I See Fire
7 Capítulo 7
Notas iniciais
– Swan! Me ouve! — pediu. — Eu juro que não queria te incomodar a essa hora mas tem uma coisa que eu queria falar contigo. — continuou a forçar a porta para eu não a fechar. — É sobre Henry.
Ouvi o nome do meu garoto e voltei a abrir a porta. Alguma coisa muita estranho estava acontecendo. Olhei Henry atrás de mim na mesa e avisei que iria atender a porta por 5 minutos. Saí do apartamento e me encostei na porta, encarando Jones com toda a seriedade do mundo. Se ele estivesse usando Henry de novo...
– Fala. — disse grossa.
– Calma love. — sorriu. — Não é nada de vida ou de morte. — parou para pensar, erguendo uma sobrancelha. — Bom... talvez seja. — voltou a sorrir.
Eu não estava encontrando a piada no assunto.
– Killian... — vocifrei, impaciente.
– Ok m'lady, o caso é o seguinte: — ele estava me irritando além dos limites. — hoje de manhã eu passei pela escola e por um acaso era a hora do almoço do teu pequeno cavalheiro. Ele já estava indo ao teu encontro... — pareceu avaliar as palavras que iria dizer. — quando eu ouvi a voz dele gritando com outro garoto da altura dele, e não sei quem o treinou mas eu vi o punho fechado do Henry voando para a cara do outro. Uma boa direita, eu diria.
Pisquei os olhos. Killian estava me dizendo que o meu filho tinha batido em outro menino? Isso era impossível.
– Mas... — tentei dizer alguma coisa.
– Eu sei que não é o meu dever fazer isto, Swan — Killian percebeu a minha surpresa. — e eu não faria isso se não me importasse com o meu companheiro. — adotou uma expressão séria. — Vejo que ele não tinha te contado.
Encarei Killian e me senti muito confusa com as suas palavras. Um criminoso preocupado com um menino que usou violência? Não me parecia coerente. Por outro lado, Killian Jones, o homem que atormentava minhas noites com os sonhos mais intensos que eu já tivera, confessando que se importa com meu filho?
E a verdade é que se não fosse por ele eu não ia descobrir o que estava acontecendo com Henry.
– Não. — admiti. — Eu já tinha notado que ele estava estranho hoje... — suspirei. O que tinha passado pela cabeça de Henry? — Mas é verdade, não é mesmo do seu dever, Jones. Eu ia acabar por descobrir o que estava acontecendo. — o olhei enquanto mentia. — Mas ainda assim... obrigado.
Jones sorriu abertamente, cheio de si. Ugh. Se eu não estivesse tão preocupada com Henry essa conversa seria diferente.
– Vai falar com ele sobre isso? — inquiriu.
– Não sei... — cocei a cabeça, perdida.
Eu não sabia como lidar com esse tipo de situação. Henry sempre fora um menino calmo e nunca me dera problemas desse tipo.
– Talvez ele tenha um motivo, love.
Sim, talvez. Talvez pela primeira vez na vida Killian estava fazendo e dizendo alguma coisa acertada. Meu garoto nunca faria isso sem um motivo. Mas o que eu faria? Confrontar Henry com essa história seria o correto a fazer?
Não queria demonstrar o quanto assustada estava. Eu não sabia o que fazer. Esse era um assunto que um pai deve assumir. A violência e todas essas coisas de homem. Estava habituada a fazer os dois papéis mas Henry já não era um bebê e essa teria de ser uma conversa séria.
Killian continuava especado na minha frente, me observando. A camiseta azul que trazia fazia realçar a cor dos seus olhos, definitivamente.
– Swan — chamou a minha atenção. — eu podia te ajudar. A falar com o garoto.
Acho que a expressão de horror que atravessou o meu rosto o assustou. Ele queria o quê?!
– Quero dizer, eu vi o que aconteceu. E acho que é mais fácil para um desconhecido como eu assumir uma posição neutra. — acrescentou antes que eu pudesse dizer alguma coisa.
Escondi o rosto entre as mãos. Não, não. Nunca na vida eu deixaria um criminoso conversar com meu filho sobre algo tão delicado. Não.
Mas Killian não era exatamente um criminoso, por mais que eu o afirmasse.
Ele estava totalmente errado. Eu teria essa conversa com Henry perfeitamente. Sem dúvida alguma.
Inspirei. Expirei. Destapei a cara e subi meus olhos para os seus.
Merda. Eu estava tão fodida...
– Você começa por lhe contar o que viu. — a minha voz quase vacilou mas eu quis ser o mais firme possível ao aceitar a sua proposta. Henry não era uma brincadeira e eu mal podia acreditar que estava realmente fazendo isso. — E depois cala a boca ou eu te denuncio e amanhã meu chefe está aqui.
Os seus lábios se curvaram num sorriso largo e alegre. Idiota.
Entramos em casa e assim que o garoto viu Killian se levantou e foi até ele, o abraçando. Ignorei esse pequeno detalhe para não me incomodar com outras coisas e fui acabar de comer o que deixara. Henry já tinha acabado.
– Killian come empadão da mamãe! É o melhor!
Jones o levou até ao sofá e eu os segui instantes depois, me sentando do outro lado de Henry.
Olhei Killian e fiz sinal com a cabeça para ele começar a conversa. Apesar de saber que nunca diria isso em volta alta, Jones não era muito mau com Henry. Ele levava algum jeito.
– Então, pequeno companheiro, hoje de manhã eu acordei chato e preguiçoso e achei que devia ir almoçar no café da tua mãe porque é gostoso. — o garoto deu uma risada e eu revirei os olhos. — Quando eu saí de casa calhei de te ver saindo da escola...
Killian parou e me encarou. Senti Henry ficar tenso mas ele nada disse.
– E vou te perguntar, onde treina essa direita? — Jones apontou para o pulso de Henry, que baixou a cabeça, compreendendo o que ele queria dizer.
– Filho... — tentei falar com um tom suave. — O que aconteceu? Porque bateu no menino?
Meu garotão me olhou e eu vi os seus olhos vermelhos de lágrimas.
– Pode contar, pequeno homem. — Jones pousou a mão no ombro de Henry e eu não sei se gostei desse gesto.
– É que... — a sua voz estava baixa, quase inaudível. Eu sabia que meu filho ia contar a verdade. — Ele falou coisas que eu não gostei...
Olhei Killian de relance. O tal motivo.
– O quê, companheiro? — ele tinha esquecido sobre a parte do calar a boca?
Henry não respondeu. Ele tinha vergonha. O aperto que eu sentia no peito chegava a doer.
– Fala para mim, amor. O que o outro menino te disse? — pedi delicadamente.
– Disse que... — fungou o nariz e limpou a lágrima silenciosa. — que... eu era um filho da... e que o pai dele tinha te visto nua, mãe.
A minha boca se abriu em "o" e Henry escondeu o rosto molhado de lágrimas nas minhas pernas. Meu Deus!
***
Fechei a porta com todo o cuidado para não fazer barulho. Henry já estava dormindo descansado e eu queria tudo menos acordar o meu garotão.
Depois de saber o que realmente acontecera eu e Killian explicamos que as coisas não se resolvem com violência e essa treta toda. Na verdade eu expliquei, Jones preferiu repetir que Henry tinha feito muito bem vezes infinitas.
E no fundo eu concordava. Estava orgulhosa do meu filho apesar de não poder lhe dizer isso. Me sentia protegida. Ele estava apenas me defendendo. Qual mãe condena o filho por isso?
Killian estava ainda na sala, sentado no sofá, olhando a TV sem som. A sua presença me deixava mais inquieta a cada segundo. A última vez que ele estivera em minha casa as coisas tinham sido bem... quentes.
Arfei ao recordar esse momento. Meu Deus, eu ia parar ao inferno.
– Não tenho rum em casa, lamento. — comentei, me aproximando do sofá.
Ouvi a sua gargalhada ecoar pela sala e o meu corpo estremeceu. Ugh. Porque eu ainda falava?
– Vejo que me conhece bem, darling.
Me sentei na extremidade do sofá oposta à sua. Sabia perfeitamente o tipo de conversa que teria com ele. Sabia também que devia mandá-lo embora o mais rápido possível. Sentia, porém, uma vontade sobre-humana de ter essa conversa com ele. O meu corpo nunca respondia ao que o meu cérebro mandava quando estava perto de Killian. Principalmente agora que nem dever profissional eu tinha em relação a ele.
Se eu não o conhecesse de trás...
– Melhor do que você julga, Jones.
– Acredito que sim, love. — ergueu a sobrancelha. — E você continua um desafio para mim.
Sorri ouvindo o seu tom encantador. Killian era um conquistador nato. Agora percebia a facilidade com que ele levava mulheres para casa em Nova Iorque. Talvez ele começasse a perceber que eu não era uma dessas e por isso eu era um desafio.
Parei um segundo para o analisar. A pose que ele assumia no sofá era despropositada mas existia qualquer coisa... alguma coisa que o deixava fodidamente atraente e convidativo, másculo. A sua camiseta estava agora mais justa e eu não pude deixar de notar os seus peitorais. E os braços, fortes, os mesmos que me prensaram contra o seu corpo da outra vez.
Tinha uma expressão sexy. A sua barba, mais arranjada, marcava perfeitamente o seu maxilar e rodeava os seus lábios encarnados tão bons de beijar.
Uns anos atrás e eu não lutaria nem metade para lhe resistir. Killian Jones era exatamente o tipo de homem que eu desejava.
– E vou continuar a ser, Killian, pode mostrar a bandeira branca. — sorri provocadora.
– O quê? Eu? Desistir? — apontou para si próprio. — Swan, Swan, Swan... — deixou a voz arrastar o meu nome e eu pude jurar que senti um arrepio.
Bastardo.
Saltou um lugar no sofá e ficou mais próximo de mim.
– Eu não tenho sequer uma bandeira branca. — riu. — Sabe que... quando eu quero muito alguma coisa, luto até ao fim para a ter.
Oh merda. Merda.
Lá estava o calor em meu corpo. A inquietação, a vontade de saltar para o seu colo e acabar de uma vez por todas com todos os nossos desejos. Ele não tinha o direito. Eu ia ficar louca.
Precisava mandá-lo embora.
– Vá preparando a luta. — me levantei de rompante e fui caminhando até à porta. — Já é tarde, amanhã eu trabalho e a tua presença aqui me irrita.
Abri a porta e fiz um gesto para ele passar por ela. Não podia mais manter aquela conversa. Tinha medo de mim.
Killian me seguiu até à porta e parou na minha frente, sorrindo torto.
O seu próximo movimento foi tão repentino e rápido que eu não pude pensar, desprevenida. Jones segurou a minha cabeça com a mão direita e puxou os meus lábios de encontro aos seus. Sustive a respiração e os meus olhos se fecharam automaticamente. Ele estava me beijando. O meu corpo reagiu rapidamente mas não como eu devia. A minha mão direita pousou no seu braço que me prendia e ele afrouxou a força, permitindo que os nossos lábios sentissem o toque um do outro por um único segundo.
Assim que isso aconteceu eu me apercebi da realidade e o afastei. Não, não queria isso.
Killian pareceu atordoado e saiu, me deixando ali, parada, provavelmente mais atordoada do que ele. Não acreditava que ele tinha me beijado assim.
Lentamente, fechei a porta e fui me sentar.
Como ele podia me beijar daquela forma tão violenta, agressiva, possessiva, forte...
Meu Deus.
Eu deveria sentir vergonha por ter gostado?
***
– Ei, o troco está errado!
Ergui a cabeça para encarar o cliente que mostrava o dinheiro que eu acabara de lhe dar, com cara de poucos amigos. Quanta simpatia! Quase precisei limpar a lágrima de emoção por tanta amabilidade. Idiota.
Peguei o dinheiro e corrigi o meu erro. Talvez com alguma brutalidade mas a paciência era pouca. Eu não estava nos meus dias. Desde que acordara (ou saíra da cama porque o sono escapou) que não estava muito animada.
Engoli toda a minha agitação até deixar Henry na escola. Ele estava mais calmo e alegre. Pelo menos ele.
Esse era o segundo cliente que reclamava. O primeiro, bipolar, me chamou de maluca porque supostamente eu entendi mal o seu pedido e levei o leite frio em vez de quente. Qual era o problema? Ninguém nunca se enganava?!
Bufei e atirei o pano para a bancada. Granny estava chegando do almoço quando Mary e Regina apareceram para almoçar. Agradeci a Deus por isso, estava morrendo por desabafar sobre o que tinha acontecido na noite anterior.
E assim que acabei o meu depoimento às duas, dei uma risada chorosa ao encarar as suas expressões de surpresa.
– Ele te beijou?!? — Regina.
– Te beijou e fugiu?! — Mary.
– E você gostou, safadona! — Regina. – Mas deve ser uma pegada gostosa a dele...
– Olha como te deixou! — Mary.
– E o jeitinho dele com Henry! — Regina.
– Não esqueçamos que ele é um ladrão... — Mary.
Choraminguei alto.
– De 0 a 10, quanto gostou? — Regina perguntou, parecendo animada com tudo.
– 9,9? — respondi, perguntando a mim mesma.
– Eu consigo só imaginar a frustração... — Mary parecia estar a falar sozinha.
– Não é possível imaginar. — abanei a cabeça.
E as duas riram. Mas elas não percebiam a gravidade da situação? Killian não ia parar de me seduzir e de me provocar! E eu não ia parar de o querer...
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