortais ali.

O grupo de elfos parecia não se importar e continuava marchando, seguindo sempre em frente e adentrando a cidade cada vez mais. O som de seus passos era como o som de ferro batendo contra o chão, todos ritmados e audíveis, enquanto seus corpos de grande estatura eram protegidos por suas armaduras reluzentes.

As trinta fileiras pareciam chegar ao fim quando Bard ergueu os olhos e os últimos raios do sol refletiram diretamente na figura de uma dama sobre um cavalo branco. A elfa tinha um semblante sério e altivo, mas seus olhos eram tão claros e profundos que por um segundo o arqueiro se sentiu arrebatado, sua beleza era superior a tudo que ele já havia contemplado.

O cavalo seguia calmo e ela observava minuciosamente cada canto do lugar, assim como cada rosto. Seus olhos se encontraram por um instante e Bard sentiu seu coração parar, mas a dama não demorou sua atenção nele e logo partiu na mesma direção que os outros soldados, indiferentemente.

O arqueiro caminhou em silêncio por entre a multidão com seus olhos fixos na figura da elfa. Ele a viu descer de sua montaria e se colocar diante dos outros que, de imediato, curvaram a cabeça respeitosamente. Ela deveria ser algum tipo de líder, o homem supôs.

— Homens de Valle, quem fala por vós? — indagou a elfa ao se voltar para a multidão. Sua voz era firme mas ainda soava como o som de muitas águas na calmaria do oceano.

Não temos senhor alguém disse em meio ao aglomerado de pessoas.

Cada um fala por si! outra voz foi ouvida e todos gritaram em concordância, o que causou tumulto outra vez.

Todos voltaram a falar ao mesmo tempo, uns gritando coisas perversas e outros incitando a discórdia. O arqueiro viu a face da elfa se contrair em desgosto e suas feições delicadas demonstravam o quanto ela estava irritada com tudo aquilo.

Um homem ergueu uma garrafa quebrada, gritando palavras mal-intencionadas em meio à multidão. E antes que este conseguisse atingir um rapaz, que fora imobilizado por outros dois homens, sua garrafa foi atingida por uma flecha certeira que a fez se partir em vários pedaços. Os cacos caíram pela face do homem que a erguia e seus gritos de dor ecoaram logo em seguida, atraindo socorro de algumas pessoas que trataram de tirá-lo dali.

A multidão se silenciou no mesmo instante e todos voltaram seus olhos na direção de onde a flecha havia surgido. A elfa ainda permanecia com seu arco posicionado e sua expressão não poderia ser mais impassível.

— Escutem — ela disse ao baixar o arco. — Orcs, Goblins, Espectros, Trolls e todos aqueles que mancomunam com o mal é quem são nossos verdadeiros inimigos. Então PAREM de brigar entre si! — fez uma pausa e fitou a todos profundamente. — A curta vida dos homens os impede de enxergar o real motivo de sua existência, mas eu digo que Eru não os criou com inteligência para que não fizessem uso dela. — os ânimos se acalmaram e alguns recuaram, temerosos pelo tom rígido de sua voz.

— E quem é você? — Bard finalmente se pronunciou, tomando a frente da multidão e vendo os olhos azulados dela o fitarem com uma sobrancelha arqueada. Seus lábios rosados se entreabriram e antes que respondesse a chegada de um grupo de anões a interrompeu.

— Luna! — Balin a saudou ao se aproximar. Ele inclinou a cabeça e foi retribuído pela elfa no mesmo instante.

— Você não disse que aquele projeto de rei viria junto? — Glóin se pronunciou ao se colocar ao lado do conselheiro.

— Meu senhor não demorará. — foi Luna quem o respondeu.

— Fico feliz! — o mais velho dos anões olhou em volta e avistou o arqueiro. — Vejo que já conheceu Bard, o Matador do Dragão!

A elfa o fitou de esguelha.

— Sim. — se limitou a dizer e se voltou para Balin.

— Vamos à montanha, o rei quer cumprimentá-la. — o conselheiro fitou a multidão. — Teremos uma grande festa esta noite e os portões estarão abertos para os homens. Estão todos convidados!

Os dois anões subiram em suas respectivas montarias e esperaram por Luna.

— Cuidem da cidade e protejam seus habitantes. — ela disse firmemente ao subir em seu cavalo. — Até deles mesmos, se for necessário… — finalizou enquanto fitava a multidão e direcionava seu último olhar para o arqueiro, este que baixou a cabeça para se esconder de seus olhos penetrantes.

O som do trotar do animal foi se afastando até não restar nada além dos ruídos do vento batendo contra as janelas das casas. Bard fixou os olhos no local por onde a dama havia partido enquanto ouvia alguns murmúrios entre a multidão.

.o0o.

Luna era acompanhada por Balin que, após a reunião com o Rei Sob a Montanha, havia se oferecido para mostrá-la seus aposentos. Ele deveria ser quem mais se esforçava para aquilo dar certo.

— Espero que goste, tentei ao máximo fazer com que se sentisse a vontade e se lembrasse de sua casa… — o anão disse ao apontar para as flores que caíam como cascatas sobre uma das paredes.

Luna as fitou e percebeu que estavam um pouco amassadas e deduziu que logo morreriam, pois estavam muito escondidas e a luz não lhes alcançaria ali. A elfa sorriu agradecida e inevitavelmente se sentiu bem-vinda.

Afinal, a intenção é o que conta.

— Agradeço, mestre Balin. — ela contraiu a expressão. — Porém, meu trabalho será em Valle e é lá que meus soldados estarão. Não vejo cabimento que as rochas da montanha me aqueçam e a cama me conforte enquanto eles descansarão ao relento.

O anão sorriu de lado.

— Não se preocupe, Sua Majestade já se encarregou de tudo. Uma das hospedarias da cidade será exclusiva dos elfos durante seu tempo aqui. — Balin explanou. — Entretanto, em relação à sua pessoa, ele foi específico quando disse que um dos quartos lhe seria disponibilizado. O rei quer frisar o quanto está disposto a fazer isto dar certo ao manter um bom relacionamento com os servos do senhor da Floresta das Trevas.

A elfa arqueou a sobrancelha, os anões a surpreendiam cada dia mais.

— Bom, mais uma vez, devo agradecer! — ela se inclinou e sorriu.

— Por favor, não é necessário. — Balin disse de modo gentil. — Preciso ir, há muitas coisas a serem resolvidas. Fique à vontade!

Ele se retirou e deixou Luna sozinha com seus pensamentos. A elfa andou pelo quarto — consideravelmente grande — durante muitos minutos e então se sentiu como um pássaro preso em uma gaiola. Ela pensou em voltar para Valle e ocupar a mente ou enlouqueceria ali dentro.

O rei anão a dissera que uma grande festa seria feita assim que Thranduil chegasse à Erebor, onde ele finalmente concederia ao elfo suas gemas — mas, ela não tinha certeza se participaria da comemoração. Sua vontade estava inclinada para a cidade e suas obrigações. Luna não permitiria que a cena grotesca que havia presenciado se repetisse entre os homens. Céus, que prazer encontravam no conflito?

Ela não percebeu o tempo passar enquanto navegava no mar de seus pensamentos, e toda sua atenção se voltou abruptamente para o som de uma trombeta — em algum lugar muito além de seus aposentos — que indicava que seu rei finalmente estava no reino dos anões.

A elfa caminhou para sua cama e se sentou. Suas feições mudavam de acordo com o rumo de seus pensamentos e ela estava indecisa, então a lembrança de seu senhor no riacho voltou a sua mente e agora ela estava irritada. Depois de muitos minutos e uma batalha interna dilacerante, Luna se levantou decidida e procurou algo adequado para vestir.

Não fugiria, não era nenhuma covarde. Mesmo vacilante, ela compareceria a festa do Rei Sob a Montanha.

.o0o.

— Atrasado como sempre, elfo. — acusou Dáin ao observar a grande festa em seu salão.

— Um rei nunca se atrasa, os outros é que estão demasiadamente adiantados, anão. — Thranduil retrucou com sua postura imponente intacta.

Os dois reis tinham seus respectivos lugares postos um ao lado do outro. Alguma piada de Balin, Dáin pensou. O do anão era como o metal polido, de característica rígida e austera, e o do elfo era como ouro bem trabalhado e reluzente.

Lugares dignos de reis!

Os homens e mulheres de Valle dançavam alegres pelo salão e os anões comiam e bebiam enquanto riam entre si. Já os elfos da comitiva de Thranduil permaneciam sentados e quietos, assistindo a comemoração sem se manifestarem.

Legolas permanecia ao lado de seu pai, sorrindo minimamente em vista de que todos pareciam em paz. Ele olhou em volta e não encontrou a dama que havia partido junto com os soldados, e aquilo o intrigou em demasia. O príncipe ainda estava curioso mas não mencionou nada com o rei, Thranduil era mestre em se desvencilhar de assuntos que não o agradassem e com toda certeza ignoraria as perguntas de seu filho.

Em meio à multidão, o arqueiro fitava suas filhas dançarem alegremente. Sigrid segurava as mãos de Tilda enquanto ambas rodopiavam sorridentes pelo salão. Já Bain cortejava as filhas dos mercadores com todas as artimanhas de um rapaz, mas era constantemente repelido. Bard não pretendia trazê-los, contudo, sua curiosidade falou mais alto. Na verdade, foram seus olhos, estes ansiavam contemplar a bela elfa da Floresta das Trevas.

Todos pareciam satisfeitos, todos riam e brindavam. O som grave da voz dos anões ecoou e Bofur iniciou uma de suas músicas animadas enquanto subia em uma das mesas. Comidas começavam a ser lançadas pelo ar ao mesmo tempo em que a música era entoada. Os anões brindavam com sua maneira rude e os homens gargalhavam de toda cena.

Foi quando Thranduil se levantou que a festa cessou. Todos se calaram e os olhares do maior ao menor estavam voltados para o rei élfico. Ele não pareceu se importar e seguia calmamente até a saída do salão, e Legolas foi em seu encalço.

— Não. — disse ao colocar uma das mãos em frente ao corpo, fitando o filho de cima. — Fique aqui. — ele ordenou e então olhou para a multidão com o máximo de simpatia que poderia ter para com seres tão insignificantes. — Continuem!

Thranduil deu as costas a todos, passando pela saída e chegando até o corredor. De lá ele ainda pôde ouvir o som da voz de um dos anões retomar a canção e assim todos voltaram a regozijar.

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A elfa fitava seu reflexo no espelho sem muito interesse. Ela penteava suas madeixas soltas com cuidado, suavidade e a mais cansativa lentidão. Por sorte, ou azar, uma das servas do rei anão a ajudou com o vestido que trajava e, mesmo agradecida, Luna não demonstrou muito contentamento. A vestimenta era bela e lhe caía bem, sem dúvida, mas atraía muita atenção por sua cor carmim.

Sim, a música ecoava por todo o palácio e chegava aos ouvidos da elfa — fazendo-a cada vez mais perder a coragem de comparecer a celebração. Ela não poderia mentir para si mesma, estava envergonhada e temerosa por ter de se apresentar a seu rei.

Como poderia voltar a fitá-lo normalmente depois do que havia acontecido nos Jardins da Rainha? Ele estaria aborrecido? O coração de Luna palpitava forte, quase pulando de seu peito, e sua alma clamava em agonia. Os olhos de seu senhor não saíam de sua mente e, mais do que nunca, ela era assombrada pela lembrança de seu beijo. O sabor de seus lábios…

A elfa largou o objeto de qualquer maneira em cima da penteadeira e se levantou abruptamente, caminhando pelo quarto com os braços cruzados sobre seu colo — que o vestido deixava parcialmente exposto. Um arrepio correu por todo seu corpo e Luna não pôde evitar um suspiro.

O que era aquilo? Estaria enlouquecendo?

Ela foi tirada de seus devaneios quando ouviu uma batida em sua porta, o que a causou um leve sobressalto pelo susto. Seus lábios se entreabriram e seus pés ficaram colados ao chão enquanto ela observava a entrada com uma hesitação evidente — ou seria um pressentimento? Mais uma vez a batida foi ouvida.

A elfa respirou fundo e caminhou lentamente em direção à porta. Ela ergueu a mão e tocou a maçaneta, apertando-a entre os dedos antes de puxá-la. Com uma calma que poderia ser facilmente confundida com frieza, Luna abriu a porta e se deparou com o último ser em Arda que ela esperava aparecer ali.

— Meu senhor? — indagou com surpresa e então engoliu em seco.

Os olhos azulados de seu soberano a fitaram impassíveis, mas eles logo se desviaram para o interior do quarto.

— Indiferente ao fato do quão inadequado isso pode parecer, me convidaria para entrar em seus aposentos? — sua voz fria ecoou pelo corredor e fez a elfa recuar um pouco.

Luna não conseguiu pensar em nada para responder então, mesmo contrariada, deu passagem para que seu rei adentrasse o recinto. Após fechar a porta, ela se voltou mecanicamente e viu que o mesmo havia caminhado para a frente da lareira. Demorou alguns minutos para que a elfa voltasse a se mexer, ou raciocinar algo coerente o suficiente para que assim formulasse uma questão.

— Como descobriu meus aposentos?

Thranduil sorriu com seus olhos vidrados nas chamas.

— Você já me fez perguntas mais úteis. — ele se afastou do fogo e retirou sua túnica, colocando-a em cima de uma mesa ao lado da lareira. — Mas, se isto a conforta, eu sou um rei e também sou um elfo. Acredite, não foi muito difícil. — finalizou com ironia.

Luna havia se aproximado e agora era sua vez de fixar os olhos no fogo, fazendo com que o brilho vermelho das chamas reluzisse em suas íris azuladas.

— Obrigado por me dizer o óbvio. — ela tentou conter o sarcasmo, mas fracassou. Seu semblante sério não anulava sua inquietação e suas mãos suavam pelo nervosismo.

— Sempre com uma resposta afiada na ponta da língua. — Thranduil disse ao se colocar a seu lado. — Três dias foram o suficiente para que eu me esquecesse dos seus maus hábitos.

— Meu senhor não pareceu se importar com isso quando se isolou. — Luna voltou seu rosto para o elfo e o fitou com altivez.

— E você foi atrás de mim. — ele retrucou ao fitá-la com seu olhar penetrante. O rosto dela logo corou e sua postura rígida enfraqueceu. — Olhe para mim, Luna. — Thranduil ordenou ao segurar seu queixo com uma das mãos, forçando-a a fitá-lo. — De todos os seres, você é a única capaz de tirar a minha paciência com tanta facilidade. — o olhar do rei estava frio, seu porte arrogante em evidência e sua áurea negra era magnetizante.

Ele desceu os olhos pelo pescoço alvo de sua chefe da guarda até descansá-los em seu colo parcialmente exposto, que por pouco não o revelava a visão do vale entre seus seios. Percebendo aquela audácia, a elfa ergueu uma das mãos na tentativa de se cobrir mas foi impedida por seu senhor.

Com dureza, Thranduil soltou seu rosto e aproximou os corpos ao som do crepitar da madeira.

— Não deveria estar lá embaixo recebendo suas gemas? — Luna sussurrou com ironia na inútil tentativa de se afastar.

O rei mergulhou uma de suas mãos nas madeixas negras e as segurou com firmeza entre os dedos, fazendo-a arfar com seu toque áspero.

— Elas podem esperar… — respondeu antes de tomar-lhe os lábios de maneira rude.

Sua mão estava emaranhada nos cabelos da elfa enquanto esta segurava firmemente em seus braços, indecisa entre repeli-lo de uma vez ou se juntar ainda mais a ele.

Ao contrário da última experiência, o rei não lhe pediu permissão para explorar o interior de sua boca. Sua língua ávida por descobrir os mistérios de Luna a instigavam a querer mais. A mão dele se desprendeu de seu cabelo no momento em que a empurrava em direção à parede mais próxima, onde as flores colocadas por Balin descansavam.

Os lábios se separaram por segundos apenas para que ambos pudessem respirar, mas logo Thranduil reivindicou os seus outra vez, mais insaciável do que antes. Ela era pressionada contra a parede de forma bruta, fazendo o perfume ser expelido das flores e inundar o ambiente.

Ele mordia os lábios da elfa, lascivo. E uma de suas mãos apertava Luna contra si enquanto a outra subia até seu colo, acariciando seu corpo, e os seios intumescidos dela já podiam ser vistos através do tecido fino do vestido — tudo por sua excitação. O lugar parecia incendiar.

Luna sabia que o que faziam era errado, céus, ele era seu rei e ela sua chefe da guarda. Ele a desprezava e ela o odiava. Mas, naquele momento, sentindo seus lábios serem amassados de encontro aos de seu senhor, o bom senso da elfa havia sido temporariamente deixado de lado.

Thranduil a pressionava cada vez mais forte contra a parede, com luxuria. As mãos delicadas de Luna se firmaram em seu pescoço e o arranharam com veemência, o fazendo arfar entre o beijo. O desejo o queimava até as veias, e o elfo ansiava em descobrir se a pele dela era tão macia quanto sua boca adocicada.

Um puro e incontrolável êxtase.

Luna gemeu mais uma vez e as roupas pesaram em seu corpo quando Thranduil cessou o beijo. Ele estava com as sobrancelhas franzidas e um sorriso desdenhoso dançava em seus lábios avermelhados.

— Luna… Luna… — o rei sussurrava. — tudo em você me irrita… profundamente.

O coração da elfa pulsava descompassado e, por um segundo, Thranduil fechou os olhos apenas para apreciar o som das batidas. Como se fossem uma melodia.

Contudo, aquele curto espaço de tempo foi suficiente para fazê-la acordar.

O elfo se curvou um pouco, distribuindo beijos por toda extensão de seu pescoço, mas ela se afastou abruptamente. Desprendendo-se dos braços de seu senhor.

Luna abraçou o próprio corpo em um ato automático de autoproteção e se pôs de costas para Thranduil, este que a fitava de forma indescritível. Lágrimas chegaram a seus olhos, mas a elfa não se permitiria chorar na presença dele.

— O que eu estou fazendo? — sussurrou para si mesma. — Céus… — onde estava sua decência? Ele era seu rei!

— Luna… — foi interrompido.

— Não! — ela exclamou ao se voltar para fitá-lo duramente. — Você me beija, depois me pede para que esqueça, e agora isto? O que quer de mim? — a elfa respirou profundamente. — Todos os dias, desde que nos conhecemos, eu experimentei do sabor da sua frieza, engoli cada gota do seu desprezo e aturei a sua arrogância. — a expressão de Thranduil agora estava nublada e ele parecia se conter. — Peço que se decida de uma vez, pois acredito que com a sua inconstância eu não poderei lidar.

— Não fale comigo neste tom. — ele ameaçou entredentes.

— E como sugere que eu fale? — foi sarcástica. — Tudo que faço não parece bom a seus olhos. Vossa Majestade sempre encontra um defeito, sempre me critica. Antes de conhecê-lo pensei servir a um rei magoado e privado da alegria por sua perda, mas que no fundo de seu ser ainda tinha uma alma. Agora vejo que meu senhor não passa de um corpo oco, que não conhece o sabor da felicidade e que julga a vida com seu olhar negro, fazendo questão de que todos a sua volta sigam o seu exemplo. — Luna exclamava a plenos pulmões.

— E o que você sabe sobre minha existência, Luna? — rebateu ao fitá-la com os olhos faiscantes. — O que você sequer sabe sobre a vida? — riu desdenhoso. — Pois acredite quando eu digo que ela é negra e traiçoeira, e que seu alfanje não poupa nem mesmo os corações mais puros como o seu.

— E estas são as palavras de um rei? — a expressão dela era de revolta. — Como passará esperança para seu povo se não a tem em si mesmo?

Ela ouviu os dentes de seu rei trincarem.

— Você não sabe de nada… NADA! — Thranduil a fitou fixamente, quase perfurando-a. — Não passa de um ser insignificante — seus olhos estavam vidrados nela quando ele fechou a mão em punho. — mas até mesmo a sua insignificância me irrita. — foi tudo o que disse antes de sair pela porta. Sua expressão era indescritível e sua frieza glacial.

Um misto de sentimentos se apoderou de Luna. Ela estava fervendo em ódio, estava confusa, magoada… era um jogo para ele? Algum tipo de teste? Algo queimava em seu peito, como se seu coração sangrasse.

O que era aquilo?

Notas finais
Beijocas! *-*