I Do Remember

6 Capítulo 6 - Something To Escape


Notas iniciais
Mais um momento #RoseJulian *-*

– JULIAN!

Julian se virou para mim com um sorriso cínico nos lábios. Stacy passava os dedos pela boca avermelhada e olhava para mim com uma expressão safada no rosto. A loira tingida baixa e peituda era apaixonada por Julian desde o ano passado e acho que por isso decidiu que se queria conquistá-lo, teria que se aproximar de mim.

– Você está me interrompendo, Rose – Julian falou para mim, usando aquele tom suave que ele usava com suas conquistas. – Diga a ela, Stacy.

– Bem, Rose...

– Cala a boca que o assunto não é com você – respondi, bruscamente. Quando olhei novamente para Julian, ele estava segurando uma risada e que tive que me segurar para não dizer uma besteira. – Eu quero falar com você, babaca.

– Vou precisar usar a boca? – ele perguntou imediatamente. – Ela vai estar bem ocupada.

– Se você colocar a sua boca na dela antes de falar comigo, alguém vai morrer hoje – eu ameacei e direcionei o meu olhar para Stacy. – O que você acha disso?

– Tudo bem, Stacy. Outra hora a gente se fala.

– Mas o quê... Julian! – ela protestou.

Stacy bateu o pé e saiu nervosa pelos corredores da escola. Olhando mais uma vez para Julian, eu reparei o quanto ele estava todo desgrenhado. A camisa que usava estava toda amassada e dobrada acidentalmente na bainha, fazendo com que parte da sua barriga aparece. A calça estava puxada para baixo, revelando parte da cueca e do que eles estavam prestes a fazer.

Era nessas horas que eu me perguntava como aquele cara podia ser meu amigo.

– O que você quer? – O tom de voz dele saiu tão friamente que só aumentou o meu interesse em saber o que estava acontecendo.

– Eu quero entender você, só isso – respondi, sendo o mais calma possível.

Ele fixou seus olhos azuis em mim.

– É fácil me entender – ele respondeu em um tom casual. – Só não faça besteiras e eu vou ser muito compreensível.

– Quer dizer que eu fiz alguma besteira?

Julian assentiu.

Uma vontade repentina de socar a cara linda que ele tinha surgiu dentro de mim, mas eu me controlei. Ultimamente, Julian agia como uma criança. Se não ganhava o doce, chorava e fazia birra até ganhar. No caso do Julian, se não fazia o que ele queria, ele transava com a primeira vadia via pela frente. Isso era sinônimo de infantilidade e para alguém com dezesseis anos era demais.

– E o que foi que eu fiz? – perguntei, controlando a vontade de gritar.

– Você ainda pergunta? – Ele se mostrou irritado. – Você preferiu dar razão àquele idiota a mim que sou seu amigo. Isso não é motivo o bastante?

Eu segurei uma risada.

– Por isso você estava agarrando a Stacy daquele jeito?

– Você já está confundindo raiva com ciúmes – ele retrucou, sorrindo torto. – A não ser que você queira algo a mais do que me pedir desculpas. – Nas suas últimas palavras, Julian se aproximou o suficiente para sussurrá-las no meu ouvido. – O que me diz?

Com aquela boca tão perto de mim, eu tive que me segurar para não beijá-lo ali mesmo. Nós éramos amigos e nada mais do que isso.

– Eu digo que eu não devo desculpas nenhumas.

Julian ficou sério novamente.

– Então por que veio aqui?

Passei um braço envolta dos ombros dele e suspirei aliviada quando ele não recuou.

– Porque você é meu amigo, idiota. E eu odeio brigar com você por causa de Gary ou Stacy.

– Não brigamos por causa da Stacy – disse ele.

– Se esqueceu daquela vez, mês passado, que você disse que não poderia sair comigo porque sua mãe precisava de você e então, eu descobri que você estava com ela?

Julian riu amargamente e eu não pude me conter e dei uma cotovelada dele. Como ele podia rir daquilo? Ele tinha me dispensando para transar com ela naquela cama imunda que ele tem. Anti higiênica também.

– Foi bom – ele murmurou e se afastou o suficiente de mim para me olhar nos olhos. Eram poucas as vezes em que ele fazia e quando fazia, eu sabia que ele estava falando sério.

– O quê?

Ele me pegou pela cintura e me abraçou, se é que se podia chamar aquilo de abraço. Eu passei os meus braços envolta do pescoço dele como se fosse um abraço normal, até que a boca dele ficou na mesma direção que a minha e se eu não virasse o rosto, teria rolado o nosso primeiro beijo!

Onde ele estava com a cabeça?

Julian me aperto forte contra ele e eu quase tive um ataque quando a mão dele começou a descer pelo meu corpo, do mesmo jeito que ele fazia com as suas garotas em público. E mesmo quando eu tentei me soltar e ele não permitiu, e mesmo quando eu consegui ver o rosto dele, não tinha nenhum sorriso cínico ou um olhar sedutor ou zombador. Só tinha ele.

– Já te disse alguma vez que odeio abraços de urso?

– Não – ele respondeu. – E eu vou calar a sua boca antes mesmo de você dizer isso.

– A gente parece um casal de namorados chatamente apaixonados.

– Chatamente? Isso existe?

Sorri desajeitada para ele e quando ele afrouxou o aperto, eu me soltei dele e me afastei o suficiente para que ele não me desse outro abraço daqueles. Percebi que alguns estavam em nós dois, principalmente de garotas e de Stacy, que estava perto o suficiente para ouvir nossa conversa. Será que ninguém entendia que éramos só amigos e nada mais? Que só Julian só exagerava nas suas demonstrações de afeto?

– Sei lá – retruquei. – Vamos, preciso de uma carona.

– Eu desconfiava que tivesse um motivo para você vir atrás de mim – falou ele, mas percebi que já estava descontraído, então não me importei.

– Ah, vamos – falei, tentando reanimá-lo. – Depois te libero para que você leve a Stacy para aquela imundice que você chama de cama.

– Porque ‘’imundice’’? – Julian perguntou, fazendo aspas na última palavra.

– Bom... Você leva garotas... Ah, você sabe.

– Eu não sou louco de levar aquelas garotas para a minha casa – disse ele, passando um braço ao redor dos meus ombros e começando a andar. – Vamos, eu ainda quero te levar em outro lugar.

Eu não entendi exatamente o que ele quis com ‘’eu não sou louco de levar aquelas garotas para a minha casa’’, porém, resolvi não perguntar mais. Mas se ele não levava as garotas para a casa dele, onde mais ele levaria? A pergunta ficaria só na minha mente.

***

Eu senti meus olhos se fechando a cada cinco segundos que se passava. Por causa disso, nem sabia onde Julian estava me levando, mas sabia que não era para a minha casa. Esse lugar era mais deserto, não tinha ninguém à vista, mas ainda assim, continha uma bela paisagem, com gramados por toda parte.

Tinha minha cabeça apoiada ao vidro do carro e piscava três vezes toda vez que meus olhos se fechavam por tempo demais. Andar de carro sempre me dava sono e quando demorava mais, a coisa toda ficava pior.

– Onde você está me levando? – eu finalmente perguntei.

Julian olhou para mim e deu um meio sorriso.

– Já estamos chegando. – Foi só o que ele me respondeu.

Se ele não fosse meu amigo por dois anos, eu poderia jurar que ele estava me levando para algum lugar sombrio e queria iria abusar de mim de todas as formas, até e não só sexualmente. Poderia me tratar como escrava ou me vender para alguém. Eu não duvidava disso depois de tanta coisa que vi na TV, apesar de eu ter certeza de que deveria parar com isso e focar na realidade.

– Por que esse lugar misterioso leva tanto tempo para chegar? – perguntei, apenas para me distrair do sono.

– Porque fica do outro lado da cidade, estrelinha – ele respondeu, e pela primeira vez em décadas e séculos, eu não tive vontade sequer de falar alguma coisa por causa do apelido. Admito, me surpreendi com isso.

Com dor no pescoço pelo tempo que fiquei na mesma posição, inclinei minha cabeça para o outro lado e ela acabou no ombro de Julian. O frio da manhã já tinha passado, dado lugar a um sol tímido. Julian estava apenas com uma blusa preta com uns desenhos idiotas. Ele cheirava a sabão e perfume caro e seja qual for esse perfume, ele estava muito bom e incendiando o ar na caminhonete velha e enferrujada.

Para me dar mais conforto, ele se inclinou para trás e ficou com a coluna ereta, de modo que eu me aconchegasse mais nele.

– Por que você só faz isso quando não tem ninguém vendo? – ele me perguntou.

– Exatamente! Porque não tem ninguém vendo.

Senti que Julian ficou tenso, mas logo isso passou. Não nos falamos mais depois e até desconfiei que ele tivesse ficado nervoso por causa da minha resposta, mas quando ele diminuiu a velocidade e ficou com somente uma mão no volante, passou o braço ao redor de mim e começou a cutucar o meu ombro com os dedos.

Pouco tempo depois, eu percebo as ruas mais movimentadas e apesar de nunca ter passado ali, sabia exatamente onde estávamos e quase pulei eufórica no banco.

– Você me trouxe para Malibu? – perguntei, eufórica. – Tecnicamente falando, não estamos mais na cidade, inteligente.

– Não importa – ele retrucou, estacionando a caminhonete. – Alguns minutos de viagem e estamos aqui. Você não disse que queria vir? Uma surpresa. Pode me beijar agora, eu deixo.

– Só se você prometer que vai ser um bom garoto – brinquei com ele.

– Eu prometo – respondeu ele e me inclinei e o beijei na bochecha várias vezes, que acabei caindo desajeitada em cima dele.

– Isso também serve – disse ele, passando a mão pela minha barriga e se divertindo comigo passando a mão na cabeça. O impacto com a porta havia sido um pouco forte demais.

Poucos minutos depois estávamos sentados na areia, observando o mar indo e vindo em nossa direção. Estávamos longe o suficiente para que a água não nos tocasse. Era realmente uma vista linda e eu agradeci mentalmente por ter um amigo como aquele.

– Eu acho que alguém vai me matar hoje, mas vai valer a pena – murmurei.

– Paul?

Eu aceno.

– É muito azar seu ele trabalhar apenas no horário que você está no colégio – ele falou, como se servindo de consolo para mim. – O lado bom é que vocês sempre se encontram.

– Vai morar comigo então – eu resmunguei. – Quero ver você aguentar um dia. Ou melhor, um minuto.

Ele riu amargamente da minha situação e apoiou a cabeça na minha. Eu acabei apoiando a minha na dele e quase cai quando ele desviou o olhar para o bolso e começou a remexê-lo.

– Aceita? – ele apontou um cigarro. – Ouvi dizer que ajuda a relaxar.

– Quem te disse isso é retardado e viciado – eu respondi, pegando o cigarro da mão dele e deixando que ele acendesse.

Uma garota fumando com o seu melhor amigo em Malibu poderia não ser a melhor vista do mundo ou do momento, mas aquela cena me deixava mais leve e fazia com que eu esquecesse o que tinha acontecido com Paul na noite passada e a cena torturante de ver Julian se agarrando com Stacy. Eu só consegui ver o meu amigo logo depois que ele me abraçou e mesmo assim, ainda não reconheci quando ele tentou me beijar. Ou deveria mesmo ter sido só um acidente de destino. Mas conhecendo aquele garoto como eu conhecia, nada com ele acontecia por acidente. Ele provocava e convencia.

Agora, eu estava com as mãos para trás, com elas absorvendo quase todo o meu peso. Minhas pernas estavam esticadas e Julian estava deitado nelas, nem se importando se depois teria areia em toda a sua roupa. A cada tragada que ele dava no cigarro, eu tinha que me inclinar mais para trás para que a fumasse não entrasse no meu nariz.

– Uma palavra que me define? – ele me perguntou, continuando a nossa brincadeira de perguntas.

– Gostoso – respondi e o ouvi dar risadas. Foram poucas as vezes que eu disse isso a ele. – Minha vez. Quando você teve seu primeiro beijo?

– Sério? – Assenti para ele. – Eu tinha doze anos. E fiquei fascinado com aquilo de beijar e não quis mais parar. E você?

– Essa é a sua pergunta? – Ele sorriu em resposta. – Eu tinha onze. Foi nojento e eu odeio me lembrar.

– É por isso que eu nunca vou te beijar. Você vai vomitar em mim, nojenta!

De alguma maneira, aquelas palavras foram um pouco duras e eu acabei dando um soco forte demais no estômago dele. Ele se retraiu e murmurou palavras inaudíveis, com a mão no estômago. Eu acabei me sentindo um pouco mal por isso.

– Minha vez, bebê chorão – eu falei. – A primeira garota que partiu seu lindo coração?

– Hm... – Ele ficou pensativo. – Julianne era o nome dela. Fiquei mal, pelo o que me lembro. Eu tinha só treze anos na época. Ninguém sofre por amor quando se tem treze anos.

– Pois é – concordei com ele.

– Você é virgem? – Eu fiquei em silêncio por um tempo. – Rose, é a minha pergunta.

– Se você sabe a resposta, por que pergunta?

Ele se levantou e me encarou por um tempo. Eu esperava que ele desse risadas e zombasse. Mas por que eu estava preocupada com aquilo? Cada um tinha a sua vida e essa era a minha.

– Eu sempre desconfiei disso – ele respondeu, e percebi que não havia nenhuma ironia em suas palavras. – Só me senti mal por você nunca ter me contado! Diz agora para mim: você quer que tenha flores e chocolate ou pode ter só uma cama cheirosa e bem arrumada?

– Desde que não tenha você, está tudo bem.

– Doeu agora – ele resmungou.

Não dissemos nada um ao outro pelo o que parecia um longo tempo, até que ele finalmente se virou para mim e parecia arrependido.

– Desculpe. Acho que peguei pesado.

Levantei uma sobrancelha.

– Falar sobre sexo é motivo para desculpas? – zombei dele. – Mas nunca, nunca mesmo, fale sobre flores ou chocolate ou cama cheirosa e bem arrumada, ok? Quebro sua cara em menos de um minuto.

– Ok, mas... Você é afim do Gary?

– Achei que era a minha vez de perguntar – eu disse.

– Mas você já tinha perguntado. ‘’Se você sabe a resposta, por que pergunta?’’ – Estreitei os olhos para ele e Julian deu de ombros. – Vamos, responda.

– Não. Ele é um amigo bonitinho. Só isso. Você é o amigo bonitão e sexy. Ok?

– É por isso que eu amo você!

Ele passou a mão pela minha cintura e pregou os lábios molhados e com cheiro de cigarro na minha bochecha. Aquilo teve um pouquinho de nojo, mas reconheci aquela atitude como ‘’tipicamente Julian’’. Nada que mais alguns anos não conserte.

Notas finais
Então o que acharam? Eu realmente amo quando o Julian tem umas atitudes bastantes ''extravagantes'' em relação á Rose!