Há beleza no inverno
4 Tentando evitar
Notas iniciais
“Elsa, é hoje. Hoje você vai chegar naquela sala de aula e vai ignorar aquele cara”
Era isso que eu dizia para mim mesma naquele dia. Eu estava completamente convicta e resoluta de que eu iria passar aquele dia inteiro evitando qualquer contato e pensamento sobre Jack Frost. Eu não queria me envolver mais nisso, não queria pensar mais no fato de sermos tão estranhamente parecidos e muito menos no lance da sua bandeja congelada. Não queria saber se tínhamos mais em comum do que eu imaginava. Estava na hora de acabar.
Mas eu não poderia negar: eu estava apavorada. Meu corpo inteiro me dizia que eu estava apavorada. Ao acordar, já me deparei com uma pequena nevasca em meu quarto. Escovando os dentes, congelei minha escova. Não seria um dia fácil.
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Ignorei Jack durante todas as aulas da manhã. Ele me mandava bilhetes e até mesmo mensagens no celular, mas eu evitava olhar. E, sem a sua companhia, eu me sentia triste e solitária. Reparei que eu havia congelado minha caneta e a borda de meu caderno. Quando senti que estava perdendo o controle, me levantei da sala e fui correndo até o banheiro, sem ao menos pedir autorização para o professor. Senti que todos me olhavam fixamente, mas eu não me importava.
Corri até o banheiro, e me olhei no espelho. Flocos de neve começavam a cair sobre meus ombros. Eu precisava me controlar. Fecho os olhos e respiro fundo, concentrando-me em não sentir mais nada. Nem medo, nem tristeza, e nem... amor.
A nevasca cessou.
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Na hora do almoço, decidi sentar-me sozinha no pátio, longe da lanchonete. Não estava com fome nenhuma. Peguei meu caderno de desenho e comecei alguns rabiscos. As folhas das árvores começavam a cair, e percebi que o outono estava em seu ápice. Logo chegaria o inverno, e eu esperava que isso me trouxesse alguma alegria. O inverno era minha estação favorita, era a época do ano onde eu não precisava esconder tanto quem eu era.
– E aí, loirinha, como está o dia me evitando?
Levanto a cabeça e o vejo. Mas é claro, ele iria acabar me encontrando em algum momento. Eu só não imaginei que ele realmente se importasse comigo.
Quer dizer, eu já havia percebido como os olhares de todas as meninas se voltavam para ele o tempo inteiro. E, falando a verdade, Jack era um gato. Totalmente. E eu não saberia dizer o que ele veria em alguém como eu, tão pálida e quieta. Tão... esquisita.
– Você me seguiu até aqui? – pergunto, um tanto assustada.
– Eu queria saber o que aconteceu. Quer dizer, ontem estava legal lá no ringue e tudo mais... – ele diz, e se senta ao meu lado.
Encostando em minha perna.
Me fazendo tremer inteira.
– Elsa, você acha que eu não percebo? – ele diz, olhando fundo em meus olhos.
– Percebe... o quê? – pergunto, nervosa. Não é possível que ele saiba de meu segredo. Eu me controlei muito para não demonstrá-los na frente dele.
– Que você se afasta de todo mundo o tempo inteiro. Está sempre tão... sozinha. Não precisa ser assim, loira. Não precisa afastar todo mundo.
Eu abaixo o rosto.
– Se você soubesse, Jack... Eu... não posso...
– Elsa, eu sei. Eu sou diferente também.
Me afasto dele com um salto. Só então percebo que estávamos de mãos dadas.
Olho para ele com uma expressão sobressaltada.
– Você... sabe? – pergunto – Dos meus...
– Poderes? Claro que sei – ele diz, rindo – Sério, Elsa? Eu tentei deixar bem claro que sou igual a você. – Ele se levanta, e ficamos frente a frente. — O lápis? A bandeja? Eu tentei congelar tudo que era possível para fazer você entender.
De qualquer forma, eu estava muito confusa. Confusa e assustada. Sinto o chão começar a congelar aos meus pés, e ele percebe.
– Elsa, não precisa ficar nervosa – ele diz, baixinho.
– Mas... como você sabe dos meus poderes? – pergunto, enfim.
Ele coça a parte de trás da cabeça, olhando para os lados. Ele fica tão lindo fazendo isso...
– Bem, acontece que essa é uma longa história. Melhor termos algum tempo para falarmos sobre isso.
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