I Do Remember
4 Capítulo 4 - Uncontrolled Obsession
Notas iniciais
Perdi a hora com Julian. Isso sempre acontecia quando não íamos para o colégio. Ele acabava fazendo o meu dia melhor e eu até esquecia que tinha uma casa infernal para voltar. Mas como nada que é bom dura por muito tempo, eu tinha mesmo que voltar, afinal, já estava anoitecendo e Mary estava arrancando os cabelos preocupada comigo (ela tinha ficado mais responsável depois que virou mãe) e Paul, com certeza, estaria colocando ideias erradas na cabeça dela.
Julian parou em frente a minha casa.
– Eu posso entrar com você, se quiser – ele disse, pegando minha mão. – Não precisa fazer isso sozinha e seu cabelo ainda está um pouco molhado.
Passei a mão pelos meus cabelos e notei que eles ainda estavam um pouco úmidos. Olhei pela janela para ver o tempo e vi que o sol estava lutando para se manter visível.
– Eu não sou nenhuma menininha que precisa de ajuda, Julian – eu falei, apertando a mão dele rapidamente e depois, soltando-a. – Mas eu só vou se você prometer que não vai chorar que nem um bebê implorando para me ver. Promete? – perguntei e um sorriso sarcástico surgiu no meu rosto.
Ele tenta esconder um sorriso.
– Prometo – respondeu ele, com voz séria.
Aceno para ele pela última vez e abro a porta do carro. Quando me preparo para descer, Julian me puxa pelo braço e passo os braços ao redor da minha cintura, enterrando o rosto no meu cabelo. Ele me apertou por um pequeno tempo e quando eu finalmente relaxei, ele me soltou.
– Eu preciso disso para cumprir a promessa – Julian disse, se afastando de mim lentamente.
Por instinto, sorrio para ele mais uma vez e finalmente saio do carro. Pego as chaves na minha bolsa e abro a porta. Julian ainda continua me observando e sei que ás vezes ele exagera demais nesse lance protetor.
Entro em casa. Tento evitar as perguntas indo rapidamente para o meu quarto, mas Mary e Paul param na minha frente logo que cruzo a porta de entrada. Paul está com Oliver nos braços e até o pequeno me encara. Eu sorriso para ele e ele retribui de volta. Rezo para que ele não conheça as maldades e injustiças da vida.
– O quê? – perguntei e encarei Mary, ignorando completamente Paul.
– A diretora ligou hoje, Rose – ela disse, cruzando os braços. – Faltou a aula hoje de novo? Paul me disse que você saiu. É para isso que eu tento fazer o meu melhor para você? Para que você não dê valor a nada?
A voz dela era firme, mas ainda mantinha um tom calmo.
– Eu não estava me sentindo muito bem – eu menti. – E então, resolvi sair por aí.
– E melhorou? – Paul questionou. – Porque pelo jeito em que saiu daqui, você estava ótima!
– Mas eu não estava – continuei a mentira. – Uma vez na vida e vocês agem como se fossem meus pais? Ah, eu não acredito! Você era melhor do que isso, Mary.
– Eu não vou agir como a mamãe e o papai, até porque eu nunca gostei do jeito que eles faziam – Mary indagou e seu tom de voz aumentou. – Eu só quero que me diga o que está acontecendo com você, só isso.
Olho rapidamente para Paul. Eu poderia dizer tudo agora para Mary, mas ela não acreditaria em nenhuma palavra. Para ela, Paul Hamilton é um cara sexy e de quase dois metros de altura, postura rígida, cabelo sempre penteado e cortado e um ótimo pai. Acho que acabei de vomitar na minha boca depois de pensar isso.
Eu suspirei tão alto que eu até me surpreendi com a energia ruim que tinha acabado de sair de dentro de mim. Como se eu tivesse liberado todas as almas negras do inferno.
– Nada – respondi. – Não está acontecendo, Mary. Só não finja que é a minha mãe e que ele é meu pai e que eu tenho que obedecer a vocês dois. Vou para o meu quarto.
Paul segura o meu braço logo quando desvio de Mary.
– É aquele garoto com você anda, não é? – ele me perguntou, fixando seus olhos castanhos em mim. – Julian. – O nome de Julian saiu como algo nojento da boca dele. Paul é nojento, Julian não. – Você tem que parar de andar com ele. De onde em diante, eu vou te levar e buscar do colégio.
Eu me solto do braço dele e me afasto. Não consigo segurar a risada.
– Nunca mais repita isso! – eu grito. – Já falei para não agir como se fosse meu pai. Eu não vou me afastar do Julian e você não vai mandar em mim.
– Mary! – ele gritou para minha irmã.
– Não seja tão rígido, Paul – ela retrucou. – Rose não precisa disso e eu confio em Julian. Isso já é demais, mesmo para alguém tão impulsivo.
Mary e Paul lançaram aquele olhar um para o outro, que eu sabia que era de quando eles não concordavam em algo e começariam a brigar. O problema era que esse olhar era tão raro que quando nem existia. Eu devia mesmo concordar que tudo só caminhava para o pior.
Oliver se aninhava no colo de Mary mais fundo e então ela finalmente percebeu que ele estava precisando de alguma coisa. Ele sempre fazia isso quando queria algo. Poucos meses atrás, Mary e Paul descobriram que o filho tinha leucemia. Eram médicos para lá, consultas para lá. Tudo para que Oliver ficasse bem. Até decidiram que Mary iria parar de trabalhar e dedicar sua vida ao Oliver. Parecia até bom isso, porque ela pegaria bem menos no meu pé, só que por um lado, Paul pegou bem mais no meu pé, como agora.
– Eu vou ver o que ele quer – Mary falou com o seu tom de voz preocupado e deixou Paul e eu sozinhos, nos encarando.
Levantei uma sobrancelha para ele.
– O quê? – perguntei.
Ele se aproximou tanto de mim, que eu quase vomitei na minha própria boca de nojo quando ele aproximou a boca do meu ouvido.
– Não vá contra mim, Rose – ele ameaçou. – Você vai perder, estrelinha.
– Eu não tenho mais nada a perder.
Subi para o meu quarto, com ódio daquele homem e de tudo o que ele tinha dito. Eu nunca me afastaria de Julian, a não ser que o próprio quisesse isso. Eu rezava para que isso nunca acontecesse.
***
Eu me revirei na minha cama durante várias horas sem conseguir dormir. Minha cabeça revirava com pensamentos sobre tantas coisas que iam de Paul para Mary, depois para Oliver e voltavam para Paul dizendo coisas ruins sobre Julian e de Julian iam para a minha rotina com ele. Queria não pensar sobre isso, mas era inevitável.
Levantei-me da cama e ajeitei o meu pijama. Ele era bastante curto na minha opinião e tinha sido um presente de Paul do Natal passado. Mary dizia que era lindo e que eu deveria usar, mas não era nem de longe o tipo de roupa que eu usava. Decidi colocá-la essa noite para que pudesse amassá-lo toda a noite e até saciar um pouco da minha vontade de amassar a cara do Paul.
Idiota mental.
Era bem tarde pelo o que eu percebi. Todas as luzes já estavam apagadas e fui direto para cozinha. Acendi a luz e peguei água gelada na geladeira. Tudo parecia tão normal que eu até estranhei, até que quando me virei, me deparei com Paul me observando.
Tentei esconder o quanto eu estava surpresa.
– Se quer me matar, por favor, existe um monte de facas nessa cozinha – eu indaguei.
Paul estava recostado na parede e me observou de cima para baixo, antes de finalmente falar:
– Eu não tenho a menor vontade de fazer isso, estrelinha – Paul falou, se aproximando em passos de lentos de mim. – Está usando o pijama que eu te dei. Muito bom.
Olhei para mim mesma e notei o enorme erro que eu havia cometido.
– Essa coisa velha? – Tentei não me importar com o comentário dele. – Eu preciso de algo para dormir.
Afastei-me de Paul, mas ele me seguiu. Ignorei-o completamente lavando o copo que eu acabei de usar. Eu podia sentir o cheiro dele atrás de mim, as mãos dele estavam ao lado do meu corpo, pronto para me tocarem. Eu só esperava sair o mais rápido disso tudo.
Até que Paul tocou o meu quadril. Não, eu realmente não podia suportar isso. Peguei o copo da minha mão e taquei na mão dele, ouvindo-o segurar os gemidos e gritos de dor.
***
O dia seguinte amanheceu nublado. Acordei o mais cedo que consegui, tomei banho rapidamente, peguei a primeira calça jeans que vi, blusa de frio preta e meus tênis. Passei a mão pelos cabelos como de costume, corri para comer alguma coisa na cozinha e quando Mary se preparou para sair com Oliver, eu já estava fora de casa. Eu nunca estava com ânimo para aguentar Paul, mas hoje eu estava para matar. Depois de ontem à noite, eu me surpreendi em como consegui dormir por algumas horas.
A caminhonete de Julian já estava estacionada lá fora e eu agradeci mentalmente por ele não ter demorado como ontem.
– E nem me chama de estrelinha – eu disse, logo depois de bater a porta.
– Nem vou perguntar o que aconteceu – ele falou, se preparando para dirigir. – Invés disso, vou pedir que você faça o meu trabalho de história.
Olhei para ele furiosa, mas instantaneamente, eu me acalmei.
– Trabalho de história? – questionei. – Que trabalho de história?
– Stacy me ligou ontem e me contou tudo o que havia acontecido na nossa ausência – ele explicou. – Até perguntou por você.
– Por que ela perguntaria sobre mim, se o que ela deseja é você?
– Todas me desejam, Rose – ele retrucou com aquele tom de voz confiante. – Inclusive você, estrelinha. E então, vai me ajudar ou não?
– Pensei que tinha dito que eu ia fazer o trabalho para você.
Julian deu de ombros.
– Você fazer ou ajudar... Qual é a diferença?
– A diferença é que eu vou ter que perder tempo fazendo o meu e fazendo o seu – eu expliquei, abrindo o meu sorriso mais superior. – Entendeu, Julian?
Antes de dar a partida, ele me encarou. O azul dos seus olhos estava menos visível, os cabelos estavam sobre os olhos e a cada cinco segundos ele os jogava para o lado ou para trás.
– Meu Deus, você é tão sexy! – ele riu. – Ainda bem que somos amigos, não aceitaria se fosse diferente.
– Seu idiota.
Julian ligou o carro e dirigiu até o colégio.
Diferente de ontem, chegamos bem cedo. Pessoas iam e vinham de todos os lados, os cochichos se tornando palavras mais longas e bem ao fundo, casais se agarrando loucamente.
– Você já se agarrou assim com alguém? – Julian me perguntou ao me flagrar olhando para os casais. – É tão quente e excitante. Eu não ia me segurar se fosse assim.
– Acho que você deveria colocar alguma coisa interessante nessa ervilha que você chama de cérebro – retruquei e sorri alegremente para ele.
– O que aconteceu depois que eu te deixei em casa? – ele finalmente perguntou.
– Mary e Paul me interrogaram e depois me deixaram em paz – eu respondi, indiferente. – Quase como de sempre, eu acho. Só que dessa vez, Paul disse que eu deveria parar de andar com você.
Ele se virou completamente para mim e fixou seus olhos azuis nos meus.
– O que eu acabei de dizer sobre ‘’ainda bem que somos amigos, não aceitaria se fosse diferente’’, Rose Chester? Cadê a faca? Vou matar esse cara agora.
– Mary discordou dele – eu cantarolei – Finalmente, alguma mudança de rumo! Devemos comemorar isso e vai ser hoje!
– Só me deixa desmarcar o almoço com a Stacy – ele falou naturalmente, pegando o celular e verificando seus números de contato.
– Não acredito que...
– É brincadeira, lindinha – ele me interrompeu. – Ou metade da história, talvez.
Julian e eu saímos do carro e andamos lentamente até a área verde, derrubando nossas coisas no gramado e nos sentando da forma mais desengonçada possível. Algumas garotas estão olhando para Julian e ele lança alguns sorrisos e pisca para elas. Se ele soubesse o quanto aquilo é ridículo.
– Oi, Rose. – Percebi Gary se aproximando de mim. Ele era um garoto legal, de altura considerável, cabelos pretos curtos, pele morena e olhos castanhos. Tinha um estilo meio brega, mas poderia até ser bonitinho.
– Oi, Gary – cumprimentei.
Ele se sentou ao meu lado, colocando a mochila atrás de si e ajeitando o casaco fino.
– Não te vi por aqui ontem.
– Ela estava comigo, por isso você não a viu – Julian falou, passando o braço pelos meus ombros e me puxando para ele de uma maneira tão desconfortável que bati a cabeça em sua clavícula. Ele nem se mexeu.
– Você poderia ser um pouco mais sensível, Julian – resmunguei, tentando sair do forte aperto dele, mas era óbvio que ele era muito mais forte do que eu e então, nada aconteceu.
– Se bem me lembro, eu falei com a Rose, não com um babaca – Gary disse e percebi o olhar dele para Julian. Poderia acontecer uma briga só por causa de um ‘’não te vi por aqui ontem’’?
– Rose, será que você poderia falar para esse idiota sair da minha vista antes que eu quebre essa cara feia que ele tem? – Julian me perguntou, se virando completamente para mim. Bruscamente, tirei o braço dele ao redor de mim e me afastei dele. – Rose!
– Para de ser tão infantil, por favor? Obrigada.
Julian cerrou os olhos para mim, pegou a mochila e saiu apressado, se afastando de mim. Enquanto Gary falava alguma coisa para mim, eu só conseguia manter meus olhos na vista perfeita de Julian sumindo lentamente dos meus olhos. E o que eu queria entender era o que tinha acontecido com ele.
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