I Kissed a Girl
22 Love wins
Notas iniciais
Atena não estava pronta para acordar.
No entanto estava com frio, e haviam vozes altas que a deixavam cada vez mais desperta. Tentou agarrar o travesseiro, suspirou e relaxou com o perfume que se desprendia ali, tinha a leve impressão de reconhecê-lo, mas era uma lembrança distante. Tornou a adormecer, embora que só por poucos segundos, logo voltou a ouvir aquelas vozes, e por vezes alguns gritos masculinos.
Mesmo de olhos fechados Atena se tornou consciente de que não estava na própria cama, isso foi o suficiente para a deusa acordar sobressaltada, sentando rapidamente, só para voltar a cair contra a cama e soltar um gemido. A dor de cabeça a tomou totalmente, parecia que seu cérebro queria fugir, apertou as temporas e respirou fundo, abriu os olhos devagar, encarando o teto antes de virar e analisar o quarto ao redor.
Apesar de sua confusão tinha quase certeza de que já estivera ali antes, o que não era novidade, ela havia projetado muitos dos palácios do Olimpo, e sempre dera uma atenção especial aos quartos. Mas aquilo não era importante, tinha que lembrar como havia chegado até ali.
As lembranças vieram devagar, formando um pequeno filme na mente de Atena, um filme onde a cada cena a deusa ficava mais enjoada. Ela havia bebido, ou melhor, enchido a cara, Atena tinha um pequeno problema com bebidas. Uma sensação de pânico se apoderou dela ao lembrar que não estava bebendo sozinha, o deus dos mares estava com ela, lembrava muito bem de conversar e rir com Poseidon enquanto esvaziava uma garrafa de Whisky.
Sua mente começou a entrar em alerta, lentamente Atena ergueu o lençol e deu um gritinho ao ver que estava nua. Havia enchido a cara com o deus dos mares e agora acordava nua num quarto desconhecido. Di Immortales, o que ela havia feito?
Voltou a sentar na cama, sem se importar com a tontura, arrastou-se até conseguir colocar os pés no chão e levantar. Puxou o lençol ao redor de seu corpo, não importava o que havia acontecido naquela noite, seria ainda mais vergonhoso se Poseidon entrasse ali e a visse nua novamente. Caminhou cambaleante, sem saber ao certo o que estava fazendo. Parou no meio do quarto e olhou ao redor, por pior que fosse a situação, era preciso manter a calma, ela teria que encarar aquilo uma hora ou outra.
A primeira coisa que notou era que aquele quarto tinha muitos toques femininos, talvez Poseidon tivesse deixado que Anfitrite decorasse daquela forma enquanto eram casados, mas Atena duvidava disso, e a menos que o deus dos mares tivesse uma paixão por tons claros e flores, ela não tinha tanta certeza se estava no quarto dele. Segundos depois ficou bem óbvio onde ela estava, a névoa que restara da bebedeira e Atena teve novamente todas as suas lembranças, ela não estava no quarto de Poseidon, ele havia cumprido sua palavra, ela estava no quarto de Afrodite.
Ao invés de trazer alívio aquilo a deixou ainda mais apavorada, ela estava no quarto de Afrodite, e o pior, fora até ali quando estava completamente bêbada e arrastada pelo deus dos mares. Forçou sua memória mais um pouco, suas lembranças escapavam a todo momento, Poseidon havia tirado Atena de cima do balcão quando terminaram a segunda garrafa de whisky, ele tinha arrastado ela pra fora do palácio, uma tempestade caía sobre o olimpo e depois de caminhar um pouco ela estava completamente encharcada. Havia sido uma caminhada curta, mas lenta considerando que ambos estavam bêbados, então eles estavam na varanda da casa de Afrodite e minutos depois ela havia atendido a porta.
Atena lembrava como Poseidon a empurrou nos braços da deusa do amor, ela quis xinga-lo por aquilo, mas assim que sentiu o toque de Afrodite havia esquecido de tudo. Tinha uma vaga lembrança de ser levada com dificuldade até o quarto da deusa, de Afrodite lhe dando banho, das mãos da deusa do amor passeando lentamente por seu corpo. Lembrou também de ter entrado no closet infinito, de Afrodite a vestindo e a levando pra cama, de como fora deitada ali e entrara em pânico quando vira a deusa se afastar, ela não podia ir! Atena tinha algo importante para falar.
E ela havia conseguido falar, enrolando-se nas palavras e sendo menos coerente do que gostaria, mas havia conseguido. Ela e Afrodite haviam passado a noite juntas, o alívio invadiu o peito de Atena junto com a euforia, ela tinha conseguido, chegava a ser engraçado que tivesse acordado tão confusa depois de tudo o que fizeram.
Atena balançou a cabeça com as memórias tão íntimas, ela e Afrodite haviam ficado juntas, e novamente apesar da névoa da bebida, a deusa da sabedoria era incapaz de esquecer aquilo. Voltou a realidade ao ouvir os gritos vindos do andar debaixo, seja o que fosse que estivesse acontecendo não era coisa boa.
A deusa cambaleou pelo quarto até o closet, sentiu-se ainda mais tonta ao ver a infinidade de roupas, preferiu pegar as primeiras que viu, não queria correr o risco de se perder ali.
Depois de vestir-se, usando um short jeans curtíssimo e a camisa branca com a qual Afrodite a vestira durante a madrugada, não usaria nenhuma daquelas blusas decotadíssimas. Passou rapidamente no banheiro e em seguida saiu do quarto, segurou firmemente no corrimão enquanto descia a escadaria gigantesca do palácio de Afrodite, lembrava como a deusa do amor a obrigara a incluir aquilo no projeto do palácio porque descer aquelas escadas com o "look perfeito " seria f-a-b-u-l-o-s-o.
Quando por fim se viu a salvo no primeiro andar olhou a grandiosa sala de estar, tentou se concentrar no mapa mental que tinha do palácio, aquilo a ajudaria a encontrar a deusa do amor. Não foi preciso, as vozes alteradas foram o suficiente para guiar Atena até o escritório que havia ali, antes que pudesse entrar uma voz a fez paralisar de medo. Zeus, ela estava perdida.
Afrodite odiava as reviravoltas que as parcas planejavam em sua vida, aquelas velhinhas viciadas em tricô deviam ter um ódio especial pela deusa do amor, sempre que tudo estava em paz elas tricotavam mais um pouquinho e puf, tudo dava errado novamente. Algum dia Afrodite iria espanca-las.
Havia acordado para um dia perfeito, ao menos era o que parecia. Estava em sua cama com Atena dormindo pacificamente a seu lado, por vezes acreditou nunca mais poder desfrutar daquilo. Apesar de ter acordado assustada havia logo se acalmado ao sentir os braços quentes da deusa da sabedoria a seu redor. Havia ficado um longo tempo na cama observando o rosto tranquilo de Atena, quase havia acreditado que tudo aquilo fosse um sonho, mas ver que de fato ela estava ali e que dissera aquelas palavras fazia Afrodite sentir-se capaz de enfrentar tudo.
Uma batida forte soou na porta, Afrodite permaneceu na cama, ela tinha coisas mais importantes a fazer. Novamente bateram na porta e a deusa do amor suspirou irritada, talvez não tivesse sido uma boa ideia dispensar as ninfas. De forma relutante saiu dos braços de Atena, vestiu-se rapidamente, seguindo para fora do quarto.
Desceu as escadas rapidamente e notou que não estavam batendo na porta, e sim quase a derrubando a socos. Afrodite abriu a porta pronta para expulsar o arruaceiro que estava ali, foi então que deu de cara com Zeus.
Tudo bem, talvez capaz de enfrentar tudo fosse um pouco de exagero.
— Chega de enrolação, Afrodite, você sabe o que eu quero aqui. — o senhor dos céus repetiu enquanto a deusa do amor o encarava.
— Não estou enrolando, pela milésima vez, Zeus! —Afrodite resmungou, apertando as têmporas, estava no escritório de seu palácio há mais de trinta e cinco minutos ouvindo Zeus reclamar. — Nem sei do que você está falando.
— Claro que sabe, Atena fugiu.
— Já considerou que ela só foi dar uma volta? Ou até que pode estar em qualquer outro lugar? Tentou o templo de Ártemis? — perguntou num tom despreocupado
— Ela não apareceu por lá, passei a noite com Miss. — Apolo tomou a palavra, a deusa do amor quase se sentiu culpada ao ver a preocupação nos olhos claros dele. — Eu a deixei com Héstia e Poseidon voltou para lá enquanto fiquei na enfermeira.
— Então deveriam ir falar com Héstia e Poseidon. — Afrodite deu de ombros.
— Acha que já não fiz isso? É claro que fui atrás dos dois, mas Héstia havia passado a noite cuidando de Hera a meu pedido, e Poseidon se escafedeu. — o senhor dos céus estava claramente frustrado por não ter conseguido colocar as mãos no irmão. — Ainda mais, Atena nunca seria idiota o suficiente para se unir ao inútil do meu irmão.
—Pai, devemos considerar alguns pontos. — Apolo interrompeu, fazendo com que céus o olhasse. — Atena esteve sob grande pressão nos últimos dias, e ontem ela estava desgastada, tanto física quanto psicologicamente. Talvez ela tenha realmente fugido.
— Está tentando aliviar a culpa dessa aí? — Seus apontou para Afrodite com clara repugnância, fazendo a deusa rolar os olhos. — Ela é a causa de tudo isso.
— Na verdade Afrodite é a que tem menos culpa nessa história. — a voz de Hermes sobressaltou todos, o deus mensageiro entrou correndo no escritório e parou diante do pai.
— Bater na porta é educado. — Afrodite reclamou.
— Perdão, mas eu corri o mundo inteiro procurando sua namorada. — o sorriso sapeca desarmou a deusa. — Infelizmente não a encontrei em lugar nenhum.
Afrodite suspirou silenciosamente enquanto Zeus reclamava. Encolheu os ombros enquanto pensava, seu olhar encontrou o de Apolo, ela queria dizer para ele não se preocupar, que Atena estava bem e segura, mas não podia naquele momento.
— Fui até o mundo inferior também. – Hermes continuou falando apressadamente. – Hades disse que Atena não apareceu por lá e mandou as fúrias para procurar no tártaro.
— Como ela iria parar no tártaro, Hermes? — Apolo reclamou.
— Você mesmo disse que ela estava psicologicamente instável. — o deus mensageiro deu de ombros.
— Isso não significa que ela estava louca o suficiente para se atirar no tártaro. — o outro retrucou.
— Chega vocês dois. — Zeus ralhou. — Atena ainda está desaparecida e vocês ficam discutindo bobagens?
— Essa é a questão, se tivessem me deixado falar saberiam que Atena foi vista saindo do palácio dela durante a madrugada no meio da tempestade. — Hermes remexeu em seu caduceu. — Ela estava acompanhada de um homem... mas depois simplesmente desaparece.
A deusa do amor observou toda a discussão e encolheu os ombros, talvez ela devesse falar que Atena estava ali, mas e se Zeus ficasse ainda mais furioso? Ele já estava bem irritado com Afrodite, seria um prazer explodi-la.
— Ela tem que aparecer. — o senhor dos céus declarou veemente.
— Eu estou aqui, papai.
Todos no escritório viraram em direção a porta, Atena estava parada ali, vestindo apenas um short curto e a camisa que Afrodite lhe dera, era um tanto óbvio que ela havia acordado há pouco tempo, no entanto seus olhos cinza estavam extremamente despertos.
— Atena! — Hermes comemorou e literalmente voou em direção a irmã, abraçando-a apertado. — Aí está você, pensei que tivesse virado lanchinho de titã.
— Hm... obrigada pela preocupação, Hermes. — a deusa da sabedoria sorriu sem jeito e se afastou, entrando no escritório e parando a uma curta distância de Zeus.
Atena ergueu lentamente o olhar, se focando nas íris azuis do pai, Zeus a encarava com tamanho ódio, aquela expressão que normalmente era direcionada a inimigos me batalha, agora era voltada para ela.
— Então era aqui que você estava. — ele falou num tom baixo e contido, aquilo era um péssimo sinal.
— Sim, eu estava aqui. — a deusa da sabedoria assentiu. — Antes que fique furioso, me deixe explicar.
— Você me deve muito mais do que explicações, Palas Atena. — Zeus agarrou o braço dela, puxando-a em direção a porta. — Dessa vez você vai pagar.
— Pai, espera. — Apolo correu, bloqueando a porta.
— Saia da frente, Apolo. — o senhor dos céus rosnou.
— Não vou deixar que machuque Atena novamente. — o deus do sol falou num tom que dizia claramente “você só a tira daqui passando por cima de mim”.
— Não me desafie.
— Parem, os dois. — Atena livrou-se do aperto do pai, afastando-se até Afrodite, a deusa do amor parecia pronta para se meter na briga. — Eu vim pra cá porque quis. Afrodite não tem nada a ver com isso.
— Eu sabia! Hermes nunca se engana. — o deus mensageiro se gabou. — Só engana os outros.
— De todas as suas atitudes mais idiotas, vir até aqui foi a pior. — Zeus se voltou para as deusas. — Pensei que tivesse aprendido, Atena. Será que não foi o suficiente?
— Você está certo, papai. Essa foi a minha atitude mais idiota. — a deusa da sabedoria declarou, Afrodite encolheu os ombros, recuando um passo, ela se enganara afinal. — Eu tive o suficiente, papai. Tive o suficiente de você.
A resposta da deusa caiu como uma bomba, Zeus a olhou por alguns segundos, tentando assimilar aquilo antes de falar.
— Está se voltando contra mim?
— Não, com certeza não. — Atena deu um sorriso tranquilo. — Estou deixando claro o que eu quero, se acha que foi uma atitude idiota da minha parte vir até aqui no meio da madrugada, bêbada e encharcada, é porque não sabe que qualquer sacrifício vale a pena quando se ama alguém. Você não sabe o que é isso, porque não entende o que é realmente amar alguém, e eu também não entendia até semanas atrás, mas agora eu sei. Eu sei que quero fazer minhas próprias escolhas, que quero andar por aí sem medo, que quero a felicidade que isso me oferece. Acima de tudo eu quero que o senhor, que é meu pai, aceite minhas decisões.
— Quer que eu aceite isso? — Zeus indicou as deusas uma ao lado da outra, Atena seguiu o olhar do pai, sua mão segurou a de Afrodite e voltou a encara-lo.
— Se me ama como tanto diz, se me quer bem como repetiu durante todos esses anos, então não declare guerra ao que eu sinto. Nada do que diga vai mudar isso, papai. É isso que eu quero. Eu quero Afrodite.
— Xi rapaz, o mundo precisa saber disso. — Hermes comentou animadamente, ignorando o olhar fulminante de Apolo.
— Está escolhendo ela.
— Estou escolhendo o melhor pra mim.
Por alguns segundos Atena acreditou seriamente que Zeus surtaria, o olhar de raiva foi substituído por confusão e depois por mágoa. Ela sabia que não seria fácil convence-lo, mas estava certa do que queria, não importava o quanto Zeus ameaçasse, ou o quão difícil aquilo fosse, preferia acabar quebrando a cara do que não tentar. Por fim o senhor dos céus encolheu os ombros, claramente derrotado e cansado.
— Então que seja. — ele murmurou antes de desaparecer.
— Pai... — Atena chamou, mas era tarde.
—Deixe-o ir, ele precisa. — Apolo parou diante da irmã. — Dê algum tempo para ele pensar. As coisas deram uma reviravolta e tanto.
Atena assentiu e viu o irmão mais novo falar rapidamente com Hermes, os dois saíram em seguida, com o deus do sol dando um olhar de “se cuidem’’ e o deus mensageiro dando seu sorriso travesso de “não aprontem’’. Assim que a porta foi fechada a deusa da sabedoria virou-se para olhar a mulher a seu lado, Afrodite estava pálida, e encarava Atena com seus lindos olhos azuis marejados.
— Afrodite? — ela chamou preocupada. — O que houve?
— Eu... isso tudo... — a deusa do amor gaguejou antes de respirar fundo. — Você enfrentou Zeus por mim?
— Na verdade foi por nós duas. — Atena esclareceu.
A deusa do amor permaneceu em silencio por alguns segundos, em seguida abraçou Atena apertado e a beijou, sendo correspondida no mesmo instante. Afastaram-se quando a necessidade de ar se fez mais forte, os olhos azuis da deusa do amor estavam marejados, fazendo Atena franzir o cenho.
— Nós vencemos. — Afrodite declarou entusiasmada. — Você é minha, só minha.
— Claro que sou, querida. — Atena sorriu docemente antes de selar os lábios da outra. — Desculpe por não ter sido sincera desde o início, e também de não ter tido coragem de enfrentar os outros.
— Antes tarde do que nunca. — a deusa do amor apertou seus braços ao redor da outra. — Mas espero que saiba que eu não irei mais deixar você ir embora.
— E quem disse que eu quero ir? — a loira arqueou a sobrancelha, fazendo a outra rir. — o que faremos agora?
— Eu pensei que você tivesse um plano. — Afrodite sorriu satisfeita ao ver Atena balançar a cabeça em negação. — A poderosa deusa da sabedoria sem nenhum plano? Isso me agrada, gosto de saber que as coisas serão mais espontâneas. No entanto, eu tenho um plano para agora...
— Tem? Qual é? — Atena sentiu o corpo estremecer diante do olhar malicioso da outra.
— Vamos comemorar essa vitória, querida. De preferencia na minha cama.
A deusa as sabedoria sorriu, totalmente satisfeita com aquela sugestão, e deixou que Afrodite a puxasse para fora do escritório, em direção as escadas que as levariam ao quarto. E embora tivesse certeza de que muitas outras confusões estavam por vir, ela sabia que conseguiriam passar por aquilo, por uma batalha ou uma guerra infinita, sabia que no final elas venceriam e permaneceriam juntas. Porque o amor, independente de tudo, sempre vencerá.
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