Me levanto num dia abafado de verão e mexo os dedos dos pés. Passo a mão em meus cabelos enormes e bocejo.

–Bom dia, Break. –falo para meu gato que dorme profundamente no pé da cama. Coloco os sapatos e caminho saltitante até o banheiro. Penteio meus cabelos e escovo meus dentes, me olho no espelho e nem acredito que estou fazendo dezesseis anos. Tudo passa tão rápido...

Desço para tomar meu café e vejo meus pais sentados a mesa. Minha mãe bebe suco e meu pai, toma café. Ela come frutas, e meu pai, come vários pães. Algo me diz que um irá durar mais que o outro. Sorrio notando que o vestido de minha mãe está preso debaixo dela, enquanto está sentada na cadeira.

–Do que está rindo? –ela pergunta sorrindo.

–De nada, mamãe. –falo me sentando ao lado de meu pai.

–Bom dia, filha. Feliz aniversário. –ele diz sorrindo e tomando um gole do café.

Sorrio de volta e suspiro.

–Estou sem fome. –digo revirando os olhos e colocando a língua para fora. –Acho que vou dar uma volta com Marianne.

–Não antes do café, mocinha. –minha mãe diz prendendo seus cachos com um elástico. –Saiba que não é porquê está fazendo dezesseis anos que vai poder fazer o que quiser. A propósito, feliz aniversário.

–Ah, mãe! –digo revirando os olhos. –O que vocês vão me dar de presente? –digo bebendo um suco de laranja que estava bem na minha frente. Eu odeio laranjas.

–Vamos fazer um passeio. –meu pai diz.

–Pra falar a verdade, eu preferia ir sozinha. –digo cruzando os braços. –Para onde?

–Para o parque que visitei quando era praticamente da sua idade. –minha mãe diz levantando-se e chegando perto. -Ou eu tinha dezenove? Não me lembro bem. -ela me dá um beijo na testa e eu bufo.

–Que interessante. –falo ironicamente. –Prefiro ir ver a Clara.

–Aquela garota bastarda novamente? –meu pai pergunta. –Essa amizade não presta. Não viu como ela se veste e se comporta?

–Ronald! –minha mãe o indaga. –Não, querida. –ela me diz passando a mão em meus cabelos. –Vamos todos juntos, é um presente da aniversário. Vamos fazer um pique-nique.

–Uhu. –digo sem animação alguma. –Posso levar Marianne? –sim, minha égua se chama Marianne.

–Vamos pensar...Agora, suba e vá se aprontar. –meu pai diz sorrindo. -Estamos indo para carruagem na frente.

Me levanto e subo as escadas para meu quarto. Lá, pego qualquer vestido. Um branco, para ser mais exata. Um sapato de campo, baixo e negro e coloco um chapéu qualquer.

–Nada de meias hoje, queridos! É meu aniversário. –digo dançando intimamente.

Desço as escadas e grito para meus pais que estou pronta. A empregada avisa que eles já estão na carruagem e eu corro até eles e falo pela janela sobre ir de cavalo. Meu pai nega, mas minha mãe assinala positivamente com a cabeça e eu vou seguindo a carruagem com Marianne.

A carruagem para e meus pais saem de dentro dela, eles estão felizes e arrumam a toalha para o pique-nique. Aproveito para dar uma volta pelo parque que minha mãe tanto ama. Adentro bastante o bosque e vejo uma árvore enorme e com um verde diferente, era uma macieira.

Desço de Marianne e passo a mão em sua crina lisa e branca... Ando até a macieira e me estico para pegar uma maçã que estava em um galho não tão alto. Fico na ponta dos pés e a pego. A limpo no vestido e dou uma mordida, olho para o lado onde tem uma moita.

Parecia que eu vi algum animal...Mas, era somente a minha imaginação. Dou o resto da maçã para Marianne e monto nela. Caminho lentamente pelo bosque e vejo um buraco de tamanho médio no chão. E só há algo que eu ame mais que cavalos e gatos... Coelhos! Desço de Marianne novamente com euforia, algo me diz que ela está se cansando desse “sobe e desce” ; me aproximo da toca.

Fico de quatro para olhar lá dentro e é tudo escuro. Nada de coelhos. Suspiro desapontada e Marianne começa com sua reclamação. Era comum, mas ela “reclamava” mais alto dessa vez. Me assusto e perco o equilíbrio...Caindo dentro da toca de coelho.

Me encontro caindo em algo mais profundo que uma simples toca de coelho, vejo alguns objetos flutuando junto a minha queda e finalmente caio no chão. Mas, o chão não era chão...E sim teto. Caio novamente e bufo de dor.

–Onde...Eu estou? –olho em volta. -Que droga é essa?

Era uma sala enorme e bem alta, com um lustre no meio e uma mesa. Nas paredes, nenhuma janela. Mas, muitas portas.

Ando pelo quarto abrindo cada uma delas, bom, pelo menos tentando. Até que vejo uma pequena porta e não consigo abri-la. Será que eu nunca mais vou sair daqui?! Penso comigo mesma e me sento no chão, nervosa porquê é a primeira vez que estou em uma situação que minha astúcia não me permite resolver. Era um mundo paralelo?

Me levanto indignada por não saber resolver e olho em cima da mesa de centro. Lá, vejo uma chave e um frasco com líquido pela metade. No frasco estava escrito claramente “Beba-me”. Peguei a chave e tentei abrir todas as portas, mas a única que abriu foi a porta minúscula. Não é possível. Eu só posso estar sonhando...

Quem passaria por uma porta tão nanica? Revirei os olhos e coloquei a chave no bolso e deixei a porta aberta. Andei até a mesa e peguei o frasco... Se é apenas um sonho, não morreria bebendo algo como isso. Retirei a tampa e bebi o liquido.

Logo tudo parecia menor e a mesa ficou estranhamente alta. Em minhas conclusões internas, eu encolhi. Me perco dentro de meu vestido enorme, droga. As roupas não encolhem assim como eu. Mas, ainda estou vestida com um vestido menor e ainda branco, quase transparente.

Passei pela porta minúscula e olhei ao redor... Era... Como se o mundo que eu conheço não fosse absolutamente nada comparado a beleza do mundo em que me encontrava agora. Todas aquelas coisas não faziam sentido para mim, e eu sabia que não encontraria meus pais ali.

Corri feliz e pulando de pedra em pedra. Olhei para o céu azul e suspirei. Algumas flores tinham rosto e ficavam questionando minha presença.

Andava mais um pouco e balançava meus cachos conforme meus pés pisavam na terra verde. Que lugar incrível era aquele?

Foi então que vi um coelho saltando com um paletó e um relógio de bolso em mãos. Ele me olhou, mexeu o nariz e ficou boquiaberto. Eu conheço ele... De onde? De um sonho? Que coisa absurda.

–O que foi? –perguntei sorrindo.

–Quem é você? –ele perguntou chegando perto.

Caí de costas quando ouvi que ele podia falar, arregalei os olhos e fiquei sem voz. Coelhos falam? Animais falam?

–Eu sou Anastácia. –falei hesitante.

–O que faz aqui? –ele disse sussurrando. –Não poderia estar aqui. Como passou para esse lado?

–O que? –falei revirando os olhos. –Esse sonho é meu. Por que acha que eu não deveria estar aqui?

–Você fala como a Alice, mas não se parece com a Alice. –ele disse colocando a mão na boca e com semblante surpreso.

–Sabe, eu me acho bem parecida com a minha mãe sim. –disse cruzando os braços.

–ALICE É SUA MÃE? –ele berrou, gaguejando.

–Sim. De onde você conhece ela? –falei suspirando.

–Venha, menina. Me siga. –ele disse saltando na minha frente e eu comecei a andar junto a ele. Ele ignorou minha pergunta. Seria uma boa hora para agarra-lo? Eu amo tanto coelhos.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.