I Remember
1 Capítulo 1 - Fama e riqueza.
Notas iniciais
Capítulo 1 – Fama e Riqueza.
Aquela noite lembrava o dia em que se reencontraram, nuvens espessas cobriam o céu escuro, não era possível ver a lua e nem as estrelas, mas mesmo assim, a cidade nunca apagava, nunca dormia... Faziam quase oito graus, e todas as pessoas agasalhavam-se muito bem. As luzes dos postes iluminavam as finas gotas d’água, evaporando e subindo para o céu, procedendo com a triste e constante chuva.
Aquela mulher possuía tudo que qualquer pessoa pudesse desejar, fama e riqueza. Ela acabara de sair de um de seus shows, sua Lamborghini negra a esperava do outro lado, enquanto aglomerados de pessoas lutavam para tentar chegar próximas à famosa cantora, procurando por fotos, vídeos ou autógrafos. Ela gostava dos Flashes, talvez nascera para estar em meio a eles, mas algumas vezes lhe batia uma lembrança do passado. Um passado que desejava esquecer de qualquer forma.
A cantora seguia para seu carro segurando um pequeno guarda chuva negro, assim como suas roupas. De repente, uma jovem repórter parou-a próxima de seu carro implorando por uma entrevista, bondosa como sempre, a moça cedeu alguns minutos de seu tempo para uma rápida conversa.
A cantora era loira, e tinha um corpo perfeito, um rosto angelical com sobrancelhas feitas e doces lábios. Seu corpo dava inveja em Afrodite, perfeitamente esculpido para ser um simples ser humano, e sua voz parecia uma melodia para os ouvidos.
— Senhorita Cynthia, será que poderíamos fazer uma rápida entrevista? — perguntou a jovem repórter, gaguejando um pouco.
— Claro, não tenho mais compromissos hoje mesmo. É melhor irmos para outro lugar, essa chuva pode incomodar-nos um pouco. Por favor acompanhem-me. — respondeu a cantora.
Cynthia entrou em seu carro e pediu para que a equipe da jovem repórter a acompanhasse até um restaurante próximo. A equipe correu para o carro em que estavam os equipamentos e seguiu a Lamborghini da cantora. Pessoas sussurravam, dizendo que a equipe havia ganhado na mega sena por ter conseguido uma entrevista com a famosa cantora, assim tão de repente.
Eles partiram para um restaurante em que Cynthia já era uma freqüente freguesa. O local estava vazio, o garçom levou-os para uma mesa especial do lado de fora, no andar de cima, dando uma bela visão para toda a cidade. Lá havia algumas mesas de madeira, iluminadas por velas que lutavam para ficar acesas devido à umidade no ar, dando um ar exótico e moderno ao local. Os pingos batiam nos vidros da janela, formando uma bela sinfonia. Agora estavam apenas Cynthia, a repórter, e um rapaz que filmaria a entrevista.
— Bom... — suspirou Cynthia. — O que desejam perguntar?
— Puxa vida... N-Nós nunca imaginávamos que seríamos capazes de ter uma entrevista exclusiva com uma cantora tão famosa como você! — disse a repórter ajeitando o cabelo. — Não queremos perder nenhum segundo da gravação!
— Se vocês estão felizes, então estou feliz também. Sinto-me bem ajudando as pessoas. — sorriu Cynthia.
— Nossa, seu sorriso é tão belo! Imagino que você sempre viveu com muitas mordomias para ser como é hoje, esta mulher linda e que pode ter tudo que desejar. — disse a repórter.
— Sabe, nem sempre foi assim, acredito que todos pensam que eu sempre tive uma vida perfeita, e que não lutei pelos meus feitos, sofri muito para chegar a este ponto. — Cynthia parou por um momento e ficou observando os pingos na janela, mas depois voltou a falar. — Peço-lhes perdão por não estar conseguindo concentrar-me direito... Hoje é um dia muito especial para mim, seria... Fazem três meses...
— Ah, d-desculpe-me, nós não queríamos interromper um dia tão importante para você, podemos marcar outro horário... — respondeu a repórter, um tanto quanto sem graça.
— Por favor, não. — interrompeu Cynthia. — Estou precisando conversar com alguém, tenho me sentido tão triste e solitária ultimamente... Como posso chamá-la?
— D-Dawn... — respondeu a repórter, um pouco confusa.
— Certamente, é um nome lindo. — disse Cynthia, com sua doce voz. — Permita-me contar um pouco sobre minha vida...
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Três meses atrás...
Steven acabara de ligar o ar condicionado de seu carro para tentar amenizar o vidro embaçado que prejudicava a visibilidade. O carro andava muito devagar pelas ruas da cidade, iluminando a estrada com seus faróis acesos, chamando atenção de todos que passavam.
— Steven, desliga essa porra de ar condicionado, lá fora já tá mó frio e você ainda liga isso? — disse um rapaz que estava sentado no banco de co-piloto.
— A chuva lá fora está embaçando o vidro... — afirmou o outro, que dirigia o carro concentradamente.
— Você anda muito devagar, desse jeito a gente nunca vai chegar à festa!
— Eu nem quero ir nessa festa Lance, não gosto dessas coisas, só estou aqui para levar-te. Quando quiser ir embora, basta avisar-me, vou ficar aqui.
— Ah, mas não vai mesmo! Você precisa aproveitar a vida cara, o mundo está cheio de mulheres bonitas! Tá na hora de você pensar no seu futuro! — riu Lance.
— E você acha que a felicidade é construída somente a partir de dinheiro e mulheres? Prefiro ficar sozinho. — afirmou Steven.
— Cara, tu é uma das pessoas mais ricas do país, se eu fosse você eu aproveitava e ficava com várias lá na festa. — brincou Lance.
— Vou esperar pela minha mulher perfeita que ainda está para nascer. — riu Steven.
— Hah, hah, hah! Desse jeito vai ficar solteiro pro resto da vida, mas eu ainda acho isso meio impossível. Você não muda mesmo! Ah, é só virar ali, na segunda curva a direita...
Steven parou seu carro no estacionamento da tão esperada festa. Lance estava animado, tentando convencer o amigo de ir e entrar no local. Uma fina chuva caía, e um fraco vento soprava, aumentando ainda mais o frio daquela noite.
— Olhe só que chuva bela, parece uma sinfonia quando as gotas batem no vidro do carro. Vou ficar aqui e esperar-te, ainda estou cansado de ontem. — disse Steven, afastando o banco do carro.
— Ah velho, vamos lá aproveitar um pouco! Só pra não deixar seu parceiro sozinho! — pediu Lance.
— Já vi que você não vai me deixar ficar aqui mesmo... Só deixe-me pegar meu sobretudo...
Steven saiu de seu luxuoso carro, era uma Lamborghini Gallardo negra, seus vidros também eram todos cobertos por insulfim, fazendo com que ninguém pudesse ver o que estava dentro. Steven era muito conhecido, em todo lugar que passava era obrigado a parar e dar autógrafos ou tirar fotos. Os dois entraram no local em que seria dado a festa, era uma despedida de de solteiro de um antigo amigo de colégio que convidara os dois rapazes.
— Ae sim, cara! Eu tô falando que você tem que aproveitar um pouco a vida, vai e se diverte! — brincou Lance.
— Estou voltando pro carro, tenho que me livrar daquelas latas de cerveja que você largou... — disse Steven, retirando a chave de seu bolso.
— Cara, você precisa aproveitar a vida! — disse Lance, colocando seu braço sobre o ombro de Steven. — Chega mais, vamos causar nesta festa!
— Faz o que você quiser, vou ficar te esperando ali no bar, quando for para ir embora é só me chamar. — respondeu Steven.
Steven foi até o bar e sentou-se em uma banqueta para beber algo, ele retirou seu sobretudo e descansou seus braços sobre o galpão. Ele estava muito cansado, pois os últimos dias haviam sido muito corridos, certamente, não era fácil a vida de famoso.
— Traga-me um bom vinho, o melhor da casa. — disse Steven.
— Oh, senhor Steven! É uma honra encontrá-lo aqui! Providenciaremos o vinho o mais rápido possível. — respondeu o garçom.
— Sem pressa...
Steven continuou observando o cenário, o tempo foi passando e Lance já estava começando a ver capivaras voadoras por toda a sala, enquanto outras pessoas se divertiam. Steven virou seu olhar rapidamente e pôde ver de relance uma moça que o observava. Quando ela se deu conta de que ele a notara, ela virou seu olhar, como se tentasse evitar ser vista. Steven a observou por mais um tempo, mas logo em seguida o vinho chegou, fazendo-o desviar sua atenção.
— Pode deixar a garrafa. — ordenou o rapaz.
O garçom concordou, e saiu do local. Steven continuou a observar a misteriosa moça que tentava evitar seu olhar. Era como se ele já tivesse encontrado-a a muito tempo atrás, mas não conseguia lembrar-se quem era. De repente, ele pôde ouvir alguém chamando o nome da moça. Um nome que trazia várias lembranças em suas memórias.
— Seria ela... — sussurrou Steven, saindo da banqueta e seguindo a mulher.
Steven aproximou-se da mulher e segurou-a no braço, a moça continuava tentando evitar o olhar, quando ele perguntou com uma voz suave.
— Desculpe-me se estou enganado, mas sinto que te conheço de algum lugar. — disse Steven, segurando levemente o braço da mulher.
— Hum, você já deve ter me visto em outras despedias de solteiro... Se me der licença...
— ...Cynthia?... — perguntou Steven, com uma voz bem baixa.
A mulher virou-se e conseguiu finalmente olhar o rapaz nos olhos, ela parecia triste, sua face transmitia uma expressão de decepção e arrependimento. Steven não conseguia acreditar que aquela era a mesma menina de anos atrás, a primeira menina que se apaixonara na infância.
— E-Eu não acredito que encontrei você, faz tanto tempo. — sorriu Steven.
— Hum... E-Eu não queria encontrá-lo em uma situação como esta... Bom já que você está aqui... Acredito que deseje divertir-se... — disse Cynthia com uma voz triste.
— N-Não... Eu fiquei tão feliz quando vi que era você, o que faz em um lugar como este?
— Nem todos tem sorte na vida, e eu acho que escolhi o caminho errado. — disse ela, tentando colocar um sorriso em sua triste face.
— Você... Gosta do que faz...? — perguntou ele.
Cynthia apenas balançou sua cabeça negativamente, como se tentasse evitar uma lágrima. Steven sabia que algo a incomodava, ele a conhecia mais do que ninguém.
— Venha, vamos conversar lá fora, talvez sinta-se mais a vontade. — disse Steven, levando Cynthia para fora da festa.
Steven levou a moça para seu carro, para conversarem um pouco, para que ela explicasse como foi parar em um lugar como aquele a fim de contar como passou sua vida nos últimos anos.
— Então... — sussurrou Cynthia, um pouco envergonhada.
— Hum... — respondeu ele um pouco sem graça, procurando por algum assunto, pois nunca conseguira falar sobre muitas coisas com as pessoas. — Então, como anda sua vida?
Cynthia não conseguiu mais segurar as lágrimas e abraçou fortemente o rapaz, que ficou sem jeito, mas retribui o abraço acariciando o cabelo da moça. Lágrimas escorriam de seu rosto, que acabavam manchando um pouco a maquiagem, mas no momento ela não se importava, ela apenas precisava de um ombro amigo, alguém para que pudesse falar tudo e que a entendesse.
— N-Não chore... Desse jeito vai me fazer chorar também. — sorriu Steven.
Cynthia olhou-o com os olhos ainda cobertos de lágrimas, ela não conseguia segurar o choro, era como se finalmente tivesse encontrado alguém que a compreendesse nesse imenso mundo.
— D-Desculpa, acho que eu nem deveria estar aqui sujando seu carro, devo ir embor...
— Não, por favor Cynthia, você sempre me contou tudo quando éramos crianças, por que hoje em dia seria diferente? — perguntou Steven.
— Eu... Eu pensei que ainda me odiasse... Depois daquele dia... — sussurrou Cynthia, tentando conter novamente o choro.
— As pessoas mudam, eu e você crescemos, eu sempre dei um imenso valor àqueles que amo, pode contar tudo que desejar para mim, ainda sou seu amigo. — continuou Steven, abraçando mais uma vez Cynthia.
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— Q-Que lindo, senhorita! Quando nós lemos artigos sobre seu passado na internet ou em jornais, eles acabam por inventar algumas coisas, mas ouvir a história sendo contada da própria senhorita é ainda melhor! — disse Dawn, ouvindo atentamente a cada palavra proferida pela cantora.
— Por favor, chame-me de Cynthia, sinto-me velha com você me chamando de “senhorita”. — brincou ela.
— E o que aconteceu com você depois? — perguntou o câmera man, extremamente entusiasmado com a história.
— Bom, vamos pedir algo para jantar. Logo, logo eu continuarei a contar minha história para vocês! — disse Cynthia, cruzando as pernas e lendo o cardápio do restaurante.
As gotas continuavam a escorrer pela janela, assim como aquela chuva que caía no dia em que reencontrou Steven. Um dia muito especial para ela.
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