I Just Can't Have You
1 One-shot
Notas iniciais
Eu detestava pessoas, essa era a única verdade que todo mundo sabia sobre mim. Mas eu não detestava realmente todo mundo e acho que isso nem é algo assim tão anormal de sentir.
Meu nome é Nico di Angelo, tenho 15 anos, sou o filho mais novo do primeiro casamento do meu pai, tenho uma irmã mais velha chamada Bianca, uma irmã um ano mais nova que eu, chamada Hazel, que meu pai teve em seu segundo casamento e ele agora já está com a terceira esposa, uma moça muito mais jovem do que a minha mãe era ou do que a mãe de Hazel, chamada Perséfone, que eu realmente não entendo o que teria em comum com meu pai.
Muitas pessoas acham que ela devia ter medo dele, por ter enterrado duas esposas, costumam chamá-lo de Rei dos Mortos e suas variáveis. Talvez seja por isso que as pessoas também sentem medo de mim. Isso e por eu ser um pouco estranho e distante e preferir mil vezes ficar sozinho do que com os outros.
Minha família é consideravelmente grande, o que quer dizer que eu tenho muitos primos. Hazel se dá melhor com eles do que eu, mas isso não significa que eu consiga fugir de ter de encontrá-los… Como ela está namorando um cara chamado Frank, amigo do nosso primo Jason, meu pai me obriga a sempre andar com a turma deles pra ficar de olho nela.
O que me irrita não é só a parte em que eu tenho de ficar segurando vela pra todo mundo; eu até gosto de Jason e da irmã mais velha dele, a Thalia, meu maior problema é o Percy, meu outro primo. Ele sempre foi o grande problema da minha vida!
Percy é extrovertido, brincalhão, amigo de todo mundo, sempre traz pessoas novas para o grupo e faz com que elas se sintam em casa (não preciso dizer que ele já tentou esse truquezinho comigo e falhou miseravelmente, né?) e isso me irrita! Não só me irrita, me irrita!
Eu confesso que grande parte disso é porque eu sentia uma atração enorme por ele enquanto nós íamos crescendo e eu descobria que garotas não faziam minha cabeça. Mas eu não queria sentir isso pelo Percy! Queria que ele fosse só o primo irritante que eu ignoro nas festas de família e nada mais. Mas ele tinha aqueles olhos verdes, aquele sorriso fofo, aquele corpo de nadador profissional… Foco, Nico!
Eu não deixava que ninguém percebesse isso, é claro. E, como todas as coisas que eu tento esconder na minha vida, meu pai e Jason sabiam muito bem como eu me sentia pelo Percy. E eu sabia que Perséfone e Piper, a namorada de Jason, sabiam também (aqueles dois boca-aberta!).
Por isso, eu achei tão estranho quando Jason apareceu na minha casa, todo animado pra uma festa que queria muito que eu fosse.
— Sua irmã vai, com certeza, com o Frank, então, você vai ter de ir, não vai?
— Eu sei disso — eu disse, deixando-o entrar no meu quarto e ele se jogou alegremente na poltrona. — Então por que é que você está aqui tentando me convencer a ir a uma festa que sabe que eu muito provavelmente vou ter de ir, Jason?
— Porque eu quero que você não tenha mais de ir obrigado porque vai “ficar de olho” na Hazel, Nico! Quero saber se tem alguma coisa que eu possa fazer pra que você se divirta.
Eu fiquei sem graça, nunca tinha passado pela minha cabeça que Jason se preocupava tanto assim se eu estava me divertindo ou não.
— Você vai, não vai? — ele insistiu mais uma vez, com olhos sonhadores por trás dos seus óculos e eu não tive como lhe dizer “não”, nem mesmo uma resposta mal humorado.
A casa dos Grace não era longe da minha, assim como a dos Jackson, nossos pais não eram os melhores amigos do mundo, mas faziam muita questão de serem vistos como irmãos que estavam sempre próximos, mesmo que isso fosse só daquela maneira boba, então, na sexta á noite, quando Frank passou lá em casa pra pegar Hazel, eu fui com os dois pra festa de Jason. Soube na hora que chegamos que tinha alguma coisa errada porque meu primo foi direto falar comigo.
— Vem cá que eu quero te apresentar alguém — ele já estava às minhas costas, me empurrando pelos ombros antes mesmo de me dar oi.
— O quê? — protestei. — Espera, Jason! Para, para, para — consegui me desvencilhar de suas mãos e encará-lo. — Então era isso que você estava querendo? Você é pior do que meu pai! — bufei impaciente.
— Mas, Nico…
— “Mas Nico” não! Quem disse que eu quero conhecer alguém? — eu estava tão desconfortável que queria sair correndo dali naquele segundo. — Eu não sei da onde você tirou essa ideia, mas eu não quero que me apresente essa pessoa!
— Mas Thalia teve tanto trabalho — ele murmurou, chateado e um frio correu pela minha espinha.
— Você colocou sua irmã nessa história? — eu queria que um raio me partisse no meio, o que era bem irônico, levando em conta a casa em que eu estava. — Você… Você contou pra ela?
— Não. Não contei — ele se justificou prontamente. — Não, é que… Bom, eu estava conversando com Thalia e ela… Ela me perguntou se eu sabia se você estava saindo com alguém e eu disse que você não estava. Então, ela me perguntou se eu sabia se você preferia meninas ou meninos e isso você não me proibiu de falar, então eu respondi a verdade. Ele é filho do irmão da chefe dela e… Ah, Nico, dá uma chance, vai! Só uma!
— Por que isso é tão importante? Eu fico melhor sozinho!
— Você não está melhor sozinho! E tem o Percy também… — eu fiquei verde.
— Não diga isso em voz alta! — olhei para os lados, com medo que alguém pudesse ter ouvido alguma coisa. É claro que, se alguém tivesse escutado, não teria concluído absolutamente nada daquela frase, mas eu já estava careca de tanto pânico. Eu não lidava da melhor maneira com as situações inusitadas da vida.
Foi quando ele se aproximou: loiro, cabelos ondulados como um mar dourado reluzente, um pouco, bem pouco, mais alto do que eu, olhos azuis da cor do céu naquele dia de sol sem nenhuma nuvem, um sorriso de modelo de pasta de dentes, tão lindo que, se eu não estivesse sem fôlego, suspiraria. Parou ao lado de Jason, sorrindo pra mim e me deixando completamente sem fala.
— Oi Jason! — sua voz era gostosa de ouvir da mesma maneira que ele era de se ver. — Tudo bem? Sua irmã me disse pra te procurar — ao ouvir aquelas palavras, eu quis fugir, mas meus pés estavam criando raízes no mesmo lugar e me impediam de me mover. O que, levando Thalia em consideração, era uma coisa muito feia de se fazer…
— Oi Will! Esse aqui é o nosso primo, de quem falávamos, Nico di Angelo! Nico, esse é Will Solace! — meu primo sorriu sem jeito pra mim e eu me recompus, fazendo uma cara azeda.
— Como vai? — Will me estendeu a mão, sorridente e eu me perguntei o que é que Jason e Thalia tinham dito a ele.
— Desconfortável como nunca, e você? — apertei sua mão e ele deu uma risada que fez seus olhos brilharem.
— Bem sincero você, não é? — ele não pareceu ligar pra meu mau humor, mas eu gostava do desafio.
Antes que pudéssemos dizer qualquer coisa além, escutamos uma comoção vinda da porta de entrada e eu vi Percy entrando na casa dos Grace, do seu jeito agitado de sempre, mas com alguém ao seu lado. Não. Ao seu lado não diz exatamente o que eu quero dizer. Ela estava colada a ele e o braço dele a apertava ainda mais perto. Ela também era loira, assim como Will, com cabelos ondulados caindo até debaixo dos ombros e sorria quase tão desconfortável quanto eu, mas parecia feliz. Tinha olhos acinzentados muito atraentes, que brilhavam mais do que as luzes piscando no teto.
— O que é aquilo? — eu consegui dizer, com o pouco ar que tinha sobrado em meus pulmões. Pela expressão que Jason me deu, parecia que eu tinha acabado de resolver o maior mistério da Terra, encontrar a última peça de um quebra-cabeças muito difícil.
— Aquela é Annabeth. Annabeth Chase — ele disse vagamente e eu senti meu coração falhar. — Nova namorada do Percy…
Minha pressão, minha taxa de glicose e minha espiritualidade caíram de uma maneira violenta e parecia que até tinham feito barulho ao se espatifarem, porque eu tinha um zunido no ouvido apitando muito alto.
— Você está bem? — Will se adiantou pra mim, parecendo preocupado. — Quer se sentar?
— Vamos até a cozinha — Jason sugeriu, passando o braço por minha cintura e ele e o outro loiro me rebocaram dali.
Os dois me sentaram num banco alto e Will encheu um grande copo de água gelada pra mim, ficando ao meu lado e me segurando pela cintura. Eu aparentemente estava com jeito de quem ia desmaiar e cair de cabeça no chão.
— Sabe, Jason, eu ia gostar bem mais de você se tivesse me avisado que o Percy estava vindo pra cá com uma namorada, ao invés de tentar me arranjar um encontro — resmunguei, aceitando o copo de água e bebendo um pouco.
— Eu só… Eu pensei — ele disse, nervoso. Acho que mesmo o filho do filho mais velho tinha medo do filho do “Rei dos Mortos”...
— Aquele é seu ex-namorado? — Will perguntou, aleatoriamente, desviando minha atenção do outro, que ainda não conseguia encontrar as palavras pra se justificar.
— O quê? — eu perguntei, impaciente. — Não. Aquele é nosso outro primo, Percy — eu sentia meu rosto arder em chamas de vergonha.
— Sério? E você tem uma queda por ele? — eu não conhecia Will Solace há muito tempo, mas eu queria muito que ele desaparecesse da minha frente.
— Isso não é da sua conta! — vociferei, mas ele não parecia ter medo de mim como as outras pessoas.
— Ora, isso não foi muito simpático de se dizer pra pessoa que pode te ajudar — ele brincou e eu franzi o cenho.
— Como assim? O que você pode fazer?
— Se é uma situação tão ruim assim seu primo aparecer com a namorada dele por aqui, quando eles vierem dizer “oi” é só você dizer que eu sou seu namorado. Não vai se sentir tão por baixo, pode acreditar.
— Você… Você enlouqueceu? Não vou fazer isso! — a essa altura, meu rosto devia estar da cor de lava vulcânica e eu não sabia se era mais de raiva ou de vergonha, mas isso não pareceu abalar a confiança de Solace, que sorriu abertamente.
— Essa, na verdade, é uma ótima ideia, Will! — Jason comemorou e eu o encarei pasmo.
— Não pode estar falando sério! No que isso vai me ajudar em alguma coisa? — eu estava desejando com todas as forças da minha alma que o chão se abrisse debaixo dos meus pés e me engolisse.
— Pense bem — Will continuou. — A gente diz que meu pai é irmão da chefe da sua prima, que Jason nos apresentou… Nada longe da verdade, só acrescenta que estamos juntos há um tempo. O que é tecnicamente verdade, porque já estamos um do lado do outro por um tempo! — ele sorriu e eu o achei insano demais pra mim.
— Nem pensar! — discordei irritado e os dois riram, como se não estivessem me levando a sério.
— Por acaso, eu não faço o seu tipo? — Will provocou e, inconscientemente, eu o admirei de cima a baixo. Talvez fosse o momento ou meu estado de espírito, mas uma voz na minha cabeça respondeu que não tinha como um cara daquele não fazer o meu tipo.
— Cala essa boca! — virei o rosto para o outro lado, mas não pude deixar de perceber que ele parecia satisfeito com minha resposta.
Eu realmente queria sumir. Queria que as sombras me engolissem e me levassem pra bem longe daquele lugar, daquelas pessoas, de toda aquela situação. Mas, enquanto eu desejava o impossível, Percy apareceu na cozinha, estrondoso e alegre como sempre, com sua linda namorada ao braço.
— Aqui estão vocês! — ele comemorou, passando o braço pelos ombros de Jason e lhe dando um grande abraço. — Aqui é a área VIP? Cadê a Thalia?
— Vai saber? — Jason gargalhou, parecendo mais consigo mesmo do que estava desde que eu cheguei. Era engraçado ver os dois interagindo porque, se houvesse a possibilidade de os dois serem rivais em alguma coisa, a personalidade de “cachorro feliz” que tinham impedia de acontecer.
— Annabeth, esses são meus dois primos preferidos e amigos de batalha, Jason Grace e Nico di Angelo! Sem eles, quem eu seria? — ele sorriu, fraternalmente. — Meus amigos, essa é a Annabeth, razão pela qual eu sou inteiramente feliz agora! — ela apertou a bochecha dele, antes de oferecer a mão pra Jason e eu.
— Muito prazer! — eu apertei sua mão e não consegui sentir raiva dela. — E você é? — ela se virou amigável para Will.
— Will Solace… — ele começou a se apresentar.
— Meu namorado — eu completei sem conter as palavras e surpreendi tanto a ele quanto ao Jason, que sorriu contente. Percy arregalou os olhos pra mim.
— Namorado? — ele repetiu, incrédulo, enquanto sua namorada apertava a mão de Will e eu puxei o loiro mais pra perto, passando o braço por sua cintura.
— É sim, Percy. Por quê? — agora que eu já tinha me jogado na fogueira, eu queria ver o circo pegar fogo de verdade.
— Não. Nada. É que eu fiquei surpreso, só isso. Acho que nunca te vi com ninguém.
— Bom, aqui está o Will, pra mudar essa história — Solace riu entre o sem jeito e o convencido e eu gostei de sua atitude e de entrar no fogo comigo, mesmo eu sendo apenas um desconhecido que estava me recusando a entrar em seu plano e de repente mudei de ideia.
— Vocês formam um casal muito fofo! — Annabeth comentou e eu senti uma pontada no coração, que eu podia até fingir que era culpa, mas não. Não era mesmo isso!
— Muito obrigado — Will agradeceu, deitando a cabeça no meu ombro. — Vocês também são um casal adorável!
— Puxa! — Jason riu, brincalhão. — Acho que eu vou buscar a Pipes, pra não me sentir de fora. Já volto! — eu olhei feio pra ele.
— E como foi que isso aconteceu? — Percy perguntou e, se eu não o conhecesse, diria que ele não estava comprando aquela mentira.
— Meu pai é irmão da chefe da Thalia — Will explicou e eu só concordei com a cabeça. Meu primo ergueu uma sobrancelha. — Ela e Jason me apresentaram pro Nico!
Ouvi-lo dizer meu nome daquele jeito me fez me sentir estranho. Tentei focar minha mente para não cair na minha própria mentira.
— Você nunca tinha me dito que gostava de garotos, Nico — Percy estava sendo mais direto do que nunca e eu achei aquilo muito engraçado. Talvez eu tivesse acabado de bugar a mente dele.
— Você nunca perguntou — eu dei de ombros.
— Ah, é verdade — ele disse, sem jeito. — Mas não é uma coisa que se pergunta, né? Pensei que você me contasse todo tipo de coisa.
— Bom, não é uma coisa que se conte sem nenhum contexto, né? — eu concordei.
— E vocês? Como se conheceram? — Will perguntou, virando a conversa e eu agradeci mentalmente. Talvez aquela ideia tivesse sido realmente boa.
Eu não fiz questão nenhuma de prestar atenção na história bonitinha de amor dos dois e me senti aliviado que Percy tinha parado de me encarar estranho, como se soubesse que eu estava mentindo. A última coisa que eu precisava na minha vida era tê-lo me pegando na mentira e se sentindo mais inteligente do que ele era por isso…
Enquanto Annabeth contava apaixonada sobre os dois, Will sutilmente colocou sua mão sobre a minha no balcão da cozinha e entrelaçou nossos dedos, num movimento simples e nada teatral, que me fez perder completamente o fio de pensamento pelo qual eu estava caminhando pra longe daquele lugar.
— Sabe que eu tenho olhos só pra você, Sabidinha — Percy tocou o nariz da namorada com carinho, fazendo-a olhá-lo com um jeito sonhador e eu me senti nauseado.
— Ai, eu amo essa música! — Will disse aleatoriamente, quando “Stray Heart”, do Green Day começou a tocar na sala e ele virou aqueles olhos azuis profundos pra mim. — Vamos dançar? — eu, pego completamente de surpresa, pulei do banco em que estava sentado e me afastei do casal com um aceno de cabeça, caminhando com o loiro ainda de mãos dadas.
Alguns casais dançavam animados na grande sala, que parecia ainda maior sem as poltronas e sofás do meu tio. Arranjamos um espaço onde tinham poucas pessoas a nossa volta e bem longe dos olhares da cozinha e puxei Will pra perto de mim, quase sem pensar.
— Hum, pegada gostosa — ele disse, perto do meu ouvido, passando seus braços por meu pescoço. Não era uma música pra se dançar abraçado e eu não sei realmente porque estávamos daquele jeito, mas nenhum de nós se soltou. Eu desviei o rosto, envergonhado, mas estava sorrindo.
— Muito obrigado por sua ajuda — disse, perto do ouvido dele, pra que ninguém mais me escutasse. — Eu realmente não me senti tão pra baixo com você ali e foi bom não precisar participar da conversa de verdade — Will deu risada e senti um carinho gostoso que sua mão fazia distraidamente na minha nuca, enquanto acompanhávamos a música.
— Não precisa agradecer — ele respondeu carinhosamente e eu senti um arrepio por todo o meu corpo.
— Então… — disse, tentando manter minha voz firme e ele virou aqueles olhos azuis bonitos para me encarar. — Eu acho que nunca te vi na escola… — ele deu risada.
— Não mesmo. Meus pais acreditam em educação em casa — ele fez uma careta bonitinha.
— E você acredita em quê? — eu dei risada.
— Eu acredito que eu preciso que alguém que trabalha com a minha tia me arranje um encontro porque eles acreditam em educação em casa! — ele me fez gargalhar alto o suficiente pras pessoas a nossa volta escutarem mesmo com a música.
— Entendi — ele sorriu aquele sorriso lindo dele e eu senti borboletas no meu estômago. — Encontro às escuras é sempre uma roleta russa, né? Tenho até medo de saber o que aqueles dois te falaram sobre mim…
— Não falaram nada demais — ele continuou a fazer carinho nos meus cabelos e eu estava quase me esquecendo de me controlar com aquela sensação tão gostosa. — Disseram que você era inteligente, meio fechado, mas quando deixava os outros se aproximarem era uma pessoa maravilhosa.
— Essa não… E você acreditou? — brinquei, me sentindo estranhamente bem humorado e ele riu, mordendo o lábio ao olhar pra mim.
— Eu queria que eles tivessem me dito que você era fofo, eu estaria melhor preparado — eu senti meu rosto em chamas novamente. Will tinha esse tipo de poder sobre mim.
— Você está brincando — eu disse e ele riu sem jeito.
— Eu estou com muita vergonha de te dizer isso, tá bom? Eu não estaria tão sem jeito se estivesse brincando — ele escondeu o rosto no meu ombro e eu inspirei profundamente.
Toda aquela situação era irreal demais pra estar acontecendo na minha vida. Eu tentei me lembrar de que era só um garoto de 15 anos, com problemas com meu pai, duas irmãs, muitos primos… Eu tinha realmente ido a uma festa, meu primo tinha me apresentado pra esse cara, que veio com a ideia maluca de fingir ser meu namorado pra que eu não ficasse com a cara no chão quando meu primo, por quem eu tinha uma crush enorme, apareceu com a namorada dele e agora eu estava dançando com ele, ao som do Green Day, que era real demais pra um momento daqueles, e ele me diz que me acha fofo?
Era uma coisa nova ser chamado de fofo… As pessoas preferiam “esquisito” quando falavam de mim, antissocial, medonho… Fofo? Ele era o primeiro.
Desencostei nossos corpos sutilmente, para que eu conseguisse olhar novamente o rosto dele, que também estava corado como o meu e tomei coragem.
— Quer ir pra outro lugar? — eu perguntei, tentando manter minha voz calma, o que era o oposto de como todo o resto de mim estava. — Mais vazio?
Will assentiu e eu peguei sua mão, nos puxando para fora da sala lotada e entrando na que ficava ao lado, que eu sabia que ninguém entraria. Meu coração estava pulando no meu peito e eu estava com medo que ele me sentisse tremendo. Estava escuro, mas ainda conseguia vê-lo sorrindo pra mim.
— Aqui está um pouco frio — eu comentei e ele deu risada.
— É está sim. Mas está mais calmo, com certeza — ele brincou e conseguiu me fazer rir. Puxei sua mão, trazendo-o mais pra perto e Will veio sem resistência, passando seus braços de novo por meu pescoço e deitando sua cabeça em meu ombro, me abraçando.
Eu fiz carinho em suas costas lentamente, sentindo o perfume de seu corpo e seus cabelos e senti um beijo cálido em meu pescoço, que arrepiou meu corpo e me fez fechar os olhos, suspirando.Gentilmente, virei nossos corpos, para que eu pudesse ver seu rosto e fui aproximando o meu devagar, selando nossos lábios num beijo.
Sua boca era doce e causava arrepios deliciosos em mim, conforme se movia e se colava a minha mais vezes, primeiro lentamente, descobrindo as sensações uma a uma e aproveitando-as como se precisassem ser memorizadas. Meu coração batia descontrolado dentro de meu peito, parecia que ia explodir, nunca tinha estado tão agitado em toda a minha vida e eu sentia meu corpo agindo sozinho, puxando Will mais pra perto e abrindo minha boca, minha língua buscando pela dele.
Era como estar em outro universo, distante, muito distante do que eu vinha, como se nos conhecêssemos de outro lugar e tivéssemos acabado de nos reencontrar, como se muitos caminhos tivessem se cruzado para que nós dois pudéssemos estar juntos naquele momento. O frio do ar era real demais e quase estragava a perfeição de estar com Will, me fazendo lembrar de que existiam outras pessoas, de que atrás da porta toda a minha vida estava me esperando quando eu saísse daquele beijo. Minha cabeça mal funcionava, eu só sentia o toque dele, sua boca, seu carinho em meu cabelo, me puxando mais, me desejando como eu estava desejando-o, respirando comigo, o mínimo possível para que pudéssemos ficar juntos mais tempo, só mais um segundo…
— Isso… — ele suspirou, quando nenhum de nós pode mais esperar para puxar o ar para os pulmões de novo. Ainda de olhos fechados, respirando com dificuldade e explodindo de alegria, eu o puxei mais pra mim, recebendo o mesmo aperto em resposta.
Sem soltar sua cintura, eu nos guiei para uma poltrona e me sentei, puxando-o pra mim; ficamos praticamente colados, ele quase no meu colo, mas eu não queria espaço entre nós dois mesmo, queria recuperar o ar logo para voltar a beijá-lo como nunca imaginara que beijaria alguém.
Will beijou meu pescoço, carinhosamente e eu apertei meu braço em volta dele, sentindo sua pele gelada contra a minha mão. Afastei-o minimamente e tirei a jaqueta de couro que eu usava, enquanto ele me observava com aqueles olhos azuis muito atentos, como se cada movimento meu o enfeitiçasse, e joguei sobre seus ombros, trazendo-o mais uma vez para perto, tentando aquecê-lo. Eu não tinha muita prática com contatos humanos, mas mesmo sem saber direito o que fazer, eu queria tentar e fiquei feliz quando ele sorriu.
— Assim está melhor — ele disse, divertido, se aconchegando melhor em meu colo e eu concordei.
— Mais quentinho? — apertei de novo meu braço em torno dele e Will sorriu.
— Ah, sim, mas eu falava sobre o beijo, sobre a poltrona, sobre estarmos assim mais juntinhos… Bem melhor! — suas mãos fizeram um carinho gostoso em meu rosto, me puxando para deixar um selinho em meus lábios. — Muito melhor!
Senti meu rosto vermelho, mas estava muito feliz e também parecia melhor naquela situação, sabia que devia estar constrangido ou até desconfortável, mas não estava, sua presença conseguia me relaxar e me deixar menos antissocial. Será que eu devia agradecer ao Jason? Aquele pensamento me fez rir e o loiro me encarou, sem entender.
— É uma situação um pouquinho bizarra também, não é? — brinquei e ele riu comigo. — Afinal de contas, há duas horas, nós não nos conhecíamos e agora você é meu namorado e estamos juntos “há um tempo”.
— Há bastante tempo, agora, se levar em conta essas duas horas! Estou tão feliz! Desde o momento em que nos conhecemos, sabia que queria ser seu namorado! — ele disse, num tom de brincadeira, mas aquilo fez meu coração pular e meu estômago parecia um viveiro exótico de borboletas de asas compridas.
— Pois é — ele continuou fazendo carinho em meus cabelos, tocando levemente em meu rosto, às vezes me dando mais um selinho e parecia extremamente confortável.
— Ainda está pensando no seu primo? — ele perguntou, de repente, me pegando de surpresa. Percy? Por que Percy estaria na minha cabeça naquele momento?
— Não. Por quê? — pela primeira vez, o vi abaixar os olhos e morder o lábio, como se sua resposta não fosse o que ele queria dizer.
— Bom, foi por causa dele que tudo isso aqui começou, não é? Talvez, você esteja… — eu o interrompi, segurando seu rosto entre minhas mãos e beijei sua boca.
— Percy é a última coisa em minha cabeça nesse momento, Will — disse, fazendo-o olhar pra mim e o beijei de novo. — Eu estou sem jeito por termos começado assim, me desculpe!
— Não precisa se desculpar — ele disse, rápido e eu sorri. — Eu gostei de você, Nico! — suas mãos fizeram carinho em meu cabelo e eu tornei a puxá-lo, abraçando-o bem forte contra o peito. Eu gostava de ouvi-lo dizendo meu nome. — Quero começar de novo, sem essa coisa de fingir!
— Eu também quero, Will — beijei seu pescoço, seu queixo, sua bochecha até chegar aos seus lábios.
Quando nossas bocas se colaram, nada mais precisava ser dito e preenchemos aquele momento da melhor maneira possível, sedentos um pelo outro de uma maneira que eu não teria nem sonhado nos meus sonhos mais intensos e calorosos. Não queria parar de beijá-lo, mas nos assustamos com a porta diante da poltrona em que estávamos sendo aberta.
— Ops, desculpe — Percy disse, sem graça, puxando Annabeth pela mão. — Achamos que aqui estava vazio.
— Não, tentem o próximo — fiz um gesto com a mão, que fez Will dar risada e afundar o rosto no meu ombro, enquanto meu primo fazia careta pra mim e fechava de novo a porta.
— Se ele tinha ficado na dúvida se a gente era namorado de verdade, acho que agora ele não está mais, né? — o loiro no meu colo riu, ainda constrangido de termos sido pegos daquele jeito. Eu me sentia à vontade e tinha até gostado de ser pego de surpresa daquele jeito com Will.
— Não mesmo — dei de ombros e puxei seu rosto de novo para o meu, recomeçando nosso beijo de onde tinha parado, enroscando nossas línguas e sentindo aquele carinho delicioso, aproveitando cada segundo até que nosso ar acabasse e precisássemos respirar. — Você quer voltar pra festa?
— O quê? — ele me encarou, como se eu tivesse dito alguma coisa ininteligível.
— Você veio pra uma festa, não sei se preferiria… — eu era tão articulado que não conseguiria fazer uma frase nem se tentasse muito, mas ele pareceu entender.
— Bobinho! Viu só como você é fofo? — ele beijou minha boca algumas vezes. — Você gostaria de estar onde se não tivesse sido obrigado a vir aqui?
— Eu provavelmente estaria no meu quarto, lendo ou ouvindo música, provavelmente no computador — dei risada. — Sabe? Rotina do dia-a-dia. E você?
— Às vezes, eu gosto de ir ao cinema, quando ficar em casa enche muito a minha paciência — ele contou e eu sorri.
— O que você gosta de ver? Qual foi o último filme que você viu?
— Adoro filmes de super heróis! — Will respondeu, sonhador e eu o achei adorável. — Fui ver o filme da Mulher Maravilha e estou apaixonado! — dei risada.
— É bom? Eu ainda não vi…
— É muito bom! Você gosta? — seus olhos brilharam, fazendo meu coração bater mais forte.
— Gosto de alguns de super heróis. Mas prefiro filmes de terror! Estou ansioso pelo lançamento de “A Torre Negra” — ele abriu seu sorriso lindo.
— Será que eu sentiria menos medo com você do meu lado? — ele sugeriu e eu fiquei empolgado.
— Talvez — brinquei, dando um selinho em seus lábios. — Você gostaria de ir comigo?
— Eu adoraria. Nunca fui ver um filme de terror no cinema, acredita?
— É essencial pra vida! — brinquei. — A gente divide a pipoca, doce ou com manteiga, você decide — ele mordeu seu lábio, me fazendo rir.
— Mal posso esperar! — enganchei minha mão em sua nuca, puxando seu rosto para beijar minha boca de novo, sem conseguir me sentir saciado de seu beijo.
Ficamos trocando beijos entusiasmados e detalhes do que gostávamos pelo resto da noite, sentados naquela mesma poltrona e eu não podia ter me divertido mais. Minha irmã já estava a caminho de casa com Frank, por causa do horário que meu pai tinha lhe dado para voltar, mas eu decidi acompanhar Will até sua casa. Fomos andando de mãos dadas e eu me sentia com uma felicidade desconhecida.
— É aqui — ele indicou quando chegamos à sua porta e o caminho não tinha sido longo o suficiente pro meu gosto.
— Bom, acho que é boa noite, né? — eu disse, sem saber como eu deveria terminar aquela noite perfeita.
— É — Will concordou, segurando meu rosto entre suas mãos e me dando um beijo delicioso, me fazendo suspirar e prender sua cintura pelo máximo de tempo que pude.
— Durma bem — sussurrei contra ses lábios
— Você também! — fiquei olhando ele subir os degraus até sua porta e destrancá-la a contra gosto.
— Will! — chamei sua atenção e ele se virou sorrindo, parecendo satisfeito. — Você vai fazer alguma coisa amanhã? — subi atrás dele.
— Não, não vou fazer nada não. Por quê? — seu sorriso foi uma das coisas mais bonitas que eu já tinha visto em toda a minha vida. Era como o nascer do sol irrompendo do meio daquela noite.
— Não quer se encontrar comigo então? Fazer as coisas na ordem certa e ter um primeiro encontro com o seu “namorado”? — brinquei e ele mordeu seu lábio.
— É claro que eu quero! Mas com uma condição — assenti para que ele continuasse e, com uma cara sapeca, ele disse: — que eu possa te beijar, mesmo sendo só um primeiro encontro! — suspirei aliviado.
— Eu não tenho nenhum tipo de problema com beijos no primeiro encontro — dei risada e ele me deu um novo selinho. — Eu te pego aqui às onze?
— Perfeito!
Ainda fiquei parado na frente da porta depois que ele entrou, tentando ligar os dois pontos do dia, guardar os detalhes na memória. Quem diria que eu me daria tão bem indo a uma festa de Jason?
Talvez eu tivesse mesmo de comprar um presente de agradecimento aos meus primos...
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