I Put a Spell On You 🔞
2 Capítulo O2 — Friends
Notas iniciais
Toda a volta para casa é frustrante e pensativa. A imagem daqueles lindos e misteriosos olhos azuis me encarando atentamente ainda permanece em minha cabeça.
Não sei ao certo o exato porquê de estar me sentindo tão intimidada pelo olhar do Sr. Rogers. E nem o motivo pelo qual corei tanto enquanto trocávamos poucas e simples palavras dentro daquele elevador. E, muito menos, a real razão de ter me apresentado dizendo que não era Rebecca Deelwish, mas sim Natasha Romanoff.
Todas essas são questões que provavelmente eu terei somente para mim e não compartilharei com mais ninguém. Nem mesmo com Rebby.
Quando finalmente chego ao meu prédio, sou rápida em estacionar o fusca, pegar as coisas de Rebby e subir para meu andar.
— Cheguei! – grito para Rebby assim que fecho a porta.
— Oi! Como foi? – ela me cumprimenta do sofá enquanto toma uma sopa.
— Ah... foi... legal. – tiro a mochila de minhas costas e a jogo no sofá. Em seguida, descolo o adesivo com o nome de Rebby de meu suéter e o atiro no lixo.
— Legal? – minha amiga ergue suas sobrancelhas e põe o prato de sopa vazio na mesinha de centro em frente ao sofá. — Como assim "legal", Natasha?
— Ora, Rebby... só... legal! – levanto os ombros e me sento ao seu lado. — E aí? Está se sentindo melhor?
— Estou. Sim, estou, mas...
— Que foi?
— Nat, o que aconteceu? – ela pergunta após bufar.
— Como assim? – novamente ergo os dois ombros enquanto a encaro.
Rebby suspira e passa as mãos por seus lisos e morenos cabelos e antes de cerrar seus olhos astutos em minha direção.
— Natasha, eu te conheço. E te conheço muito bem! Desembuche de uma vez!
Realmente, Rebby me conhece como ninguém. Também não é de se esperar diferente. Somos amigas há mais cinco anos.
— Okay, okay. – eu me rendo ao levantar as mãos. — A tal da... Priscilla não é nenhum pouco simpática. Satisfeita?
— Co-como assim? Ela te tratou mal?
— Não, mal, não. – vou até a cozinha e lavo as mãos na pia — Mas também não foi gentil e amigável como eu esperava que fosse.
— O que ela fez?
— Não fez nada demais para eu classificá-la como rude ou grossa, mas digamos que... me desapontou. Ou desapontou a você. Eu sei lá! – ergo os ombros mais uma vez e seco as mãos.
— Ela foi antipática?
— Acho que antipática é elogio para ela. – balanço a cabeça enquanto abro um pacote de pães de forma. — Vou fazer um sanduíche. Você quer?
— Não, valeu! Acabei de comer.
Rebby se levanta do sofá trazendo o prato de sopa e o pondo dentro da pia antes de se servir com um copo d'água.
— Nat?
— Hmmm?
— Foi só isso mesmo que aconteceu?
— Como assim? – sorrio nervosamente para ela, sentindo o rubor que se forma em meu rosto trair minha tentativa de parecer natural.
— Eu não sei, Natasha! Eu não estava lá com você. Mas você... sei lá... está diferente. Como se estivesse mexida com alguma coisa.
Rebby põe o copo ao lado do prato de sopa dentro da pia e me encara com as mãos na cintura, decidida a conseguir uma resposta minha.
Tento pensar em algo para me livrar dela, mas falho. Suspirando, decido abrir o jogo.
— Okay, você está certa.
— Eu estou? – ela me faz rir. — É, claro que eu estou certa! Aconteceu mesmo alguma coisa, não é?
— Sim. Quer dizer, não. Bem, mais ou menos. Não foi nada de mais.
— Oh, meu Deus! Fala logo!
— Okay, okay. – dou uma mordida em meu sanduíche e suspiro. — Eu... – paro de falar para poder mastigar, mas recebo um tapa de Rebby no braço. — Ai!
— Fala logo o que aconteceu, caramba!
— Tá bom! – engulo o pedaço do lanche e sinto a garganta seca. — Eu... e-eu conheci o tal bilionário.
— Bilionário? – Rebby me encara por um instante com uma expressão de confusão no rosto, mas parece constatar o que eu disse ao notar que ergo uma de minhas sobrancelhas. — Ah!!! Está falando de Steven Rogers!
— Sim.
— Oh, meu Deus, Natasha! – arregala os olhos e abre a boca em um formato de "oh". — Você conheceu Steven Rogers! Steven Rogers!
— Sim, sim. Eu conheci Steven Rogers. – repito, só que com muito menos excitação na fala do que ela.
— E como ele é?
— Como assim?
— Ora! Como ele é, poxa? É simpático? Galanteador? Gentil? Grosso?
— Eu não sei, nós não conversamos muito. Só nos esbarramos quando eu estava saindo do elevador e aí ele me ajudou a levantar.
— Levantar? – repete Rebby enquanto eu me sirvo com um copo d'água. — Você caiu?
— É. Em cima dele. – minha amiga gargalha em resposta.
— Meu Deus! Que primeiro encontro promissor, dona Romanoff! – Rebby dá dois tapinhas traiçoeiros em meus ombros.
— Foi um acidente. – reviro os olhos. — Realmente foi horrível, mas eu acabei tropeçando nele e caímos no chão.
— E depois?
— Depois do quê?
— Como assim "depois do quê?", Natasha? Depois!!!!
— Ah... depois... ele me ajudou a levantar, como eu disse, e trocamos algumas palavras no elevador. Ele me pareceu ser gentil e atencioso, mas também muito sério, formal e educado. Não me demonstrou simpatia, mas não foi mesquinho nem metido como a Srta. Donut.
— Hmmmmm... parece que o Sr. Gostosão Rogers ganhou uma nova fã!!!
Rebby anda até mim e aperta minhas bochechas, o que me faz bufar e revirar os olhos.
— Para de palhaçada! – afasto suas mãos do meu rosto. — Não foi nada, foi apenas um esbarrão que resultou em uma conversa de menos de dois minutos no elevador. E só! Até porque, eu nunca mais irei vê-lo.
Eu me viro para ir para o quarto, mas a fala de Rebby me faz parar no meio do caminho e tornar a encará-la.
— Como assim "nunca mais"?
— Ué... você quer que eu acredite em quê? Destino? Acaso?
— Bom, são duas opções que não devemos esnobar, mas não. Eu falo de algo mais exato! – ela solta uma singela risada
— Exato? Do que está falando, Rebby?
— Rogers dará a palestra de abertura da nossa formatura! E depois irá nos entregar nossos diplomas e apertar nossas mãos.
— O quê? – quase engasgo com minha saliva e tenho de respirar fundo para evitar que isso aconteça na frente de Rebby. — Está falando sério?
— Sim, Srta. Fiquei Mexida com o Gostoso do Sr. Rogers!
— Não fiquei! – balanço os ombros para espantar a sensação sufocante de minha mentira. — Ele é só mais um empresário riquinho. Só isso. Agora, eu preciso ir me arrumar porque tenho aula e depois pego na livraria até às nove da noite.
▪️▪️▪️
O resto do dia se passa rápido. Ao menos, as aulas da faculdade voaram. Agora, já passam de seis da noite. Ou eu devo dizer "ainda"?
Estou no caixa me deliciando com um romance de época quando ouço uma voz familiar chamar minha atenção.
— ¡Hola, niña de mi corazón!
Miguel vem em minha direção com um enorme sorriso ostentando todos os seus lindos, fortes e brancos dentes.
— Hey, Miguel! – levanto do banco de madeira em que estou sentada e o abraço. — O que você está fazendo aqui?
— Vim te ver, muchacha. – ele aperta minhas bochechas levemente. — E comprar esses livros sobre publicidade.
— Hmmmm... trabalhos finais da faculdade? – pego os livros de suas mãos e começo a passá-los no caixa.
— É. Preciso tirar nota máxima se quiser uma boa pontuação direta para um convite de trabalho em uma empresa.
— Caraca, que pressão! – brinco rindo junto com ele. — São cinquenta e sete dólares, Miguel.
— Eita! – Miguel põe a mão no bolso de seu jeans e pega sua carteira, da onde retira uma única nota de dinheiro. — Ah, Nat... eu só tenho cinquenta dólares. Pode me emprestar o restante?
— Claro!
Sem pensar duas vezes, viro para abrir minha mochila e pegar a carteira para ajudar Miguel. É, Miguel Coleman.
Ele é um bom amigo. Conheço-o desde a época em que ele, Rebby e eu éramos calouros na faculdade.
Miguel estuda Publicidade e quer ser um famoso colunista ou editor. Ele é dois anos mais velho do que eu e Rebby, apesar de Rebby ser um ano mais velha do que eu.
Miguel tem a pele clara junto dos olhos e cabelo castanhos. É forte, com um porte atlético, e mede quase um e oitenta de altura. Um bom partido!
Em outros tempos pensei carinhosamente na ideia de iniciar algum romance com ele, mas a descartei logo em seguida. Miguel é uma ótima amizade para que eu acabasse perdendo caso algo viesse a dar errado. E eu não me arrependo de minha decisão.
— ¡Gracias, chica!
— De nada, Miguel. – sorrio para ele e lhe entrego os livros dentro de uma sacola de papel. — Boa sorte!
— ¡Gracias de nuevo! E buena sorte con lo restante de la noche.
— Gracias. – ele e eu rimos um para o outro. — Vou precisar. Até mais, Miguel!
— ¡Hasta, Nat!
Continuo sorrindo para ele enquanto o vejo abrir a porta e fazer o sininho acima tocar, em seguida a fechando e saindo da livraria.
▪️▪️▪️
Nove e sete da noite. Arrumo as coisas em minha mochila e me preparo para finalmente sair da livraria e ir para minha casa.
— Nat?
— Sim, Clint?
— Já está na hora! Quer que eu te leve em casa?
— Ah, não precisa, Clint. Também está tarde para você.
— Imagina! Eu te acompanho! Uma moça bonita não deve andar tarde assim da noite pelas ruas de Nova Jersey.
— Falou bem, Clint! – visto minha jaqueta e ignoro o começo de sua última frase. — Ruas de Nova Jersey. Tirando as de Nova York e Las Vegas, são as mais movimentadas. Principalmente, em Newark.
— E também uma das mais perigosas, Srta. Romanoff. Qual é? Deixa eu te levar em casa.
Clint Barton. Eu o conheço desde criança. Papai era advogado em Moscou, onde eu nasci. Mas nos mudamos para Nova Jersey quando completei sete anos.
Até hoje não entendi o motivo de sairmos tão rápido da Rússia. Papai me disse que havia sido por uma proposta melhor de moradia, estudo e emprego, mas ele nunca se aprofundou no assunto comigo. Nem ele nem ninguém de minha família. Nem mesmo quando eu estava maior e insisti para entender mais. Mas me mudar de casa e país teve suas compensações, por exemplo, a família Barton, que nos recebeu de braços abertos.
Meu pai e o pai de Clint, Harold Barton, já eram amigos de longas décadas, pois papai nem sempre morou na Rússia, segundo ele mesmo me dissera. Então, assim sendo, Clint e eu nos conhecemos na escola e ficamos grandes amigos. Apesar de termos nos separado quando eu fui para Los Angeles com minha mãe, após papai e ela se divorciarem meses depois de termos nos mudado para os Estados Unidos, acabamos nos reaproximando quando eu voltei a morar em Nova Jersey.
— Certo! – concordo ao ajeitar minha mochila nas costas. — Vamos?
— É para já, colega!
▪️▪️▪️
Durante todo o caminho da livraria até em casa, Clint e eu conversamos sobre tudo: o movimento da loja, a faculdade, nossas vidas após nos formarmos, qual carreira seguiremos, mas durante toda a nossa conversa, eu me sinto um tanto estranha. Como se estivesse sendo vigiada, perseguida, controlada.
De um em um minuto, olho ao nosso redor sem Clint perceber, tentando ver se tem alguém atrás de nós ou do outro lado da rua, mas tudo que encontro são pessoas transitando normalmente. Poucas, na verdade, e a maioria são homens voltando do trabalho. Outros indo. E, também, movimentos de carros passando e alguns outros estacionados sem ninguém dentro.
— Chegamos, Nat!
Eu me viro para Clint antes de puxar as chaves do bolso da minha calça.
— Okay. Obrigada, Clint. Até amanhã!
— Até amanhã, Nat! Boa noite!
— Boa noite!
Clint se despede de mim com um rápido beijo em minha bochecha, esperando que eu entre para então poder ir embora. Passo pela porta e a fecho, acenando para Clint já dentro do prédio e o vendo acenar de volta para mim.
Quando Clint já se afastou, eu suspiro e estudo a rua mais atentamente. Você só pode estar ficando louca, menina! Talvez, Little Red. Mas segurança nunca é demais.
Olho toda a rua através do vidro da porta mais uma vez e paro quando acho algo estranho: um carro preto de janelas escuras parado em frente ao prédio.
Pisco algumas vezes, tentando me lembrar da onde esse carro me soa familiar. E por quê. Oh, claro! Esse mesmo carro estava estacionado em frente à livraria quando cheguei. Talvez estivesse também quando saí. Alguém te seguindo, menina?
Com o susto, eu solto um alto suspiro e procuro tentar me acalmar. Após respirar fundo três vezes, balanço a cabeça e me esforço para espantar todos os pensamentos preocupantes que me rodeiam. Deixe de ser paranoica, menina!
Cruzo os braços por causa do frio e começo a subir as escadas até meu apartamento, pois apesar de não estar tarde, já estou sonolenta. E terei de acordar cedo amanhã, que será mais um dia agitado e cansativo para mim.
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