Notas iniciais
Olá, meu povo lindo e maravilhoso! Como vão? Bom, espero que gostem do capítulo de hoje, que inclusive é dedicado à Romanogersr! Aproveite, queridona! Você e todos os outros leitores :D Perdão por qualquer erro de digitação, galera ^^ Tradução do capítulo: Reflexões

— É gostoso, não é? – viro o rosto e encaro o de mamãe. Sereno, pálido e tranquilo. A luz do sol torna sua pele branca como porcelana um tanto avermelhada.

— Sim. – solto um profundo suspiro. — Acho que vou sentir falta disso. – ainda olhando para o céu azulado, ergo os ombros. — De tudo isso.

— Sabe que não precisa ser assim. – diz mamãe. — Esta é a sua casa, querida.

— Mãe. Por favor. – eu a repreendo.

— O que foi?

— Mãe!

— Natasha, eu entendo que goste de morar em Nova York. E que tenha um novo namorado. Mas, se está gostando daqui, qual o problema de ficar mais um pouco?

— Não posso, mãe. – digo. — É claro que eu gostaria de passar mais tempo com vocês, mas eu não posso.

— E por quê?

É. Chegou a hora. Tenho que contar sobre a Minds Manhattan. Mamãe vai entender. Ela tem que entender.

— Ér... mãe?

— Sim?

Vejo que ela continua de olhos fechados absorvendo o calor que vem dos raios solares. Em Beverly Hills faz 62,6º Fahrenheit. O tempo está gostoso e quentinho.

— Mãe? – eu a chamo novamente e ela me responde com um baixo "Hmmm?". — Olhe para mim, por favor. Preciso te falar uma coisa.

Mamãe suspira antes de esticar a coluna e virar o rosto em minha direção. Seus olhos se abrem lentamente e eu observo o profundo verde de suas íris. Um verde quase da cor das plantas das árvores.

— O que foi, Nat?

— Mãe, eu... e-eu... ér... eu sei que me chamou para cá para me ajudar. – sua expressão calma e atenta só me deixa ainda mais nervosa. — Eu não quero esnobar sua boa ação. Não quero te magoar, mãe.

— Mas...? – indaga. — Querida, seja o que for, você pode me dizer.

— Eu sei. – assinto com a cabeça. — Ér... mãe, eu... e-eu... ér...

Mamãe se debruça e segura minha mão. Sua ação me congela, pois percebo que seu olhar está calmo e atento demais.

— Não precisa dizer.

O murmuro baixo que sai de sua boca é "torturantemente" silencioso.

— Ahn?

— Já estou sabendo.

— É, mas... ahn? – enrugo o cenho vendo que mamãe suspira e se senta corretamente na cadeira, ficando de frente para mim. — Como assim? Do que está sabendo exatamente?

— Sobre a Minds Manhattan. – ela ergue os ombros soltando minha mão.

— Ahn? Co-como?

— Seu pai falou comigo.

— Ahn? Ele... o quê?!

— Fique calma. Não pense que seu pai quis fazer fofoca e criar alguma discórdia entre nós. – mamãe cruza os braços sobre as coxas. — Eu que liguei para ele.

— Você? – no momento, mamãe está conseguindo me deixar mais confusa do que Steve me deixa. — E por quê?

— Natasha, você já havia comentado com Nathan. Eu estava sentindo que era o que você queria.

— E como soube? Ér... quer dizer, por que ligou justamente para o papai?

— Porque ele havia telefonado para cá um dia antes. E mencionou sobre Minds Manhattan.

— Ele... ele fez isso?

— Sim. Fiquei esperando você vir falar comigo. Como não veio, eu decidi falar com o seu pai.

— E o que conversaram?

— A verdade. Você já estava com a meta na cabeça há muito tempo. Não precisa esconder, Natasha.

— Mas, mãe, eu... eu não sei o que te dizer.

— Não há nada para me dizer. – mamãe sorri. — É o seu sonho e eu quero que seja feliz.

— Mas não é justo com você. – nego com a cabeça.

— Natasha, não tem que ser justo comigo. Não tem ser justo comigo nem com mais ninguém, apenas com você. É a sua vida, querida. Será você quem a vivenciará, quem a aproveitará. Ou não. Mas as escolhas devem partir de você.

— Mãe...

— Eu querendo ou não, não é mais uma garotinha indefesa. Você cresceu. Já é uma mulher. Não está mais na hora de cometer enganos. Mas, se os comete, deve consertá-los sozinha. Ter ou não o emprego na Minds Manhattan fará diferença? Nossa! Sim! Muita! E garanto que, se conseguir, será fabuloso para você, até mesmo por ser o que você quer! Mas pode não dar certo. E, então, você tentará outros e mais outros. Só sei que fará a coisa certa. E, se não der certo de novo, eu estarei aqui. Sempre.

— Mãe, obrigada. – sinto lágrimas em meus olhos. — Pensei que ficaria chateada. Pensei que não me apoiaria.

— Natasha, eu realmente acho que poderia ter uma profissão melhor. Não acredito que a Psicologia seja tão valorizada nos dias de hoje. Mas a vida é sua. Você já me disse isso uma vez. E eu me toquei que era a mais pura verdade! Não posso decidir por você.

— Mãe, não fique assim. – por instinto, sento sobre suas pernas e agarro seus ombros. Colo de mamãe é a melhor coisa! — Eu te amo, mãe. E eu vou sempre ouvir você. Vou sempre precisar dos seus conselhos. Você errou. Eu sou, sim, uma menininha indefesa. E eu preciso muito de você para me ajudar nas minhas escolhas, mãe. Muito!

Mamãe não diz nada. Por infinitos segundos, quase décadas, ela parece me analisar intensamente. Acho que ela sabe. Ela pode sentir a que estou me referindo. São tantas coisas, mas a principal gira em torno de Steve.

Mãe, acorda! Eu não sou uma mulher feita e madura. Estou assustada. Não sei o que fazer, o que dizer, o que pensar... Steve bloqueia todas as minhas tentativas de ao menos parecer segura e confiante!

— Estarei sempre com você, Nat. – afirma antes de beijar meu rosto. — Eu te amo!

— Também te amo, mãe. – eu a abraço com força. — Eu te amo muito.

⚫⚫⚫

Três dias depois...

Dobrar e guardar. Dobrar e guardar. Dobrar e guardar. Como um mantra a ser seguido, Hazel e eu nos encarregamos de arrumar minha mala. No momento, enquanto eu dobro as camisas, calças e casacos, minha irmã guarda as peças de roupa. Ao lado da mala, minha mochila já está pronta.

Enquanto executo a tarefa, estudo os detalhes do meu quarto. É o mesmo desde que me mudei para Nova York. Ainda me lembro como havia sido difícil. Rebby e eu havíamos acabado de sermos aceitas na faculdade e não tínhamos apartamento. A estadia na casa da tia de Terry, no Brooklyn, durou quase um ano. E aqueles meses foram os mais cansativos que tivemos. O início da faculdade nunca é fácil.

Quando me mudei de Moscou para Nova York, pensei que teria uma vida só. Mas isso durou pouco. Dentro de poucos meses, meus pais estavam separados. E, dentro de poucas semanas a mais, eu estava vindo morar com minha mãe em Los Angeles.

A parte burocrática deu dor de cabeça em todos nós. Até mesmo em mim. Eu podia ser uma criança, mas já entendia o que estava acontecendo. Eu já sabia que não veria meu pai todos os dias como de costume. Já tinha tempo que era minha mãe e eu. E meu pai somente aos finais de semana. E, quando vim para Los Angeles, meu pai só existia por telefone e nas férias de verão.

Com o tempo, a saudade passou a ser questão de costume. Passei a aceitar a convivência em Beverly Hills. E os mimos de vovó e tia Kim me ajudaram bastante, apesar das brincadeiras implicantes de Sebastian me fazer chorar o tempo todo, mas era de raiva.

Aos quinze anos, minha entrada no ensino médio abriu portas para que eu conhecesse quem viria se tornar minha melhor amiga: Rebby. Mas é claro que não me esqueço da minha amiga de infância. Seu nome é Valentyna e nós mantivemos contato até os meus dez anos. Depois, acabamos parando de nos falar aos poucos. Antes de Rebby, minhas amizades de Nova York eram Clint e Leonora.

Chegando a Los Angeles, antes do ensino médio tive apenas uma amiga: Eva Levinson. Não éramos a mais populares do colégio, até mesmo por Eva ser judia e seu pai ser altamente rigoroso, o que implicava em saias longas e nada de namoricos por aí. E eu, por ser a amiga tímida e apática dela, também não tinha conhecimento de nada disso.

Isso nunca me incomodou. Pelo contrário. Quanto menos me notassem, mais feliz e tranquila eu era. Mas, quando Eva precisou voltar para sua terra natal, Israel, permaneci sozinha novamente até começar a cursar o ensino médio.

— E essa camisa, Nat?

Fecho o baú das memórias saudosistas e fito Hazel, que me interroga com o olhar e uma blusa de mangas compridas nas mãos.

— Ahn... ponha em cima daquele casaco azul. – aponto para a peça de roupa dentro da mala.

— Certo.

Com o penteado de maria-chiquinha na cabeça, Hazel sorri e arruma a roupa conforme eu disse.

TOC TOC TOC

Batidas à porta me fazem parar de encarar Hazel.

— Pode entrar.

Uma brecha é aberta e eu vejo o rosto de mamãe através desta pequena abertura.

— Oi, amores! – murmura. — Querem ajuda?

— Claro, mãe! – estico os braços e me espreguiço. — Parece que eu trouxe muita roupa mesmo.

— Oh, isso acontece. – mamãe entra no quarto e deixa a porta aberta. — Já terminaram com a mala?

— Quase. Estamos dobrando as últimas roupas, mas falta eu arrumar minha necessaire.

— O que é isso? – Hazel pende a cabeça para o lado e me faz rir.

— Uma bolsa pequena que serve para as mulheres guardarem seus pertences íntimos.

Minha irmã caçula comprime os lábios e me fita com mais curiosidade no olhar.

— E por que não põe na mochila?

— Porque não cabe, querida. E a mamãe já te explicou sobre a mulher ter uma necessaire. Eu comprei uma para você também.

— Por causa da semana vermelha?

O questionamento ingênuo de Hazel me provoca mais risadas.

— Sim. – mamãe responde. — Você usa, não usa?

— Sim, mas eu guardo minha garrafa d'água lá e alguns biscoitos.

— Hazel! – exclama mamãe mesmo achando tão graça quanto eu.

— O que foi?

— Querida, você já tem doze anos e já sabe que a necessaire não é para você guardar seu lanche. Além do mais, você almoça na escola e não tem porque levar biscoito e água.

— Eu sei, mas tem vezes que eu como durante as aulas.

— Pois pare! – mamãe pega na mão de Hazel. — Vamos esvaziar sua necessaire e guardar coisas que sejam realmente úteis lá dentro.

— E a Nat? – Hazel aponta para mim.

— Tudo bem. Você já ajudou bastante, posso terminar sozinha.

— E quem disse que ela vai terminar sozinha?

Sebastian passa pelo corredor e resolve parar na frente de meu quarto.

— Eu ajudo a senhorita agora. – ele anda entre Hazel e mamãe e brinca com a maria-chiquinha de minha irmã.

— Viu só? Natasha tem ajuda. Vamos!

Mamãe puxa Hazel pela mão e, quando estamos somente Sebastian e eu no quarto, ele sorri e fecha a porta.

— Eu não quero nem saber por que você está com esse sorriso idiota no rosto. – desdenho vendo que ele gargalha.

— Estava me lembrando de nossos tempos de criança. – Sebastian para ao meu lado e começa a me ajudar a dobrar as roupas.

— É, eu também. Fiz uma sessão de toda a minha infância até agora. – revelo.

— Sente saudades daqueles tempos? – mesmo sem olhar, sinto que meu primo está tão emotivo quanto eu.

— Um pouco. – dou de ombros. — Crescer é maneiro, mas ninguém nos alerta sobre os obstáculos que ficam no meio do caminho.

— É... mas faz parte da vida.

— Fazer o que, né?

Fico de costas para ele enquanto pego mais algumas coisas no armário. Atrás de mim, sinto o olhar de Sebastian me analisar. Oh, não!

Tudo o que eu menos preciso agora é ouvir coisas que certamente irão me fazer chorar. Só eu sei o quão apertado está o nó em minha garganta. E eu não necessito de empurrão algum para abrir o berreiro. Por favor, Sebastian, não diga. Não diga...

— Vou sentir sua falta.

Merda!

Suspirando, abaixo a cabeça e sinto o ar tremer enquanto sai de minhas narinas.

— Também vou sentir, Sebastian. De todos vocês. – pego meus pertences e os ponho sobre a cama. Em seguida, abro a parte de frente da mochila e começo a guardá-los lá dentro.

— Hmmm... só isso que tem a dizer?

— E o que mais quer que eu diga? – interrompo minhas ações e encaro meu primo. — Eu sei que estão todos chateados por eu estar voltando para casa. Acredite, eu também estou. E eu sei que estão todos fazendo de tudo para eu ficar, mas eu não posso. E ninguém entende isso!

Após meu inesperado desabafo, repouso os quadris contra o colchão da cama e fito o chão. Sebastian faz o mesmo ao meu lado.

— Não queremos atrapalhar a sua vida, Natasha.

— Eu nunca disse isso.

— Mas... – ele ergue a mão num claro sinal de que eu devo escutá-lo antes de rebater alguma coisa. — ...é claro que te amamos e queremos que fique conosco.

— Isso é golpe baixo! – resmungo.

— Você não entende, Natasha. Parece que foi ontem que você pegou o voo para Nova York e começou uma nova vida lá. Você nem liga para cá. É a minha tia que pega o telefone e resolve saber se você está viva ou não. – com a fala de Sebastian, eu viro o rosto e encaro o seu. Seus olhos azuis estão mesclados de lágrimas. — Você esqueceu da sua família. Isso dói. Só queremos ter a certeza de que você não vai mais fazer isso.

— Sebastian... eu nunca... eu nunca me esqueci de vocês! Eu amo Hazel, minha mãe, vovó, tia Kim, você — todos! São todos importantes para mim. Nenhum mais ou menos do que o outro.

— E por que você não demonstra isso?

— Desculpe, eu... eu sei que não tenho tido o costume de ligar para cá e saber como estão, eu... e-eu nunca imaginei que se sentissem assim. E eu nunca quis isso. – olho para cima e deixo que um gigantesco suspiro escape de mim. — Mas é tão incômodo viver sob os olhares de quem não aceita que você já cresceu. E o mais chato é que tem certas horas que você realmente deseja não ter crescido mesmo. E isso vai contra tudo o que você luta.

— Somos os netos da vovó e os filhinhos de nossas mães. – Sebastian pega minha mão e sorri. — Jamais deixaremos de ser os bebês da casa. Nossa salvação é a Hazel, mas ela também está crescendo. E ainda mora aqui.

— Você também.

— Por pouco tempo. – revela. — Quando Blake se formar, nós iremos ter nossa própria casa.

— Mas vão continuar em Los Angeles?

— É o melhor lugar para darmos continuidade com nossas carreiras.

— Oh, sim!

— Bom, eu amo você, prima. Não quero te deixar mal ao dizer que vou sentir saudade, mas também não quero te perder de novo. Não quero... não quero que nos vejamos apenas algumas vezes ao ano. Isso é muito frio e nós não somos assim. Somos uma família acolhedora e que se ama.

— Eu sei. – aperto a mão de Sebastian. — As portas de minha casa estão e estarão sempre abertas para vocês. Eu amo todos.

— Que clima mais sentimental....! – Sebastian me faz rir apesar de eu ainda sentir o nó apertado na garganta. — Só falta alguém tocar violino ao fundo.

— Sebastian! – exclamo e ele me puxa para um forte abraço.

Sim, é verdade. Eu senti falta disto: de fazer parte de uma família.

⚫⚫⚫

A manhã seguinte chega rápido demais. Agora, tudo o que ouço é o barulho de rodinhas correndo para lá e para cá. Isso me irrita! Quero gritar e jogar tudo para cima. Estou nervosa. Estressada.

A ideia de passar horas de voo até chegar a Nova York me desanima por completo. Apesar de não ser muito tempo confinada dentro de um avião, ainda assim me deixa aflita, pois eu odeio voar!

Parte desse estresse também se inclui à chateação. Ver os olhos de minha avó banhados de lágrimas não foi uma situação muito agradável. Doeu ter de me despedir da minha família. E ainda dói. Mas, de certa forma, também sinto alívio por estar voltando para casa.

Alívio? Você está é com saudade do Steve. E só está há alguns dias sem vê-lo. Desesperada por pica! Little Red! Que horror! Okay! Não nego que estou com saudade dele, mas não estou pensando nisso. Ao menos, não tanto. Hmmm...

— Natasha?

Interrompendo a tórrida discussão com minha sanidade nada sana, observo Sebastian sorrir para mim.

— Oi.

— Fala uma coisa que rime com paixão.

Seus olhos azuis me fitam com ansiedade enquanto eu olho para cima e penso.

— Hmmmm... que tal emoção?

Sebastian aperta os lábios e balança a cabeça para os lados.

— Muito clichê. Outra.

— Ahn.... e se for conexão?

— Hmmm... gostei! Em qual contexto?

— Bom, pode ser na troca de olhares.

— Perfeito!

Ele estala os dedos em minha direção e escreve algo no caderno que tem apoiado sobre as coxas.

— Compondo?

— Sim.

— Para Blake?

— Não especialmente. Estou apenas compondo. – dá de ombros sem parar de escrever. — Obrigado.

— De nada.

BLIM BLIM... BLIM BLIM...

O toque de meu celular interrompe a conversa de Sebastian comigo.

BLIM BLIM... BLIM BLIM...

Olho para a tela branca vendo quem está me ligando. Claro, só podia ser!

— Ele? – indaga Sebastian ao meu lado.

— É. Cuide de minha mala, tá bom?

— Uhum.

Segurando minha mochila com mais firmeza, levanto do banco e me afasto um pouco para poder falar em privacidade.

Quando já estou seguramente afastada de meu primo, deslizo o dedo pelo Iphone e aceito a ligação.

— Oi.

Nat? Oi. – sua voz está calma. — E aí? Já vai pegar o voo?

— Daqui a pouco.

Daqui a pouco? Por quê? Chegou muito cedo ao aeroporto?

Deus! Apenas por analisar seu tom, percebo que o temperamento de Steve é como uma brisa. Começa calmo e de forma leve, mas logo se transforma em um furacão. Sai arrastando tudo o que encontra pelos ares.

É assim comigo também. Sempre. Ele ainda deve estar com aquele problema, menina. Oh, sim.

— É... mais ou menos. Meu voo atrasou.

Merda!

— É, foi a mesma coisa que eu disse.

E atrasou quanto tempo?

— Uma hora, eu acho.

Uma hora? Isso nem é tanto. Bom, nesse caso, nós iremos nos rever uma hora mais tarde.

— É.

Que merda!

— Pois é. – sorrio. — Mas uma hora passará rápido. Não se preocupe.

Claro que me preocupo!

— Steve...

Natasha, eu tenho planos para nós dois.

— Planos?

Sim. Planos longos e que exigem muita energia.

— Steve, eu...

Srta. Romanoff, será todinha minha quando estiver aqui. E eu mal posso esperar.

— Hmmm... claro. – reviro os olhos.

Você está bem?

— Estou, Capitão.

Natasha, pare de ironia!

— Não é ironia. Estou te chamando como devo chamar, Capitão.

Chega! O que está acontecendo?

— Nada.

Você está estranha. Não tem falado comigo direito desde que voltei para Nova York.

— E nem o Capitão tem falado comigo.

Natasha... ér... esqueça! Quando você chegar, nós resolveremos.

— Ah, nós vamos?

Sim, eu já te disse o que acontecerá quando chegar aqui.

— É, eu sei que disse, mas já passou pela sua cabeça que eu poderei chegar cansada? Já passou pela sua cabeça que eu poderei querer ir para a minha casa e dormir? Não, né? Você só pensa...

Natasha! – ele grunhe e eu me calo. — O que está dizendo? Está com uma língua muita afiada!

— Não, eu não estou. – afirmo. — Não se preocupe comigo.

É claro que eu me preocupo. Diga o que foi. Como você está, Nat?

— Be-bem. – ignoro o nó apertado que esmaga minha garganta.

Mesmo?

— Sim, e você? Resolveu o problema no trabalho?

Natasha, não mude de assunto.

— Mas eu não...

Perguntei sobre você. Por favor, responda.

— Eu já respondi. Estou bem, Steve.

Mentira.

— Não, não é mentira. Você deveria aprender a confiar em mim.

E você deveria me dar motivos para isso.

Sua acusação é firme como rocha. Fico tentando perfurá-la para mostrar que não tem cabimento o que acabara de dizer. Mas não há nenhuma rachadura na pedra intacta que montou suas palavras.

A certeza de seu tom quase me dá um soco no estômago. Mas estou aprendendo a me esquivar desses golpes abstratos que machucam mais do que os concretos.

— Está me dizendo que não confia em mim? – Steve fica em silêncio. — Por favor, eu peço que seja categórico, porque a confiança envolve vários aspectos.

Natasha, não é isso. Sei que é fiel a mim. Eu confio em você. Sei que jamais me trairia, que me roubaria, que me daria uma facada pelas costas.

— Steve...

Mas você mente.

— Steve, eu não minto para você.

Sim, você mente. Mente e omite e sabe disso. Por medo de me dizer a verdade, algumas vezes acaba fazendo essas coisas. Só não sei por quê. Não tem que me poupar de nada, Natasha. Eu quero saber tudo sobre o que te acontece.

— Tudo bem, mas isso não é necessário.

Quem decide isso sou eu.

— E por que você pode decidir as coisas e eu não?

Natasha, você é...

— Submissa. – meus olhos ardem e pesam enquanto eu os reviro. — É, tinha me esquecido.

Natasha, eu não ia dizer...

— Só o Capitão pode tudo. Perdão. Ahn... eu vou desligar agora. Estou ocupada.

Natasha, espere!

— O que foi, Capitão?

Já te disse para parar de ironia.

— Não é ironia! Eu também já te disse que é como devo chamá-lo. Está no contrato, Capitão Rogers.

Natasha, chega! Não quero discutir com você. Estará viajando e não quero brigar com você assim desse jeito.

— Então como quer brigar comigo, Capitão? Pessoalmente? É, entendi. Para poder me punir mais rápido, não é?

Natasha! Pare!

— Certo, Capitão. Posso desligar?

É o suficiente! Quando chegar, nós teremos uma conversa bem séria.

— Está bem, Capitão. Até mais.

Não espero por sua resposta. E nem quero. Estou cansada. Não é só meu corpo que se encontra em estado deplorável. É minha alma. Está carente de afeto e sentimentos mais precisos. Prazer e ardência não são o suficiente. Preciso de mais. Ainda preciso e quero mais.

Fico me perguntando sobre o porquê de eu ser romântica. Deus! É tão óbvio! Steve já me perguntou sobre isso. E o que eu tenho a dizer é a mais pura explicação: eu sou de humanas. Estudei das mais variadas Literaturas aos mais variados textos filosóficos. Eu preciso ser, eu tenho de ser romântica.

O mundo que idealizo e até mesmo vivo é todo cercado por temas amorosos. Já me disseram que o príncipe não virá em cima do cavalo branco. Mas eu me recuso a não acreditar. Eu quero isso, eu anseio por isso, eu mereço isso!

Eu quero um amor meu, só meu. Eu quero proteção. Eu quero aconchego. Eu quero carinho. Eu quero o meu homem. Seriamente e, muitas vezes, já pensei de Steve ser este homem. Mas, a cada dia que passa, ele só afasta tais crenças de mim.

— Natasha?

Fecho as cortinas de meus profundos pensamentos e me viro para Sebastian. Lentamente, forço meus pés a caminharem até o banco em que ele está sentado.

— Sim? – repouso os quadris ao lado de Sebastian.

— Está tudo bem? – meu primo estuda o meu rosto. — O que foi?

— Nada. – minha voz falha e lágrimas escapam de meus olhos. — Nada, Sebastian. Eu estou bem.

— Natasha...

— É sério! – mãos nervosas esfregam meus olhos. — Não se preocupe.

— Nat, não fique assim. Por que está triste? – Sebastian acaricia meu rosto e eu inicio uma pertinente reflexão em meu interior.

Uau. Uma tremenda antítese é o que acontece aqui. A mãe de Steve me dissera que eu o faço feliz. Sim, parece ser verdade. E ele também me faz, mas nem sempre isso acontece.

Eu ilumino o seu filho. E ele me deixa obscura. Por quê? É injusto. É, isso deve ser o amor. Não, menina. Ao menos não deveria ser assim com você. O amor ilumina as pessoas. Mas o teu não está sendo recíproco. Estou começando a me dar conta disso, Little Red.

— Sebastian, eu estou bem.

— Se você precisa de um tempo para pensar, pode ficar mais uns dias aqui. Não tem que voltar agora.

— Eu tenho, Sebastian. – fungo. — Já comprei as passagens e tenho compromisso. E nós já conversamos sobre isso.

— É, eu sei. – chateado, meu primo abaixa o olhar.

Passageiros do voo 512 com destino a Nova York, por favor, dirijam-se para os portões de embarque B-14.

A voz feminina e quase robótica me faz voltar à realidade. Olho ao nosso redor rapidamente antes de voltar a fitar Sebastian.

— Parece que é o meu. – encaro meu relógio de pulso.

— Finalmente! – exclama Sebastian.

— Pois é. Eu... e-eu preciso me despedir de minha mãe.

— A tia está ali.

Sebastian aponta para atrás de mim. Quando me viro, mamãe se aproxima com três copos de café em mãos. Rapidamente, vou até ela e a ajudo.

— Um para mim, outro para você e o outro é para o Sebastian. O de avelã é seu. – informa mamãe. — O de canela é do seu primo.

Estendo-o para Sebastian, que sorri e beija o rosto de minha mãe.

— Obrigado, tia.

— De nada, querido. – mamãe dá um gole em sua bebida quente e me encara.

Passageiros do voo 512, com destino a Nova York, por favor, dirijam-se para os portões de embarque B-14.

— É a minha vez. – digo para mamãe. — Tchau, mãe.

— Tchau, querida!

Mamãe dá o seu copo a Sebastian e abre os braços para mim. Ela me aperta contra seu corpo. Ainda pensando sobre minha discussão com Steve, não consigo reagir ao caloroso e amoroso abraço de mamãe.

Meu queixo está apoiado em seu ombro e meus olhos fitam os de Sebastian, que me olha com um singelo sorriso.

— Querida... – mamãe se afasta e atrai minha atenção. — ...vá com Deus. Sentirei sua falta.

— Ér... eu também, mãe. – ainda estou fora de mim. — Eu te amo. – eu a abraço mais uma vez. — Amo muito. Amo todos vocês.

— Eu sei, meu bem. – mamãe afaga meus cabelos. — Avise quando chegar, okay?

— Pode deixar. – sorrio e a solto. — Dê um beijo em cada um por mim. E diga a todos eles que os amo.

— Não se preocupe, Nat. Agora vá. Não pode perder seu voo.

— Está bem. Tchau, mãe. – mais um abraço. — Eu te amo.

— Também te amo, Natasha.

Mamãe me solta e eu reluto para não fazer o mesmo, mas é preciso.

— Tchau, Natasha.

Sebastian acena para mim e eu me debruço e beijo seu rosto. Sem dizer mais nenhuma palavra, sorrio para mamãe e meu primo e arrasto as rodinhas de uma mala enquanto, com a outra mão, vou alternando goles em meu café de avelã.

Apresso os passos até o portão de embarque e entrego meu cartão a uma mulher baixinha e morena. Ela me diz o número e letra de meu assento e eu sigo até a poltrona. Estou num estado crítico de desligamento, se é que isso existe.

Não consigo pensar em outra coisa que não seja a discussão que acabei de ter com Steve. Exatamente pelo o que nós brigamos? Ele foi possessivo e mandão como sempre, mas eu já estou acostumada. Por que raios me estressei agora?

Porque está começando a perceber, menina, que esta relação está acabando com você. Little Red... Pela primeira vez pôde perceber que a submissão está a levando para as ruínas. Está começando a notar os sinais do abuso, Natasha. Da toxicidade. Da ordem. Da dor. Você está se permitindo abrir os olhos e enxergar através de toda a névoa ingênua e apaixonante a qual você se prendeu.

É, parece que sim. E o que mais assusta é que eu não me importo com isso. Se Steve estiver nas ruínas, então é para lá que irei, pois meu Capitão está me esperando. Isso é loucura, Natasha! Viva a tua vida! Steve é a minha vida. Eu o amo, Little Red. Não pode amá-lo mais do que a si mesma, Natasha. Não pode amar ninguém mais do que a si mesma!

Hoje mesmo terei a chance de dar um ponto final no que temos ou de prolongar ainda mais, paro algo certo e de verdade. Preciso tomar a iniciativa, pois sou eu quem o ama e sou eu quem está vivendo esse impasse todo. E ele? Steve Rogers? Vivendo um impasse? Só se for para decidir se usará cintos, varas ou chicotes em uma punição.

​Está na hora de nós dois crescermos, nem que isso nos jogue em ruínas mais profundas do que já estamos.

Notas finais
Não tenho muito o que falar, amores. Só que, por favor, comentem, acompanhem, favoritem e recomendem ^^ Beijocas e até a próxima o/