I Do Remember
2 Capítulo 2 - Some Things Never Change
Notas iniciais
Quando a sua vida dá uma reviravolta, você pensa que nada pode piorar. E é justamente por esse pensamento tão imbecil que as coisas pioram e muito.
Eu tinha nove anos quando meus pais morreram em um acidente de carro. Ainda me lembro que eles tinham me colocado de castigo por causa de uma travessura e haviam me proibido de sair com eles. Minha irmã, Mary, me dizia que eu tinha que agradecer por estar viva e por não estar naquele carro. Mas se eu estivesse, as coisas tinham sido bem diferente de hoje.
Logo depois do acidente, eu fui morar com a minha irmã mais velha. Dez anos mais velha. No início, era meio insuportável morar com ela. Mary quase não me dava atenção e eu ficava muito nervosa por causa disso. Porém, eu fui crescendo e sabia que se tivesse a idade dela, eu também não me importaria muito com uma pirralha, mesmo que fosse minha irmã.
Foi depois que fiz treze anos que as coisas poderiam ter começado a melhorar. Mas pioraram. Descobri que Mary estava grávida do namorado estranho dela, Paul. Eles resolveram se casar e foi o melhor mês da minha vida, pois fiquei sozinha em casa. Eu só não imaginava que seria o último mês de paz da minha vida toda.
Depois de alguns de recessos no colégio, hoje eu tenho que enfrentar tudo. A escola não é a minha maior paixão, mas serve como distração. E serve como distração também quando seu melhor amigo é um dos garotos mais gatos e desejados do colégio.
Sim, Julian Collins vive rodeado de garotas, mas me escolheu como sua melhor amiga.
Foi há dois anos. Julian havia chegado de outra cidade e parecia meio tímido no começo. Ele tinha me pedido um lápis emprestado e foi por causa desse lápis que eu nunca mais tive paz quando se tratava de Julian.
E sabe aquelas piadinhas de ‘’não existe amizade entre homem e mulher’’, ‘’vocês formariam um belo casal’’, ‘’tem certeza de que são só amigos?’’, eu não suporto mais. Todo dia tem uma desse tipo e quando olho para Julian, ele sorri e depois desvia o olhar. Por que ele nunca fala nada a respeito? Por que só eu tenho que defender que o que temos é uma amizade sem benefícios sexuais nenhum?
Acordei atrasada. Nem me preocupei com café da manhã nenhum ou se meu cabelo estava pronto para assustar uma criança de cinco anos. Há muito tempo eu perdi essa coisa de vaidade. Não importava o jeito que eu queria o meu cabelo, ele sempre ficava ondulado nas pontas. Ele era castanho e pouco abaixo dos ombros. Julian dizia que eu tinha um corte moderno, mas a verdade é que eu sempre achei meu cabelo normal demais. Outra coisa que me fez perder qualquer tipo de vaidade foi o fato de ser uma magrela de carteirinha. Imagina só: 1,70 de altura, cabelo horroroso, magrela e chata. Acho que foi por isso que eu nunca consegui manter as minhas amizades por mais de um ano e só sobrou o Julian para me aguentar.
Mas acho que seria pior se eu tivesse que esconder os meus lindos olhos verdes atrás de óculos e ficar ouvindo ‘’nerd’’ por aí a cada dois segundos.
Eu estava prestes a sair de casa quando Paul me parou.
– Não vai se despedir, estrelinha?
Ah, como eu odeio aquele apelido! Simplesmente porque eu tinha uma enorme vontade de tatuar uma estrela no meu ombro quando eu tinha treze anos.
– Você sabe que eu odeio esse apelido e faz isso só para me provocar – eu disse com raiva.
– E eu odeio que você tenha pensamentos tão ruins sobre mim, estrelinha.
– Me deixa passar. Já estou atrasada.
– Só depois que você se despedir com um beijo.
Paul sempre fazia isso quase toda manhã. Era por isso que eu odiava acordar atrasada. Quando eu acordava no horário certo, Mary ainda estava em casa cuidando de Oliver e Paul não tinha tempo para me pedir beijinho de despedida.
Sorri falsamente para ele.
– Claro. – Me inclinei para ele e o beijei na bochecha. De novo, o canalha quase virou o rosto. Eu adoraria saber o que ele viu em mim para me irritar tanto. – Posso passar agora, Paul?
– Como você quiser, Rose – Paul diz, abrindo espaço e me deixando passar.
Já conseguia ouvir as buzinas do carro de Julian de fora da minha casa. Eu morava no condado Marina Del Rey e meu colégio não ficava muito distante dali. Mas Julian sempre me dava uma carona, pois ele morava muito, muito longe.
Abri a porta do carro bruscamente e entrei.
– A estrelinha acordou brava hoje – Julian debocha ao ver o meu estado.
– Da próxima vez que você me chamar assim, eu juro que quebro o seu pescoço – eu ameaço e Julian continua a me encarar com um sorriso no rosto. – Não faz isso.
– Fazer isso o quê? – ele questiona.
– Isso – eu respondo. – Essa coisa com os olhos e a boca. Você sabe o que é. Sempre faz isso com as garotas que você quer beijar e transar loucamente no seu quarto.
– Então – ele aumenta o sorriso – está dizendo que eu quero te beijar e transar com você loucamente no meu quarto?
Eu fiquei sem graça.
– Não... Eu... Hm... Dirige isso logo!
– Você sempre faz isso para resistir ao meu charme – ele debocha mais uma vez e me dá um beijo na bochecha. – E isso já foi longe demais.
– Vai ter que trabalhar muito duro ainda – eu digo e Julian finalmente começa a dirigir o carro.
Mais de vinte minutos depois chegamos ao colégio. Era enorme e todas as paredes eram de uma cor clara. As janelas eram quase do meu tamanho e a cada corredor, uma porta dupla. Tinha uma área de tamanho médio de gramado onde todos os alunos passavam o tempo e ás vezes, até matavam aula.
– Atrasados de novo! – Julian exclamou, batendo a mão várias vezes no volante. Era uma camionete bem antiga e já estava precisando de alguns reparos, mas Julian insistia em mantê-la naquele estado.
– Você faz isso de propósito – eu digo e ele se inclina para mim. O perfume dele era bem forte e cada vez que entrava no meu nariz, eu tenho que admitir, tinha vontade de agarrá-lo ali mesmo.
– Está delirando, Rose? – ele me diz e eu quase dou um tapa na cara dele. – Ou está tentando resistir ao meu charme?
Eu o empurro.
– Na verdade, eu estava pensando o quanto você é idiota. E já que estamos atrasados, podemos sair daqui?
– A gente pode nadar pelado na casa do meu vizinho – Julian dá a ideia e eu cruzo os braços. – O que foi? Prometo que você não vai se decepcionar com o que vai ver.
– Será que você não pode ser sério por, pelo menos, cinco minutos? – eu pergunto e Julian fica sério. – Obrigada. Primeiro, eu preciso sair daquela casa ou eu vou me suicidar.
– De novo isso, Rose? – ele me repreende. – Você deveria contar toda a verdade para a Mary. O cara te irrita e te humilha toda hora e você deixa isso acontecer? Sabe o que eu penso sobre isso. Filma ele. Bate nele. Tortura ele até ele implorar para que você pare e jurar que nunca mais vai fazer nada com você. Só FAZ ALGUMA COISA!
Eu não aguentei e cai na risada. Julian sempre exagerava quando o assunto era Paul. Isso era porque ele não sabia nem da metade da história. Como, por exemplo, da vez em que Paul invadiu o banheiro no momento em que estava tomando banho e de todas as vezes que ele tentou me beijar. Ou pior, das vezes em que ele me bateu. Por qualquer coisa mínima que acontecia, ele me batia. Quando Julian viu um hematoma no meu braço, eu tive que inventar um monte de mentiras para convencê-lo.
Eu só não conseguia dizer toda a verdade. Tinha algum tipo de vergonha e medo nisso tudo.
– Não é fácil. Ele tem quase dois metros de altura!
– Você não fica muito de fora – ele fala brincando e eu dou um soco de brincadeira nele. – Para. Você sabe que é a magrela mais sexy da face da Terra!
– E você é melhor amigo mais chato da face da terra – eu digo e apoio minha cabeça no ombro dele. – Mas eu até gosto de você.
Julian passa o braço ao redor dos meus ombros e beija meu cabelo.
– Eu também gosto de você.
A gente deve ter ficado algum tempo naquela posição. Os alunos já estavam indo para suas salas e a área verde já estava quase vazia. Mas a única coisa que eu realmente conseguia pensar era quando tudo ia mudar ou se algum dia ia mudar. Se Mary pelo menos acreditasse em mim...
– Sabe o que eu acho? – Julian diz e se afasta um pouco de mim. – Eu acho que a gente devia aproveitar os lugares bons dessa cidade.
– Tipo?
– Tipo Marina Del Rey – ele responde. – Lá é legal.
– Acho que Paul já deve ter ido para o trabalho – eu digo. Tinha receio de ele me ver lá.
Julian sorri para mim e liga o carro.
***
Julian para o carro em frente ao Marina Del Rey Bar & Grill. Eu sabia que ele não queria ir lá. Toda vez em que íamos para esse lado, Julian queria mesmo era entrar nos barcos que ficavam lá perto e depois, tirar as roupas e nadar lá mesmo. Na maioria das vezes, a gente levava roupa de banho, mas sempre tinha aquela hora que era mesmo lingerie e cueca.
– Ah, estou morrendo de calor! – ele fala, puxando a camiseta preta de manga curta para cima. – Você não?
– Talvez.
É claro que eu fiquei observando ele. Julian definitivamente tinha o corpo perfeito. Era musculoso, alto e lindo. Seus cabelos castanhos quase caíam sobre os olhos e olhos azuis eram tão lindos como água cristalina. E eu sabia que ele sabia que eu o admirava sempre que podia. Sei que não deveria fazer isso, afinal, Julian e eu éramos amigos e eu sempre dizia a mim mesma que seria apenas isso. Entretanto, estava ficando difícil com tantas investidas.
– Então tira a roupa – ele disse suavemente e ficou me observando, esperando que eu o fizesse. – Não é como se eu já não tivesse visto.
– A gente ainda está longe – eu digo, apontando para os barcos. – Você não quer que eu saia pelada daqui para chegar lá, quer? – perguntou e ele assente. – Idiota.
– Lembra da última vez? – ele me pergunta e eu acabo me lembrando. Foi horrível. – Eles roubaram nossas roupas e eu tive que gastar meu dinheiro para comprar roupas para que você não se encrencasse. É mesmo! Até hoje você não me pagou.
Dei de ombros.
– Esquece isso – digo e abro a porta do carro. – Vamos. Ainda não tem ninguém lá.
Eu saio correndo e quando percebo, Julian está com os braços ao redor da minha cintura, me levantando e me segurando, correndo comigo até os barcos. Quando chegamos ao destino final, ele me solta e fica esperando para que eu tire minhas roupas. Julian é um safado incurável.
Estou vestindo calcinha e sutiã pretos como de costume. Julian dá um meio sorriso, me pega pela cintura e pulamos na água.
Eu mergulho até o fundo e depois volto para a superfície. Ao mesmo tempo, Julian surge na superfície também, o rosto dele bem próximo ao meu.
– Diz agora que eu não sou o melhor amigo do mundo?
– É, você é, Julian.
A gente se olha por um momento e eu tenho certeza, nem que seja por um milésimo, que eu queria que ele fosse muito mais do aquilo.
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